Um livro não é só o que acontece

Um livro não é só o que acontece

minhas duas meninas

Minhas duas meninas é um relato autobiográfico. Ao longo de quase duzentas páginas, a jornalista Teté Ribeiro narra as circunstâncias que a levaram a contratar uma barriga de aluguel na Índia para gerar suas duas filhas. “Foram sete anos no purgatório da infertilidade”, escreve. Depois de testar e abandonar uma série de tratamentos que não resultaram em uma gravidez, restavam a adoção ou a barriga de aluguel. De forma mais ou menos acidental, a última opção acabou levando a melhor. Tudo correu bem, e as gêmeas nasceram no final de 2013. A experiência do antes e do durante é descrita de maneira aparentemente simples.

O guia que acompanha a autora durante as estadas na Índia, sr. Uday, é a figura mais singular do livro. Ele sabe que Teté Ribeiro prepara um relato a respeito da experiência no país. Quando é informado sobre o título escolhido, reclama que “Minhas duas meninas” estraga o suspense — afinal, o leitor compreende não apenas que a tentativa deu certo, mas que a autora agora é mãe de duas garotas. Ele menciona uma norte-americana que decidiu escrever e publicar a própria experiência com uma barriga de aluguel, e que escolheu, na opinião dele, um título melhor. Teté Ribeiro então pergunta ao homem se ele havia lido o livro da outra mulher. Não, foi a resposta, uma vez que ele conhecia os fatos e sabia como aquilo tudo terminava. Ela explica que “um livro não é só o que acontece, mas como a história é contada”.

E é aqui, na maneira como a história é contada, que Minhas duas meninas merece atenção. Muita atenção. Não há chavões sobre a maternidade, o que não chega a ser um mérito. Porém, como deixou claro ao mencionar a conversa com o sr. Uday, Teté Ribeiro sabe que a estrutura e a condução do relato importam tanto quanto aquilo que tem para contar. Nada disso é novidade — é uma obviedade que pode ser aplicada a qualquer texto —, exceto quando se leva em conta o fato de que os eventos que a autora descreve são reais, particulares e (para a maioria dos leitores) incomuns, além de envolverem circunstâncias e temas delicados. E, fugindo do que se poderia esperar, a combinação não dá origem a uma narrativa banal ou melodramática.

É raro ver um autor tão consciente do próprio relato, de como ele soa e do efeito que provoca — o que não é apenas uma questão estética. Impressiona, por exemplo, o domínio da jornalista sobre aquilo que entrega e aquilo que deixa de fora. E sobre o tom sóbrio que, contrariando todas as probabilidades, nunca se altera.

Caso a autora fosse uma observadora imparcial, a narrativa, que se aproxima do jornalismo literário e inclui longas descrições do cenário e dos costumes indianos, não chegaria a surpreender. Seria um bom livro, não mais do que isso, e serviria — como Minhas duas meninas de fato serve — sobretudo como fonte de informação. Mas não é o que conta. Tanto quanto a história, o que atrai em Minhas duas meninas é o perfeito ajuste da posição e do olhar da narradora.

Como narrar com relativo distanciamento, mas sem indiferença, uma experiência da qual não se é mera espectadora? Nesse sentido, tudo é enganoso em Minhas duas meninas, em um efeito que é muito difícil de definir e de ser alcançado — por isso que é tão poderoso. Qualquer neutralidade ou afastamento é apenas aparente. Os sentimentos estão todos lá, ou subentendidos ou narrados com extrema naturalidade, quase como se pertencessem a outra pessoa. Quase.

Há descrições dos cafés da manhã na Índia, dos macacos no telhado de um chalé, do trânsito caótico e movido a buzinadas. Tudo isso é percebido e inventariado quando a autora acabou de se tornar mãe — não para desviar do tema principal, mas para marcá-lo de outra forma. Aqui é preciso reparar na insistência de Teté Ribeiro em uma questão aparentemente secundária. Ela não acompanhou o nascimento das filhas, tendo chegado à Índia quando as duas já estavam no berçário. Ficou muito incomodada com o sr. Uday (com razão) por não ter sido informada do parto tão logo desembarcou no aeroporto. E há uma pergunta que ela repete ao guia mais de uma vez: quando eu cheguei aqui, quando me levou para o hotel, você sabia que eu já era mãe?

Caso o sr. Uday a tivesse informado logo do nascimento das meninas, o que mudaria no olhar da autora? Daí a insistência nas particularidades da paisagem, dos animais e dos pãezinhos: o estranhamento. A experiência que pode transformar uma vida — a maternidade — se dá em um cenário incomum. Com exceção do cansaço habitual dos pais de primeira viagem, quase nenhum detalhe sobre a mudança de registro é mencionado. A surpresa com a maternidade chega através da surpresa com uma cultura nova, e só a segunda, por ser comunicável e acessível, merece destaque. O programa de um apresentador indiano na tevê. As festas de casamento no hotel. As lojas de tecidos. É um jogo duplo bem executado, de uma experiência íntima relatada como uma matéria jornalística.

Minhas duas meninas alterna cenas na Índia, tanto em 2013 quanto em 2015, com flashes do passado — a maioria mostrando a relação da autora com os próprios pais, além dos inúmeros tratamentos para engravidar. Questões mais espinhosas envolvendo a concepção e a maternidade não são exploradas em profundidade. A ideia não é essa. Embora as mulheres indianas ocupem um bom espaço do livro e tenham suas histórias contadas com sensibilidade, e embora todos os trâmites legais e burocráticos sejam narrados em detalhes, colocar as coisas na balança é tarefa do leitor.

O começo do livro, quando Teté Ribeiro narra o momento em que se encontra paralisada antes de ver as gêmeas pela primeira vez, é o trecho mais revelador. Como ser mãe?, ela pergunta a si mesma. “Não tinha nem a mais remota ideia de por onde começar”, escreve. A mistura de honestidade brutal — em especial quando descreve o passado — com delicadeza já começa a se fazer notar. “Não queria ser uma mãe que apaga todos os traços de quem já foi para apresentar uma versão limpinha, de boa moça católica, para dar exemplo para as filhas”, diz ela. Com enorme sutileza e coragem, por mais contraditória que a combinação pareça, é isso mesmo o que se vê.

Um livro não é só aquilo que acontece. Mas o mundo, sim, o mundo é tudo aquilo que acontece, que ocorre, que é o caso. Formada em Filosofia, Teté Ribeiro certamente sabe disso.

7 Comentários Um livro não é só o que acontece

  1. Simone Mello

    Camila,
    Mais uma bela resenha, obrigada! Está mais do que decidido: esta vai ser a minha próxima leitura. Já andei pesquisando em algumas livrarias, mas infelizmente não está em pré venda, vou ter que esperar.
    Abraços!
    Simone

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  2. Cygnus

    Olá.

    Pedi indicação de um crítico de literatura em língua portuguesa, via Ask.fm, a Marcelo Ferlin Assami (a quem admiro enorme) e ele me indicou você, este site. Aliás, já leste o livro dele Quero dançar até as vacas voltarem do pasto?

    De todo modo, começarei a ler teus textos 🙂

    Paz e Bem.

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  3. Ricardo Silva

    Pedi o meu, Camila. Esse universo da maternidade/paternidade me desperta um interesse pessoal muito grande. E a condução que a Teté dá à experiência que vive (impressão que tenho com base na resenha) parece dizer mais do que apenas a espera da entrada de uma nova criatura na vida. Espero poder ler logo esse relato. Parece que não tem decepção no caminho.

    Abraços, miss von Holdefer.

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