Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

Não é difícil encontrar semelhanças entre Toda luz que não podemos ver, vencedor do Pulitzer de ficção de 2015, e O pintassilgo, o premiado de 2014. (a) Como no romance de Donna Tartt, algumas das ações decisivas do livro de Anthony Doerr se passam em um museu — não o Metropolitan Museum of Art, mas o Museu de História Natural de Paris. (b) Objetos de valor incalculável cuja proteção e preservação são preocupações constantes de certos personagens (enquanto outros se deixam levar pela cobiça) estão no centro de ambas as tramas. Se Tartt escolheu o quadro de Carel Fabritius, Doerr apresenta um diamante batizado de Mar de Chamas. A peça, em formato de lágrima, deixaria entrever um matiz avermelhado sob o azul predominante. (c) A figura de um órfão, que convém a enredos com forte apelo emocional, está presente em um e em outro. Se o órfão de Tartt é o protagonista e narrador, o de Doerr é um dos dois personagens principais do romance.

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Outros paralelos menores envolvem velhos excêntricos e sábios, peregrinações difíceis que terminam em um novo lar acolhedor, algumas transgressões cometidas por personagens até então comportados e certas epifanias tardias e possivelmente inúteis. Eis o que parece ser a receita para um best-seller — e um Pulitzer.

(Sem esquecer do tamanho: Toda luz que não podemos ver também soma mais de 500 páginas.)

Estamos em Saint-Malo, na região da Bretanha, durante a ocupação alemã. O ano é 1944. Os Estados Unidos darão início ao bombardeio que irá libertar a cidade. “Quatro anos de Ocupação, e o estrondo de bombardeiros chegando é o estrondo de quê? Libertação? Extermínio?”, pergunta o narrador. Os dois personagens principais estão escondidos em locais diferentes dentro dos muros de Saint-Malo. Eles não se conhecem. Marie-Laure, uma adolescente cega, está debaixo da cama em que dorme na casa do tio-avô. Werner, um jovem soldado nazista, está no porão de um antigo hotel com dois companheiros da Wehrmacht. Partindo daí, o narrador recua e avança no tempo. Ora se atém aos momentos pós-bombardeio, ora aos caminhos que, desde o início da guerra, levaram os dois personagens até o litoral francês.

Boa parte da graça do livro reside nos paralelos entre os protagonistas. Antes da guerra, Marie-Laure passa seus dias no Museu de História Natural de Paris em companhia do pai, chaveiro do lugar. Embora não possa enxergar nada daquilo que a cerca, Marie-Laure é alerta e interessada. Sua curiosidade a respeito de como o mundo funciona só é menor que a de Werner, que cresce em um orfanato localizado numa pequena e triste cidade alemã. Ele sequer sonha com as regalias que fazem parte da rotina de Marie-Laure. Enquanto todas as oportunidades se abrem para a garota — o convívio diário com os especialistas do museu, o fato de contar com um pai amoroso e interessado em garantir a autonomia da filha —, o destino de Werner é se tornar um trabalhador das minas de carvão. Até lá, sua distração é um aparelho de rádio encontrado no lixo, que o menino monta e desmonta. Quando a notícia da habilidade de Werner com fios e resistores começa a se espalhar, ele tem a chance de ingressar em um colégio de inclinação nazista. Ávido por conhecimento, sem enxergar outra alternativa que não essa, ele segue em frente.

O talento de Werner é fundamental para a Wehrmacht. Se o rádio era muito usado pelo Reich, seus inimigos não ficavam atrás. A tarefa do garoto consistia em encontrar os locais de onde partiam as transmissões dos aliados — o método, engenhoso, demandava dois receptores para que se pudesse calcular o terceiro ponto, justamente o de emissão. Enquanto Werner aprende a desempenhar sua função e roda parte da Europa a fim de desmantelar estações clandestinas, Marie-Laure foge com o pai para Saint-Malo, onde encontram o tio-avô da garota. Durante a fuga, e mesmo depois dela, o pai protege a filha como o protagonista do premiado A vida é bela: já que Marie-Laure não é capaz de enxergar, ele minimiza ou embeleza o que acontece ao redor.

Além do bombardeio de Saint-Malo — cujas consequências para Werner e Marie-Laure só serão conhecidas nas últimas páginas —, é o próprio Mar de Chamas, supostamente desaparecido, que gera alguma tensão na trama. Enquanto os funcionários do Museu de História Natural criam armadilhas para afugentar possíveis larápios, um oficial nazista de alta patente, manco e com um linfoma em estágio avançado (!), está à procura do diamante. Não é gratuito que um dos únicos alemães intencionalmente cruéis do romance seja também digno de pena.

A questão do livre-arbítrio, incontornável em um livro que traz personagens nazistas, é bem marcada em Toda luz que não podemos ver. Werner é um personagem carismático cuja ausência de caminhos alternativos ao nazismo fica evidente. Mesmo no colégio que o preparará para a Wehrmacht, quando o garoto se dá conta daquilo que é exigido dele, não há saída possível. “Nesta unidade, neste exército, neste mundo, eles [os soldados] fazem o que mandam, ficam amedrontados, andam por aí preocupados apenas consigo mesmos”, diz o narrador. “Quem não é assim?”, pergunta em seguida.

Como observam os pesquisadores Sönke Neitzel e Harald Welzer no ótimo Soldados (Companhia das Letras, tradução de Frederico Figueiredo), “as pessoas agem em conformidade com o que é esperado delas”. No livro, que analisa transcrições de conversas entre prisioneiros nazistas captadas com escutas, a ideia de que as atitudes dos soldados têm “muito menos a ver com ‘visões de mundo’ abstratas do que com os locais, os objetivos e as funções de ações bem concretas e, em especial, com os grupos a que pertencem” é defendida até a exaustão. O caso de Werner conta ainda com um agravante: a ausência de orientação e apoio de um adulto. Frau Elena, a responsável pelos órfãos, não tenta alterar o destino do menino. Ele tampouco resiste, pelo menos até certo ponto. Num bom eco do romance, Neitzel e Welzer reiteram frequentemente que “as possibilidades de escolha e alternativas de ação, proporcionadas na vida civil pela pluralidade de papéis sociais, na guerra simplesmente não existem”.

Doerr consegue dosar o maniqueísmo que seria esperado em um enredo como o de Toda luz que não podemos ver — para isso, no entanto, recorre ao sentimentalismo barato. Sua ideia para tornar os personagens nazistas mais palatáveis é, além de levantar a questão do livre-arbítrio, criar para cada um deles um contexto trágico. É uma saída fácil, e por isso mesmo ruim.

Para além disso, os personagens não têm emoções mais complexas do que aquelas que precisam demonstrar em passagens específicas. Werner e Marie-Laure não experimentam qualquer conflito próprio da idade, quase como o protagonista de Donna Tartt, Theo, em que nenhum amadurecimento é observado. Certas cenas são deploráveis, como aquela em que o tio-avô de Marie-Laure, traumatizado pela guerra anterior, deixa de lado em questão de segundos um transtorno que o acompanhava havia anos. Nesse sentido — e também nas cenas ágeis, não raro repletas de angústia e expectativa —, Toda luz que não podemos ver parece um livro feito sob medida para ser adaptado para o cinema.

Há boas passagens, como as que mostram o Opel que, levando Werner e seus três companheiros da Wehrmacht, circula pelas estradas do Leste Europeu — se não fosse o serviço ingrato que têm pela frente, as cenas do carro rodando por campos de girassóis com os soldados combalidos seriam pitorescas. A resistência (de início) pueril das velhinhas francesas também é interessante, assim como o toque dado por Frederik, colega de Werner, um menino apaixonado por pássaros e com nenhuma disposição para a guerra.

Às vezes o olho de um furacão é o lugar mais seguro para se estar.

Em certo sentido, Toda luz que não podemos ver corrobora a ideia de resistência interna de Stefan Zweig, expressa sobretudo em um portrait de Montaigne escrito na época da Segunda Guerra Mundial. Cada um dos personagens, com exceção do oficial nazista, encontra em si um ímpeto antes desconhecido. Zweig diz que “o homem pode ser sempre livre — em qualquer época”. É o que quase todos, mesmo Werner, tentam colocar em prática. “Ele diz o mesmo que nós todos nos dizemos tão frequentemente em tempos semelhantes de insensatez: não te preocupes com o mundo. Não podes mudá-lo, não podes melhorá-lo. Preocupa-te contigo, salva em ti o que há para salvar. Constrói, enquanto os outros destroem, tenta ser sensato para ti em meio à loucura”, escreve Zweig.

Mas os bons momentos e boas sacadas do livro terminam aqui. Não há, de fato, nada de novo no front. Por um lado, algumas das qualidades que poderiam ser valorizadas em um prêmio da envergadura do Pulitzer parecem cada vez mais distantes. Tantas semelhanças entre Toda luz que não podemos ver e O pintassilgo indicam que os jurados têm apostado em mais do mesmo — calhamaços pretensamente eletrizantes em que a falta de ousadia e de inovação salta aos olhos. Desde 2014, porém, o que já era questionável ficou pior: a prosa de Doerr está longe de ser elegante como a de Tartt.

Ainda assim, Toda luz que não podemos ver não é desgraçadamente ruim. Anthony Doerr sabe como manter a tensão sob controle e aguçar a curiosidade do leitor — méritos de um bom narrador. Se abusa do sentimentalismo (chegando às raias da pieguice) e escorrega em clichês embaraçosos, o norte-americano se salva ao mostrar alguma desenvoltura na condução da trama. Já é alguma coisa. No entanto, se o nível do Pulitzer continuar a despencar, como tem acontecido de uns anos para cá, será difícil se reerguer.

11 Comentários Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr

  1. v.

    “Só com boa vontade.” hahaha. ultimamente tenho me sentido um fracasso na leitura, então é bom me manter longe desse aí. pensei que você fosse ser mais dura com o livro, algo tipo “o círculo”, mas você até se conteve. talvez ele não seja tão ruim quanto o outro.
    sempre me encanta a leitura das tuas resenhas, e a bagagem que você carrega contigo e coloca nos textos. *respect*
    no mais, abraço.

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  2. ricardo silva

    enfim uma opinião menos empolgada a respeito desse livro. como ele ainda está por aqui na minha pilha dos não-lidos, todas as opiniões que li a respeito dele só me levavam a crer que se tratava de um livro extremamente sentimental (justo porque tudo que se falava dele era de cunho sentimentalista). mas ainda me falta lê-lo. é só a partir daí que vou poder também ter minha própria perspectiva do livro em questão.

    agora, que o pulitzer tem estado em crassa decadência, isso realmente é algo a se refletir. ter um “vencedor do pulitzer” bem chamativo na capa, já não é sinônimo de uma boa leitura há alguns anos.

    sigamos.

    como sempre, cirúrgica camila.

    abraços!

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  3. Graça

    Oi, Camila,
    nada como começar o dia lendo um texto seu, genial sua crítica, suas comparações, detalhes escritos por você revelam sensibilidade e lucidez, fico sempre comovida.
    A maturidade me afastou um pouco dos calhamaços.
    Com raras exceções, calhamaços não significam uma boa leitura, alguns escritores estão aí para confirmar o contrário: Philip Roth, Alejandro Zambra, Amós Oz, Julian Barnes, Sigismund Krzyzanowski, Alice Munro, Lydia Davis, Hayden Herrera e outros, muitos outros.
    Minha gratidão sempre.
    Parabéns!!!!!!!!!
    Beijos

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  4. Wandir Mello

    Olá, Camila.
    Ganhei “O Pintassilgo” de presente no ano passado. Pedi-o de presente, descaradamente, depois de ler sua crítica. E a mendicidade deu certo: uma amiga me mandou um exemplar comprado em uma feira literária do interior de São Paulo e me disse “toma, para de chorar agora!”. Passei o fim-de-ano lendo-o (quando o vejo na estante, até hoje penso em panetone…) e, adivinhe? Mais uma vez concordei com uma resenha sua, e olha que sou um leitor chato e, como tal, vivo para discordar das críticas, hein? Enfim, gostei do livro, mas, convenhamos, Pullitzer? Nem tanto. Resumindo, te elegi como o meu filtro nesse mar de coisas ruins que é ser leitor no Brasil. Há uns três anos, desde que, maravilhado, descobri o seu blog, que só compro as obras depois de vê-las resenhadas nele. Claro, salvo algumas excessões, mas minha biblioteca já parece uma versão física do site. Parabéns pelo trabalho, não canso de elogiar. Quem admira a arte de escrever carece de veículos com conteúdo. Sou professor de Literatura e, a cada dia que passa preciso ler mais e mais, numa tentativa (infrutífera) de esquecer o cenário que o país apresenta no que diz respeito à leitura. Mas continuemos. Minha filha tem 7 anos e ama livros. Então já sou um pouco vitorioso, não? Um abraço, Camila!

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  5. joel

    Olá. Não concordo com a resenha.Respeito. Também é lugar comum criticar um filme que ganha um Oscar. Achei que a dificuldade de escrever um livro como este pelo tema já lido em milhares de livros foi surpreendente. Falar de algo nunca escrito e sem comparações é até simples, mas de algo batido?Teve méritos o escritor. Coisas piegas também não vi. Afirmarmos que um personagem cego, manco, com alguma deficiência, fraqueza é ser piegas, embora tentador numa crítica corriqueira e sempre igual, e por isso também piegas?Não é realmente justificar um problema no escrito. Se houvesse personagens comuns (há?) sem nenhuma característica humana ( pois não são humanas?) aí teria mérito? Um jovem alemão com pai e mãe classe média e uma moça não cega e lutadora de muay thai como hoje há várias, isso daria crédito ao livro?E se todos escrevessem assim, não seria então o comum o não novidade? Adquiri com o tempo uma deficiência pequena visual então se alguém escrevesse sobre mim, seria cair no pieguismo?São 6,5 milhões de deficientes visuais, só no Brasil, a chance de encontrar um é enorme e por que não de escrever sobre um?Digo só visual, mais de 24 milhões de pessoas no Brasil têm algum tipo de deficiência, ou seja, escrever sobre fraquezas humanas não é apelar. Sentimentalismo? O que é sentimentalismo?
    As emoções também não fazem mais parte dos livros? De Julio Verne, Homero? Um livro precisa ser seco para ser chamado de sério? Choramos quando vemos alguém chorar ou quando vemos alguém com semblante impassível?E o que há de errado em sentir emoção sobre o que alguém escreveu justamente com essa intenção? E a prosa foi deselegante?Se é para ganhar um prêmio e se esse prêmio é tudo que críticos precisam para avaliar se algo é bom ou ruim também dá na mesma. Ao avaliar o próprio prêmio sem saber com quais argumentos foram dados, como se sabe o que os outros viram?Como ver com os olhos dos outros?

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  6. Juliano

    Em geral, de acordo quanto à resenha. Tenho recomendado o livro com a ressalva de que ele tem problemas, mas vale a leitura mesmo assim. Algumas passagens são muito inverossímeis, realmente. Como aquele trecho em que a menina sai do telhado e vai buscar água, sem fazer um pingo de barulho e com o oficial alemão nos andares de baixo… Ou, ainda, como que a garota lê um livro no microfone mas jamais é ouvida pelo oficial alemão no cômodo logo abaixo dos pés dela? Os dois personagens principais são assexuados, embora estejam numa idade em que a sexualidade é uma questão presente o tempo todo. Mas ficam algumas boas imagens ou sacadas. É interessante o sentimento causado por duas crianças órfãs que ouvem um francês transmitindo lições de ciência através de ondas de rádio em uma europa se decompondo. O contraste entre a calamidade e algum aconchego encontrado naquela voz calma do rádio é uma imagem boa pra se armazenar da leitura.

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  7. Patricia

    Interessante. Enquanto lia este livro, O Pintassilgo e A vida é bela também vieram à mente. A cena de Werner encontrando Marie e “se apaixonando” me pareceu quase um YA barato. Concordo com tudo o que vc disse. Terminei o livro me perguntando o que aconteceu para tantas pessoas estarem apaixonadas por ele e como o Pulitzer chegou a esse nível.
    Adoro livros que tratam da época da guerra e depois de ler diversos, não consegui encontrar nada de original nesse, infelizmente.

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  8. Ingrid

    Achei o livro bem fraco. Principalmente porque vejo muitos problemas na utilização das idas e vindas da narrativa. Aqui, simplesmente, não funcionaram. Parece que o autor quis um usar um recurso que não domina. O texto execessivamente decupado (o termo é próprio do cinema, mas é isso aí) parece mais um compromisso despropositado com a forma do que com a narrativa. As idas e vindas excessivas no tempo e nos núcleos de personagem muitas vezes prejudicam a história, que não é ruim.

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  9. Gabrielle

    Gostei da crítica, foi muito bem fundamentada. No início achei o livro um pouco entediante e os rodeios me deixaram um pouco irritada, mas quando chegou o meio não vou negar que a trama me envolveu tremendamente. O romance ( se é que podemos chamar assim) entre Marie e Werner foi super pombo e fraco, e era melhor nem tê-lo pra ser sincera, por que foi como um romance de banca de jornal.
    Sobre o final eu só posso rir, tive vontade de jogar o livro pela janela. Várias coisas sem propósito foram meio que jogadas no ljvro e a narrativa ficou pesadíssima e cansativa.
    Me decepcionou muito.

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    1. Gabrielle

      Vou acrescentar o comentário de que mais uma vez, os autores de suspense insistem em incluir romance e esquecem que eles frequentemente não se misturam, é tipo óleo e água.

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  10. Daniel

    Achei este livro um lixo! Segunda guerra mundial? menina cega? Um sucessão de clichês! O Pintassilgo é uma obra prima perto dele.

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