Quando muita informação estraga

Quando muita informação estraga

Não me abandone jamais é um daqueles livros a respeito dos quais quanto menos você souber, melhor. Isso quer dizer que você deve lê-lo, é claro, mas sem investigações prévias. Não caia na tentação de espiar a sinopse. Fuja de resenhas e procure não escutar os — possivelmente assombrados — comentários sobre o enredo. Aqui, mais do que em outras situações semelhantes, a ignorância é uma vantagem. É ela que pode determinar a intensidade da sua experiência de leitura.

não me abandone jamais(É preciso levar em conta que Não me abandone jamais não é nenhuma novidade. O livro foi publicado no Brasil em 2005, e desde então ganhou uma reimpressão. Também virou um filme homônimo estrelado por Keira Knightley e Carey Mulligan. Logo, é bem possível que o alerta e a indicação não atinjam mais do que dois ou três alvos que, como eu há algum tempo, não conhecem a história.)

O mínimo que você precisa saber também é, nesse caso, o máximo. Kathy, a narradora e protagonista, tem pouco mais de trinta anos quando decide examinar sua infância em Hailsham — uma espécie de colégio interno onde as habilidades artísticas dos alunos são muito valorizadas. Detalhes singulares indicam que há algo errado com o lugar — ou, o que parece mais terrível, com as próprias crianças. Como em uma trama policial, conhecer o segredo por trás dos acontecimentos tira o impacto de descobri-lo por conta própria. Entender tudo aos poucos, na medida em que as situações descritas ficam cada vez mais estranhas, é o ideal para absorver as variações que o livro oferece.

Não saber o que vem pela frente permite que o leitor imerja na voz (consistente) de Kathy e estabeleça alguma conexão com ela. E a antecipação, ao contrário do que ocorre com um clássico como Anna Kariênina, pode ser determinante. Conhecer o desfecho do romance de Tolstói — e boa parte das pessoas o conhece, a tal ponto que Rubens Figueiredo, no prefácio da edição da Cosac Naify, fala sem rodeios sobre o fim trágico da protagonista — não rouba o prazer da leitura. Com o enredo de Ishiguro, talvez pelo insólito da situação proposta — além da visão restrita da própria Kathy —, as coisas se desenrolam em outro ritmo. Saber de antemão o que vai acontecer tem o poder de insensibilizar o leitor, que pode analisar as primeiras páginas com um olhar anestesiado.

A grande sacada de Kazuo Ishiguro, japonês radicado na Inglaterra — onde a história se passa —, é manter a narrativa num tom ameno. Kathy desfia suas memórias com alguma melancolia, mas com a tranquilidade de quem sabe que sua vida “deve seguir o curso que foi estabelecido para ela”. A sutileza da narrativa 1. camufla, durante certo tempo, a crueldade da situação em que a protagonista se encontra; 2. permite que apenas uns poucos detalhes, certas informações que soam deslocadas, preparem o leitor para a complexa questão que vem depois. A ideia do autor é justamente essa. Com o impacto da surpresa, o problema moral que Kazuo Ishiguro irá propor acerta o alvo com força redobrada. O alvo, óbvio, são as convicções mais nobres do leitor.

Esse problema moral, você vai ver, é a base do romance. Não há como fugir dele. Aliado ao talento do autor para contar uma boa história, o impasse torna Não me abandone jamais a escolha ideal para um clube do livro. A despeito do silêncio que (se tudo der certo) deve anteceder a leitura, o enredo foi feito para gerar bons debates.

Confie.

8 Comentários Quando muita informação estraga

  1. Simone Mello

    Que sensacional o teu texto, Camila! Aguçou minha curiosidade, preciso ler o livro urgentemente! Obrigada!

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  2. Aline T.K.M.

    Não li o livro, mas conheço a história por ter visto o filme (e naquela época nem sabia que se tratava de uma adaptação). Gostei muito do que vi na telona, principalmente da sensibilidade e, ao mesmo tempo, certa frieza – por mais estranho que isso soe – com que a situação é tratada. Morro de vontade de ler o livro; uma vez li uma resenha que via esse “tom ameno” da narrativa como algo bem negativo. Não acho que isso aconteceria no meu caso, acredito que seria uma leitura bastante especial, mesmo conhecendo de antemão o que irá suceder.

    Beijos, Livro Lab

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  3. Mariane

    Tbm fiquei muito curiosa! Acho que nem o filme baseado neste livro eu conhecia. rs
    Engraçado alguns livros funcionarem assim, a impressão geral é de que para ler algo, é quase obrigatório conhecer a sinopse… Isso só não se aplica sempre. rs

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  4. Leonardo

    Oi, Camila,

    Primeira vez aqui no seu blog (cheguei por meio do blog da Tatiana) e encontro este post que guarda muita semelhança com o assombro que senti quando li esta pequena obra-prima. Também li sem saber absolutamente nada sobre a história. Foi o primeiro (e até agora único) livro do Kazuo Ishiguro que li, e o ritmo da narrativa é enfeitiçante. Quando lembro do tom que ele adotou, uma espécie de melancolia otimista (ou algo que o valha), caramba, como me dá saudade daquele sentimento que me invadia enquanto eu avançava pelas páginas!
    Sem dúvida, não saber nada sobre a trama contribui muito para a imersão neste mundo, assim como em Reparação, do Ian McEwan.

    Belíssimo texto. Virei freguês do blog!

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  5. Pingback: O gigante enterrado – Kazuo Ishiguro | Livros abertos

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