Todos nós adorávamos caubóis – Carol Bensimon

Todos nós adorávamos caubóis – Carol Bensimon

Dois pés displicentemente apoiados no painel de um carro. Uma gargantilha que desce até o decote. Um sutiã preto do qual escapa, na parte inferior, o contorno de um seio. Em meio a profusão de detalhes que podem ser absorvidos em paisagens desconhecidas — paisagens que passam velozmente pelas janelas de um carro —, estes, menores e específicos, são alguns dos que uma jovem, Cora, termina por enxergar. (O fato é que Cora não está tão interessada no céu ou nos campos quanto no corpo de Julia, sua companheira de viagem.) Assim, congeladas e destacadas do enredo, as imagens dizem muito sobre Todos nós adorávamos caubóis, terceiro livro da escritora Carol Bensimon.

todos nos adoravamos cauboisCora e Julia têm vinte e poucos anos. Viram amigas depois de uma festa à fantasia promovida pela faculdade. A relação é ambígua desde o início, e assim avança. (A ambiguidade, aliás, vai permear todo o livro.) Cora, que nasceu na capital gaúcha, tem certa experiência com garotas. Julia, que nasceu em Soledade, interior do estado — e que depois vai morar em Porto Alegre, em um pensionato de freiras chamado Maria Imaculada —, parece, no começo, menos convicta do que deseja. O relacionamento das duas está situado em uma perigosa zona que envolve sexo em motéis baratos e banheiros de postos de gasolina, sem que exista, no entanto, uma definição precisa que esclareça o que uma representa para a outra. Tudo muda quando Julia anuncia sua decisão de concluir o curso de jornalismo em Montreal. Cora fica arrasada, e a ligação é bruscamente interrompida.

Até uma noite de inverno, quatro anos depois, em que as duas voltam a se comunicar. Cora está em Paris; Julia, em Montreal. Restabelecido o vínculo, decidem pôr em prática aquilo que, no passado, desejaram e planejaram: uma viagem de carro por lugares pitorescos do interior do Rio Grande do Sul. No atual contexto, a jornada parece uma fuga necessária para ambas. Para empreendê-la, as garotas retornam por um breve período ao seu lugar de origem. Partem no carro de Cora, há tempos estacionado na garagem e consertado especialmente para a ocasião. O clima é, desde o início, carregado de tensão sexual — uma tensão amparada sobretudo nas particularidades que Cora, a narradora do romance, vai percebendo e inventariando. Um bom exemplo são os “pés tamanho 36 esmalte escuro pequena estrela no dorso”, escondidos, mas sugeridos, debaixo de uma colcha fora de moda de um hotel qualquer. Por aí se vê: Cora quer reconquistar Julia e resgatar os bons tempos da relação, o que remonta a um período anterior à separação e ao consequente esfriamento. E, é claro, nem sempre é fácil para uma garota confusa se aproximar de outra garota confusa.

Bensimon desloca a narrativa pelo tempo e pelo espaço. Enquanto rodam por rodovias e pequenas cidades, Cora relembra os primeiros tempos da amizade com Julia. A proposta de alternar presente e passado deixa o romance mais dinâmico. Ora estamos em Porto Alegre em uma noite de temporal (uma noite deprimente, o que não se deve necessariamente à chuva), ora em uma estrada ao som de Bruce Springsteen. Alguns personagens aleatórios, típicos das narrativas de estrada, aparecem aqui e ali. As botas dos gaúchos coexistem, nem sempre pacificamente, com os coturnos Doc Martens da protagonista.

Todos nós adorávamos caubóis está escorado em uma espécie de ideia de liberdade. Há a liberdade espacial, com as personagens singrando estradas que parecem intermináveis — jamais finitas, ou infinitas enquanto durar o romance. Há a liberdade de propor novos rumos, como quando Cora decide estudar moda em Paris — o que representa, afinal, as numerosas alternativas que se apresentam às novas gerações. Condicionada à classe social, esses conceitos de liberdade mostram a hiperoferta de estímulos e possibilidades que estão à disposição de quem nasceu e cresceu a partir dos anos 1980: há muitas músicas no iPod, mais músicas do que se pode ouvir; há infinitas fotos esperando o enquadramento e a iluminação corretas; há gasolina a ser posta no carro, e então quilômetros a serem rodados; há novos países para onde é preciso viajar. E há, é claro, a liberdade de experimentação sexual.

(Sublinhando a busca pela identidade, há os problemas envolvendo as famílias das personagens — sobretudo as figuras de seus irmãos. Curioso notar como os conflitos de uma e de outra são, de certo modo, paradoxais. As atribulações se estendem para outras esferas, uma vez que os pais de Cora, divorciados, não se mostram muito favoráveis aos seus envolvimentos com garotas.)

Bensimon trabalha bem a questão da sexualidade fronteiriça. Nem Cora e nem Julia poderiam ser vistas como homossexuais, uma vez que o desejo que  sentem não leva a nenhuma definição estanque. A análise que, em dado momento, Cora faz dos próprios anseios é ambígua e inconclusiva. O que basta é: as protagonistas sentem atração uma pela outra, e amor também, sem dúvida. Assim, as cenas de sexo são narradas com a maior delicadeza possível — apesar de, ou graças a, metáforas muito peculiares, como “a piscina do clube no dia mais quente e úmido do ano”. Bensimon só escorrega em uma frase, quando um amigo diz a Cora que “passou mal” com a “riqueza das descrições” das transas entre ela e Julia. O comentário é um deslize mínimo — uma vez que é uma visão um tanto machista reproduzida acriticamente — em um romance que, de resto, problematiza com graça a ambiguidade da sexualidade feminina.

O amadurecimento segue um tema caro a Bensimon, que chegou a desenvolvê-lo, ao menos indiretamente, nas três novelas que compõem Pó de parede. Mas há algo novo. O estilo, ainda que próximo dos dois livros anteriores, está mais leve. A própria temática e os amplos espaços que servem de palco para a narrativa favorecem a mudança. O denso Sinuca embaixo d’água exigia uma prosa mais controlada, uma vez que há a própria contenção imposta pelo lugar, restrito, e pela ideia do luto. Tudo parece mais solto em Todos nós adorávamos caubóis, e a mudança não deixa de ser impactante para os que conhecem o livro anterior.

Importante frisar que Julia, cuja voz se manifesta apenas nos diálogos, também é protagonista do romance. Assim como o da narradora, seu histórico familiar é insistentemente retomado. O leitor, no entanto, enxerga Julia através das retinas de Cora, o que faz com que a garota de Soledade se converta em uma presa do encantamento melancólico da outra. Cora observa Julia — seus movimentos e reações, expressões e gestos —, e o olhar, que nunca é indiferente, é acompanhado por uma mistura desordenada de pensamentos, perguntas e sensações. Tudo parece muito sutil. Impossível adivinhar qual é exatamente a sua vontade — se é que a própria Cora, sempre tão insegura e defensiva, tem uma ideia clara daquilo que efetivamente deseja. Sua posição de talvez fique mais clara no final: Todos nós adorávamos caubóis é uma declaração de amor das mais penosas e sensíveis, sem que, com isso, soe piegas ou revisitada. Uma declaração de amor cheia de ressalvas, como a que escreveu (em um contexto distinto) o romeno Max Blecher: “Sentia vagamente que nada neste mundo podia ir até o fim, nada podia se realizar. (…) Dessa maneira, nasceu em mim a ideia da imperfeição de todas as manifestações desse mundo”. Ou seja: o romance, ambientado periferia do mundo, entre estradas e casas vazias, parece uma manifestação, tão perfeita quanto possível, de um sentimento nem sempre fácil de avaliar ou traduzir. Desde Safo.

O que diz Carol:

Sobre a epígrafe [“Rir, portanto, e então seguir seu caminho.”]

“Michel Onfray é um filósofo contemporâneo francês, e essa frase da epígrafe encerra um livro dele chamado Théorie du corps amoureux (inédito no Brasil, se não me engano). Nesse livro, Onfray fala sobre relacionamentos amorosos. É hedonista, anti-platônico, plural, subversivo, ao propor um outro tipo de contrato entre duas (ou mais) pessoas, uma outra relação com nossos desejos. Acho que não cabe ficar resumindo a teoria dele, mas quero acreditar que a sexualidade da Cora está em sintonia com o pensamento do Michel Onfray.”

Sobre as influências

“Thelma & Louise. Aqui é o meu lugar. Drugstore cowboy. O videoclipe de Crazy, do Aerosmith. As telas de Edward Hopper. Um livro teórico sobre road movies (Driving vision: exploring the road movie, de David Laderman). Uma viagem solitária que eu fiz para a Califórnia e o Arizona. As viagens que fiz pelo interior do Rio Grande do Sul. Os livros de Ali Smith. Os livros de Jeffrey Eugenides. Uma Fração do todo, de Steve Toltz. A música de Kurt Vile, Vitor Ramil, Radio Dept, Bruce Springsteen.”

Sobre uma protagonista que é estudante de moda

“Tentando olhar retrospectivamente, me parece que a decisão ‘Cora vai ser estudante de moda’ sempre esteve ligada com ‘Cora vai ser bissexual’. Eu queria que essas duas coisas coexistissem, e me preocupei no início com a coerência disso, tanto é que conversei com três pessoas do meio da moda antes de começar a escrever, fazendo mais ou menos um esboço da personagem e perguntando em seguida: faz sentido. E sim, fazia sentido. Era plenamente possível que essa pessoa existisse.
Mas por que a sexualidade dela e a opção pelo curso de moda sempre andaram juntas? Me parece que a moda trabalha com categorias bem estanques de masculino e feminino, salvo exceções, e eu queria uma personagem que se sentisse atraída pela questão estética, mas sempre com a ideia de tentar subverter esses padrões estabelecidos.”

Sobre a sexualidade das personagens

“Em dado momento do romance, a narradora se define como bissexual, e a partir dali há uma série de frases que retraçam suas descobertas amorosas/sexuais, a dificuldade de se encaixar plenamente no estereótipo do feminino (não usava saia, preferia calças rasgadas, etc.), e a diferença entre suas relações com garotos e com garotas. É curioso. Eu escrevi isso. Eu escrevi que a narradora se considerava bissexual, mas, durante todo o tempo, eu achei que esse era um livro de temática gay. Não. É um livro com duas personagens bissexuais. Provavelmente Julia não se considera bi, talvez ela nunca tenha pensado muito a sério sobre isso, mas os fatos depõem contra ela. Quanto à Cora, fica muito evidente que ela tem um envolvimento maior com meninas, mas ela não abdicou totalmente dos homens (inclusive saía com um vizinho em Paris).
Eu tenho que fazer um mea culpa aqui. O fato de eu ter me dado conta a posteriori que eu estava falando sobre bissexualidade, não sobre homossexualidade, mostra que eu tinha caído no pensamento do senso-comum, segundo o qual a bissexualidade não existe, é uma ‘fase transitória’, um dia você precisa ‘escolher um lado’, etc. Não. Nossa vida amorosa é uma narrativa, nós podemos esperar coisas diferentes dos gêneros, mas desejar os dois, variar as preferências de acordo com o momento, e ninguém é obrigado a estar exatamente no ‘centro’ da reta (ou seja, se sentir atraído por ambos os gêneros de forma igualitária e equilibrada). Enfim, minha ideia era falar um pouco sobre essa sexualidade muito fluida, que eu vejo como uma característica do nosso tempo, há uma certa naturalização disso, embora a gente raramente use o rótulo ‘bissexualidade’. Envolvimentos amorosos e experiências sexuais entre garotas é algo cada vez mais comum. Até as estatísticas mostram. Por tudo isso, acho estranho quando alguém vai falar sobre Todos nós adorávamos caubóis, em resenhas ou matérias, e ignora completamente a questão da sexualidade. Longe de mim querer impor como cada um deve ler o livro, mas preciso confessar que isso me deixa muito intrigada.”

Sobre a mudança de tom

“Acho que a mudança de tom é natural, e é muito difícil separar a temática da prosa, a temática desenha a prosa, ainda mais quando a narração é em primeira pessoa. No Sinuca, não tinha muito espaço pra sarcasmo, por exemplo. No Sinuca, o universo pelo qual as personagens se deslocam já é conhecido (embora reconfigurado pela morte da Antônia), enquanto no Caubóis a tônica é o encantamento ou a decepção da descoberta. São livros bem diferentes.”

Sobre romances e filmes de estrada

“Eu gosto de histórias de deslocamento. Tem uma ideia de liberdade nisso quando são deslocamentos que você não precisaria fazer, ninguém está o obrigando a fazer, você deixa a vida cotidiana pra trás e vai embora. Pra mim, é meio o contrário de assentar, se encaixar na norma, ter uma vida padrão, fazer o que esperam de você. Não sei se isso soa como revolta barata ou imaturidade juvenil, mas é assim que eu vejo, e era essa história que eu queria contar. E tudo bem, dá pra dizer que a liberdade das personagens é relativa, porque a Cora está presa ao passado e blá blá blá, ambas vêm de famílias privilegiadas socioeconomicamente, mas nada disso apaga o fato de que essa viagem, e toda as viagens desse tipo, carregam uma ideia de potência muito forte.”

5 Comentários Todos nós adorávamos caubóis – Carol Bensimon

  1. Michel Dutra

    “ignora totalmente a questão da sexualidade”.
    Eu fui um desses numa dessas lojas virtuais, mas é que não há nada de novo ou original em dizer que a sexualidade hoje em dia é fluida. Não basta um tema simpático.
    O que mais me chamou a atenção foi quantas partes do livro parecem traduções ruins.
    Me lembro de “Para o diabo com isso” (“To hell with…”), mas meu livro ficou todo marcado de coisas que simplesmente ninguém fala em português.
    O livro tem alguns parágrafos bonitos, mas outros são de uma indigência estilística constrangedora.

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