Uma mulher comum

Enniscorthy, Irlanda, segunda metade da década de 1960. Em um intervalo de poucas semanas, o marido de Nora Webster adoece e morre. Mãe de quatro filhos, Nora agora é uma viúva que nem bem chegou à meia-idade. Do início ao fim do livro, em uma narrativa linear que abrange cerca de três anos, a perplexidade inicial da protagonista com a nova condição vai dando lugar a uma segurança antes desconhecida. Se Nora enfrenta uma série de percalços ao abandonar o que Tóibín retrata (não sem nuances) como a posição confortável da mulher casada, também passa a desfrutar da liberdade decorrente da mudança de registro.

nora

Ao transpor o nome da protagonista para o título de seu mais recente romance, Colm Tóibín deixa claro que o foco do livro é a construção e a evolução de Nora Webster. Como já havia provado em O Mestre, uma biografia romanceada do escritor Henry James, Tóibín se sai bem ao delinear as oscilações e as transformações de uma personalidade. Aqui, ao contrário do que acontece no enredo que reconstrói a vida de James, Nora se movimenta por uma cidade pequena e provinciana onde pouco a pouco chegam os ecos de um país em ebulição.

Embora transfira sutil e brevemente o foco da narrativa para outros personagens, Tóibín segue Nora Webster de uma distância variável, mas no geral segura. Ela atravessa, de forma desordenada, alguns dos estágios do luto, da paranoia à raiva, da melancolia à aceitação. Nora avança aos trancos, mas, para o leitor, Tóibín oferece um amortecedor. O desabrochar de Nora é lento e gradual, quase arrastado, ainda que a confusão extrema faça parte de sua condição atual. O narrador, porém, não se aproxima o suficiente para que se tenha acesso à estridência que caracteriza o estado da protagonista.

Apesar de rejeitar o papel de vítima impotente, Nora Webster se transforma em uma espécie de fardo aos olhos dos próprios parentes e dos parentes do marido. Alguns, como suas irmãs, sentem certo desconforto na presença de Nora — ela é um lembrete de que a vida, tal como a concebem, pode sair rapidamente dos trilhos. Nora agora pertence, e precocemente, a uma categoria insondável: a das viúvas.

No fim das contas, ela sabe que a veem como que destituída daquilo que há de mais importante na vida de uma mulher, i. e., um homem. As pessoas mais próximas a tratam “como se ela fosse uma criança”, alguém “incapaz de tomar as próprias decisões”. É comum que um ou outro interfira na educação de seus filhos, diminuindo ou anulando sua autoridade de mãe — autoridade que, para os amigos e parentes de Nora, não resiste à mudança de estado civil. Além disso, a presença de Maurice Webster, professor e membro do partido republicano, conferia a devida respeitabilidade — como entendida e valorizada naquele contexto conservador — à família. A proteção acaba, ou se modifica, quando ele morre.

Se Nora é admirada pela independência que reivindica depois da morte do marido, também é desprezada pela mesma razão. O julgamento é implacável, assim como as expectativas, incompatíveis, que recaem sobre ela. Se sua nova amiga, uma mulher mais afinada com as mudanças sociais que ocorreriam nos anos seguintes, incentiva Nora a se divertir, os irmãos de Maurice, mais velhos e mais conservadores, fazem questão de deixar claro que desaprovam o comportamento da cunhada.

É marcante a cena em que Nora está num pub — sua primeira vez em um pub sem Maurice — e se sente “à deriva num mar de pessoas”, com “a âncora levantada, tudo parecendo estranhamente sem propósito e desconcertante”. Para uma mulher da época e da classe social de Nora, a autonomia é uma novidade ambígua.

No começo, Nora sente a ausência de Maurice como uma dor física. A sutileza com que o vazio vai sendo preenchido ao longo da narrativa, em especial graças à confiança conquistada pela protagonista, é um dos motivos pelos quais o livro é tão poderoso. No fim das contas, são duas mulheres, uma freira e uma professora de canto, que, demonstrando uma autoridade em que ela poderá se espelhar, farão por Nora o que ninguém mais fará.

Nora participa de um clube musical que Maurice sempre desprezou, um sinal de que começa a formar e sustentar as próprias opiniões e os próprios gostos. Como qualquer mulher casada, confortável em uma posição que não pensa em abandonar, Nora seguia as convicções do marido. Com a nova condição, tudo muda. A música, a das aulas de canto e a que sai do toca-discos que Nora instala na sala de estar, “a estava levando para longe de Maurice, para longe de sua vida com ele e de sua vida com os filhos”.

É claro que Nora tropeça. Na ânsia de não se mostrar uma vítima, é grosseira com aqueles que aparentemente têm boas intenções. Por outro lado, é capaz de se mostrar excessivamente cortês com quem não merece — sobretudo com a irmã de Maurice, Margaret, que interfere além da conta, e sempre de modo furtivo, na educação das crianças. Há vários momentos assim. Num impulso, Nora compra roupas novas e flerta com o namorado da filha mais velha. Negligencia certos aspectos da educação dois dois meninos porque não suporta mais a pressão, ou porque não suporta mais ser vista como uma megera quando todos os outros, sobretudo a dissimulada Margaret, ganham a confiança de Donal e Conor.

O maior acerto de Colm Tóibín é não atribuir à protagonista os contornos de uma heroína. Nora, como qualquer outra mulher que estivesse na sua posição, demora a se ajustar. Nora não é uma feminista, embora haja claras ressonâncias feministas no livro. Nora não é ligada a movimentos políticos, não é uma intelectual, não procura acompanhar de perto os acontecimentos que sacodem a Irlanda e a Europa. Produto do seu lugar e do seu tempo, Nora passa por uma transformação íntima.

Nora sequer, em alguns aspectos, é uma pessoa correta. Basta pensar em sua rusga com Francie Kavanagh, a quem volta a encontrar diariamente quando, viúva, é obrigada a trabalhar fora pela segunda vez na vida — Francie agora é sua chefe. No passado, quando se conheceram, Nora, uma mulher solteira, desprezava Francie. Só então, quando tornam a se ver, ainda que sua relação não tenha melhorado, Nora percebe como a vida da outra pode ser difícil.

Depois de se casar, Nora Webster se transformou em uma dona de casa de classe média habituada a certas regalias a que outras mulheres, como Francie, não têm acesso. Se a necessidade de trabalhar fora e a condição de solteira mantêm Francie à margem de círculos como os que Nora costumava frequentar com Maurice, também garantem certa liberdade — a liberdade incerta de estar à margem.

Uma amiga de Nora, que também antipatizava com Francie, escolheu um caminho semelhante. “As duas se casaram com homens instruídos, as duas aprenderam a dirigir e, quando tiveram filhos, as duas iam para perto do mar no verão e ficavam lá o maior tempo possível”, escreve Tóibín. Mas nenhum aspecto dessa independência apenas aparente — dirigir, beber com moderação e demonstrar certa instrução, desde que em conformidade com as posições do marido — a preparou para a vida sem Maurice. É essa vida real, concreta, que ela descobre quando fica viúva.

Em Nora Webster, mais do que em seus outros livros — penso em A luz do farol, Brooklyn ou mesmo em O Mestre —, Colm Tóibín se esforça para alcançar um realismo não calcado em descrições extensas e numerosas. Aqui, sem perder a consistência, a ideia é se aproximar das emoções e reações dos personagens, levando em conta o ruído que marca toda a comunicação humana. Por isso mesmo que Nora Webster, sem escorregar uma vez sequer no melodrama, parece um comentário sobre a dificuldade extrema de se colocar no lugar do outro. Ao delinear seus personagens — e as barreiras que erguem para se proteger e se fortificar —, Colm Tóibín sabe exatamente o que mostrar e o que manter oculto, em um jogo de luz e sombra que poucos autores dominam.

Tóibín é bem-sucedido ao recriar a rotina uma viúva em uma cidade europeia durante um período de transição — o que, contrariando as expectativas, tornava as coisas ainda mais difíceis. As mudanças nos costumes ainda não ganharam força, mas tampouco estão ausentes. Uma pequena rebelião como a de Nora — que, procurando se reinventar, pinta o cabelo e circula pelas ruas da cidade com uma capa de chuva vermelha — tem seu valor.

5 Comentários Uma mulher comum

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  2. Renato Morais

    Nora foi meu primeiro Tóibín. Lembro que numa dessas listas de fim de ano Sérgio Rodrigues disse que era o destaque de 2015. Gostei. Muito. Sobretudo da narrativa: simples, fluida e, ao mesmo tempo, cheia de entrelinhas que demandavam significação.
    Com certeza lerei outros de Tóibín. Por sinal, Camila, qual você recomendaria na sequência?
    Abraços,

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    1. Camila von Holdefer

      Do Tóibín, sem dúvida O Mestre. É um grande livro. Se não estiver disponível nas livrarias, certamente está no Estante Virtual. De algum outro autor, mas que siga a simplicidade e as entrelinhas de Nora Webster, apostaria na Tetralogia da Elena Ferrante. Abraços!

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