Por que Alice Munro

Três livros de Alice Munro estão dispersos pelas estantes no momento em que a autora canadense leva o Nobel de 2013. Sinto vergonha por ter lido apenas um conto de um desses três volumes, que abandonei em seguida. Com algum remorso, numa tentativa de reparar o que pode ser uma falta, abro O amor de uma boa mulher. O livro, publicado originalmente em 1998, foi lançado em maio deste ano pela Companhia das Letras (tradução de Jorio Dauster).

Não preciso avançar muito para descobrir o que o crítico James Wood quis dizer com a expressão “vida animada” (lifeness), que designaria uma espécie de realismo e que, associada à escritora, faz todo o sentido: “a vida na página, a vida que ganha uma nova vida graças à mais elevada capacidade artística”. Evocando a habilidade de Munro, Wood escreveu que “os maiores realistas (…) são também grande formalistas”. Leio O amor de uma boa mulher em e-book e faço uma série de anotações em um caderninho — uma pausa para um rabisco apressado a cada mudança de página. O efeito causado pela prosa de Alice Munro é ao mesmo tempo sutil e poderoso.

Seus contos são assombrosos. E a leitura atenta de O amor de uma boa mulher ajuda a compreender o motivo pelo qual Alice Munro é tão elogiada pela crítica. Não poderia fazer outra coisa senão dar adeus à isenção ao falar sobre a autora. Quis colocar perguntas — como bonecas russas, elas saem umas de dentro das outras — que me parecem essenciais: por que é tão significativo ler Alice Munro? Por que Alice Munro pode fazer tanta diferença em uma série de percepções, da percepção estética à das questões de gênero? Por que Alice Munro? Por que logo Alice Munro? Por que, Alice Munro?

Talvez o mais fácil seja levantar características comuns às suas narrativas.

Mulheres.

O nome (no original, The love of a good woman) já adianta. No conto que dá título ao livro e em todos os que se seguem, Alice Munro coloca o feminino no centro do palco. Nenhuma de suas protagonistas é exatamente cordata, conformada e dócil. Atrelada aos comportamentos desafiadores das personagens, a essa nota dissonante que costuma acompanhá-las, Munro insere uma crítica implícita ao que há (ao que havia) de mais arraigado. Sua visão feminista, que não pode ser negada ou ignorada, é mordaz; uma vez que pertence a um narrador distanciado e analítico, o ponto de vista adotado é ainda mais perturbador. Enid, a protagonista de “O amor de uma boa mulher”, é uma enfermeira diligente e piedosa — mas nem por isso é vista, na acepção normalmente aceita, como uma boa mulher. Antes de morrer, o pai de Enid pede à filha que abandone a escola de enfermagem, que, segundo suas ideias, a poria em contato íntimo, e portanto inadequado, com os homens — e isso, é claro, afastaria um possível pretendente. (Mas não há maniqueísmo: longe de ser uma beata que se sacrifica pelo próximo, uma boa e abnegada mulher, Enid revela, à medida que a narrativa avança, um lado obscuro.) Em “Jacarta”, o segundo conto, uma das personagens parece avessa ao casamento e à maternidade, que abraçou como se abraça um destino inevitável e amargo. O mesmo pode ser dito, com certas ressalvas, da protagonista de “As crianças ficam”. Em “Podre de rica”, possivelmente o conto que demanda o maior esforço de interpretação — e que transcorre na época movimento hippie — a personagem principal é uma menina de dez anos que tenta arrancar a mãe, uma mulher sonhadora cujas experiências são vividas de forma mais livre, de um triângulo amoroso complicado e desgastante. De maneira perturbadora, a história mostra que a fragilidade e a submissão da mulher, mesmo em um relacionamento que foge inteiramente dos padrões convencionais, ainda é um comportamento com o qual as pessoas desejam poder contar — às vezes, por não disporem de outros modelos, as próprias mulheres se agarram a um já conhecido. (Foco no simbolismo do vestido de noiva.) A maioria dos contos se passa nas décadas de cinquenta ou setenta, ou em algum ponto entre uma e outra. Ainda que pouco tempo tenha transcorrido, algumas diferenças são palpáveis: casamento e filhos eram tudo o que se podia esperar; aquela que não pudesse ter nada disso, ou que o tivesse de modo distinto, seria estigmatizada. Munro ainda puxa outras questões. O problema da formação de uma identidade feminina, tal como formulado por Simone de Beauvoir, também está presente. É possível falar, ainda, em identidades femininas em confronto direto — mãe e filha em um primeiro conto, duas mulheres que flertam uma com a outra em um segundo. Em “Antes da mudança”, a narradora vivencia e se identifica com uma situação que os homens não têm como conhecer de todo, e que esbarra, entre outras coisas, na liberdade de escolha e domínio do próprio corpo. Em “A ilha de Cortes”, uma jovem que deseja ser escritora enfrenta problemas corriqueiros. Eis a pauta de O amor de uma boa mulher.

Dilemas morais.

Os dilemas morais estão voltados, em primeiro lugar, para questões tipicamente femininas — o que não quer dizer que se limitem a elas. “Todos naquela sala eram tão seguros de tudo! Ao pararem para respirar, simplesmente enchiam os pulmões com a mais pura virtude, a mais pura certeza”, ironiza Munro ao se referir a personagens de esquerda.

Guinadas.

As guinadas nas narrativas nem sempre são bruscas, mas definitivamente são inesperadas. Qualquer um acreditaria, ao ler as primeiras páginas de “O amor de uma boa mulher”, que o conto está tomando forma para então engrenar e seguir pelo caminho já aberto — o que, lógico, não acontece. Em uma das cenas iniciais, três garotos entediados encontram um cadáver num rio. O morto era conhecido na cidadezinha — é o sr. Willens, o optometrista —, e a constatação deixa os meninos agitados. A impressão que se tem, depois de algumas páginas, é a de que a narrativa girará em torno dessa descoberta e da investigação que ela inevitavelmente deve acarretar, sem se afastar dos envolvidos naquela cena tão chocante — o carro no rio, o corpo afogado —, que, de uma forma ou de outra, já constitui o argumento central do conto. Mas Alice Munro não vai pelo óbvio, e lá pelas tantas muda totalmente de estratégia e de tropa, e então está pronta para outro ataque, vindo de um lugar completamente inesperado. Munro dá um sumiço nos pré-adolescentes escandalizados e na confusa viúva do sr. Willens, e volta à carga com uma enfermeira solteirona. De que forma o primeiro núcleo encontrará o segundo é, até perto do final do conto, um mistério completo. Todas as histórias, na verdade, trazem um tipo peculiar de Deus ex machina. Não que as reviravoltas sejam mirabolantes ou totalmente aleatórias: são, isso sim, difíceis de antecipar. As derradeiras páginas de “O sonho de mamãe”, por exemplo, são das mais atordoantes (é impossível prever a saída que Munro encontra). Em sua estrutura interna, cada um dos contos que compõem O amor de uma boa mulher é como um punhado de blocos de montar pouco óbvios. Você vai encaixando as coisas com cautela e, quando restam apenas duas ou três peças, percebe que avaliou uma delas de forma equivocada, já que está prestes a encaixá-la num lugar errado, e em seguida descobre que ei, há mais uma peça aqui, e você tem certeza de que não a tinha visto antes, mas ela é essencial para completar o todo e talvez para mantê-lo de pé. É mais ou menos essa a sensação de ler uma narrativa de Alice Munro. Quando você acha que a história vai se desenvolver num certo sentido, a autora abandona o que estava fazendo e altera completamente o rumo dos acontecimentos. É claro que nada disso é gratuito, ou ninguém evocaria a genialidade de sua prosa — forma & conteúdo. Quando uma protagonista solitária está dirigindo seu carro a fim de escapar de um lugar suspeito — quando você acha que tudo o que ela tem é seu passado, sua tristeza e seu isolamento, e que vai continuar assim até o final, assim que sair daquele buraco horrível —, uma figura inusitada salta para dentro do veículo em movimento e muda a maneira como a história foi vista até então. O Deus ex machina de Munro pode ser uma garota com aparência de garoto.

Portas de entrada. Camadas.

As milhares de portas de entrada (janelas?) vistas em cada um dos contos dialogam com as tais guinadas imprevistas. Constituem, em outras palavras, fatos novos e inesperados que não chegam a alterar o rumo da trama, mas que estão lá. São detalhes, banais ou não, que Munro acrescenta aqui e ali. O fato é que alguns desses elementos da trama parecem simplesmente gratuitos ou acessórios — ainda que sejam acessos através dos quais é possível (re)interpretar e (re)definir a narrativa. Cada frase ou parágrafo de Alice Munro é um mundo à parte. Seus contos têm camadas — camadas compostas não só de cenas e descrições breves coladas umas nas outras, mas sobretudo pelas entrelinhas dos enredos, pela complexidade das situações e dos personagens, pelos problemas morais (sempre com infinitos prismas e de difícil solução) postos no centro e na periferia da narrativa.

Corriqueiro.

Alice Munro se vale do comezinho e acerta o leitor no meio da testa (é só lembrar da descrição de James Wood). Em uma passagem de “O amor de uma boa mulher”, Munro escreve: “E a preocupação que estampava no rosto talvez fosse a mesma de antes — o problema de ocupar espaço no mundo e de ter um nome pelo qual as pessoas podiam chamá-lo, de ser alguém que elas imaginavam poder conhecer”.

Descrições.

Uma passagem do conto “O amor de uma boa mulher” serve de exemplo: “O cabelo raro e ondulado era avermelhado ou cor de cobre no topo, e penteado de modo a cobrir parte da testa. As sobrancelhas eram mais escuras que o cabelo, grossas e felpudas como lagartas grudadas acima de seus olhos. Já antes se tratava de um rosto grotesco para eles, como eram os de muitos adultos, e não tinham medo de vê-lo afogado. Mas tudo que puderam ver foi aquele braço e sua mão pálida. Dava para ver a mão perfeitamente depois que se acostumaram a olhar através da água. Ela se movia trêmula e irresoluta, como uma pena, embora parecesse sólida como massa de pão. (…) As unhas eram carinhas bem-feitas, com seu ar corriqueiro e inteligente de saudação, apesar de se recusarem sensatamente a aceitar a situação em que se encontravam”.

Fôlego. 

Todos os contos começam bem e terminam de uma forma espetacular. É comum que os títulos se justifiquem apenas nas últimas páginas, como em “Jacarta” ou em “Salve o ceifador” — às vezes é revelado em uma altura intermediária, como em “A ilha de Cortes”. O caso é que Alice Munro, sem propriamente criar uma tensão digna do nome, acelera a narrativa na última curva, e dali até o ponto de chegada a melancolia ou a agitação assumem o controle. O desfecho nem sempre é um desfecho propriamente dito — o que é uma notável qualidade. É como se a autora terminasse seus contos em reticências, que, em todo caso, seriam como a confissão ou a manifestação da falta de fôlego e da impossibilidade ou inutilidade de ir adiante. (Não digo isso escorada na expressão clichê “de tirar o fôlego”. É mais do que isso. Tem efetivamente uma relação com a aceleração, com o ritmo sincopado que a narrativa assume nas últimas páginas — e depois, bom, silêncio.)

Incômodo.

É mais ou menos unânime: o incômodo é elemento essencial para a literatura. O que Alice Munro faz  ao combinar essas características é elevar essa equação a um limite quase insuportável.

Levando em conta o item 3 — as guinadas — é difícil falar dos contos sem entregar aquilo que deve ser revelado na medida em que o leitor avança. Só é possível falar em linhas gerais. Fiquei mais profundamente admirada (“obcecada” talvez fosse mais exato) com dois contos: “O sonho de mamãe” e “Salve o ceifador”, nessa ordem. No primeiro, uma mãe sem intimidade com o bebê, ou com a própria maternidade, ou seja lá o que for, enfrenta alguns percalços para dar conta do recado. A situação é complexa: viúva, a jovem mãe mora provisoriamente com a enlouquecida família do falecido marido. Sua paixão é o violino, e ela parece não saber muito bem o que está fazendo naquele lugar e naquele papel. No segundo, uma mulher de meia-idade descobre certas inclinações das quais não desconfiava — e aqui a narrativa de Munro cria imagens poderosíssimas, como a de uma jovem desgrenhada e meio bêbada que joga seu charme para a senhora, a protagonista do conto. Com toda a subjetividade que um exercício assim sugere, colocaria, em seguida, em ordem de preferência: “A ilha de cortes”, “Jacarta”, “Podre de rica”, “As crianças ficam” e “Antes da mudança”.

“O amor de uma boa mulher”, que abre o livro, é a narrativa mais longa. Um conselho para quem vai encarar a leitura e não conhece a escrita de Alice Munro: não vá por aí, ou seja, fuja da sequência estabelecida. As características da prosa da autora são intensificadas no conto inicial — seus desvios, suas mudanças bruscas, suas longas descrições de cenários, suas metáforas —, o que, embora crie um efeito magnífico, não me parece o mais acertado para um contato inicial.

No final, é difícil apontar se há mais força no conjunto ou num conto isolado (porque, acredite, um conto isolado de Alice Munro é um tremendo soco no estômago).

Por que Alice Munro? Porque a mulher é incrível e vai fazer você arrancar os cabelos.

6 Comentários Por que Alice Munro

  1. Sonia

    Oi, Camila,

    Vergonha tenho eu, nada tenho da Alice Munro, e na semana passada, estive com esse livro na mão, e não comprei.
    Confesso que fiquei cismada por não te-lo comprado.
    Agora, com a sua chancela, amanhã ela já estará comigo.
    Obrigada e um abraço.

    Reply
  2. Graça

    Olá, Camila.
    Minha torcida para o Nobel era para Philip Roth, ainda não foi desta vez.
    Mas fiquei felicíssima com Alice Munro, sou fã de contos, Alice é mestra.
    Comemorei a premiação, acredita?
    Sua comparação é esplêndida com as bonecas russas! Genial!!!
    Os contos de Alice são surpreendentes.
    No livro citado por você já li e reli (tenho esta mania, entre outras) O amor de uma boa mulher; Salve o Ceifador(deslumbrante) e As crianças ficam (comovente).
    Seu comentário está irretocável, Camila!!!
    Parabéns!
    Beijos
    Graça

    Reply
  3. Pingback: Vida querida – Alice Munro | Livros abertos

  4. Mariângela Souza Ragassi

    Oi Camila, gostei da sua análise. Você exprimiu bem a minha impressão pessoal depois que li os contos de Alice: um soco no estômago. Acrescentaria que “é um soco que acerta em cheio porque não se sabe de onde vem”. O estranho resultado disso é que a leitura dá uma grande satisfação, embora a sensação de desconforto seja duradoura. Magistral. Obrigada por compartilhar os seus textos. Um abraço!

    Reply

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *