Sergio Y. vai à América – Alexandre Vidal Porto

Sergio Y. vai à América – Alexandre Vidal Porto

Se você não tem nenhuma informação sobre Sergio Y. vai à América, talvez seja melhor não saltar para o texto (que não é exatamente uma resenha) e para a pequena entrevista. Num romance cheio de surpresas, como é o caso aqui, a imersão gradual faz parte da experiência de leitura.

sergio y vai a americaFoi inevitável expor, no texto e nas perguntas, algumas das informações entregues em pequenas doses ao longo da narrativa. Se você não se incomoda com isso, vá em frente. Se você prefere descobrir tudo por conta própria (e acho justo), basta que eu diga que Sergio Y. vai à América, segundo livro do paulistano Alexandre Vidal Porto, é ótimo. Em uma prosa contida, um psiquiatra de setenta anos narra a história de um de seus pacientes, um jovem chamado Sergio Yacoubian. E é melhor eu parar por aqui. Abra o livro e volte em seguida.

* * *

O início é enganoso. Sergio Y. vai à América assume, nas páginas iniciais, a forma de um romance pouco sutil sobre uma geração insatisfeita. Um psiquiatra septuagenário, dr. Armando, anuncia sua intenção de reconstruir e ordenar — com sinceridade absoluta, segundo ele —, suas memórias ligadas a um ex-paciente, Sergio Yacoubian. De acordo com o próprio médico, o caso de Sergio seria interessante. Para o leitor, a expectativa de ver ali algo de significativo se desfaz logo. Trata-se (aparentemente) de uma situação banal. Sergio, que começou a se consultar com o dr. Armando aos dezessete anos, é o único filho de um casal de classe média alta. E Sergio se sente infeliz.

Tudo indica que a narrativa vai seguir num ritmo estável a fim de explorar as contradições da geração Y — a geração a quem a felicidade foi prometida e que a vê como um dreito, mas que não consegue defini-la e muito menos alcançá-la. A introdução da história do bisavô armênio de Sergio, um sujeito que fugiu de um massacre e construiu uma vida no Brasil, soa como uma espécie de confirmação dessas primeiras suspeitas. Alexandre Vidal Porto arma o cenário ideal para comparar o esforço e a abnegação dos imigrantes (de quaisquer antepassados, na verdade) aos muitos confortos desdenhados pelos mais jovens.

O Y principal, porém, não é o de uma geração confusa. O Y do nome de Sergio parece fazer referência direta ao cromossomo. (Na entrevista, Alexandre Vidal Porto esclarece que a correspondência não foi intencional.) O Y é o cromossomo intruso cuja capacidade de influenciar uma definição do protagonista é limitada ou irrelevante. Sergio Y. é uma mulher, e cromossomo nenhum pode dizer o contrário. Dr. Armando não percebe, uma vez que Sergio se cala, e uma vez que enxergar nem sempre é fácil. O médico só descobre a verdade sobre o então ex-paciente depois de ler uma notícia num jornal. O silêncio de Sergio Y. está em conformidade com o que disse um transexual num depoimento incluído no livro Longe da árvore, resultado de um trabalho exaustivo do norte-americano Andrew Solomon: “Eu sempre soube, desde criança, que tinha alguma coisa a esconder, e durante muito tempo não identifiquei aquilo”.

Sergio Y. vai à América lembra o comovente O lugar sem limites de José Donoso. Na novela do autor chileno, Manuel González Aztica é Manuela, protagonista carismática que mantém um bordel num lugarejo esquecido. Apesar de ser chamada de “travesti”, o que nesse caso soa pejorativo, Manuela apresenta todos os traços de uma pessoa com disforia de gênero. E o exterior de Manuela e Sergio não está em conformidade com o interior. “Imagine ser mulher, sentir-se mulher e, no entanto, ser vista pelo mundo todo como um homem. Mulher invisível, Sergio Y. era isso”, diz o narrador. Ele está certo, mas só em parte.

Depois de se mudar para Nova York para viver como mulher, Sergio vira Sandra. Sandra é uma transexual com algum apoio da família, sobretudo financeiro. Sua vida seria diferente se ela fosse um dos transexuais menos remediados retratados por Solomon em Longe da árvore. O autor sabe disso, e insinua o fato em uma cena em que o dr. Armando está prestes a pegar no sono em um quarto de hotel em Nova York.

E tudo porque a ignorância que ronda a disforia de gênero ainda é enorme. Prova disso é que até mesmo na quarta capa de Sergio Y. vai à América há um equívoco: “um romance que investiga (…) as fronteiras da sexualidade”. Sexualidade é uma coisa. Gênero é outra. E o erro ainda vai se repetir na orelha. Já o romance, sem didatismo, desfaz alguns nós. Justamente por recusar a posição de guia e manual, Sergio Y. vai à América se concentra nas questões mais básicas. Mesmo assim, a delicadeza está lá.

Sergio/Sandra não é a único transexual da trama. Seu contraponto é Adriana, ou Angelus, um homem nascido no corpo de uma mulher cuja história (fictícia) Sergio Y. descobre em um livro. Como acontece com a Manuela de Donoso, também não há muitos recursos disponíveis para Adriana/Angelus adequar o que enxerga no espelho à maneira como se sente. As disparidades entre sua situação e a de Sandra remetem a um questionamento levantado por Andrew Solomon em Longe da árvore: “Como era a vida dos transgêneros no passado, quando eles não podiam alterar o corpo para harmonizá-lo com sua identidade? Como será a vida dos transgêneros no futuro, quando as cirurgias forem aperfeiçoadas? Essas perguntas são ao mesmo tempo técnicas e teleológicas.”

Mas talvez pouco importe. A adequação torna a vida mais leve, mas não é só isso o que conta. O dr. Armando está certo apenas em parte quando diz que Sergio Y. é uma “mulher invisível”. Se o personagem jamais tivesse feito a cirurgia, ainda assim seria uma mulher. Seu cromossomo Y não o define. A frase surrada de Maurice Merleau-Ponty que diz que os olhos são como as janelas da alma — escrita pelo filósofo num artigo sobre arte, onde sua ideia de “alma” nada tem a ver com a acepção religiosa — ainda vale. Vale para quem vê e para quem é visto. O ato de enxergar está subordinado à sensibilidade, ponto central em Sergio Y. vai à América. Mesmo sua falta é percebida. A sensibilidade, ou a ausência dela, está na reação não inteiramente positiva dos pais de Sandra. Na interpretação da vizinha, que glamouriza a situação de uma mulher trans. Na reação do dr. Armando, que procura compreender.

Como a disforia de gênero é vista pelos olhos do dr. Armando — que pouco ou nada sabe sobre o assunto —, tudo é muito sutil. O narrador não chega a penetrar definitivamente na consciência de Sandra ou Angelus, mas cumpre a função de mostrar sua dor. Uma das passagens mais significativas está na história de Angelus. Quando trabalhava numa alfaiataria, Angelus vestia uma peça de roupa masculina. Um simples chapéu aliviava sua infelicidade.

Em certo momento da narrativa, o dr. Armando associa uma tragédia ocorrida com Sandra à sua condição de mulher trans. Parece que o romance vai desandar, mas o autor felizmente não toma o caminho errado. O narrador logo esclarece que “não compreendia que, sem perceber, reproduzia no [seu] entendimento o estereótipo de que [uma fatalidade ocorrida com] um transexual é sempre causada pela tragicidade de sua própria vida”. Apesar de atuar como psiquiatra, o dr. Armando demonstra pouca familiaridade com a transexualidade. Sua visão de que a violência está mais presente na vida de pessoas trans pode manifestar um preconceito — caso a associasse a uma vida desregrada e “amoral” —, mas não é incorreto dizer que a violência cometida contra transexuais ainda é enorme. Tudo porque a ignorância impera.

O romance tem suas falhas, mas são pequenas. Como quando Armando revive a cena de um encontro com a mãe de Sergio no supermercado e recorda com exatidão o pedido de uma senhora no balcão de frios, que solicita “trezentos gramas de muçarela de búfala”. É um detalhe que pouca gente registraria e que por isso mesmo soa implausível, sobretudo quando o próprio narrador admite que “a memória apaga e seleciona”. Algumas imagens são excessivamente literais (uma forma de subestimar o leitor), como quando o dr. Armando, numa situação-chave, lavas as mãos no banheiro de uma igreja e imagina que elas estão cobertas de sangue.

Sergio Y. vai à América não deixa de ser uma narrativa sobre uma busca pela verdade.  Sobre culpa e responsabilidade. E não deixa de ser um testemunho sobre uma ideia de vulnerabilidade extrema. A trajetória de Sergio Y. não é retratada como um caso médico, uma vez que, felizmente, o relato do dr. Armando rompe os limites do consultório e da relação médico-paciente. Da forma como é contada, a história de Sergio Y. é uma história de superação — por mais desgastado que o termo soe. Mas também é triste.

Penso que o que falta à literatura é um relato alegre, ainda que não ingênuo, sobre um indivíduo que sofre de disforia de gênero. O romance de Alexandre Vidal Porto é delicado e importante — importante porque marca uma abordagem franca da transexualidade e abre caminhos para exercícios semelhantes —, mas sua tristeza dilacera. De qualquer forma, o que é sempre desejável, o livro contribui para deslocar o estigma e a intolerância. Vale lembrar que o preconceito contra a transexualidade está inserido até mesmo em alguns grupos considerados mais progressistas — há feministas que acham necessário menosprezar mulheres trans.

Apesar da brutalidade, Sergio Y. vai à América procura transmitir certo otimismo. O narrador diz que é possível que alguém aperfeiçoe “a primeira versão da vida” que recebeu, algo que pediria a “coragem de pular de um trampolim de cinquenta metros de altura com os olhos vendados, sem saber se o que [espera] no solo [é] água ou asfalto”. Que no mundo haja mais água e menos asfalto. Mais liberdade e menos ignorância. Sergio Y. vai à América faz sua parte.

Para fechar, uma pequena entrevista com o autor.

Como surgiu Sergio Y. vai à América? A intenção era escrever um livro que abordasse o tema da disforia de gênero?

Sergio Y. surgiu de dois contos que eu escrevia à época: um sobre uma psiquiatra que se apaixona por um paciente e outro sobre a morte de um transexual brasileiro na Europa. Utilizei elementos das duas histórias para compor Sergio Y. vai à América. Não tinha a intenção de escrever sobre disforia sexual. O tema da identidade de gênero foi o exemplo que escolhi para abordar a questão da identidade de maneira mais ampla, além do ponto de vista sexual.

Em relação à psiquiatria, à disforia de gênero, à gastronomia e a outros elementos do livro — aqueles que podem exigir alguma pesquisa ou imersão —, quais foram as fontes ou inspirações utilizadas?

Minha intenção era que meu texto fluísse. Não queria complicá-lo com jargão de qualquer natureza. Além disso, não teria competência técnica para escrever em profundidade sobre psiquiatria ou gastronomia. Por essa razão, compus com base em elementos da minha própria experiência pessoal. Tinha morado nas duas cidades em que o livro se passa — Nova York e São Paulo. Conhecia a paisagem geográfica da história. Também tinha feito psicoterapia, então já havia observado psicoterapeutas em ação. Conversei com médicos. Quanto à gastronomia, adoro comer e vou muito a restaurantes. A pesquisa mais aprofundada que fiz foi sobre a vida dos imigrantes lituanos nos Estados Unidos no começo do século XX.

Dr. Armando é muito sóbrio. Não faz referências constantes à psiquiatria e não se entrega a grandes divagações. Foi difícil encontrar o tom certo?

Como toda a história é contada por ele, quis que sua voz fosse neutra e equilibrada. Não queria que Dr. Armando fosse professoral. Queria que tivesse incertezas e inseguranças, mas que também tivesse convicções éticas sólidas. Queria mostrar a visão dele como homem, e não como médico — capaz der salvar vidas, mas um ser tão imperfeito quanto seus pacientes.

Para Sergio Y., a leitura de uma biografia foi o que principiou sua mudança. O livro se tornou mais importante do que a psicoterapia a que o personagem se submetia com regularidade. Você acha que a leitura é capaz de desempenhar esse papel transformador?

Sim, acho que a literatura — assim como outras formas de expressão artística — pode ter um papel transformador na vida do indivíduo. A obra literária, ao desvelar novos mundos e situações, acaba apresentando possibilidades existenciais que podem inspirar os leitores em suas vidas. Foi isso o que aconteceu com Sergio Y.

Para você, algum livro foi importante o suficiente a ponto de operar uma transformação? Algum livro em especial o levou a querer ser escritor?

Durante a adolescência, fui um escritor de cartas prolixo. Foram as cartas que me levaram a querer ser escritor, não os livros. Mas sei que minha vida foi transformada por autores. Sinto que ter lido Guy de Maupassant ou J.M. Coetzee, por exemplo, mudou minha maneira de ver o mundo. No entanto, acho que a transformação operada na minha vida pela literatura não se deu de forma radical, mas, sim, de maneira gradual e acumulativa.

O Y de Sergio faz referência ao cromossomo sobressalente — que é, ao mesmo tempo, um cromossomo que não define e não está aparente em sua nova vida —, e também à geração do personagem. A partir daí, você contrapõe bem as épocas e suas possibilidades. O êxodo e a transformação de Sergio podem ser comparados não só ao êxodo e a transformação de Angelus Zebrowskas, mas à imigração do avô. Como surgiu essa ideia de juntar as épocas e falar ao mesmo tempo de gênero e de gerações? Foi premeditado ou fortuito?

O fato de o “Y” do nome do personagem remeter à ideia do cromossomo “Y” não foi deliberado. Foi uma coincidência, uma peça pregada por meu subconsciente. Depois da publicação, várias pessoas acusaram a referência, mas eu mesmo não me tinha dado conta. Um dos temas principais do livro é o diálogo entre as gerações, é o sentido de possibilidade existencial que as gerações mais velhas ensinam, por meio do exemplo, às mais novas. A inspiração de Sergio para mudar de vida veio de seu bisavô Areg e de Angelus Zebrowskas, que fizeram a mesma viagem em busca da felicidade, décadas antes dele. A ideia de tratar do diálogo entre as gerações veio com a leitura de um poema de Walt Whitman (“Crossing Brooklyn Ferry”), em que ele se dirige aos que, no futuro, farão a mesma viagem de balsa que ele fazia diariamente de sua casa no Brooklyn a seu trabalho em Manhattan. Décadas depois, Fernando Pessoa respondeu a “Crossing Brooklyn Ferry” com um poema (“Saudação a Walt Whitman”) em que reconhece e agradece o legado que recebeu do americano. Foi da leitura desses dois poemas que a ideia do livro começou para mim.

3 Comentários Sergio Y. vai à América – Alexandre Vidal Porto

  1. M. Lyrio

    Boa resenha, Camila. Além da referência à geração e ao cromosso Y, que “determina” o gênero, o Y sugere graficamente a ideia de bifurcação, de escolha entre dois caminhos possíveis, algo que parece definir a própria trajetória do protagonista.

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