Sandiliche

Sandiliche é um livro que eu gostaria de ter lido quando era criança. Digo isso porque ele segue uma linha que eu mais ou menos idolatrava: ilustrações extraordinárias, alguma melancolia, uma narrativa cujas entrelinhas abrem espaço para um silêncio pensativo. Dizer que eu queria ter lido Sandiliche na infância é um elogio e tanto, e não é a mesma coisa que dizer que agora a experiência é descartável. Pelo contrário. Há certas sutilezas no texto que talvez façam mais sentido para quem já passou de certa idade o próprio autor, o paulistano Ronaldo Bressane, diz jocosamente que o livro é um infanto-senil. Quer eu tivesse ou não captado essas sutilezas há alguns anos, penso que Sandiliche teria me tocado de alguma forma.

Sandiliche é narrado por um adulto que revive o período em que teve um amigo imaginário. Como não conseguia interagir com outras crianças — “me olhavam como se eu fosse um estranho” —, restavam as brincadeiras com o tal Sandiliche, o pequeno invisível. Foram felizes juntos, isso fica claro. Tudo aponta para o companheirismo dos dois, e qualquer um conclui que o narrador aprendeu um bocado sobre a verdadeira amizade com o Sandiliche.

As certezas, se havia alguma, se desfazem no último bloco de texto, ali onde a melancolia se aprofunda um tanto. E também é ali que as ilustrações, que até então seguiam um ritmo próprio, encontram a narrativa. É justamente esse final mais sensível e algo fantástico que exige alguma interpretação — e aqui ela pode tomar muitos rumos, exercitando a criatividade — da criança que lê. O que, se for o caso, pode render uma boa conversa com o adulto que acompanha ou dirige a leitura.

SandilicheOs desenhos da equatoriana Powerpaola são tão incríveis que é inevitável pensar sobre esse trabalho a quatro mãos. Existe alguma diferença entre trabalhar em parceria com um ilustrador para criar uma graphic novel — Bressane é autor de V.I.S.H.N.U., publicada pela Quadrinhos na Cia. — e para criar um livro infantojuvenil? “Nunca rolou uma parceria com a Powerpaola”, diz Ronaldo por e-mail. “É uma parceria ‘inventada’. Já com o [ilustrador Fabio] Cobiaco o processo foi bem mais próximo e envolveu dez versões do roteiro até o final ser aprovado pelo [editor André] Conti. A Flávia Castanheira e a Bel Coelho, da Cosac, quebraram o texto em pedaços e sugeriram a Paola que ela construísse uma narrativa visual que não fosse uma mera legenda ao conto. Aí a Paola teve essa ideia de juntar minha narrativa à narrativa visual bem no último parágrafo. Achei o resultado espetacular, pois induz a uma epifania em chave de realismo fantástico, que é justamente o que busquei no conto desde a primeira versão.”

Num texto que o autor escreveu para o blog da Cosac Naify, ele esclarece que livro era inicialmente um conto, e então virou um infantojuvenil. Quero saber o que mudou de um para o outro. “Nesta versão, que está em meu primeiro livro, Os Infernos Possíveis, de 1999 (o conto é de 1993, acho), Sandiliche, em vez de pintar o playground de dourado, põe fogo em uma árvore. A Bel me pediu que suavizasse essa parte, para não dar ideias erradas aos petizes… É a única alteração de fato.” Para quem não quer um pequeno Nero em casa, é uma alteração pertinente. Ronaldo dá a dica: no site é possível ler todos os seus contos.

É como disse o argentino Adolfo Bioy Casares no post-scriptum do prólogo da Antologia da literatura fantástica — outro livro em que um elemento estranho (ou mais de um) embaralha a percepção de cada uma das narrativas: “nos relatos fantásticos encontramos personagens em cuja realidade irresistivelmente acreditamos; atrai-nos neles, como nas pessoas de carne e osso, um amálgama sutil de elementos conhecidos e de misterioso destino”. Para uma criança, a atração é ainda mais irresistível.

 

2 Comentários Sandiliche

  1. v.

    porra, camila, você escreve de livros infanto-juvenis de um jeito que eu sempre termino querendo lê-los. percebo isso desde a tua resenha de peter & wendy (que eu não li, mas dei de presente para a única criança legal o bastante para ganhar um livro que parece tão legal de presente – e a culpa da não leitura dele também foi minha, vacilei aí, já que o livro ficou parado mó tempo na minha casa antes de ir para ele).
    acredito ter sido um mau leitor na infância, só lembro de “o menino maluquinho”, “uma professorinha muito maluquinha” e livros da ruth rocha. depois de velho que li alguns mais, tipo o pequeno príncipe ou o meu pé de laranja lima… enfim, o que quero dizer é que esse conto/livro infanto-senil parece muito bom. e essa ilustração está foda.

    Reply
  2. Gabriel Lima

    Há duas ou três semanas, numa aula sobre literatura para crianças e jovens, a professora levou alguns livros do gênero para a sala. Entre os 10 ou 12 ali, tive a sorte de pegar e ler justo esse. Coisa fina mesmo. Me atraiu, primeiro, pelo nome e acabamento. E continuei atraído quando cheguei ao ponto final e voltei nas excelentes ilustrações para sentir a história novamente – o livro é tão bem pensado que nos obriga a fazer isso. Esse diferencial do livro é bem difícil de passar em resenha. E você fez bem.

    Acompanho o blogue faz pouco tempo e venho gostando muito. Parabéns.

    Reply

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *