<i>Noite dentro da noite</i>: uma estrada muito comprida que apesar de reta tinha curvas

Noite dentro da noite: uma estrada muito comprida que apesar de reta tinha curvas

.Penso que não é fácil entender em que abismos e becos sem saída nos pode meter essa eterna reflexão que não cessa nem nas chamadas horas de lazer, a sensação de ter apanhado o fio errado, que invade até mesmo o nosso sonho.

— W.G. Sebald em Os anéis de saturno

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O tempo, como uma substância líquida, vai cobrindo, feito máscara, os rostos dos ancestrais mais distantes, ou, ao contrário, esse mesmo tempo se arrasta, deixa-se absorver, quase, pelos sucos terrenos, e amplia a figura até lhe dar a contextura de um Desmoulins, de um Marat com os punhos cerrados, golpeando as variantes, os ecos, ou o tédio de uma assembleia termidoriana.

— José Lezama Lima em Paradiso

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O poder de um evento pode fluir a partir de seu âmago insolúvel, todos os elementos cruéis e impalpáveis que não têm coerência, e isso leva a pessoa a fazer coisas estranhas, e inventar histórias para ela mesma, e construir mundos verossímeis.

— Don DeLillo em Submundo

 

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Da forma como está estruturado, Noite dentro da noite assume quatro aspectos, nenhum deles independente dos outros três. São gêneros, estilos e temáticas — que em geral se repelem ou se anulam, e que se tornam incongruentes quando postos lado a lado — a partir dos quais é possível examinar ou definir o novo trabalho de Joca Reiners Terron. O subtítulo irônico sugere que estamos diante de uma autobiografia. O caráter onírico, com um acúmulo de imagens que parecem saídas de um inconsciente transtornado, aponta para um romance de inspiração surrealista. Os diferentes relatos que resgatam a trajetória e as lendas dos Reiners compõem uma saga familiar. Por fim, o crescimento gradual de um protagonista estabelece as bases de um romance de formação peculiar.

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Na segunda metade de Noite dentro da noite, o protagonista é um jovem estudante de arquitetura na UFRJ e estagiário em uma empresa especializada em dinamitar prédios abandonados. Para o narrador, o protagonista aprende a demolir antes mesmo de ser capaz de construir. A observação, que pode passar despercebida, sintetiza um aspecto importante do livro. Noite dentro da noite parece um estranho espécime de romance de formação, mas apenas na medida em que assume, como parte de uma necessidade mais ampla de subversão, o caráter de romance de deformação.

Acompanhamos a trajetória do protagonista desde a transição da infância para a adolescência, e daí aos primeiros anos da idade adulta. Inserir um personagem no fluxo do tempo é o mesmo que narrar um processo. De modo geral, ainda que não sigam uma ordem cronológica, é preciso haver uma sucessão de estados e acontecimentos. Selecionadas, as cenas devem oferecer um vislumbre de situações, emoções e lições decisivas. No caso de Noite dentro da noite, a maior parte da evolução do protagonista é sinalizada a partir de situações de extravio, delírio e confusão.

Uma narrativa não tem a obrigação de revelar cada aspecto da personalidade e do desenvolvimento de um personagem. A obscuridade é desejável, e não raro é a habilidade com que maneja o explícito e o implícito que confirma a perícia do romancista. Em Noite dentro da noite, no entanto, a opacidade não é apenas sugerida, mas reforçada. Não há uma identidade em permanente construção, senão uma espécie de identidade frágil e frequentemente ameaçada.

Para o protagonista de Noite dentro da noite, cada nova experiência aumenta ainda mais a já estabelecida confusão, a ponto de minar as certezas e embaralhar a memória. Mesmo a capacidade de diferenciar o certo do errado — ou o desenvolvimento moral mais amplo —, valorizada em certos romances de formação, é ridicularizada aqui. A própria noção de eu é questionada.

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É tarefa simples dividir os romances de formação mais conhecidos entre os narrados em primeira pessoa (Demian, O apanhador no campo de centeio, Homem invisível, O Tambor, As aventuras de Augie March) e os narrados em terceira (Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, Pelos olhos de Maisie, A Montanha Mágica). Mais difícil é encontrar um romance de formação escrito em segunda pessoa. O protagonista de Noite dentro da noite, porém, passa a existir para si mesmo e para o leitor quando ouve a própria história.

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Medianeira, Paraná, inverno de 1975. Aos onze anos, o protagonista esbarra em um obstáculo imprevisto durante uma brincadeira de esconde-esconde. “Acertou a nuca com força no concreto ainda fresco, cercado por tapumes. Teve convulsões e mordeu a língua.” Pela primeira e única vez em todo o século, nevou em Medianeira no dia do episódio.

A neve é uma importante chave para os próximos acontecimentos. Somada a uma sensação de irrealidade, a confusão mental que se segue inaugura o chamado “Ano do Grande Branco”, um intervalo de tempo (impreciso, uma vez que parece se estender por um longo período) no qual o protagonista flutua em uma espécie de névoa. É a primeira de muitas conexões possíveis, a que liga Noite dentro da noite a Herman Melville e à obsessão pela cor branca. “Não é isenta, a brancura, existe nela um elemento perturbador”, diz o narrador.

(Embora se vista de preto dos pés à cabeça, o carrasco que persegue alguns dos personagens ao longo do livro é chamado de El Cazador Blanco. Brancos são os espectros que assombram Karl Reiners e Kurt Meier. Branca é a figueira da propriedade de Hugo Reiners.)

Desde o episódio, o protagonista recorre ao fenobarbital para evitar convulsões. O efeito do remédio é desagradável, potencializando a sensação de alheamento causada pela pancada. Em silêncio, uma vez que o acidente o deixa sem fala, ele passa a se referir à mãe como a rata. Os pais, agora estranhos, viram “supostos pais”. Para ele, “familiar” torna-se “uma palavra de sentido enganoso”. A experiência de dissociação, durante a qual o sujeito não sabe bem de onde vem e não se sente confortável onde está, parece ter se transformado no estado normal do protagonista. E, em 1989, ele “ouve esta história como se fosse sobre um outro”.

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Quem narra é o alemão Curt Meyer-Clason, o tradutor de Guimarães Rosa. Sem que se saiba como, uma vez que extrai os detalhes da história de uma fita gravada pela rata, ele entrega emoções e pensamentos do protagonista (que é mudo) que não poderiam ser conhecidos por mais ninguém. No decorrer da narrativa, Meyer-Clason dará voz, direta ou indiretamente, aos personagens centrais: à rata, já mencionada; aos dois tios do protagonista, Karl e Hugo Reiners, o primeiro um guerrilheiro, o segundo um fazendeiro e aspirante a poeta; a um bioquímico alemão chamado Kurt Meier, embora este não seja seu nome verdadeiro. Do pantanal mato-grossense  a um obscuro laboratório na Alemanha nazista, passando pelo presídio em Ilha Grande e pelo Chaco paraguaio, Noite dentro da noite vai se alastrando como um líquen ardiloso.

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Diferente de uma narrativa polifônica, o resultado é uma sequência de discursos que se sobrepõem de modo febril. Vozes falam através de outras vozes, em um processo que rompe as barreiras do tempo e do espaço. A despeito de um punhado de fitas gravadas que resistem como um documento, grande parte dos relatos é tão efêmera quanto impalpável. Consequentemente, não é possível compreender Noite dentro da noite sem a oralidade. Histórias e lendas são transmitidas de um para o outro, ressurgindo distorcidas, embelezadas e reelaboradas. Em um dos encadeamentos possíveis, Curt Meyer-Clason narra o que a rata narrou do que Karl Reiners narrou do que Kurt Meier narrou.

A consequência da mistura de vozes é a manutenção de um espaço narrativo intersubjetivo, cada vez mais indistinto e nebuloso na medida em que o livro avança. Ler Noite dentro da noite é mais ou menos como estar “num não lugar, ou melhor, um não tempo, um deslocado tempo líquido, […] em meio ao nada porém em permanente movimento”.

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“A única realidade fiável era a de sua cabeça”, diz Curt-Meyer Clason. Ele se refere à tendência do protagonista, intensificada no decorrer do relato, de ignorar, demolir ou suspender o real em benefício do imaginário. No geral, ele fantasia a partir do que ouve, lê ou vê na televisão. As conexões são, quase todas, produto de uma mente criativa, mas um tanto descontrolada. Distanciado de tudo e de todos, mudo e absorto, o protagonista permanece trancado no próprio cérebro, essa “víscera em forma de noz” que explodia “de fantasia e solidão”. Quanto mais avançamos na narrativa, mais percebemos que ou participamos de uma alucinação, ou de um pesadelo. Veja que não estamos muito longe de um certo tipo de registro autobiográfico — fantasioso, pouco preocupado com fatos, mais aberto a múltiplas interpretações. É por isso que nenhuma das formas de penetrar em Noite dentro da noite pode prescindir das outras. Aqui estão duas delas.

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Depois do acidente, como se estivesse em fuga, a família do protagonista parte para Curva de Rio Sujo, uma cidade fronteiriça entre o Brasil e o Paraguai. Os habitantes do lugar eram “gente que estava ali havia muito tempo”. Os novos colegas, apelidados de Botinas Negras, “nasceram para herdar o comando que pertencia a seus pais e antes disso a seus avós”. Repare que são raízes que o personagem e seus familiares não têm.

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Todos os Reiners parecem ter sido extraviados, Karl sobretudo. Espelhando a narrativa flutuante de Noite dentro da noite, refletindo a geografia do Mato Grosso, ecoando as perguntas centrais e irrespondíveis do romance, tudo a respeito de Karl Reiners é movediço. Para Karl, “penetrar os pântanos equivalia a voltar a sua casa ou ao único elemento possível de ser relacionado ao lar, ao espaço liquefeito cuja solidez se desintegrava a seus pés à medida que caminhava”. Karl “era órfão de um imigrante alemão que não lhe transmitiu a língua, e ao mesmo tempo não passava de um caboclo pálido demais para as terras onde vivia, sem enquadrar-se no passado e muito menos no presente”. É um desconforto que toda a família Reiners experimenta.

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Com exceção do protagonista, que não é nomeado ao longo da narrativa, todos os personagens de Noite dentro da noite têm um segundo nome ou um codinome. São como múltiplas identidades, todas postas em xeque continuamente. Para além disso, o que passa a incluir o protagonista, cada um tem seu duplo, seu dublê, seu sucessor. Um espelha o outro que espelha o outro que espelha o outro, em um procedimento que contribui para tornar o espaço narrativo ainda mais nebuloso. O bioquímico Kurt Meier, preso em Ilha Grande, lembra de alguns meninos trancafiados em um laboratório obscuro. A rata, enquanto deixa para trás a antiga cidade, pensa em Karl Reiners em fuga. As conexões estão lá, variadas, e podem se resumir a uma simples repetição de palavras. “Está tudo bem, pensou Kurt Meier ao sair do bambuzal onde se abrigava, é melhor esperar em pé.” E no capítulo seguinte: “Está tudo bem, disse Karl Reiners a si mesmo ao improvisar com a manga de sua camisa um torniquete para conter a hemorragia da ferida à bala de sua perna, está tudo muito bem”.

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Karl Reiners é um dos duplos circunstanciais do protagonista. Ambos não sabem de onde vêm, errando por aí com mais ímpeto do que os outros. “Por isso se sentia tão emprestado, tão falso, porque estava livre, sem qualquer papel designado. Era um figurante sem falas”, diz Curt Meyer-Clason. A noção de figurante é constantemente retomada ao longo da narrativa, tanto em relação a Karl quanto ao protagonista. E é possível um personagem ser ao mesmo tempo protagonista (um romance de formação, uma autobiografia) e figurante (uma saga familiar)? Em Noite dentro da noite, sim.

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As vozes dentro de vozes compõem um espaço diegético movediço, de modo que tudo o mais, incluindo a insegurança e a memória fraturada do protagonista, reforça a disposição para a incerteza e a precariedade. Cada componente do romance se mostra questionável ou intercambiável, mesmo aquilo cuja definição nos parecia assegurada. Coragem e covardia, por exemplo, são conceitos voláteis, e a aplicação de um ou de outro é uma escolha arbitrária.

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Tanto quanto uma análise do inconsciente, Noite dentro da noite propõe uma sondagem de vários tipos de limites: linguísticos, geográficos, interpessoais, metafísicos. É difícil determinar se os personagens dão início às explorações porque questionam as fronteiras ou se questionam as fronteiras por conta das contínuas explorações.

Nenhum espaço é insignificante ou obscuro demais para ser examinado. Segundo Curt Meyer-Clason, “existem lugares a serem explorados até mesmo na superfície de nossa cama”. Depois de investigar a área e o perímetro do lençol, o protagonista toma a decisão de, no meio da noite, palmilhar os cômodos da casa. Ele logo aprende a ignorar o medo do desconhecido e a perscrutar os arredores sem esperar por uma revelação. A investigação pela investigação, o movimento pelo movimento.

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Não é difícil entender por que Noite dentro da noite também pode ser considerado uma espécie de saga familiar. A narrativa é composta de mensagens de pessoas que já partiram transmitidas por vozes que em breve também sumirão. Há uma urgência no ar — a necessidade de esclarecer a história dos Reiners, uma história distorcida e manipulada, continuamente editada, típica das lendas familiares. A epígrafe do poeta norte-americano Graham Foust, “E os fantasmas”, deixa isso claro. Com um único verso que dá sequência ao título, “eles são donos de tudo”, fica estabelecido não apenas a quem o relato pertence, mas como ele é articulado. “Toda história de família é uma história de fantasmas”, diz a rata. “Um fantasma é feito de tempo, espaço, silêncio e som”, lembra Curt Meyer-Clason.

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Condizente com um projeto estético em que lendas e relatos são tecidos a partir de uma variedade de vozes, a apropriação de imagens de outras narrativas aparece aqui como um procedimento recorrente. Algumas são assinaladas, outras não.

Não há descrições detalhadas, senão breves sugestões que, pela força daquilo que evocam, já parecem bastar: uma máscara de couro com pregos usada por um carrasco diabólico; um submarino alemão remanescente da Segunda Guerra perdido em um rio brasileiro; um líquen temperamental que, como tudo e todos, se move furtivamente. Os pequenos fragmentos se multiplicam, passando, em um jogo intensificado da metade para o final, a espelhar uns aos outros de modo frenético. Repare que essa sucessão de imagens contribui para que a narrativa pareça o produto de uma mente descontrolada, que combina e recombina referências de forma, até onde conseguimos perceber, aleatória.

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Ao mesmo tempo — num gesto inicial teimoso, embora inútil —, Noite dentro da noite parece recusar qualquer todo e qualquer simbolismo. A vida do protagonista, diz o narrador, “não tinha lugar para símbolos”. Enquanto isso, como quem não quer nada, ele inventaria uma série de imagens perturbadoras.

Espalhadas pelos cômodos de Curva de Rio Sujo, há várias caixas cujo conteúdo é desconhecido. “Não deixava de imaginar [o protagonista] que um dia abriria todas aquelas caixas esparramadas pela casa apenas para descobrir que estavam vazias. Talvez aquilo fosse o verdadeiro símbolo”, diz Curt Meyer-Clason.

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O humor em Noite dentro da noite deriva sobretudo da impossibilidade, do enorme engano daquilo tudo. Na medida em que uma imagem espelha a outra que espelha a outra, o romance fica cada vez mais mirabolante e mais consciente da própria graça. No tratamento dado à comicidade, uma espécie de desinteresse calculado, a escrita de Terron lembra a de Roberto Bolaño — saem os poetas bichas, bicharocas e borboletas e entram os filhos da puta. Na maneira de rir da tensão entre o real e o fantástico, no entanto, Terron está mais próximo de J. Rodolfo Wilcock, autor argentino publicado pela coleção Otra Língua.

Não é incomum que em algumas descrições salte algo desse humor curioso cunhado por Terron. Hassan Sader Gamarra, o rival do protagonista, era “daquelas pessoas que, quando cochicham, falam mais alto do que normalmente”.

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Em Noite dentro da noite, entra em cena o poder da imaginação de manipular o substrato da memória coletiva. Na víscera em forma de noz habitada pelo protagonista, um espaço conectado à realidade de forma tênue, um evento só pode adquirir um sentido único, levemente delirante — um sentido mesclado e associado a um acervo privado de fatos, sensações e imagens. Quando vê um ditador discursando na televisão, o protagonista, em sua confusão e inocência, acredita ser o destinatário de um recado importante. Quando, já adulto, age para modificar o curso dos acontecimentos, ele não parece compreender a dimensão daquilo que ajudou a executar. Espelhando a própria narrativa, ele opera em uma frequência e lógica próprias.

Além disso, é preciso considerar a dimensão de lenda familiar, o tipo de narrativa comprometida não com o rigor, mas com a fabulação. Dados e eventos reais são distorcidos e deformados, e não há tentativa de conectar um ao outro — ou de explicá-los — senão em uma narrativa que pertence à ficção privada, quase como um mito fundador, do protagonista e da família Reiners. O regime nazista é associado aos experimentos com barbitúricos, que logo saem do controle e assumem um caráter fantástico. A ditadura no Brasil ganha o mesmo tipo de tratamento. Filinto Müller, chefe da polícia política de Getúlio Vargas — responsável pela deportação de Olga Benário, mulher de Luís Carlos Prestes, para a Alemanha —, não raro surge acompanhado do espectro de El Cazador Blanco. Em ambos os casos, um curioso líquen conhecido como pyhareryepypepyhare pode ser um inimigo ou um aliado fundamental.

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Na infância, o protagonista não dispõe das ferramentas necessárias para contextualizar o que vê e ouve. Transformando o entorno em um lugar ameaçador, ele exagera o perigo que acredita reconhecer por trás de cada objeto ou situação. A despeito da narração em segunda pessoa, quase tudo em Noite dentro da noite é filtrado pelo olhar ao mesmo tempo curioso e assustado do menino. Com a imaginação fértil e a percepção limitada, ele costura e interpreta os fatos históricos, as lendas familiares, as memórias conturbadas.

É fácil lembrar das escolhas de Henry James em Pelos olhos de Maisie. Na infância, Maisie não é capaz de compreender as complexas regras que definem e regulam o mundo dos adultos. Boa parte do que a cerca permanece na obscuridade, fora do alcance do entendimento infantil. Como o do protagonista de Noite dentro da noite, o pequeno universo de Maisie “era fantasmagórico — sombras estranhas dançando num lençol”. Note que o mecanismo de defesa de Maisie é o mesmo: a introspecção.

Embora a narrativa seja, em certo sentido, mediada pelo olhar da criança, muito tempo já se passou. A tensão resultante daí é permanente, mais uma entre as dezenas de Noite dentro da noite. Tudo é muito próximo e muito distante. O relato de Curt Meyer-Clason é fragmentado, e não pode recriar senão de forma precária o ponto de vista e o imaginário do garoto confuso. Somada à sensação de desligamento e à perda de memória do protagonista, a impossibilidade de alcançar cada aspecto da infância potencializa aquilo que o narrador de Thomas Bernhard em Extinção chamou de vazio hiante. “Procuramos por toda parte a infância e só encontramos por toda parte o célebre vazio hiante.” É um dos tantos espaços indeterminados do livro. Restam as imagens de pesadelo, que parecem conservar a mesma nitidez e intensidade daqueles anos remotos.

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Por onde quer que se olhe, é a ideia de multiplicidade — de vozes, de pontos de vista, de identidades, de interpretações — que assume o controle. É isso que une todas as pontas. As lendas e as histórias narradas pelos parentes contribuem para um imaginário que é um imaginário em formação que vai narrar a si mesmo e fingir que não.

Os mbyá-guarani, de acordo com o desconhecido que auxilia Karl Reiners na mata, “não sabiam ler as horas mas tinham ao menos vinte e cinco palavras para relatar a passagem do dia através de movimentos da Terra ao redor do Sol”. A palavra para “noite dentro da noite” não é outra senão pyhareryepypepyhare, e designa “o instante mais denso de escuridão que antecede o alvorecer incerto, o instante mais negro de toda a existência, pois não se sabe se haverá o seguinte”. Retratada como um líquen, chamada de “flor-vampiro” e “duende do pântano”, a pyhareryepypepyhare é muitas coisas, mas não qualquer coisa.

O elemento mais mutável de Noite dentro da noite — um livro cheio de elementos mutáveis — é a pyhareryepypepyhare. Não há constância na definição, muito menos no papel que a pyhareryepypepyhare assume na narrativa. As descrições são ora complementares, ora contraditórias. A pyhareryepypepyhare tem propriedades mágicas, o que é o mesmo que dizer que pode ou curar o incurável ou, o que parece arbitrário, deformar, arruinar, envenenar, matar. Ela se move, se alastra, se esconde. Ela espreita e observa. Ela tem iniciativa. Ela seguramente tem senso de humor. E, como ocorre com os demais personagens, a pyhareryepypepyhare tem várias faces, mas não qualquer face.

Como o próprio narrador dá a entender, a pyhareryepypepyhare é um dos micro-organismos que sobreviverão à humanidade (se não forem eles, os micro-organismos, a nos destruir). Um enredo tão mirabolante, porém, permite uma interpretação menos engessada. Numa saga familiar, penso na pyhareryepypepyhare como a carga genética estropiada de uma linhagem extraviada. No imaginário sem freios de uma mente semioculta, penso na pyhareryepypepyhare como o elemento que ajuda a explicar o inexplicável, a preencher as lacunas que faltam. Na autobiografia, como a própria ideia por trás da iniciativa, a pyhareryepypepyhare é um aceno cômico, um toque de humor em um livro que de outra forma seria quase sufocante. Num romance de formação, a pyhareryepypepyhare não é outra coisa senão o tempo. Ela é, na verdade, tudo ao mesmo tempo. Como Noite dentro da noite também é.

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Segundo o narrador, “escrever é o mais próximo que podemos nos aproximar da morte”, que passa a ser observada de uma “fronteira metafísica”. É assim que Curt Meyer-Clason se sente: um “patrulhador de fronteiras metafísicas”.

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Examinando um desenho feito pelo protagonista, um sujeito constata que “havia pontos demais, e pouca intenção de ligá-los”, resultando em “uma abstração cuja beleza estava nessa indefinição e em sua impossibilidade”. Até certo ponto, o mesmo acontece com Noite dentro da noite. Através (sobretudo) de Curt Meyer-Clason, os personagens contribuem para a criação de um relato. Para alguns deles, não poucos, o esforço de narrar é um dos últimos que farão. Nele está embutida uma necessidade de justificativa, um pedido de atenção, uma confirmação de que existiram, mas sobretudo uma declaração de afeto. Por trás da violência explícita e da brutalidade, Noite dentro da noite é um livro de uma sensibilidade penetrante.

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No romance anterior, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, um Joca Reiners Terron controlado parece refrear a excentricidade do enredo, ou a amplitude que alguns assuntos poderiam ter assumido, ou a própria disposição de multiplicar narradores e subtramas. Nada disso acontece aqui. Noite dentro da noite revela um autor maduro, disposto a assumir os riscos que — o termo é surrado a ponto de soar vago, mas não parece deslocado — a própria voz pode lhe trazer. O resultado é um livro tão difícil de manipular quanto recompensador. Não é exagero dizer que Noite dentro da noite é dos grandes livros da nossa literatura, não de agora, mas de qualquer tempo. É descomunal, brutal, brilhante. É possível que seja desancado pelos mesmos que reclamam que os autores brasileiros não têm ousado, não têm saído da zona de conforto.

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W.G. Sebald foi citado na tradução de Lya Luft para a editora Record. José Lezama Lima, na de Josely Vianna Baptista para a Estação Liberdade. Don DeLillo, na de Paulo Henriques Britto para a Companhia das Letras. Henry James, na de Paulo Henriques Britto para a Penguin-Companhia. Thomas Bernhard, na de José Marcos Mariani de Macedo para a Companhia das Letras.

15 Comentários Noite dentro da noite: uma estrada muito comprida que apesar de reta tinha curvas

  1. Pingback: Temos de escolher muito bem aquilo que fingiremos ser: uma entrevista com Joca Reiners Terron | Camila von Holdefer

  2. Felipe

    Muito bom. Admiro muito teu talento. Persista.
    Sobre o livro, a resenha aguçou minha vontade de conferi-lo. Ganhou algumas posições na fila de leitura.
    Abraços.

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  3. André

    É sempre muito bom ler seus textos (escreva mais, rs). Quanto ao livro, parece realmente audacioso, me fez inclusive lembrar do Avalovara, que também envereda pelo onírico e labiríntico.

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      1. André

        A gente que agradece pelos textos, Camila! E vai sim, acho que você não vai se arrepender, é um desses livros que revolvem as vísceras.

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  4. Karla

    A questão é: quase sempre suas resenhas são tão boas que superam os livros!
    É decepcionante ler sua resenha que aguça e instiga, e depois ler o próprio autor que amorna tudo!
    Você é incrivelmente talentosa!

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  5. Caio Lima

    Eu li umas 20 páginas do livro numa tarde mais ou menos livre.
    Do que li, achei fantástico e deu pra tirar algumas impressões muito superficiais (é claro), mas que batem com o que você desenvolveu na resenha.
    Vou pegar pra ler o quanto antes e volto pra bater minhas anotações com a resenha.

    Mas não posso deixar passar a oportunidade de destacar seu belíssimo trabalho.
    Muito bem escrito, Camila. Você está na melhor forma!

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  6. Lucas

    Muito bom.
    O livro provocou diversas reflexões durante a leitura, e procurei um pouco na internet para ver se alguma resenha conseguia tomar aqueles pensamentos fugidios de primeira leitura e fixá-los na forma escrita. Felizmente, em meio a tantos textos que só comentam aspectos óbvios e não se propõem a pensar o livro, eis aqui uma resenha digna desse nome, que não só esmiuça pensamentos vagos de primeira leitura, como disseca profundamente o livro como um todo, abstendo-se ao máximo de juízos subjetivos.
    Meus parabéns pela leitura aguçada e pela incomparável habilidade de traduzir tudo em palavras. Virei seu fã.

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  7. Roberta Albuquerque

    amo seu blog! Eu tenho lido muitos autores brasileiros ultimamente e tenho gostado muito, tipo estão super próximos da gente como a gente rsrsrsrsrs obrigada por essa resenha, com certeza vou ler o livro. beijos!!

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