Stefan Zweig reeditado

Tendo passado para o domínio público recentemente, a obra do austríaco Stefan Zweig começa a ganhar releituras. A editora Zahar saiu na frente: Maria Antonieta – Retrato de uma mulher comum, um dos mais famosos portraits do autor, chegou às livrarias no primeiro semestre de 2013. Em seguida foi a vez de O mundo insone, coleção de ensaios selecionados e comentados por Alberto Dines, biógrafo de Zweig e especialista em sua caudalosa produção. Três novelas femininas, outro livro importante, deve surgir em julho deste ano. 

No caso de Stefan Zweig, separar vida e obra é tarefa complicada. O autor nasceu em Viena em 1881 — mas quando morreu, em 1942, estava a quilômetros de distância de sua querida cidade. Zweig suicidou-se com a mulher em seu exílio em Petrópolis, no Rio de Janeiro, quando soube que um navio brasileiro havia sido torpedeado pelos nazistas. Era pacifista, e a guerra, outra, lhe causava enorme dor. Também era judeu, o que aumentava seu sofrimento e receio.

Os dois livros representam bem o pensamento — as influências e as tendências — de Zweig. São os ensaios, no entanto, que lançam alguma luz sobre a personalidade e a trajetória do austríaco. Carregado de experiências e visões pessoais, O mundo insone permite enxergar um Zweig afetivo e cauteloso; além disso, alguns textos contêm confissões que podem ajudar a entender certas escolhas referentes à elaboração da biografia de Maria Antonieta. Em “A história como poeta”, um dos melhores da coletânea, Zweig critica o que se costuma apontar como “biografia romanceada”, que seria “a representação da vida requentada em um romance, em que a verdade se mistura a bel-prazer com o inventado, o documental com a mentira, em que grandiosos personagens e fatos são iluminados a partir de uma psicologia particular, e não pela lógica impiedosa da História”. E continua: “Nessas biografias romanceadas, o artifício consiste em retocar os traços considerados ‘pequenos’ e reforçar os heroicos e interessantes. Mas assim surgem cartazes, e não retratos psicológicos”.

Há divergências. Otto Maria Carpeaux, outro austríaco que desembarcou no Brasil, foi categórico ao afirmar que Stefan Zweig escreveu, sim, biografias romanceadas. Para completar, ainda chamou o conterrâneo de “mestre desse gênero menor”. A adesão ao modelo poderia ser explicada pelo lugar e época de nascimento de Zweig, escritor que, de acordo com Carpeaux, “veio, literariamente, do simbolismo vienense de 1900 (…)”. Zweig teria praticado o “simbolismo psicanalítico”.

Otto Carpeaux não usa o adjetivo “psicanalítico” sem razão — e tampouco sem desdém. O autor de Maria Antonieta realmente amparou boa parte das suas análises nos escritos do mestre e amigo Sigmund Freud. Ao se referir à falta de autoridade em Luís XVI, por exemplo, Stefan Zweig salienta que “com clareza quase clínica seu comportamento humano mostra todas as características típicas de um complexo de inferioridade oriundo de fraqueza viril”. A ideia, claro, é freudiana.

O caso é que a influência de Freud não é levada às últimas consequências. É, aliás, de leve a moderada. Ainda no ensaio, Zweig é claro ao afirmar que prefere “a representação historicamente fiel, que abdica de qualquer fantasia”. A biografia fiel “não inventa nada de novo, apenas interpreta o que já existe”, diz. É nessa interpretação que se vê, ainda que de forma intermitente, a influência freudiana. O fato é que a presença da psicanálise não invalida o olhar de Zweig — sequer o torna menos rigoroso. Isso não quer dizer que sua veia de romancista fique esquecida: “a biografia severamente objetiva e histórica não precisa se tornar uma mera coleção estéril de documentos, relato frio a posteriori”. Talvez seja isso o que tenha desagradado a Carpeaux.

No prefácio, Alberto Dines é só elogios: “Zweig fez uma das mais perfeitas experiências de psico-história”. Maria Antonieta é sem dúvida uma leitura marcante. Mesmo com a dramaticidade de um réquiem de Mozart — Zweig foi um grande apreciador de música, como deixa claro em um dos ensaios mais saudosistas de O mundo insone —, o autor foi bem-sucedido ao assumir a complexidade da figura central. Sua abordagem admite impossibilidade de se desvendar a história e seus protagonistas por completo. Naquilo que é possível apreender, porém, o olhar de Zweig, guiado por sua ética admirável, é inflexível. Essa (até certo ponto) recusa em encarar Maria Antonieta com indulgência desagradou Sofia Coppola, que, na preparação para o longa homônimo, se negou a ler o portrait do austríaco — a cineasta preferiu se basear na biografia de Antonia Fraser.

A história de Maria Antonieta — para a novíssima geração, graças ao já citado filme de Sofia Coppola — é bem conhecida. Por que ler o livro de Stefan Zweig? Se não estiver no estilo ou na abordagem, a resposta pode estar nas curiosidades levantadas pelo autor.

Ao narrar a chegada de Maria Antonieta ao solo francês, Zweig alude aos famosos pavilhões de madeira erguidos em certas ilhas de areia localizadas na divisa entre a França e Alemanha. A menina, então com catorze anos, deveria entrar por uma porta como austríaca e sair por outra porta como francesa. Antes que sua comitiva aparecesse por lá, porém, alguns estudantes subornam os guardiões do lugar para que possam dar uma espiada no interior dessas construções. Um dos garotos fica horrorizado ao enxergar uma das tapeçarias que decoram o lugar — a peça representa a história de Jasão, Medeia e Creusa, “exemplo crasso de matrimônio funesto”. Os amigos precisam acalmar o jovem e arrastá-lo dali.

O rapaz que se enfureceu com o deslize era 1. alemão, naturalmente; 2. ninguém menos que Johann Wolfgang von Goethe. O equívoco lhe pareceu incompreensível e imperdoável. “Não haverá entre os arquitetos franceses, entre os decoradores e tapeceiros, ninguém que compreenda que imagens representam alguma coisa, que imagens produzem efeitos sobre os sentidos e os sentimentos, que causam impressões, que provocam presságios?”, diz o jovem. Goethe, de quem Stefan Zweig foi leitor apaixonado, de certa forma antecipou a catástrofe. Só não sabia qual seria sua natureza e nem a sua real dimensão.

Há várias outras boas passagens. A adoção do Petit Trianon por Maria Antonieta mereceu um capítulo próprio. Compreensível: os esforços empregados para transformar o palacete e a área em volta em um santuário perfeito são atordoantes. O caso do colar da rainha, já narrado por Alexandre Dumas (esse sim um romance histórico) e adaptado para o cinema algumas vezes, ganha novas nuances através da escrita de Stefan Zweig. São episódios assim, um tanto inacreditáveis e patéticos, que reforçam a impressão de que a derrocada de Luís XVI e Maria Antonieta não passou de uma (tragi)comédia de equívocos.

Por mais que a história de Maria Antonieta cause algum desconforto, o tom de O mundo insone é mais trágico. O processo de escolha de textos foi, segundo Dines, “amparado na flexibilidade adotada pelo próprio Zweig na definição do que é ensaio”.

“Montaigne e a liberdade espiritual”, uma espécie de portrait em miniatura que abre o livro, dá uma boa ideia do que vem pela frente. Ao exaltar a renúncia de Montaigne à vida pública e doméstica e a decisão do pensador de permanecer trancado em uma torre com seus livros, Zweig deixa clara a forma como raciocina. Sua visão não se altera um milímetro. O austríaco jamais propõe que se lute contra obstáculos externos — prega, ao invés disso, a resistência interior. Trechos significativos: “só nos resta uma coisa: fugir, fugir para dentro de nós mesmos” e “só se pode defender o indivíduo dentro de si próprio”.

Grande parte do livro é dedicada aos bons amigos de Zweig, todos intelectuais ou artistas da época. “Os mestres” traz ensaios sobre três figuras: Émile Verhaeren, Romain Rolland e Sigmund Freud. O último é um texto escrito e pronunciado por ocasião da morte do pai da psicanálise. (Freud, aliás, faz uma boa leitura de Zweig: “O seu tipo é do observador, aquele que escuta e luta de forma benevolente e terna a fim de avançar na compreensão do que é inquietantemente excessivo”.) Ao relatar a trajetória de Romain Rolland, com quem depois rompeu a amizade, Zweig levanta um episódio interessante envolvendo Tolstói. O melhor dos três ensaios, porém, ou o mais emocionante, é aquele escrito em memória de Émile Verhaeren. O afeto de Zweig pelo poeta, morto em 1916 em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, é notável. Sua perplexidade e sua saudade também. Zweig relembra a rotina tranquila do amigo, os dias passados em sua casa de campo, a forma como Verhearen procurava doar sua atenção e seu tempo, seu processo criativo que parecia tão seguro e tão natural. Em um dos textos, Zweig analisa a melhora na produção de Herman Hesse; em outro, fala dos ideais de Joseph Roth.

É possível enxergar em O mundo insone uma espécie de linha do tempo. Depois do texto sobre Montaigne, a maior parte do que Zweig escreve está relacionada a um dos dois conflitos mundiais. “O mundo insone”, ensaio que dá título ao livro, é ainda sobre a Primeira Guerra. Num tom sóbrio, Zweig resgata algo aparentemente banal — a impossibilidade de dormir — para evocar a preocupação com amigos e parentes distantes. “A tragédia do esquecimento”, o ensaio seguinte, é um alerta visionário de Zweig que marca também o tempo transcorrido. A guerra terminou, mas o austríaco incentiva os contemporâneos a lembrar continuamente dos seus horrores. Ao criticar a memória seletiva, a ideia é justamente impedir que algo assim se repita. Zweig soa ao mesmo tempo desiludido e esperançoso, mas essa esperança vai murchar ao longo dos ensaios seguintes. “Revolta contra a lentidão” é uma desapontada análise em que Zweig reconhece que a juventude alemã alçou o nazismo ao poder por não se contentar com a ineficiência dos antigos governantes. “Um protesto na gaveta” é uma tentativa de Zweig de criar um manifesto de intelectuais judeus contra os nazistas. Ninguém aderiu, o que possivelmente que se deve ao tom pacifista do documento. Os dois textos que compõem a “A questão judaica” dão mostras do desamparo de Zweig. Um deles é um apanhado de ideias que desembocam em um assustador non sequitur, fato incomum para alguém tão ponderado como o autor.

Os últimos cinco ensaios do livro, todos relacionados à iminência ou ao estouro da Segunda Guerra, são os mais dolorosos. A veia pacifista de Zweig aparece com força, o desespero cresce e a esperança murcha. Zweig pede que seus contemporâneos resistam, mas ele mesmo começar a arrefecer e a soar saudosista.

“A monotonização do mundo”, que difere de todos os demais, talvez cause algum desconforto se lido fora do contexto em que Zweig vivia — assim como sua devoção à psicanálise pareceu suspeita a Otto Carpeaux. No texto, Zweig condena o rádio, a moda, o cinema e a música popular por tornarem os homens e mulheres indolentes e muito parecidos entre si. Os povos estariam perdendo aquilo que os identifica; as pessoas estariam deixando de fazer esforço mental. Quando se lê sua homenagem a Viena de fin de siècle, onde louva a pluralidade de culturas e o que cada povo teria de especial, entende-se — ainda que não se concorde com ele — seu desapontamento.

Apesar de propor um novo fôlego e um novo espaço para a obra de Stefan Zweig, a Zahar preferiu não arriscar — delegou boa parte do trabalho a Alberto Dines, incluindo prefácios e posfácios. Em O mundo insone, Dines abre cada um dos textos do austríaco com algumas palavras que procuram contextualizá-lo. Além de resultarem em explicações um tanto confusas, essas intervenções ainda carregam nos adjetivos — o que pode condicionar a interpretação do leitor ao olhar particular do especialista. A dureza de Dines também causa algum espanto. Classifica um dos textos, um clamor pacifista, de “patético”. Em outro, chama Zweig de “Cassandra acovardada”. Já envolvido pela delicadeza extrema de Zweig, o leitor se pergunta por que razão Dines resolveu estudar a obra de um autor por quem não é capaz de demonstrar empatia ou respeito. É oportuno resgatar o que disse Evando Nascimento no prefácio da biografia de Jacques Derrida — Nascimento destaca que um especialista teria “uma relação especial, afetiva até, com a obra do pensador de partida”. Não parece ser o caso de Dines, que soa impiedoso e muito distante do que o leitor, por mais leigo que seja, consegue apreender da essência do austríaco. Não é razão para se descartar a seleção: ela é interessante e coesa. A intenção de Dines de montar uma sequência que fizesse sentido foi bem-sucedida. O mundo insone é um grande livro.

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