Tipos de perturbação – Lydia Davis

Tipos de perturbação – Lydia Davis

No relato que dá título ao livro, uma mulher se queixa da mãe e de sua capacidade de estabelecer o caos a partir do menor movimento — e o pior: arrastando consigo toda a família. “Então, perturbada, minha mãe me ligou para contar da perturbação do meu pai por causa do meu irmão, e me deixou também perturbada, ainda que seja uma perturbação menos intensa e diferente daquele sentida pelo meu pai e por ela”, diz. Essa curiosa dinâmica familiar — não de todo desconhecida da maioria dos leitores —, Lydia traduz com graça e precisão. Acontecimentos cotidianos, em geral restritos ao âmbito doméstico, constituíram a matéria-prima para Tipos de perturbação. São 57 textos que figuram entre o conto, a crônica e o artigo — e eventualmente o poema. Algumas entradas se resumem ao título seguido de uma única frase; outras se estendem por várias páginas. Se seus escritos breves são bonitos, é preciso dizer que Lydia se sai ainda melhor nos relatos mais longos.

Lydia é capaz de carregar de significado o menor evento. No fundo, há uma inusitada (e bem-sucedida) mistura de gravidade e leveza — uma certa paranoia bem-humorada. “Em Kafka prepara o jantar”, por exemplo, o narrador oferece um jantar para a mulher por quem está apaixonado. Não demora muito para que ele se arrependa do convite feito; seu nervosismo é imenso. A dificuldade dos preparativos é tamanha que o leva à inação. O que cozinhar, como servir, o que dizer enquanto comem? É preciso definir o cardápio, comprar os ingredientes, polir a prata — mas não há energia para nada disso, porque ele está ocupado demais se sentindo inseguro e antecipando catástrofes. O tormento atinge tal dimensão que o protagonista cogita deixar a cidade. “Por que sou um ser humano?, me pergunto — que condição vaga, esta! Por que não posso ser o armário feliz do quarto onde ela dorme?”, diz o aflito narrador.

Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega é um dos melhores textos do livro. Um menino chamado Stephen é hospitalizado por conta de uma osteomielite (foi salvo “graças (…) a uma medicação recém-descoberta, a penicilina” — somada a outras poucas, a informação nos diz que o episódio ocorreu há muitos anos). A professora de Stephen pede aos alunos que escrevam uma carta para o colega que está se recuperando. Vinte e sete alunos — treze meninas e quatorze meninos — esboçam seu desejo de que Stephen melhore logo. Anos depois, alguém analisa detidamente as cartas. São avaliadas sua “aparência e formato gerala”, a extensão, a coerência, a estrutura. A letra, em um exercício que se assemelha a uma análise grafológica, também é levada em consideração. O conteúdo — o que os colegas contam e desejam a Stephen — é investigado detalhadamente. O que intriga é que não se sabe quem narra “Saudades”. Quem teve acesso às cartas? Quem as guardou? Quem teria (e por qual motivo) interesse em classificá-las dessa forma? De qualquer maneira, algumas conclusões são tiradas: a análise de textos tão singelos vai desembocar em questões das mais profundas, desde as aptidões até o estado de espírito das crianças.

Em A sra. D. e suas empregadas, como o título adianta, são registradas todas as empregadas que passaram pela casa da sra. D., uma escritora. Um narrador desconhecido e a própria sra. D. enumeram as características de várias mulheres, e explicam o porquê de cada uma delas ter se adaptado (ou não) ao emprego. Quase ausente no restante do livro, aqui a veia mordaz de Lydia Davis aparece com força. Bastante incômoda, a narrativa revela os preconceitos da classe média: “o melhor, e o que é de fato inacreditável, é que além de ser excelente empregada, ela é capaz de apreciar as qualidades de uma família como a sua e a minha”, diz a sra. D. a uma amiga. Já Coisas que descobrimos a respeito do bebê é uma espécie de diário da intimidade que se estabelece entre mãe e filho. Embora não haja qualquer idealização da maternidade, há muita doçura nas imagens evocadas. A narradora salienta constantemente o quanto sua rotina se tornou paradoxalmente imprevisível e monótona depois da chegada de um bebê, mas discorre com carinho sobre sua ligação especial com o filho.

“O passeio” mostra um congresso sobre tradução em Oxford. Dois tradutores, um homem e uma mulher — cujos pontos de vista sobre o ofício são conflitantes —, decidem dar um passeio pela cidade. É por pouco que não se perdem. Ao encontrarem inesperadamente o rumo certo, ela recorda de um trecho de No caminho de Swann, o primeiro volume de Em busca do tempo perdido, que mostra uma cena semelhante à que acaba de se desenrolar. Significativamente, ela evoca duas traduções diferentes da mesma passagem. A favorita dele é mais pomposa; a dela, sua própria tradução, é mais acessível (“Ele dava de ombros, a rir”; “Ele dava de ombros e ria”). Branca Vianna, tradutora de Tipos de perturbação, utilizou as versões de Proust de Mario Quintana (Globo) e de Mario Sergio Conti (Companhia das Letras, no prelo).

Há o genial “Helen e Vi: um estudo sobre saúde e vitalidade”, que delineia a personalidade e os vários hábitos de duas senhoras idosas a fim de desvendar o segredo de sua longevidade. A grande sacada é inserir, em itálico, informações sobre uma terceira — esta muito menos comedida do que Helen e Vi. O formato fica entre um artigo científico bastante acessível ao grande público e uma matéria jornalística escrita com alguma liberdade. Suas histórias e seu comportamento vão sendo enumerados em um estilo tão inclassificável que parece natural esquecer, ou questionar, o que é literatura.

Em “Rumo ao sul, lendo Pioravante marche“, uma mulher faz uma viagem de ônibus e lê o texto de Samuel Beckett. O veículo muda de direção, o sol atravessa as janelas em pontos alternados, e em meio a notas de rodapé maiores do que o próprio texto (o que alude a David Foster Wallace) Lydia insere trechos do livro em questão: “Em diante. Dizer em diante. Ser dito em diante. Dalgum modo em diante. Até de modo nenhum em diante. Dito de modo nenhum em diante”. A narradora de “Sessenta centavos”, um texto de tamanho reduzido, considera extorsivo pagar o preço do título por um cafezinho. Em seguida, reflete que por sessenta centavos está alugando a mesa, a cadeira, o ar condicionado do ambiente etc. Encontra, assim, uma maneira mais otimista de enxergar a questão.

Onde quer que o olhar se detenha — e especialmente se se detiver no todo —, parece difícil rotular Tipos de perturbação. Não é necessário etiquetar tudo, é claro. Lydia consegue divertir e entreter, mas no fundo disso repousa (embora sem muita convicção) um certo desconforto. Às vezes o incômodo é perceptível; em outras, ele surge depois de uma análise mais detida. Lydia construiu paradoxos: esse humor perturbado, a ressignificação que também expõe a mediocridade, a exposição de uma nudez ao mesmo tempo constrangedora e conhecida.

Talvez por isso Tipos de perturbaçãopareça tão significativo: sua enorme simplicidade revela-se enganosa e frustrante. Valendo-se de inspirações tão distintas quanto Foster Wallace e Proust, Lydia soa extremamente atual — e, com ou sem intenção, denuncia algumas estranhezas do nosso tempo. Aqui está um livro curioso (e perturbadoramente difícil de classificar), mas um dos destaques de 2013.

Televisão

[…]

Com frequência, no final do dia, quando estou cansada, minha vida se transforma num filme. Quer dizer, meu dia real penetra na minha noite real, mas também se distancia de mim o suficiente para parecer estranho, e parecer um filme. A essa altura já ficou tudo tão complicado, tão difícil de entender, que prefiro ver um filme diferente. Quero ver um filme feito para a TV, que será simples e fácil de entender, mesmo que contenha catástrofes, ou invalidez, ou doença. O filme vai passar por cima de tantas coisas, vai pular todas as complicações, sabendo que entenderemos, e assim os acontecimentos importantes ocorrerão repentinamente: um homem muda de ideia, mesmo que antes tivesse certeza de sua decisão, e pode também apaixonar-se de repente. Vai pular todas as complicações porque não dá tempo de preparar o terreno para acontecimentos importantes em apenas uma hora e vinte minutos, que ainda inclui comerciais, e o que queremos são os acontecimentos importantes.
Teve um filme sobre uma professora universitária com mal de Alzheimer; outro sobre um esquiador olímpico que perde uma perna mas aprende a esquiar outra vez. Hoje à noite teve um sobre um homem surdo que se apaixona por sua fonoaudióloga, coisa que eu sabia que ia acontecer porque ela era bonitinha, apesar de não ser boa atriz, e ele também era bonito, apesar de surdo. Ele já era surdo no início do filme e ficou surdo de novo no final, mas no meio recuperou a audição e começou a aprender a falar com um sotaque regional bem forte. Em uma hora e vinte minutos, esse homem não só voltou a ouvir e ficou surdo outra vez, mas fundou uma empresa de sucesso usando apenas o seu talento, perdeu a empresa para um funcionário inescrupuloso, apaixonou-se, ficou com a mulher amada pelo menos até o final do filme, e perdeu a virgindade, coisa que parece difícil de perder quando a pessoa é surda, porém mais fácil quando recupera a audição.
Tudo isso comprimido no finalzinho de um dia da minha vida que, à medida que a noite avança, já se afastou de mim…

Impulso estranho

Olhei pela janela. O sol brilhava e os lojistas tinham saído para se aquecer na calçada e ver o movimento. Mas por que estavam cobrindo os ouvidos com as mãos? E por que os passantes corriam pela rua como se perseguidos por um espectro monstruoso? Logo tudo voltou ao normal: o incidente foi apenas um momento de loucura em que as pessoas não suportaram mais as frustrações de suas vidas e cederam a um impulso estranho.

Ordem

O dia inteiro a velha luta contra a casa e os objetos na casa: as portas não fecham, as tábuas do chão se separam deixando exposta a massa; o gesso das paredes fica úmido da chuva; os morcegos no sótão descem e invadem o guarda-roupa; os ratos fazem ninhos nos sapatos; seus delicados vestidos estão em frangalhos, esfarrapados pelo próprio peso nos cabides; ela encontra insetos mortos por toda parte. Em desespero, se exaure varrendo, tirando o pó, remendando, calafetando, colando, e à noite cai na cama com as mãos sobre as orelhas para não ouvir mais a casa, que continua a ruir ao seu redor.

6 Comentários Tipos de perturbação – Lydia Davis

  1. Robson C. Alkmim

    Eu gosto de ler resenhas que colocam trechos dos livros, dá uma noção maior do autor e do conteúdo das histórias. Lydia Davis vale a pena!

    E você sempre ótima.
    Parabéns 🙂

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  2. Juliana

    Belíssima resenha, Camila! O melhor livro de Davis, na minha opinião, é Break it down (1986). Mas Tipos de perturbação é um bom aperitivo :)). A tradução foi bastante competente, preservou muitas das ambigüidades propositais deixadas pela autora. Que venham novas traduções! Agora que Davis ganhou o Booker Prize, ficará mais conhecida no Brasil.

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  3. Pingback: Perturbações da linguagem |

  4. Graça

    Oi, Camila!
    O livro é originalíssimo.
    Sua resenha impecável.
    Adorei a página 222, Cabeça, coração.
    Obrigada.
    Beijos, Graça.

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