Um Nobel menos conhecido

Jean-Marie Gustave Le Clézio publicou Refrão da fome pouco tempo antes de receber o Nobel em 2008. No Brasil, pela mesma editora, já havia publicado, em 2007, O Africano — livro em que narra a história de seu pai. No mais recente deles, Le Clézio reconstrói (pelo menos em parte) a trajetória da mãe.

O autor refaz os passos da personagem, batizada de Ethel Brun, desde a infância até a idade adulta — um período que começa em meados de 1920 e vai até 1945, e que depois desemboca em um prólogo emocionante e atual. Parisiense, descendente de imigrantes das Ilhas Maurício (naquele tempo colônia da Inglaterra), Ethel é retraída e melancólica. Filha única, desde pequena a menina presencia as discussões dos pais, cuja convivência é marcada por constante hostilidade. O vazio da criança — a sua fome de afeto — é em parte preenchido por monsieur Soliman, seu tio-avô, um homem sonhador e ao mesmo tempo pragmático, e por Xênia, sua amiga de ascendência russa. A história de Xênia é um mistério; sabe-se que sua família, os Chavirov, perdeu tudo com a Revolução Bolchevique. A menina, outrora rica e segura, é estrangeira na França, e vive na penúria.

O pai de Ethel é um bon vivant irresponsável. Alexandre preocupa-se em ser o anfitrião de ruidosos encontros sociais em seu apartamento, em estudar e construir protótipos de máquinas voadoras descabidas e em fazer negócios incertos que acabam levando a família à falência. Ainda que não seja o foco central do livro, Alexandre é um dos personagens da literatura contemporânea que conseguem transmitir ao leitor mais consciente uma profunda sensação de ojeriza.

Em determinado ponto, durante a passagem de Ethel da adolescência para a idade adulta, estoura a guerra. A França, como se sabe, foi um dos países mais atingidos por ela. A família Brun se vê obrigada a deixar Paris. E é Ethel que conduz, literalmente, sua família arrasada a uma espécie de salvação.

Dividido em três partes — A Casa Malva, A Queda e O Silêncio — o livro põe um olhar sensível e apaixonado sobre uma vida atingida pela guerra. Uma criança calada se torna, ao longo da narrativa, uma adulta astuta, pragmática e segura.

Refrão da fome nos perturba no que diz respeito a uma questão primordial: a comunicação. A evolução do ato de comunicar parece colocada sob perspectiva — não é exatamente iluminada, mas está prestes a virar foco de intenso debate através da reflexão e de uma pesquisa fora do livro, movida essencialmente pela curiosidade do leitor. No enredo, através do rádio ou a partir de comentários incertos, os personagens do livro formam uma ideia nem sempre clara do que acontece ao seu redor. Só Ethel, com sua sensibilidade apurada, parece antever o que está por vir. Os diálogos que acontecem durante as recepções de Alexandre são um bom indicativo da extensão da desinformação da população da época — pelo menos as daquele círculo. Eles queriam ser enganados? Ou não era possível correr atrás de fontes confiáveis?

Livro não só sobre a guerra, mas sobre a comunicação, sobre o próprio Le Clézio. E também sobre afeto, perdão, sonhos e lembranças.

“Ethel tinha a impressão de flutuar no céu, entregue ao prazer de olhar as nuvens. Deitada na areia das dunas, ela as via passar muito velozes, leves, livres. Imaginava a distância que tinham percorrido, a extensão dos oceanos, a vastidão das ondas, antes de chegar até ela. Não muito alto, elas deslizavam como bolotas brancas que às vezes se chocavam, se uniam, se dividiam. Algumas, loucas, corriam mais do que as outras, esfiapavam-se formando flocos de algodão, tufos de pelos de taráxaco, pendões de cana. A terra cedia embaixo delas num lento movimento que causava vertigem. Na praia, o rolar das ondas era um motor ligado que impelia a planura do mar e irresistivelmente revirava o mundo.”

1 Comentário Um Nobel menos conhecido

  1. Mylena M.

    Mais um livro a entrar pra minha lista de querências! Adoro histórias de guerra, por mais tristes que sejam, e adoro comunicação e jornalismo… e é claro que não dispenso doses de sentimento jamais!!

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