Os luminares – Eleanor Catton

Os luminares – Eleanor Catton

Em 2013, o anúncio do vencedor do Man Booker Prize incluiu a notícia da quebra de dois paradigmas importantes. Aos 28 anos, a neozelandesa Eleanor Catton se tornou a autora mais jovem a conquistar o prêmio. Os luminares, seu segundo livro, é o romance mais longo já contemplado — a edição brasileira, publicada pela Biblioteca Azul com tradução de Fábio Bonillo, soma quase 900 páginas. Ironicamente, os mesmos números que despertam curiosidade podem instilar certa desconfiança — imerecida, já que as deduções que optam por reforçar estereótipos não encontram amparo na realidade. A escrita de Catton é mais madura do que sua idade pode sugerir. A extensão da história não a torna maçante.

os luminaresCatton constrói uma trama de intrigas ambientada na Nova Zelândia da segunda metade do século 19. Diagramas astrológicos abrem cada uma das partes do romance, o que permite que os eventos sejam encaminhados a partir das posições estelares e planetárias ali determinadas. Uns poucos personagens (cada um associado a um corpo celeste) estão diretamente envolvidos com os acontecimentos centrais da trama. Do lado de fora do círculo — mais próximos do leitor, mas desempenhando papéis mais ou menos secundários no drama principal —, estão doze homens (cada um associado a um signo zodiacal) que interferem, movidos por diferentes razões, na história em curso. Essa maneira de ordenar os elementos contribui para distorcer a percepção do leitor, criando uma espécie de ilusão — nas páginas iniciais de Os luminares, quem parece protagonista é mero coadjuvante. Tudo pode mudar, uma vez que as localizações não são fixas, e uma vez que a própria noção de protagonismo não é essencial aqui. Do lado de fora dos dois círculos, mais íntimo do leitor do que qualquer outro personagem — distante dos episódios cruciais, no entanto — está um sujeito chamado Walter Moody.

Moody aporta em Hokitika, então “uma cidade do ouro recém-construída entre a selva e a arrebentação”, em janeiro de 1866. Na Nova Zelândia de Os luminares, há “homens ascendendo, ascendidos, recém-arruinados, arruinando-se e em repouso”. Como todos os outros, Moody também deseja enriquecer com a mineração — quando deixou a Escócia, porém, tinha outro objetivo em mente. Esgotado e perturbado depois de uma viagem difícil, ansiando por tranquilidade, ele acaba topando com o decadente Crown Hotel. Quando entra no salão de fumantes do lugar, Moody interrompe, a princípio sem se dar conta, um concílio secreto. Reunidos ali estão doze homens de ar grave.

O que se segue é uma sondagem mútua e astuciosa, que culmina com a incorporação de Moody à assembleia. Como recém-chegado, o escocês pode desempenhar o papel de um mediador, e assim conciliar as muitas diferenças entre os sujeitos. Causam estranheza, de início, os contrastes entre os homens reunidos no salão de fumantes do Crown Hotel. Há um índio maori, um jornalista de Hanover, um chinês que comanda um antro de ópio, um bancário janota nascido em terras neozelandezas e outras figuras curiosas. Se não é possível explicar de imediato os caminhos que os levaram até ali, o propósito do encontro logo fica claro: eles tentam desvendar um crime e, quando necessário, encontrar meios de apagar as próprias pegadas.

Em linhas gerais, a história que procuram resolver é a seguinte. Duas semanas antes de Walter Moody chegar a Hokitika, o eremita Crosbie Wells é encontrado morto em seu chalé — onde, inexplicavelmente, há uma enorme quantidade de ouro. Os bens devem passar para outras mãos, mas eis que surge uma viúva, Lydia Wells, de cuja existência ninguém desconfiava, a fim de reclamar a herança. Para tornar as coisas mais complicadas, na noite da morte do eremita ocorrem dois eventos estranhos: uma prostituta, Anna Wheterell, é encontrada desfalecida em uma estrada, e um jovem prospector, Emery Staines, desaparece sem deixar vestígios. Tudo indica que os episódios estão interligados. Francis Carver, o capitão da barca Godspeed, odiado e temido, é imediatamente apontado como suspeito pelos doze homens. Os nomes de Alistair Lauderback, um político, e George Shepard, um carcereiro, também vêm à tona na reunião do Crown Hotel.

O núcleo principal — o eremita, a prostituta, o capitão: todos, apesar de nomeados, presos à obviedade do arquétipo que os define — será explorado aos poucos. O leitor só conhece suas histórias e sua individualidade depois de bem avançada a segunda metade do livro. Em volta deles — “uma esfera dentro de outra esfera” — orbitam os doze homens do concílio. Laços afetivos, rancores ou negócios — legais e escusos — unem uns aos outros. Moody, mais adiante no diagrama, parece, de início, satisfeito no papel do ouvinte passivo dos muitos relatos despejados pelos sujeitos.

Mas Moody, fisgado, logo se transforma em ordenador, detetive e crítico dos acontecimentos — mudança que ocorre, ao menos em parte, longe da atenção do leitor. Concluído o concílio, cuja função é fornecer as bases do enredo, o narrador onisciente ganha mais liberdade e transita bem por diversas situações — o que não é o mesmo que dizer que o caráter investigativo e o tom de conspiração serão abandonados. No jogo proposto em Os luminares, o próprio leitor desempenha um papel detetivesco. É ele o responsável por organizar as diferentes visões e informações a fim de compor um painel tão completo e exato quanto possível. Ao longo de algumas cenas e diálogos — em que fica claro que algo importante está sendo omitido, e onde o narrador penetra na consciência de um único personagem, fornecendo uma visão parcial —, é impossível apontar de que lado está a verdade. Os personagens (cada um deles uma presa dos próprios interesses) podem mentir, e de fato mentem. Podem distorcer, e distorcem. Podem ocultar, e ocultam.

A história avança nesse ritmo, entre segredos e revelações. Por exemplo: Anna Wetherell, que integra o círculo principal — ou seja, que tomou parte nos eventos daquela noite misteriosa de janeiro de 1866 —, claramente sonega informações importantes. O boticário, Joseph Pritchard — um dos doze homens presentes na reunião do Crown Hotel —, que está pessoalmente interessado em algumas das lembranças de Anna, não consegue a confissão que deseja. A moça, no entanto, se abre com Aubert Gascoigne, outro dos sujeitos do concílio. Todos escondem alguma coisa, e informação é moeda de troca (não tão valiosa quanto o ouro).

Se ainda não chegou o momento de um personagem contribuir com sua visão dos fatos (porque, em Os luminares, tudo tem a sua hora exata), outros preenchem as lacunas da trama, de modo que a coisa toda siga funcionando. Assim, novos e importantes detalhes são acrescentados a cada capítulo. A história parece se complicar página após página — cresce a toda velocidade como uma bola de neve, e então encontra um obstáculo e, imóvel, começa a derreter. Todavia, essa peculiaridade — o fato de que, no final, a história murcha lentamente — não é uma falha do livro. É uma aposta deliberada, responsável por boa parte do encanto e da força de Os luminares.

O mérito da autora está em questionar o próprio ato de narrar. Com isso em mente, permitiu que a história esgotasse seus atrativos. A outra providência de Catton está diretamente relacionada com a busca pela verdade de um relato — a chave interpretativa mais importante quando se leva em conta a proposta de Os luminares. A ideia é que se chegue a alguma conclusão sobre os eventos intrigantes, mas, para isso, é preciso definir o que é fato e o que é trapaça. Moody adverte que “um homem nunca deve crer na avaliação que um outro homem faz do ânimo de um terceiro”. No entanto — o que está implícito no romance — essas avaliações são necessárias, e não raro constituem a única base mais ou menos segura sobre a qual se pode transitar. Consciente das armadilhas, porém, Moody afirma que “o temperamento humano [é] um composto volátil de percepção e circunstância”. Numa frase, ele define o que está por trás de Os luminares.

Moody acredita, conforme admite num diálogo, que só se pode conhecer algo quando se olha a partir de todos os ângulos possíveis. Em certo sentido, essa também é uma premissa de Os luminares. Mesmo que indiretamente, todos os doze sujeitos da reunião do Crown Hotel têm direito a dar sua visão pessoal sobre o curioso caso. Não raro o relato de um ou de outro parte de uma perspectiva inteiramente nova, acrescentando detalhes sobre o ocorrido. Um personagem pode desmentir o outro, mas também, numa cadeia de tautologias inesperadas, pode corroborar.

É também Moody quem, ao falar sobre o juramento que valida um testemunho, contesta a lógica que diz que um “depoimento deve conter toda a verdade, e [um] depoimento não deve conter nada além da verdade”. Segundo ele, contar “toda a verdade” pressupõe narrar “todos os fatos e impressões que são pertinentes ao assunto em questão”. Quando não é um ornamento de valor estético, aquilo que parece irrelevante em um relato normalmente cumpre o objetivo de desviar a atenção do que realmente importa. Isso é bem marcado em Os luminares, um romance onde há pistas falsas e becos sem saída. No final do livro, o julgamento em que Moody atua como advogado de defesa funciona como um pequeno teatro — ou exemplo de narrativa cujo centro é um crime — em que os fatos, verdadeiros ou não, são dispostos em uma ordem específica e expostos de maneira calculada de modo a criar o efeito desejado no juiz e no público. Catton faz o mesmo, e habilmente.

O avançar e recuar da trama se limita a um perímetro restrito, mas ainda assim é capaz de oferecer surpresas — se não é difícil antecipar alguns dos eventos, outros são completamente inesperados. Ainda que reserve esse espaço para brincar com as expectativas do leitor, Os luminares se mostra um romance dotado de uma excepcional lógica interna. Lá pela metade do livro, já é possível perceber que causas e efeitos são cíclicos. Qualquer ação remete a outra ação. Mesmo as quebras no desenvolvimento e as bruscas voltas no tempo e no espaço não se afastam dos acontecimentos principais — as histórias paralelas permanecem ligadas à fatídica noite de janeiro de 1866.

Afastando e aproximando o olhar dos eventos principais, Catton estende a trama até o limite. Por fim, a história consome a si mesma. Das doze partes do livro, a primeira soma quase 400 páginas. A última guarda uma descrição básica das cenas que deveriam se desenrolar ali.

Em 1866, a dinamite não havia sido inventada. Karl Marx ainda não tinha publicado O Capital. (Os dois eventos ocorreriam no ano seguinte, 1867.) As ideias de Charles Darwin causavam espanto. Catton não oferece qualquer panorama desse cenário em ebulição e prestes a mudar irremediavelmente, o que, dado o fato de que Os luminares é um romance hermeticamente fechado em si mesmo, não chega a ser um defeito. Com exceção de alguns detalhes muito superficiais sobre as Guerras do Ópio no Oriente, nada mais é dito para situar o leitor. Seus personagens, no entanto, em atitudes e perspectivas, refletem as transformações —Moody, por exemplo, é um sujeito devotado à razão. Num plano mais restrito, mesmo as interações entre eles obedecem a uma moral vigente na segunda metade do século 19 — quando as mulheres, ao desembarcarem em uma cidade que sobrevive da extração de minério, podem trabalhar como garçonetes ou prostitutas, ou, se tiverem imaginação e ousadia, como golpistas; quando a ideia de raças superiores e inferiores ainda não era absurda, e os chineses e maoris eram desconsiderados em comparação aos europeus ou descendentes de europeus.

A linguagem empolada — mas também acessível — procura aproximar narrador do período em questão. Os diálogos não fogem à regra. Eleanor Catton busca inspiração no romance vitoriano, fornecendo um encontro curioso de épocas e estilos — misturando as liberdades que a ficção conquistou, as possibilidades engessadas de um cenário específico e os lugares-comuns típicos de uma produção restrita a um espaço e tempo peculiares. Aquilo que pode ser tomado como a ingenuidade do romance vitoriano — a valorização extrema do trabalho duro, a virtude recompensada, a dicotomia de sorte e revés, um certo maniqueísmo — se mistura ao novo formato, ou seja, ao questionamento sobre a própria arte de narrar.

Os corpos celestes e diagramas astrológicos adicionam, nesse sentido, um toque de humor ao livro. Também, como um truque de mágica executado com habilidade, podem desviar a atenção do leitor do que realmente importa. (Nota: enfatizando a aproximação forma/conteúdo, o romance inclui uma personagem trambiqueira, Lydia Wells, que promove sessões espíritas fajutas a preço de ouro e prevê a sorte dos mineiros.) Além disso, todos os doze homens do concílio encarnam as características normalmente atribuídas a um signo do zodíaco, levando a perfis psicológicos tão logo o personagem entra em cena. Apesar disso, a densidade de cada um é assegurada. Catton explorou bem o genérico para moldar o particular: suas criaturas são figuras animadas e singulares, com características peculiares e histórico e manias bem marcados. (Löwental, o jornalista que nasceu sob o signo de gêmeos, enxergava “a dualidade inerente a todas as coisas”.)

O leitor emerge das quase 900 páginas um tanto atordoado, é verdade, mas disposto a enxergar em Os luminares uma narrativa sobre a dificuldade — dadas as distrações, os desvios e as charlatanices — de se chegar à verdade.

9 Comentários Os luminares – Eleanor Catton

  1. Graça

    Belíssima resenha, Camila!
    Parabéns!!!
    “O temperamento humano [é] um composto volátil de percepção e circunstância”, intrigante e revelador.
    Beijos
    Graça

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  2. Caio

    Parabéns pela resenha, ótima!

    Fica uma pergunta: E a tradução? É melhor se aventurar pelo original ou a tradução dá conta do recado?

    Estou com vontade de conferir essas 900 páginas!

    Abs.

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    1. Camila von Holdefer

      Oi, Caio!
      Não cheguei a conferir o texto no original, mas a tradução foi bem elogiada. Nesse sentido, acho que é possível escolher entre qualquer uma das duas. 🙂 Se não for ler em e-book, a única diferença é entre a apresentação das edições: a original me parece mais bonita que a brasileira. Apesar de ser leve, o papel escolhido pela Globo é ruinzinho.

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  3. José Roque Guimarães

    Fico me perguntando se terei coragem para encarar o e-calhamaço. A bela resenha fez achar que vou acabar mergulhando no livro. Veremos.

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  4. Gabriel

    Adorei a resenha, excelente como sempre 🙂 tanto que aproveitei uma promoção do submarino por 29,90 e estou com o bendito aqui pronto para ser lido. Só queria pedir uma ajuda: Vc verificou algum site que explicite de forma breve toda essa relação de signos? Pois não sei nada disso – nem a quais signos aqueles símbolos simbolizam =p e quero ter uma noção geral antes de começar a ler obrigado =D

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  7. Wandir Mello

    Estou lendo-o agora (ele está aqui, no meu colo)! Estranhei-o no início, achei a sua linguagem vitoriana meio datada, algo arrastada e forçada. Mas, assim como aconteceu quando li “Jonathan Strange & Mr. Norrel”, de Susanna Clarke – que lança mão do mesmo artifício-, logo me acostumei e, passado o teste das 100 primeiras páginas, entreguei-me à loucura não de uma Inglaterra, mas de uma Nova Zelândia vitoriana! É incrível como é que a autora pode esticar tanto uma história que, grosso modo (e até onde minha leitura me permitiu chegar), se utiliza de dois cenários: o salão dos fumantes e o espetáculo espírita da viúva Wells. Enfim, o livro ganhou-me. Ao poucos, é verdade. Mas não é assim que nascem os melhores amores? Obrigado, Camila. Mais uma dica certeira que recebo do seu blog. Minha estante agradece!

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