Você é minha mãe? (Um Drama em Quadrinhos) – Alison Bechdel

Você é minha mãe? (Um Drama em Quadrinhos) – Alison Bechdel

1) Num adendo para A idade viril escrito em 1939, o francês Michel Leiris menciona a (desejada) catharsis que derivaria da literatura dita “confessional”. Seu livro, ele julga, é mais um dentre “tantos romances autobiográficos, diários íntimos, lembranças, confissões, que de uns anos para cá conhecem uma voga tão extraordinária (como se, da obra literária, fosse negligenciado o que é criação para considerá-la tão-somente do ângulo da expressão, observando-se, em vez do objeto fabricado, o homem que se oculta — ou se mostra — por trás)”.

2) Você é minha mãe?, graphic novel da norte-americana Alison Bechdel, vai pelo mesmo caminho — a diferença é que o visual se alia ao texto para contar uma história autobiográfica. Alison já havia publicado Fun Home – Uma tragicomédia em família (editado no Brasil pela Conrad), onde, com as mesmas ferramentas, tenta esmiuçar sua relação com o pai. O título desse segundo volume já adianta: é hora de se voltar para a figura da mãe.

3) Não vou fingir que não notei a ironia. É estranho utilizar o adendo escrito para A idade viril a fim de comentar um livro que, entre outras coisas, é bastante feminista. (Bechdel, lésbica assumida, nasceu em 1960 e editou, de 1987 a 2008, uma série em quadrinhos chamada “Dykes to watch out for”.) Contraste esclarecido, você entende a seguir por que as colocações de Michel Leiris são bem apropriadas.

4) a. Numa das cenas finais do livro, Alison diz que sua mãe “não fica contente [com um livro que expõe a relação entre as duas], mas ao mesmo tempo tem um certo distanciamento estético”. b. Em seguida, a mãe de Alison cita: “A função do escritor é encontrar uma configuração na vida conturbada que sirva à trama. Não, é bom notar, que sirva à família, ou à verdade, mas que sirva à trama”. c. Michel Leiris, em seu adendo, pergunta: “será que o que se passa no domínio da escrita não é desprovido de valor se permanecer ‘estético’, anódino, privado de sanção, se nada houver, no fato de escrever uma obra, que seja um equivalente (…) daquilo que é para o torero o chifre acerado do touro, capaz de conferir — em razão da ameaça material que contém — uma realidade humana à sua arte, de impedir que ela seja apenas encantos fúteis de bailarina?”.

5) Leiris destaca que o meio que encontrou para inserir “um chifre de touro numa obra literária” foi “pôr a descoberto certas obsessões de ordem sentimental ou sexual, confessar publicamente algumas das deficiências ou covardias que mais o envergonham”. É o que faz Alison Bechdel, e o que evita que o livro seja a. anódino ou b. um mero exercício narcisista/exibicionista. Você é minha mãe? é incômodo para o leitor, e possivelmente representou para Alison a catharsis de que fala Leiris.

6) É em especial através da psicanálise que a autora procura deslindar sua relação com a mãe. Várias sessões de Alison com Jocelyn e Carol, que a acompanharam por muitos anos, são minuciosamente recriadas. Espere por muitas alusões (fortemente embasadas) ao id-ego-superego, à formação reativa, ao Self Verdadeiro versus Falso Self, ao objeto transicional winnicottiano, à catexia freudiana etc.

7) Todos os capítulos começam com um sonho. Alison tenta, em seguida, atribuir algum significado ao que seu inconsciente projetou. Freud e sua interpretação dos sonhos (e, antes, sua “Psicopatologia da vida cotidiana”) são os ponto de partida.

8) Como já é possível imaginar, a relação entre mãe e filha não é exatamente satisfatória. A homossexualidade de Alison parece um problema. Para além da ligação entre as duas, a autora tangencia o passado e o presente da mãe — o começo do casamento, a carreira de atriz, as leituras e interesses, os primeiros anos.

9) a. Alison, desde a infância, anota obsessivamente tudo o que se passa com ela. É um hábito que veio da mãe. É por esse motivo que sonhos e conversas podem ser reproduzidos com riqueza de detalhes. b. Em vários quadros, os diálogos em balões são justapostos a uma espécie de narrativa em primeira pessoa. c. Não há linearidade: Alison retrocede e então pula vários anos, torna a retroceder e avança novamente.

10) Para além de Freud, que é citado com algum comedimento, três figuras são continuamente revisitadas: Donald Winnicott, Virginia Woolf e Alice Miller (autora de O Drama da Criança Bem-Dotada, obra que Alison relê compulsivamente). A maior parte dessas referências, especialmente as que têm ligação com Winnicott e Woolf, irá desaguar numa visão feminista, ou então corroborá-la.

11) Sim, Alison tenta racionalizar/intelectualizar as coisas num nível assustador. O leitor não apenas entra na brincadeira e analisa a autora-protagonista como, o que é mais aflitivo, não consegue resistir ao impulso de analisar a si mesmo. É inevitável pegar um espelho, especialmente se você se encaixa em alguma das definições.

12) O livro de Joyce Carol Oates citado na página 66, num diálogo telefônico entre Alison e sua mãe, é A história de uma viúva. (É certamente intencional que vários dos livros mencionados ao longo da graphic novel sejam, em maior ou menor escala, autobiográficos.) Na cena, a mãe de Alison faz referência a uma resenha de Julian Barnes em que ele “repreende [Joyce Carol Oates] por não dizer que casou de novo com outra pessoa na época em que o livro saiu”. O que Barnes faz em seu texto é o que o leitor de Você é minha mãe? também tende a fazer: transcender o livro, projetar a vida real. E refletir sobre as possibilidades e impossibilidades da autobiografia.

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(A idade viril: Cosac Naify, tradução de Paulo Neves.)

1 Comentário Você é minha mãe? (Um Drama em Quadrinhos) – Alison Bechdel

  1. Isabela

    Eu adoro livros em quadrinhos, mas nunca li uma história de drama com esse formato. Pelo que vi aqui, parece ser um excelente trabalho. Vou conferir com certeza!

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