Se vivêssemos em um lugar normal – Juan Pablo Villalobos

Se vivêssemos em um lugar normal – Juan Pablo Villalobos

“Vai tomar no cu duma vez, seu filho da puta! Vai à merda!” A sugestiva frase de abertura de Se vivêssemos em um lugar normal não é articulada por Orestes, narrador e protagonista do romance, mas por seu pai — um sujeito exaltado e desbocado cuja ocupação formal, a de professor do colegial, não rivaliza com as inflamadas preleções contra o governo a que se dedica diariamente.

Orestes reproduz o insulto como um exemplo pontual da excentricidade paterna, também manifesta nas certidões de nascimento dos sete filhos. Aristóteles, Orestes, Arquíloco, Calímaco, Electra, Castor e Pólux, do mais velho aos dois mais novos (gêmeos dizigóticos, ou “de mentira”), recebem papéis variados em uma tragédia nos moldes gregos.

se-vivessemosA família vive em Lagos de Moreno, no estado de Jalisco. Quando a questão vem à tona, não sabem dizer se pertencem à classe média ou se permanecem à margem dela — ainda que sua situação seja visivelmente precária. Depois de ocupar um terreno em um morro — o morro da Puta Que Pariu, como Orestes o chama — e construir a casa que o narrador define como “caixa de sapatos”, os nove membros, os sete filhos e os pais, atravessam altos e baixos.

Orestes deseja pertencer a outro lugar. Sente-se invisível em uma família tão numerosa. Na hora das refeições, muitas mãos e dedos disputam as melhores quesadillas — “tortillas de farinha de milho recheadas com queijo derretido ou outros ingredientes, servidas quentes e dobradas ao meio”, prato tipicamente mexicano. O grau de fartura varia de acordo com a situação econômica do país, que o pai de Orestes discute apaixonadamente enquanto, ainda sentado à mesa com os filhos, assiste ao noticiário. Declarações esdrúxulas de políticos e eleições fraudadas são alvos constantes de impropérios.

Como pano de fundo de Se vivêssemos em um lugar normal, continuamente interferindo na vida do protagonista e de sua família, há a economia oscilante — a inflação galopante — de meados dos anos oitenta. A desigualdade social é mera consequência: Orestes sente alguma inveja de um vizinho, que, além de ser filho único, mora em uma mansão erguida ao lado da caixa de sapatos. O pai do garoto tem o bizarro emprego de inseminador de vacas, e sua relação com a família do narrador não é das melhores.

Como em Festa no covil, Juan Pablo Villalobos aborda um tema espinhoso do ponto de vista de alguém jovem e inexperiente. Orestes é um adolescente amargurado que tenta encontrar um lugar no mundo — um lugar de onde possa ver e ser visto. Apesar da temática complexa e dolorosa, não falta humor ao romance. O autor é muito bem-sucedido ao misturar ironia sutil e graça escrachada. Há mesmo um toque nonsense que não soa deslocado como no final, protagonizado por melancias alucinógenas.

O fato de um dos personagens se chamar Aristóteles dá margem para uma série de boas tiradas com o filósofo dos silogismos categóricos. No romance, o irmão mais velho de Orestes é um jovem estúpido que, na falta de argumento melhor que lhe permita vencer uma discussão, impõe a sua vontade e a sua opinião chamando o interlocutor — em geral Orestes — de idiota. “Não dá para brigar pela verdade quando seu rival se chama Aristóteles”, desabafa o narrador. Em outra cena, enquanto joga Atari com o vizinho, Orestes pensa sobre console, que teria uma “lógica esmagadora”: “o mundo estava dominado por um rebanho de aristotélicos chatíssimos; se você mexia o manche para a direita, a nave se mexia para a direita, se o mexia para a esquerda, então para esquerda, para cima e para baixo, e se apertava o botão uma vez, disparava uma vez, se apertava duas, então duas, e três, três”.

Juan Pablo Villalobos dá um jeito de inserir trocadilhos engraçadinhos aqui e ali — não se limitando à filosofia ou à mitologia grega. Há espaço para tudo. A música, por exemplo. Um primo de Orestes ganha o sugestivo apelido de Pink Floyd. Em uma situação crítica, o protagonista roga pela sábia ajuda do parente: “Ai, Pink Floyd, como eu gostaria que você estivesse aqui”, em uma referência a uma das músicas mais famosas da banda.

Um dos melhores momentos do romance acontece quando o pai de Orestes decide mostrar à família o quanto o mundo é sem graça (nas palavras do narrador, o pai teria uma “vontade de desmistificar o mundo”). Leva, então, todos na caçamba da camionete para uma localidade meio inóspita, mais inóspita do que a cidadezinha onde vivem. Não esquece de afirmar que “todas as cidades são iguais, umas maiores, outras menores, mais feias ou mais bonitas, mas iguais”, o que o protagonista classifica de sofisma. O lugarejo é, de fato, muito sem graça. Nada parecido com a Disney, em todo caso (“Pelo que eu sabia, a Disney era um castelo de fantasia onde o importante era se comportar bem, não importa o que acontecesse ou o que você pudesse ver.”). E o protagonista parece ter certeza: há cenários melhores, mas não para pobres como eles. Nenhum desses lugares faz parte da vida de Orestes. Sua vida é um reductio ad absurdum.

Aproveitei que as coisas queriam voltar à normalidade para retomar minhas investigações sociológicas.
— Mamãe, é possível deixar de ser pobre?
— Não somos pobres, Oreo, somos da classe média — replicava minha mãe, como se os níveis socioeconômicos fossem um estado mental.
Mas essa coisa de classe média parecia as quesadillas normais, algo que só podia existir num país normal, em um país onde não estivessem permanentemente tratando de foder a sua vida. Todas as coisas normais eram difíceis pra caralho de conseguir. No colégio, tinham se especializado em organizar genocídios de extravagantes para nos transformar em pessoas normais, era o que nos exigiam os professores e os padres, por que diabos não podíamos nos comportar como gente normal? O problema é que se tivéssemos levado a sério, se tivéssemos seguido ao pé da letra as interpretações de seus ensinamentos, teríamos feito o contrário, só merdas bem loucas mesmo. Fazíamos o que podíamos, o que nossos corpos fogosos exigiam, e sempre pedíamos perdão de mentirinha, porque éramos obrigados a nos confessar toda primeira sexta-feira do mês.
Para evitar dizer a quantidade de punhetas que eu estava batendo por dia, eu tentava distrair o padre que me confessava.
— Padre, peço perdão por ser pobre.
— Ser pobre não é pecado, filho.
— Ah, não?
— Não.
— Mas é que eu não quero ser pobre, então com certeza vou acabar roubando ou matando alguém pra sair da pobreza.
— É preciso ser digno na pobreza, filho, é preciso aprender a viver na pobreza dignamente. Jesus Cristo nosso Senhor era pobre.
— Ah, e vocês são pobres?
— Os tempos mudaram.
— Não são pobres?
— Nós não nos preocupamos com questões materiais, cuidamos do espírito, o dinheiro não nos interessa.
Meu pai dizia a mesma coisa quando, para corroborar as mentiras de minha mãe, eu perguntava a ele se éramos pobres ou da classe média. Ele me dizia que dinheiro não importava, que o importante era a dignidade. Confirmado: éramos pobres.

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