Quando acabar, é aí que acaba

“Seus seguidores, distintamente as pessoas mais mentalmente perturbadas de cada país, davam-lhe um perfil mais elevado do que teria de outra forma. Os fãs de Lou Reed eram rudes, desagradáveis e exibicionistas.”

*

Inseri a resenha de Transformer na representação de uma molécula de heroína. Como nem todos os átomos apareciam na imagem, tentei, ainda que grosseiramente, tornar as coisas visíveis. É possível ler a resenha completa ou um dos três níveis. O nível principal, do Carbono, vai do número 1 ao 21 e traz uma opinião direta sobre o livro. O segundo nível, do Hidrogênio, se estende da letra A à letra V e consiste em um diário de leitura (fictício, é óbvio) da biografia. O terceiro nível, do Oxigênio, contém os números romanos do I ao V e explica, de forma abreviada, minha relação com a obra do Lou Reed. Por fim, o único átomo de Nitrogênio não traz texto algum, mas dá voz ao próprio artista.

Também é possível passear entre um nível de texto e outro, seguindo as ligações inseridas entre parênteses abaixo de cada item. Tentei manter algum gancho entre eles, de modo que há certa fluidez.

Todos os trechos em itálico no diário de leitura são de letras do Lou Reed. Optei por utilizar a versão em português. A tradução é de Caetano W. Galindo e Christian Schwartz para o livro Atravessar o fogo.

heroin

C.1.

Transformer, a biografia de Lou Reed escrita por Victor Bockris, não é um bom livro. No fundo, é pouco mais que um apanhado de declarações de conhecidos e colaboradores do artista. Bockris, porém, não dá o devido peso (ou falta dele) a alguns enunciados. Um sujeito faz um comentário antissemita; outro diz que a música e o estilo de vida de Lou Reed são responsáveis pela morte de Sid Vicious, dos Sex Pistols; um terceiro compara o ex-líder do Velvet Underground a Stálin. Bockris não só julgou esses depoimentos dignos de serem registrados como não fez o menor esforço para conduzir o texto de volta à realidade. As poucas intervenções do autor que resultam em uma conclusão — ou seja, em uma afirmação categórica — oscilam entre apressadas, simplórias e deliberadamente falsas. Quase todas acabam por ecoar as mesmas opiniões ou testemunhos duvidosos. É como se Bockris temesse desagradar algum entrevistado. (H.a.H.b.H.c.C.3.)

H.a.

17/05 – 20h
[Pois que o meu espírito se angustia em mim; e o meu coração em mim está 
desolado. Salmos 143:4]
Comecei a ler Transformer. 
Primeira constatação: o sujeito pesa a mão nos adjetivos. 
Segunda: Freud não merecia. 
Bockris sugere que o “possessivo, egoísta e frequentemente ciumento Lewis” rivalizava
com o pai e desejava, ao mesmo tempo que repelia, a atenção da mãe. 
Foco na retórica: “Ou Lou se jogava aos pés de seus amantes, ou 
elaborava maneiras engenhosas de esmagar suas almas”. 
ESMAGAR SUAS ALMAS. 
Só parei de gargalhar quando me dei conta de que tenho mais de
400 páginas pela frente. (C.1.)

H.b.

17/05 – 23h30
[Andam e cambaleiam como ébrios, e perderam todo o tino. Salmos 107:27]
A retórica de Bockris é mesmo tremendamente ridícula. “Como um tubarão, [Lou] tinha o 
instinto de cutucar corpos até encontrar um vivo e então devorá-lo tão feroz e 
completamente quanto possível, deixando o sangue escorrer por seu queixo.” Por ora, 
achei melhor desistir da leitura e beber uma garrafa de vinho. Amanhã retomo. 
Como estou tremendo de leve, até usar o saca-rolhas foi um desafio. (C.1.)

H.c.

18/05 – 8h45
[Atende ao meu clamor; porque estou muito abatido. Livra-me dos meus 
perseguidores; porque são mais fortes do que eu. Salmos 142:6]
Ressaca. Quero morrer. A mera visão da capa de Transformer agora me aterroriza.
Li alguns parágrafos ainda na cama, sentindo uma sede infernal, até que de
repente PÁÁÁÁÁÁÁÁÁ: “Alguns acreditam que sem John Cale 
o Lou Reed que se tornou uma lenda não teria nascido”. Quando me dei conta, estava me 
arranhando e gritando fininho. 
Fui até o banheiro beber água direto da torneira.
Aproveitei e joguei um pouco no rosto. 
Vou continuar a leitura amanhã. (C.1.)

C.2.

Quem espera encontrar algum rigor em Transformer vai se decepcionar ainda nos primeiros parágrafos. Não há referências assinaladas. A retórica é de uma cretinice exuberante. Diversos trechos são contraditórios, sem que a contradição esteja, como poderia ser o caso, ligada à figura mutante do biografado. Lou Reed é apresentado como uma pessoa manipuladora, cruel e delirante. Em parte, a imagem desagradável se deve ao personagem que o próprio artista tentou fabricar para si. Por outro lado, a maneira como Bockris manipula as informações ao conduzir a narrativa de Transformer — na verdade, a forma que se sobressaiu quando optou por emendar um boato no outro — serve antes para distorcer do que para deixar mais nítidas as constantes transformações de Lou Reed. (H.d.H.e.H.f.C.4.)

H.d.

19/05 – 18h30
[Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; 
todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado sobre mim. Salmos 42:7]
Sigo com uma dor de cabeça fenomenal. A cada frase que leio ela lateja mais. 
Na leitura de hoje Bockris: 
* chamou Lou de “maníaco egocêntrico”
* disse que sua mente era “esquizofrênica”, termo que nenhum autor sério empregaria, 
a menos que o biografado realmente sofresse de esquizofrenia. 
Sinto um desconforto que ameaça se tornar desespero.
Vou me controlar.
Minha dor de cabeça só piora. (C.2.)

H.e.

20/05 – 13h
[Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? 
Salmos 42:11]
Bockris acha que o “principal talento de Reed ao longo de 
sua careira [foi] encontrar o colaborador certo na hora certa”. Quem se importa
com o que o filho da puta do Bockris acha? Ele é tão toupeira que faz
questão de destacar que Lou não tinha “o carisma de Bowie ou Jagger”.
E quem nasceu pra ser Lou Reed por acaso precisa de carisma?
O carisma é superestimado. (C.2.)

H.f.

21/05 – 23h20
[Não porei coisa má diante dos meus olhos. Odeio a obra daqueles que se desviam; 
não se me pegará a mim. Salmos 101:3]
Na cama. Ciático. 
Um cretino não especificado diz que Lou Reed “nunca superou a ideia de não ser Mick Jagger 
ou David Bowie”. (Ondas de dor.) “Lou não tinha uma boa performance” e nem “uma voz boa”, 
apenas “um culto de pessoas que apreciam e amam seu trabalho.” 
Acho que ele se refere ao que chama de “um público devoto, porém maníaco”. Néscio.
Preciso me deitar. Pontadas de dor sobem pelas minhas costas e descem pelas pernas. (C.2.)

C.3.

Verdade seja dita, boa parte do livro se apoia em fofocas. Só os mais ingênuos diriam que o autor de Transformer reuniu “entrevistas”. Um comentário ferino não raro é atribuído a “um amigo” ou “um conhecido” não identificado de Lou Reed, ou então a “um observador”. O artifício de Bockris parece muito semelhante ao daqueles tipos que, numa tentativa de desabafar ou pedir um conselho, relatam algo constrangedor que se passou com “o amigo de um amigo”, “o vizinho” ou “o primo”. Não creio que Bockris tenha inventado alguma das declarações, mas o fato é que elas têm a mesma credibilidade dessas manobras infantis — e, se formos mais longe, é possível que o expediente sirva para reforçar a visão particular de Bockris, de modo que são seus interlocutores, e não o contrário, que corroboram uma opinião negativa sobre Lou Reed. (C.1.O.I.O.III.)

O.I.

Será que estou disposta a acreditar apenas naquilo que se encaixa na minha concepção de Lou Reed, rejeitando, assim, a maior parte das declarações não elogiosas? Sem dúvida. Todo o diário de leitura brinca com essa tendência. Entretanto, e isso tem a ver com boa parte dos artistas que admiro, ou pelo menos com aqueles cuja relação entre vida e obra é muito estreita, eu não gostaria tanto de Lou Reed se ele fosse ou quisesse se tornar um modelo de virtude. Modelos de virtude — exceto, como no caso de David Foster Wallace, quando reconhecem a probabilidade de vir a falhar — não me interessam muito. É claro que a hagiografia que agradaria aos fãs tampouco seria uma biografia séria, como Transformer de fato não é. Como sempre, o paraíso, tão difícil de ser alcançado, é o meio-termo. (C.3.)

C.4.

Transformer apresenta uma pesquisa básica, nada além disso. A Wikipédia fornece os mesmos dados. Está tudo lá. A gravadora para a qual Lou Reed escrevia letras banais num processo quase mecânico. O primeiro single, “The Ostrich”, que fez com que a mesma gravadora, que só produzia áudios, montasse uma banda às pressas. O encontro de Lou Reed com John Cale. E então a chegada de Sterling Morrison e Moe Tucker. No começo, o VU tocava com o nome de Warlocks, o mesmo utilizado por um incipiente Grateful Dead, banda que Lou, aliás, detestava. O resto é bem conhecido. A parceria com Andy Warhol. A introdução de Nico, imposta pelo próprio Warhol. O choque do público. Os desentendimentos. A dissolução. Segue-se a carreira solo de Lou Reed mais ou menos desde Transformer, o álbum produzido por David Bowie. A evolução descrita ao longo das páginas seguintes está disponível em um sem-número de fontes. Nada é aprofundado, e por dois motivos bem simples: (a) o interesse principal de Bockris é crucificar Lou Reed e (b) é mais do que provável que falte a Bockris a aptidão necessária para situar Lou Reed e sua obra em um panorama mais amplo. (C.2.O.II.O.V.)

O.II.

As raras idas da minha mãe à missa de domingo não eram senão uma tentativa de aplacar a aflição da minha avó, que achava que uma ou outra liturgia talvez pudessem redimir uma mãe solteira, mesmo uma com aquela estampa, com aqueles modos e com aquele vocabulário. Minha mãe então se arrastava até a igreja, ainda que faltasse um bocado de convicção ao fingimento. Ela debochava de tudo. Tentava rir em silêncio, mas volta e meia deixava escapar um guincho que levava alguém a virar o pescoço e encarar aquela mulher magra com um corte de cabelo duvidoso e orelhas grandes demais. Era óbvio até para mim que a minha mãe não acreditava em nada daquilo. De camiseta e jeans desbotados, ela sentava no banco de madeira como se estivesse assistindo a um jogo do Grêmio no bar do Milton. Só faltava a cerveja, que minha avó provavelmente vetava.
Saindo da missa com a sensação de dever cumprido, ela estourava Lou Reed no som péssimo do carro, cantando “I Love You Suzanne” de um lado e pneus de outro, agora sim, depois de cumprir a obrigação semestral, livre. As distorções da guitarra abafavam os sons da indignação da minha avó, que, verdade seja dita, e apesar de detestar aquela música, até se divertia, mas fingia que não. Eu sentava no banco traseiro e fazia uma pergunta besta sobre o que quer que estivesse tocando, o que era a deixa para a minha mãe começar um discurso. Se a angústia da minha avó parecia milagrosamente aplacada pelo sermão do padre, o que deixava minha mãe de bom humor era o próprio sermão sobre o Berlin ou o Blue Mask. Fiz as conexões óbvias. O padre com seu manto bem poderia ser a “Venus in Furs”. Lúcifer era Nico cantando “I’ll Be Your Mirror”. E por que não entoávamos “Heroin” ao comungar? Depois de um tempo, um tempo não muito longo, entendi que minha mãe não só era devota como não escondia a devoção. Deus existia, e era o Lou Reed. (C.4.)

C.5.

Em O resto é ruído, uma espécie de história musical do século passado, o crítico Alex Ross atribui um peso considerável ao VU. Victor Bockris não nega a importância da banda, mas tudo o que consegue fazer é repetir chavões. Ross escreve que o som do VU tem “um afeto estável e não sentimental” e menciona as dissonâncias que “saturam o campo de tempos em tempos, deixando o ouvinte com a incômoda sensação de que aquelas saudosas canções estavam sobrevivendo aos caprichos de uma autoridade cruel”. É certeiro, e também é original. O conteúdo de um livro como o de Ross — capaz de explorar e explicar todo um cenário em constante mutação e intercâmbio — forma um contraste grotesco com o de Transformer(C.6. • C.9. • O.III.)

O.III.

Então não é só o fato de que não se pode, a partir da segunda metade do século passado, falar de música sem falar de Lou Reed/do VU. Uma coisa é reconhecer a importância de um artista. Outra, diferente, é desenvolver um afeto pela obra, o que, acho, passa pela ação, sempre repetida, de fundir ou relacionar a tal obra com a própria vida. É o exercício de ler/ouvir/assistir algo com regularidade e de retirar algum sentido particular desse algo e de tornar esse algo um emblema de algum tipo. Pode parecer uma distinção capenga — que dá muita margem para uma discussão sobre até que ponto intelectualizamos ou deixamos de intelectualizar nossas preferências —, mas sempre acreditei nisso.
Seja como for, quase não ouvi Lou Reed na adolescência — só por tabela, quando a música que saía do aparelho de som da minha mãe era alta demais, o que acontecia com certa frequência. Eu ouvia coisas que ela considerava horrendas, em especial Green Day e Blink 182 e umas bandas gaúchas. É evidente que precisei descobrir Lou Reed por conta própria, estabelecendo uma relação pessoal com a música e a poesia — influenciada, é claro, pela relação dela, mas animada por um ritmo próprio. Desde então, Lou Reed está ligado a todos os medos e a todas as alegrias e a todos os prazeres e a todas as angústias a todos os fracassos. Há uma letra de Lou Reed para cada situação: epígrafe, gotas de sabedoria, oráculo, mantra, Lou, Lou, Lou, Lou, Lou. Ao lado de Philip Roth, Lou Reed é outro artista cuja obra completa eu revirei e repassei e remexi (do meu jeito particular e errático, mas estou bem assim). (C.3. • C.5.)

C.6.

Bockris, que nasceu em 1949, não é exatamente um novato.
Ele conheceu Lou Reed na década de 1970.
Não só trabalhou com Andy Warhol como também escreveu sobre o artista.
Já publicou um livro sobre o VU.
Ajudou John Cale a elaborar sua autobiografia.
Patti Smith e Keith Richards, além do escritor William Burroughs, estão entre seus biografados.
Nada disso, no entanto, ajuda a conferir alguma legitimidade a Transformer. Basta dizer que as músicas/letras não ocupam o primeiro plano, nem o segundo, nem o terceiro. O que marca a evolução de Lou Reed são as polêmicas, todas mais ou menos conhecidas: as drogas, as saídas das gravadoras, os inúmeros desentendimentos e rompimentos, os relacionamentos conturbados, os altos e baixos nas vendas, a bissexualidade, o visual em constante transformação. A grande maioria das análises da produção de Lou Reed foi extraída de críticas veiculadas em algum jornal norte-americano de peso.
É claro que uma biografia deve se ocupar com os principais fatos da vida de uma personalidade, mas, no caso de Lou Reed, isso está direta e indiretamente (dependendo do trabalho em questão) ligado à obra. De mais a mais, Lou é uma peça-chave em uma engrenagem muito maior. O crítico Alex Ross ressalta que, no século vinte, “a vida musical se desintegrou em uma infinidade de culturas e subculturas, cada uma com cânone e jargão próprio”. Tudo isso passa pelo VU. Existe um antes e um depois do VU. E Bockris, parecendo aliviado, negligencia cada aspecto que mereceria atenção, tanto do detalhe quanto do todo. (C.5. • C.10. • O.IV.)

O.IV.

Penso no diz o norueguês Karl Ove Knausgård em Uma temporada no escuro:
“E mesmo que eu saiba muita coisa a respeito do vocalista, mesmo que eu já tenha lido pilhas de entrevistas com ele, […] esse conhecimento é empurrado para longe da música, a música não quer saber disso, porque na música não existe um significado, não existe um sentido, não existem pessoas, mas apenas atmosferas, cada uma delas com uma característica própria, como se elas fossem caracterizadas simplesmente por ser aquilo que são, cultivadas sem corpo nem personalidade, ou melhor, como uma espécie de personalidade desprovida de pessoa, e em cada disco existe um número interminável dessas impressões de um outro mundo, que ressurgem cada vez que o disco é tocado.”
Fico, em um primeiro momento, inclinada a concordar com Knausgård. Mas aqui entram duas coisas: a) a escrita de Lou Reed, impossível de ser ignorada, que torna suas músicas ainda mais poderosas e b) a tendência de Lou Reed, não que seja uma regra, e não que isso seja tão fácil de determinar, de produzir letras autobiográficas. Talvez a lógica que envolve gostar de Lou Reed seja mesmo diferente. (Ironicamente, é semelhante à de Knausgård, que também escreveu sobre a própria vida, e que também, felizmente, reconhece que a busca pela virtude persiste, mas vai falhar.) (C.6. • C.7.)

C.7. 

“Mas um disco pode ser como um romance”, dizia Lou Reed. Ele queria “pegar Crime e castigo e transformar em uma canção de rock”. Boa parte daquilo que fez a fusão Reed-Cale funcionar foi o fato de que Cale, embora sua formação musical fosse superior, não tinha tanta facilidade para compor.
Tanto quanto pelos músicos que o precederam, Lou Reed foi influenciado por John dos Passos, e. e. cummings e Edgar Allan Poe, além, é claro, dos beats. David Bowie via Lou Reed como “o escritor de rock mais importante do mundo”. No geral, embora envolvam a elaboração de cenas e diálogos fictícios, as canções de Lou são espetaculares exercícios de poesia confessional. Portanto, não deixa de surpreender a completa ausência de análises das letras. No final do livro, num apêndice acrescentado depois da morte do artista, Bockris observa que “as letras [de suas músicas] nos levam pelas transformações que Lou atravessou em sua vida”. Quando notou esse fato, descobriu “uma vida que Lou gravara em detalhes íntimos”. E que ficou de fora de Transformer(C.8. • C.11. • O.IV.H.g.)

H.g.

22/05 – 10h
[O que usa de engano não ficará dentro da minha casa; 
o que fala mentiras não estará firme perante os meus olhos. Salmos 101:7] 
Lou Reed teria traído BRUTALMENTE “o homem que havia lhe 
oferecido seu lar e o apresentado a um mundo do qual ele tinha apenas se beneficiado”. 
Quem seria o homem? JOHN CALE.
Aí pra meter o dedo na ferida o Bockris vai lá e pergunta se 
o John Ninguém-Conhece-Uma-Puta-De-Uma-Música-Minha Cale tem algum ressentimento.
“Quanto a ressentimento, não sei”, diz Cale.
AAAAAAAAAAHHHHAHAHAHAHAHA.
JAHAHAHA´
Vou sair para ler num banco da praça. (C.7.)

C.8

Transformer foi publicado originalmente em 1994. Depois da morte de Lou Reed, ocorrida em 2013, Victor Bockris acrescentou uns poucos capítulos ao livro. O amadurecimento é visível, assim como a nova disposição do autor em relação ao biografado. É como se estivéssemos diante de outro Bockris — um Bockris que não apenas compreende a necessidade de manter a obra em destaque como arrisca algumas interpretações próprias, ainda que capengas. A idiotia da retórica depreciativa, no entanto, é substituída pela idiotia da retórica sentimentaloide. A descrição de uma apresentação de Lou Reed em Dresden é tão cafona que chega a ser constrangedora. (C.7. • C.12. • O.V.H.h.)

O.V.

O que me atrai na figura e na obra de Lou Reed é, por mais esquisito que pareça, seu senso de humor. “Sou o maior piadista do mercado”, ele disse certa vez. “Mas há algo por trás de cada piada.” Lou tem tiradas excelentes. “Hoje em dia eu quase nem saio mais, exceto para ir à loja de bebidas.” “É muito chato ser o melhor show na cidade.” “O que há de errado com piadas baratas e sujas? Vá se foder, nunca disse que tenho bom gosto. Não tenho bom gosto.” “Minhas expectativas são muito altas… ser o maior escritor que já viveu neste mundo de Deus. Em outras palavras, estou falando de Shakespeare, Dostoiévski.” (Impossível não amar Lou Reed.) “Eu acredito em tudo com moderação — inclusive a moderação.” (Todas as citações foram retiradas de Transformer.) E há muito humor na obra de Lou Reed. Como nota a crítica de Sean O’Hagan ao álbum New York, com comentários do próprio Lou: “Nesse contexto repleto de ruína, você fica se perguntando por que New York é, às vezes, um disco tão hilário. ‘Bom, eu fico contente que você tenha percebido isso. As pessoas dizem ‘Ah, Lou está só reclamando e deprimindo todo mundo’, elas não estão entendendo’”.
Basta pegar uma música como “Waves of Fear”, por exemplo, do álbum Blue Mask. Ela fala sobre crises de angústia, de pânico, até. No meio de toda a atmosfera lúgubre, Lou usa um tom maroto para cantar: “Estou amedrontado demais para usar o telefone/ Estou amedrontado demais para acender a luz/ Estou com tanto medo de ter perdido o controle”. De forma violenta, ele então volta para o registro doentio. A letra é toda ela terrível, mas o riso está espreitando ali na esquina. (C.4. • C.8.)

H.h.

22/05 – 13h
[Já estou cansado do meu gemido, toda a noite faço nadar 
a minha cama; molho o meu leito com as minhas lágrimas. Salmos 6:6]
Um pouco cambaleante, desisto de andar de volta para casa 
e sento no meio-fio. Na passagem que acabo de ler, 
Bockris atribui uma importância surreal à entrevista que Lou Reed concedeu à 
recém-criada revista Punk, dizendo que, se não fosse por ela, “sua careira poderia 
muito bem ter entrado no declínio que estava prestes a entrar”. 
Haja estômago para ler o que disseram os dois moleques que entrevistaram 
Lou na ocasião. 
“Eu achei Lou chato pra cacete.” 
“Eu queria conversar sobre cheesburguer, era tudo o que tínhamos em comum.” 
Aí realmente não dá.
Lou, segundo um dos caras, “fez todos se sentirem estúpidos”. Me parece bastante
natural. Tudo indica que os dois não precisavam de muito incentivo para que a estupidez, 
digamos, AFLORASSE. 
“De alguma forma tínhamos sido corrompidos para sempre”, dizem eles 
a respeito da entrevista com Lou. 
Se não fossem pela duplinha maravilha, diz Bockris, ESSE GÊNIO DAS BIOGRAFIAS, 
Lou “teria se tornado outro Elton John, esquecido”, e, no entanto, 
“se tornou padrinho do punk e isso ressuscitou sua carreira”. 
Precisei me segurar numa moita para tentar não desabar na calçada. 
Desabei e levei a moita junto.
Sinto tudo dentro de mim apodrecer. 
De alguma forma, fui corrompida para sempre. (C.8.)

C.9.

Em relação à rusga Lou Reed x John Cale, não existe nenhuma dúvida quanto ao partido que Victor Bockris toma. A preferência por Cale é gritante. Cale seria um músico melhor. A trajetória da carreira solo de Cale seria superior à de Lou. Cale seria uma pessoa mais equilibrada, mais generosa e mais criativa. Cale não teria iniciado a briga, que foi, ao invés disso, desencadeada e prolongada pelo mau gênio de Lou Reed. (C.5. • C.13. • H.i.)

H.i.

23/05 – 20h
[Já os meus olhos estão consumidos pela mágoa, 
e têm-se envelhecido por causa de todos os meus inimigos. Salmos 6:7]
Mas É ÓBVIO que o palhaço acha os discos solo do John Cale
melhores que os do Lou. 
Citando um crítico: “Ao contrário de boa parte do trabalho recente de Reed, a música 
de John Cale nunca é rala ou eufemizada, nem desnecessariamente sombria. É o tipo de 
música que deixa orgulhosa a tradição do Velvet Underground, e isso é algo pra se 
estar à altura”.
FICA À ALTURA DO MEU DEDO MÉDIO, FILHA DA PUTA
PELO AMOR DE DEUS
QUEM É QUE ASSINA O SPOTIFY E DIZ OOOOOOOOLHA TEM JOHN CALE QUE BOM
QUEM É QUE ABRE O YOUTUBE E DIGITA J-O-H-N C-A-L-E NA BUSCA PRA VER O JOHN CALE ZURRAAAANDOO
QUEM É QUE DIZ ESTOU ESCUTANDO JOHN CALE COMO É EXCELENTE
QUEM É QUE DIZ ESSA MÚSICA DO JOHN CALE É A MÚSICA DA MINHA VIDA
QUEM É QUE SABE DIZER O NOME DE UUUUMA PUUUUTAAAAA DE UMA MÚSICA DO JOHN CALE
NINGUÉM
NINGUÉM
NINGUÉM
NINGUÉM
NINGUÉM
NINGUÉM
LIGA
PRO
ARROMBADO
DO
JOHN
CALE
SAI CALE
URUBUZÃO 
EU FICO LOUCA COM IS (C.9.)

C.10.

É irônico que Transformer seja uma das biografias mais moralistas que já li. Na primeira e maior parte do livro (aquela escrita antes de 1994), Bockris e seus interlocutores não apenas julgam como condenam Lou Reed. Da forma como a coisa toda foi estruturada, não há chance de defesa. Nos capítulos acrescentados depois da morte do músico, Victor Bockris se esforça para sublinhar o quanto Lou evoluiu ao longo do relacionamento com Laurie Anderson. Bockris deveria saber que não é tarefa do biógrafo tentar apontar o certo e o errado nas escolhas do biografado. (Boa parte dos obituários de Lou Reed, incluindo alguns veiculados em jornais brasileiros, também acharam de bom-tom julgar o músico. Um dos mais canalhas, publicado no portal R7, disse que o artista “talvez tenha vivido mais [do que seria] moralmente aceitável, considerando os muitos que inspirou a fazer merda também”.)
(C.6. • C.11. • C.14.)

C.11.

Durante boa parte da carreira de Lou, em especial na segunda metade da década de 1970, o público parecia gostar de acompanhar sua decadência, contanto que ela rendesse explosões de raiva ou colapsos em shows e entrevistas — o que parecia um bom entretenimento. Também esse extremo é pavoroso. O talento de Lou Reed não depende das drogas e do comportamento agressivo, mas tampouco pode ser dissociado disso tudo. (C.7. • C.10. • C.15. • N.)

C.12.

“Os obstáculos são os sinais ambíguos frente aos quais uns se desesperam, outros entendem que há algo a entender. Mas existem os que nem mesmo os percebem”, escreve Paul Valéry num ensaio sobre Edgard Degas. Bockris certamente pertence ao terceiro grupo. Ele não foi capaz de compreender o desafio enorme que tinha diante de si. Fixado numa opinião pessoal — e muito pequena, naturalmente —, ignorou a envergadura do artista Lou Reed. Longe de criar as condições necessárias para unir o personagem ao ser humano, é como se Bockris fizesse o oposto disso, estendendo uma cortina de fumaça de fofocas de comadres. Bockris trabalhou não com a dimensão real de Lou Reed, mas com uma dimensão reduzida, como se ao diminuir sua figura pudesse torná-la abarcável e compreensível. Não conseguiu. Tentou medir um gigante com a pobre régua defeituosa e minguada. (C.8. • C.16. • H.j.)

H.j.

23/05 – 21h53
[Envergonhem-se e perturbem-se todos os meus inimigos; 
tornem atrás e envergonhem-se num momento. Salmos 6:10]
Banheiro, chão frio, oitavo ladrilho a contar da porta. Posição 
fetal. Já aprendi como Bockris opera, de modo que nada deveria me chocar, mas 
choca. “Street Hassle”, a faixa, só é boa porque contou com a participação do 
Bruce Springsteen. Nada contra o Bruce Springsteen, inclusive tenho amigos que 
etc., mas existe um limite para a blasfêmia. Não pude evitar a onda de náusea. 
Trouxe o livro para o banheiro. Considerei arrancar folha por folha com os dentes, 
mastigar, cuspir na privada e puxar a descarga. Com esforço, li mais algumas linhas. 
Ainda estava um pouco tonta, mas logo entendi que, de acordo com Bockris, 
Lou só conseguiu publicar seus poemas porque contou com a ajuda do Gerard Malanga. 
Outra onda de náusea, dessa vez mais forte. 
Não sei se vou conseguir levantar daqui um dia. (C.12.)

C.13.

O capítulo mais tolerável do livro descreve o período de Lou na Syracuse University. Com chuva e neve constantes, o lugar “provavelmente inspiraria contemplação poética ou loucura depressiva”, ou seja, era “um pano de fundo perfeito para o estilo de vida beatnick”. É nesse cenário que Lou Reed encontra Delmore Schwartz, poeta retratado em um romance de Saul Bellow (O legado de Humboldt), e a quem o VU dedicou a música “European Son”. Alguns trechos não são maus. É interessante ler sobre o programa de rádio de Lou na Syracuse, que alguns achavam “uma cacofonia horrenda”, e que já mostrava as influências que se manifestariam tanto nos álbuns do VU quanto nos da carreira solo de Lou Reed. Verdade seja dita, as melhores partes do livro são as declarações do próprio Lou, que começam a ganhar força aqui. “Eu costumava ir para lá beber sozinho, brindando a tudo que se perdera naquela semana”, diz ele sobre um bar local. (C.9. • C.14. • H.k.)

H.k.

24/05 – 19h
[E esqueceram-se das suas obras e das maravilhas que lhes fizera ver. 
Salmos 78:11]
Achei que seria uma boa ideia ler no café da esquina. Vejo que não. 
Na volta, as árvores balançavam demais e eram verdes demais 
e me veio uma sensação de irrealidade. 
Mal recordava o caminho.
Cheguei com a roupa suja de lama e um arranhão no braço.
“Contudo, amigos que o conheceram bem durante o final dos anos 1970 e 
começo dos anos 1980 [...] acreditavam que ele fosse gay, mas, 
como vinha do mundo dos anos 1950, no qual as pessoas desprezavam 
as bichas, Lou também desprezava as bichas e odiava ser uma bicha”. 
Não consigo mais escrever. Sinto que meus olhos estão vidrados. (C.13.)

C.14.

As declarações da namorada de Lou na Syracuse, Shelley Albin, são as mais contraditórias. Menciono o fato porque Bockris afirmou, em entrevista publicada recentemente na Folha de S.Paulo, que Albin é sua principal fonte de informações no que diz respeito à juventude de Lou. O que mais impressiona é que Shelley parece ter gastado anos editando o próprio relato.“Se você olhar para trás para ver quem dominava a relação, vai descobrir que não era ele”, diz. Para alguém que dominou a relação, ela guarda um bocado de rancor. Quando se domina a relação, aliás, não faz sentido acusar a outra pessoa de ser manipuladora. Na passagem em que relata a visita à família de Lou, ela diz que “[tudo] parecia bastante normal, [de maneira que] Lou sentia-se impelido a criar um psicodrama para alimentar sua escrita”. Bockris, que não obstante abriu Transformer com o episódio dos eletrochoques patrocinados pelos gentis pais de Lou Reed, não contesta essa avaliação. Shelley garante nunca ter usado drogas. Shelley se refere a si mesma como “essa pequena flor do Meio-Oeste”. Shelley diz que Lou Reed “foi um merda” e “um bosta”. Bockris se cala. (C.10. • C.13 C.17.

C.15.

Em certos trechos, por exemplo, Bockris parece não ter a menor ideia do que está dizendo. Na página 23: “As décadas em que [Lou Reed] cresceu, os anos 1950 e 1960, foram caracterizadas pela inconsciência e pela segurança da classe média”. Depois, na mesma página, citando o historiador Richard Aquila, Bockris observa que “o medo dos adultos e relação ao rock provavelmente diz mais sobre a paranoia e a insegurança da sociedade americana dos anos 1950 e início da década de 1960”. As duas descrições são verdadeiras, mas dizem respeito a esferas distintas. Bockris, porém, não comenta ou sublinha a suposta contradição. As tensões do período são completamente ignoradas.
Em outra passagem, assinalando as diferenças de temperamento entre Lou Reed e o poeta Delmore Schwartz, o sujeito diz que Lou “possuía uma capacidade maravilhosa de sentir alegria pura”. Poucas páginas depois, Lou é descrito como alguém que “se ressentia [de] toda a situação de estar vivo e não queria que ninguém mais se divertisse, já que ele não conseguia”. Não é uma oscilação de humor do músico, o que seria mais do que esperado. É uma inconsistência gritante no texto de Bockris. (C.11. • C.16 • C.18. • H.l.)

H.l.

25/05 – 14h20
[Quantas vezes o provocaram no deserto, e o entristeceram na solidão! 
Salmos 78:40]
“Um pequeno fato que Sylvia deixou de mencionar a Lou quando o conheceu foi 
que ela tinha recentemente passado uma noite inesquecível 
com John Cale.” 
Lou é o filho da puta dominador. 
John Cale é o que proporciona a noite INESQUECÍVEL. 
MAS SERÁ POSSÍVEL?
É ÓBVIO QUE UMA NOITE COM O JOHN CALE É INESQUECÍVEL
PORQUE É TRAUMÁTICA
ARROMB (C.15.)

C.16.

Penso na ausência de rigor de Transformer. Seria uma maneira de subestimar o leitor da biografia? Talvez Bockris, fazendo uma imagem errada do futuro leitor, tenha preferido não tornar o livro maçante para o sujeito — esquisitão, negligente, relapso — que gasta dinheiro com um livro que conta a vida de um roqueiro. Mesmo o biografado não merece consideração. É apenas um roqueiro porra louca, certo? Essa percepção já não faz o menor sentido, graças, aliás, à intervenção de Lou Reed iniciada na década de 1960. E quem compraria um livro sobre Lou Reed senão os fãs de Lou Reed? O próprio artista disse certa vez que nunca compôs para adolescentes de catorze anos. O público de Lou Reed é, em geral, meticuloso, e raramente menos do que insuportável, como Bockris reconheceu na passagem que abre este texto (e da qual, aliás, não discordo). (C.12.C.15 • H.m.)

H.m.

26/05 - 15h43
[Com tudo isto ainda pecaram, e não deram crédito às suas maravilhas. 
Salmos 78:32]
Hoje acordei com tanta dor no corpo que estou andando curvada.
Não saí de casa.
Vejo que um """"amigo"""" diz que o Lou "não conseguia assumir a responsabilidade por 
sua vida e seus erros, então passava muito tempo tornando-os responsabilidade 
de outras pessoas". Lou "precisava de um psiquiatra". Outro """"amigo"""" diz que "Lou 
era uma pessoa doente" e "uma pessoa má".
 (C.16.)

C.17.

Lou Reed criou muitos personagens ao longo da carreira. Falar em uma obra autobiográfica é ver o termo com desconfiança, ou pelo menos com as nuances que ele merece. É muito difícil, na postura de Lou Reed, identificar o que é pose e o que é genuíno, se é que ele mesmo (o que eu duvido) tenha tido noção dessa fronteira. Na maior parte das vezes, porém, Lou Reed ignorava os fãs e desprezava a crítica. Também desconsiderava os anseios da gravadora e dos produtores. Fazia o que bem entendia. Quanto menos ligava para a opinião dos outros, menos o disco vendia. Ele chegou a dizer que, se não tocasse e nem compusesse e não fosse citado ali e não aparecesse de modo algum, o álbum venderia milhares de cópias. Nesse sentido, o trabalho de Lou é, sim, autêntico, na medida em que ainda é possível usar essa palavra. Mesmo os álbuns considerados “comerciais” têm essa característica. Mas o que é estático aí, se algo for de fato estático? O que permaneceu de todas as transformações ocorridas ao longo dos anos? Bockris nem tenta se aproximar da solução desse enigma. (C.14.C.18 • H.n. • H.o.)

H.n.

27/05 – 18h30
[Lançou sobre eles o ardor da sua ira, furor, indignação, 
e angústia, mandando maus anjos contra eles. Salmos 78:49]
“Talvez ele se preocupe com as massas. Digo, talvez Stálin fosse assim, 
talvez não tivesse nenhum amigo, mas realmente amasse as pessoas!”. 
Li essa comparação numa mesa de canto no café da esquina.
Cuspi um pouco na página, mas discretamente.
Desde então, não me recuperei. Quando ia saindo do café — levantei e guardei o 
livro na bolsa, ajeitei o lenço para encobrir os arranhões que eu mesma fiz 
no meu pescoço num momento de desespero sobre o qual não quero comentar — notei 
que comecei a puxar a perna esquerda. Ela não responde 
normalmente. Agora preciso arrastar a perna atrás de mim. (C.14.)

H.o.

29/05 – 20h
[Preparou caminho à sua ira; não poupou as suas almas da morte, 
mas entregou à pestilência as suas vidas. Salmos 78:50]
“No rock, as décadas peneiram os perdedores sem piedade”, diz o palhaço do Bockris. 
Ele se refere ao que QUASE aconteceu com o Lou.
Não sei por que ainda me preocupo. Leio isso e começo a suar frio. 
Minha perna não melhorou. (C.17)

C.18.

Uma das passagens mais desonestas de uma biografia que se destaca pela desonestidade é a reprodução de uma entrevista de Johnny Rotten (ou Johnny Lydon), dos Sex Pistols. Segundo ele, Lou Reed e suas músicas foram responsáveis pela morte de Sid Vicious, também dos Pistols. Bockris não comenta a declaração. Outro depoimento ignorado por Bockris é o de Glenn O’Brien, em que este afirma que Lou se afastou de Warhol porque sentia que “precisava se vingar, [uma vez que] Andy o forçara a se apaixonar por uma travesti”. Ele se refere a Rachel, que inspirou a maravilhosa “Coney Island Baby”. Depois, comentando as brigas por direitos autorais, John Cale diz que Lou “se tornou o negociante judeu que sempre [souberam] que ele era”. Mais uma vez, o que já não surpreende, Bockris prefere calar. Em outro trecho, descrevendo o enterro de Sterling Morrison, guitarrista do VU, Bockris se sai com essa: “Impossível saber se John Cale ou Moe Tucker achavam que Lou tinha contribuído para a morte de Sterling ao tratá-lo tão mal no palco durante a turnê de reunião”. Morrison morreu de câncer. É notável como o Bockris atribui (ou tenta atribuir) aos outros os próprios delírios. (C.15.C.17. • C.19 • H.p.)

H.p.

30/05 – 1h05
[As palavras da sua boca são malícia e engano; deixou de entender 
e de fazer o bem. Salmos 36:3]
"Os talentos que fizeram Lou Reed se destacar são os de escritor e colaborador." 
Não é possível. 
Falta de ar
MINHA BOMBINHA
BOMB (C.18)

C.19.

Quem coloca as coisas em perspectiva é a fantástica Janet Malcolm, um dos grandes nomes do jornalismo norte-americano. Em A mulher calada, uma espécie de metabiografia da poeta Sylvia Plath, Malcolm lança (como sempre) alguns comentários afiados. Segundo ela, o “voyeurismo e a bisbilhotice que motivam tanto os autores quanto os leitores das biografias são encobertos por um aparato acadêmico destinado a dar ao empreendimento uma aparência de amenidade e solidez”. Não há nada disso em Transformer. Aquilo que permite ao leitor enganar a si mesmo está ausente aqui, e por isso é tão difícil tolerar o livro. O biógrafo, segundo Janet Malcolm, “passa horas intermináveis consultando arquivos e bibliotecas, entrevistando pacientemente cada testemunha”, de modo que, “quanto mais o livro refletir sua operosidade, mais o leitor acreditará estar vivenciando uma elevada experiência literária e não simplesmente ouvindo mexericos de bastidores e lendo a correspondência alheia”. É um bom tapa de luva. Uma biografia dificilmente será uma elevada experiência literária, embora tenha potencial para tanto. As boas obras do gênero são a exceção, não a regra. (C.18. • H.q • H.r. • N.)

H.q.

05/06 – 21h41
[Ali caem os que praticam a iniquidade; cairão, 
e não se poderão levantar. Salmos 36:12]
Estou lendo aos poucos. Não sei se aguento até o fim. Hoje li
que o relacionamento de Lou Reed e Laurie Anderson "levou ambos a se tornarem artistas 
muito maiores do que eram quando se conheceram". Não existe salvação para Bockris, e 
saber disso me anima. Sinto, porém, uma severa taquicardia. E não só. 
No café da esquina, enquanto conferia quantas páginas faltavam para 
acabar Transformer, comecei a fazer uns ruídos estranhos. Foi involuntário. 
Saí arrastando a perna antes de atrair ainda mais atenção, emitindo uns
UÓÓNSNSN, e vi que algumas pessoas me olharam com certa pena. Um sujeito 
colocou uma nota de dois reais na minha mão e me desejou tudo de bom. 
Agradeci e comecei a chorar. (C.19.)

H.r.

06/06 – 16h25
[Porque por amor de ti tenho suportado afrontas; 
a confusão cobriu o meu rosto. Salmos 69:7]
Estou na farmácia medindo a pressão.
Não sei como transmitir o que li. 
Para Bockris (perdão, perdão, perdão, ayhahass~~gys), LuLu, em parceria com o Metallica, 
"é o melhor álbum que Lou já fez". Quando li essa frase, confesso que vi tudo preto. 
Saí do café às cegas, deitei no meio-fio e me agarrei ao que eu suponho que fosse um poste. 
Achei que minha hora tinha chegado.
Para duas senhoras que tentaram me ajudar, eu disse que a culpa era do calor. 
O termômetro marca exatamente sete graus.
Me arrastei até aqui. Dezenove por onze.
Não consigo escrever mais. (C.19.)

C.20.

As análises psicológicas que Bockris tenta esboçar são inacreditavelmente ruins. Em uma delas, ele afirma que Lou Reed via Andy Warhol como uma espécie de figura paterna — nada de errado até aí, uma vez que Lou claramente se inspirava em Andy e o considerava um mentor. Porém, ao descrever o afastamento dos dois depois de Warhol sofrer uma tentativa de assassinato, Bockris afirma que “figuras paternas não deveriam ser mortais, então Reed se distanciou do ferido Warhol”. É pavoroso. Em outra passagem, diz que toda a fragilidade emocional de Lou Reed estaria ligada “à confusa percepção que tinha de si próprio como um homossexual que queria desesperadamente ser hétero”. Para Bockris, Lou nunca deixou de ser “um garoto que sentia nunca ter recebido atenção suficiente de sua mãe”. (C.11. • H.s • H.t. • N.)

H.s.

07/06 – 23h55
[Tira-me do lamaçal, e não me deixes atolar; seja eu livre 
dos que me odeiam, e das profundezas das águas. Salmos 69:14]
Eu não tenho condições.
Eu não teria começado se soubesse/ Que acabaria assim. (C.20.)

H.t.

08/06 – 20h
[Bem tens conhecido a minha afronta, e a minha vergonha, 
e a minha confusão; diante de ti estão todos os meus adversários. Salmos 69:19]
Peguei Transformer para ler e meu nariz começou a sangrar no ato. 
Deixei um trilho de sangue no carpete bege enquanto me arrastava, puxando a perna
e urrando ferozmente, para o banheiro.
Desisti de ler. (C.20.)

C.21.

Trívia: no tempo em que frequentou Factory, Lou trocou a heroína pela anfetamina. “A canção mais famosa de Lou pode ser ‘Heroin’, mas a droga mais associada a sua imagem sem dúvida era a anfetamina”, escreve Bockris. De modo que o formato desta resenha não deixa de ser incongruente. (H.u. • H.w.H.v.)

H.u.

10/06 – 20h
[Afrontas me quebrantaram o coração, e estou fraquíssimo; 
esperei por alguém que tivesse compaixão, mas não houve nenhum; 
e por consoladores, mas não os achei. Salmos 69:20]
"LuLu é, na verdade, o maior autorretrato de L
´´'
~

H.w.

12/06 – 15h50
[Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre. Salmos 69:21]
Acordei com o lado direito da cara paralisado. Minha boca está ligeiramente torta e
só consigo abrir metade do olho.
De vez em quando a saliva escorre e limpo com a manga do blusão. 
Não tenho coragem de ler as últimas linha de Transformer. Preciso de uma bebida. 
Aqui vai a contagem regressiva/ Já deu deu deu, baby.

H.v.

16/06 – 16h30 
[Pois o inimigo perseguiu a minha alma; atropelou-me até ao chão; 
fez-me habitar na escuridão, como aqueles que morreram há muito. Salmos 143:3]
Waldo Jeffers tinha chegado ao seu limite. 
Cheguei ao meu, e foi constrangedor. 
Li a última linha de Transformer na pequena fila do caixa rápido do supermercado, 
onde entrei puxando a perna a fim de comprar uma garrafa de uísque. Só uma garrafa 
de uísque. Fiquei parada ali até que senti vertigem. Desabei, meu uisquinho se 
espatifando. Sorte que não paguei.
Comecei a espumar e a me debater enquanto velhinhas me cercavam. 
Perdia e recobrava a consciência. Cacos espetavam meu traseiro. Ouvi quando alguém 
chamou uma ambulância e também quando os socorristas chegaram. “PERDOAI”, eu dizia, 
revirando os olhos, a espuma branca escorrendo pela minha boca torta, meu corpo 
inteiro tremendo, “PERDOAI, LOU, ELES NÃO SABEM O QUE FAZEM!” Começaram os 
procedimentos de primeiros socorros. Fui carregada na maca 
enquanto urrava frases desconexas, e tudo porque, entre um lapso e outro, 
vi que um dos paramédicos havia recolhido meu livro e o levava debaixo do braço. 
“DEIXA AÍ! DEIXA ESSA MERDA AÍ!”, eu tentava berrar, porém enrolava as palavras
e engasgava com a espuma que saía em jatos da minha boca. 
Passei três dias no hospital, um e meio sedada. Assim que pude, joguei a biografia 
fora, desinfetando o lixo em seguida. 
Mas num dia muito quente o gato de Cheshire teve um derrame/ 
E ele fez oohh miau miau/ Oohh miau miau miau! 

N.

23 Comentários Quando acabar, é aí que acaba

  1. Simone Mello

    Não sou fã do Lou Reed, li porque era um texto seu e me diverti demais! Quando você acha que o site não pode ficar melhor, aí é que fica! Obrigada, Camila!!!

    Reply
  2. Caio Lima

    Eu já havia ficado abismado com a sua criatividade na resenha de Graça Infinita. Mas essa foi incrivelmente superior. E o mais interessante, para um livro que você não gostou! HAHAHA. Parabéns, Camila. Muito sucesso!

    Reply
  3. Fernanda Magrini Sinha

    Parabéns Camila, excelente texto! Sempre que leio um texto seu me pergunto o quanto a Filosofia te ajuda a produzir textos tão bons.

    Reply
  4. Ana Emília

    Camila, quando a gente acha que você não pode melhorar… Não conheço a fundo o trabalho dele, mas me diverti horrores lendo sua resenha.

    Reply
  5. Karlinne Souza

    Sempre passo por aqui. Saí do anonimato para dizer que seus textos são incrivelmente bons (o que não é novidade), mas dessa vez você se superou!!! Estou chocada com a maravilha dessa resenha! 🙂

    Reply
  6. Graça

    Obra-prima, Camila!
    Texto surpreendente, impecável, criativo, enriquecido por reminiscências e bom humor.
    Aplausos!!!!!!!!!!!!!
    Graça

    Reply
  7. Eron Medinger

    Finalmente tirei tempo pra ler com calma, que resenha maravilhosa! Quase tão boa quanto a de Não Há Lugar para a Lógica em Kassel.

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  8. Rejane

    Um texto à altura da genialidade do Lou. Tem que ter muito talento para elaborar um texto criativo e de qualidade a partir deste livrinho. Bom, pelo menos eu me diverti imenso lendo teu texto e tenho certeza que ele te rendeu boas gargalhadas. Grande trabalho, filha! Amei de verdade!

    Reply
  9. Tais Franciscon

    Comecei a acompanhar suas resenhas no ano passado e são todas surpresas maravilhosas. Essa ideia da representação da molécula de heroína foi sensacional, o resultado ficou incrível!! Obrigada!

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  10. Pingback: Os melhores (e os piores) livros de 2016 | Livros Abertos

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