Te vendo um cachorro – Juan Pablo Villalobos

Te vendo um cachorro – Juan Pablo Villalobos

Previsivelmente, o novo romance de Juan Pablo Villalobos, Te vendo um cachorro, é mordaz e divertido. Publicado pela Companhia das Letras no final de 2015, o livro encerra a trilogia sobre o México, país de origem do autor, da qual fazem parte Festa no covil e Se vivêssemos em um lugar normal. É um erro, porém, supor que as três narrativas privilegiem um painel, uma crítica ou um comentário a respeito do lugar. As tramas se passam no México e discutem, com maior ou menor ênfase, algumas particularidades da cultura mexicana (flexibilizando o termo “cultura”), assim como o passado e o presente do cenário político do país. Em todas elas, no entanto, são outros os elementos que se sobressaem.

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Te vendo um cachorro é narrado por Teo. Como os narradores dos dois romances anteriores, ainda que por diferentes razões, Teo não é confiável. Para se ter uma ideia, ele deixa claro que este não é o seu nome verdadeiro. (E como falar em nome verdadeiro de um personagem de ficção?) Desde o começo, tudo ou quase tudo no livro se revela uma farsa. O objetivo, manifesto no desenrolar da trama, é escancarar a imensa farsa que é a literatura.

A narrativa alterna passado e presente, mostrando a juventude e a velhice de Teo. No cômputo geral, a segunda tem mais peso. Prestes a completar oitenta anos, Teo é o novo morador de um prédio onde só vivem aposentados. Não é exatamente um lugar idílico. Todos os apartamentos estão infestados de baratas. O elevador funciona mal. Teo logo arranja problemas com a síndica, Francesca — que não é o nome verdadeiro da mulher, mas mais um dos apelidos jocosos inventados pelo narrador.

Francesca organiza uma “tertúlia literária” com os demais moradores do prédio, uma espécie de clube do livro em que os participantes levam (muito) a sério a própria atividade. No saguão do prédio, em cadeiras dispostas em círculo, os aposentados se dedicam a ler e comentar clássicos da literatura. Quando Teo surge, estão lendo Em busca do tempo perdido — uma única edição para os sete tomos, péssima para quem, como alguns dos tertulianos, sofre de artrite. Francesca até tenta, mas fracassa em recrutar Teo para o clube.

Por algum motivo obscuro, resultado de um mal-entendido que o protagonista ora tenta desfazer, ora tenta intensificar, Francesca acredita que Teo está escrevendo um romance. Ainda que procure confundir e irritar a vizinha durante os breves diálogos no saguão ou no elevador, Teo nega a informação repetidas vezes ao longo da narrativa. Em sua defesa, ele diz que nem mesmo romances. Para todos os efeitos, Teo dedica seus dias a pensar em cerveja ou a beber cerveja — para a qual a tequila, o mescal ou o uísque são bons substitutos.

Embora despreze Francesca e os tertulianos abertamente, a relação de Teo com a arte é complexa. Quando jovem, assim como o pai, Teo tentou ser pintor. Assim como o pai, acabou deixando a ambição de lado. A ironia — nada nova, diga-se de passagem — é que a vida comum, tantas vezes retratada e narrada, pode, com suas urgências de ordem prática, se revelar incompatível com a produção artística.

Providencialmente, Teo acaba herdando uma taqueria (uma banca de tacos) do tio. Logo aprende o ofício, no qual continua até a velhice. Não raro, mesmo ou principalmente sob a direção do protagonista, o lugar servia tacos com recheios de procedência duvidosa. Daí o título do livro. Habituado a comprar e vender carne de cachorro, Teo é flagrado, já velho, tentando fazer o mesmo.

Teo até tenta estudar para ser pintor, mas não conclui o curso. A mãe do protagonista, uma mulher para quem a arte que não serve para nada — não, certamente, para fazer aparecer comida na mesa — desencoraja tanto Teo quanto o pai de Teo a perseguir um objetivo que para ela é incompreensível. Um dos argumentos do livro é que a arte seria coisa para ricos ou obstinados ou loucos, com boas chances de as duas últimas características se fundirem em um certo tipo de personalidade peculiar. Teo, verdade seja dita, não era nada disso.

No adiamento de tantas coisas, do casamento ao sonho de pintar, “foi passando a vida”. Te vendo um cachorro é a história da realidade que se impôs — pouco ou nada aconteceu, na verdade, com exceção do esforço diário para ganhar algum dinheiro —, arrastando a arte para longe. Paralelamente, também é a história de um sujeito, conhecido do protagonista, que, por teimosia e acaso, ou talvez por verdadeiro talento, só conseguiu ser reconhecido como artista depois de morto. Trata-se de Manuel Gonzalez Serrano, que faleceu em 1960. Além de Serrano, outros personagens do livro, como Diego Rivera e Frida Kahlo, são figuras conhecidas.

Há um bocado de pontas soltas e becos sem saída na narrativa, algo que geralmente funciona melhor em um livro de proporções maiores. Não quer dizer que o resultado seja ruim. No geral, essas arestas estão no passado de Teo, dificilmente explicadas em conexões de causa e efeito em relação a alguns acontecimentos da velhice do protagonista, e nos vínculos que ele estabelece com alguns personagens peculiares no presente da narrativa. Há um policial que deseja escrever um romance. Há a divertida dona da quitanda, a quem, como Francesca, Teo pensa em levar para a cama. Há uma velha que faz pequenas esculturas com miolo de pão. Há um mórmon tímido e inocente. Há um estudante não muito higiênico que finge que acredita que ainda é possível fazer a revolução. Um bom elenco, sem dúvida.

 

Adorno & humor

Depois de velho, sem razão aparente, Teo anda para lá e para cá agarrado a uma edição da Teoria estética, livro mais conhecido do filósofo alemão Theodor Adorno, roubada de uma biblioteca pública. Embora não admita, ele sente um carinho especial pelo livro. Com ou sem o valor afetivo, A teoria estética é útil. Por um lado, deixa os tertulianos irritados e pode ser usada para encerrar rapidamente as ligações de telemarketings. Por outro, serve como ferramenta para matar baratas. O nome do protagonista, aliás, é uma abreviação de Theodor. Te vendo um cachorro está dividido em duas partes, ambas inspiradas em livros de Adorno: “Teoria estética” e “Notas de literatura”.

Há algo pueril no humor do narrador de Te vendo um cachorro, o que não é o mesmo que imputar ao seu autor, ou ao romance como um todo, o mesmo registro. Pelo contrário. As piadas só são ingênuas na superfície, no ritmo acelerado dos diálogos ou das cenas mais esdrúxulas. Num nível mais profundo, a autorreflexão — o que não é pré-requisito para a densidade, mas serve, aqui, para assinalar certa consciência dos próprios artifícios e mecanismos — fica clara. Não por acaso, a relação do protagonista com a pintura e a devoção dos tertulianos à literatura são alvo de deboche do início ao fim do livro. Mesmo os excertos de Adorno funcionam — ainda que essa não seja sua única função — como motor para o riso. A “arte avançada escreve a comédia do trágico; o sublime e o jogo convergem. As obras importantes aspiram a incorporar em si esse estrato antiartístico. Onde ela, suspeita de infantilismo, falta, a arte capitulou”, cita Teo, num raro momento de seriedade que, como muitos outros, está travestido de gracejo. É, claro, uma frase retirada da Teoria estética.

Todos, velhos ou jovens, estão em busca algo que confira significado à vida. Este é o bom e velho argumento que ampara o enredo de Te vendo um cachorro. No presente e no passado de Teo, Juan Pablo Villalobos procura dar mais destaque à religião e à arte. Numa cena, o idoso Teo explica ao jovem mórmon — um norte-americano escalado para converter os mexicanos — que “os franciscanos, os dominicanos, Humboldt, Rugendas, Artaud, Breton, Burroughs, Kerouac” chegaram antes dele na corrida pelas almas desgarradas. (E o nome de Alexander von Humboldt, naturalista alemão, embora não represente diretamente nem a religião e nem a arte, não parece aleatório.) É significativa, por exemplo, a cena em que o rapaz usa a Bíblia e Teo usa a Teoria estética para matar as baratas do apartamento.

 

Leitor

Em “Bons leitores e bons escritores”,* um de seus textos mais conhecidos, Nabokov fala do momento em que “o leitor mal-humorado é confrontado com um livro solar”. Te vendo um cachorro não é exatamente feito de luz. Como qualquer bom livro, gasta algum tempo investigando, ainda que disfarçadamente, as áreas escuras. A comicidade, no entanto, como viés utilizado para enxergar até mesmo a ruína e a dor, prevalece. E é com um livro engraçado, diz Nabokov, que “o mau humor se dissolve”, uma vez que “o leitor entra no espírito do jogo”. Talvez não seja tão simples.

É claro que o romance de Juan Pablo Villalobos é um daqueles livros que, a despeito ou justamente por conta do humor pueril, reúnem todas as condições para fazer rir. Para um certo tipo de leitor, mais leve ou mais curioso ou mais disposto a entrar nas brincadeiras propostas por um narrador que não se leva a sério demais, a graça fica evidente. É esse, aliás, o leitor ideal mencionado no texto de Nabokov. Para quem sorri com aquelas narrativas que mordem o próprio rabo, as mesmas que, ironicamente, tendem a colocar em xeque a utilidade da literatura, Te vendo um cachorro é um ótimo livro. Por outro lado, aquele para quem as armadilhas autorreferenciais soam cansativas ou ultrapassadas pode acreditar que está diante de um mau romance. No fundo, são esses leitores ou críticos carrancudos, que carregam cartilhas que listam o que pode e o que não pode ser feito em ficção, que soam cansativos e ultrapassados.

 

 

 

* Lições de literatura. Tradução de Jorio Dauster. Editora Três Estrelas.

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