Opisanie swiata – Veronica Stigger

Opisanie swiata – Veronica Stigger

Tudo começa quando o polonês Opalka recebe uma carta de um (até então) estranho remetente. “É com grande pesar que levo ao conhecimento de V. Sa. que seu filho, o Sr. Natanael Martins, se encontra internado em estado grave”, escreve o doutor Amado Silva, o responsável pelo caso. Natanael, que contraiu uma doença misteriosa, vive na Amazônia.

Não chegou a conhecer o pai, e Opalka, até inteirar-se das más notícias, não sabia da existência de um herdeiro naquele lugar remoto que abandonou tanto tempo atrás para voltar ao seu país de origem. Abalado, o polonês parte imediatamente num trem, e em seguida num navio, seguindo as curiosas instruções da carta ditada por Natanael. Estamos na primeira metade do século XX, ainda que, pelas descrições vagas e ambíguas, Opisanie świata pudesse remeter a qualquer outra época.

O enredo não procura aprofundar a relação entre Opalka e Natanael, e sequer trata das histórias individuais de um e de outro. O argumento inicial, de um homem que parte para encontrar o filho desconhecido, desemboca em uma série de histórias paralelas de gente que saiu de vários cantos e percorreu outros tantos. Opisanie świata, afinal, é a tradução para o polonês de Il Milione, título do diário de viagem de Marco Polo. Em português, “opisanie świata” significa “descrição do mundo”. Ao utilizar a narrativa de um explorador como uma das formas possíveis de se enxergar e definir o livro, a autora reafirma o que a construção já diz: que o deslocamento, e tudo o que deriva daí, importa mais do que um ponto específico de chegada.

Opisanie świata, da Cosac Naify, é o primeiro romance de Veronica Stigger, que, pela mesma editora, já havia publicado dois livros de contos — Gran Cabaret Demenzial (2007) e Os anões (2010). Sua experiência com as narrativas curtas pode ser sentida em Opisanie świata, com suas inúmeras cenas ágeis destacadas do tempo e do espaço.

Logo no início da viagem, Opalka conhece Bopp, um estranho sujeito que circula pelos quatro cantos do mundo vestido com um quimono vermelho trazido da China. Bopp é inspirado em Raul Bopp, poeta modernista que viajou o Brasil inteiro — inclusive pela Amazônia, que serve de palco para o famoso Cobra Norato. Apesar das peculiaridades atribuídas a Bopp, nenhum dos personagens ganha contornos definidos ou densidade psicológica. O narrador em terceira pessoa se ocupa em descrever seus gestos e movimentos, e é por eles que se intui algo de sua identidade fugidia — uma identidade que sequer é relevante no contexto da trama.

Veronica Stigger constrói uma série de episódios curtos e nem sempre conectados entre si. Todos dão margem para a inquietação que costuma surgir nos leitores de relatos breves e pouco detalhados. Há uma comemoração no navio cujo começo grotesco vai cedendo lugar para a violência explícita. Há descrições aparentemente pueris das brincadeiras de três crianças e uma cachorra chamada Margarida, cujo palco também é o navio. Há uma cena inquietante no trem em que está Opalka — uma cena envolvendo um russo, uma criatura misteriosa e uma mulher que dança descontroladamente. Há um homem apaixonado por esmeraldas cuja história é revelada por um companheiro de viagem de Bopp e Opalka.

Flora Süssekind, no texto de apresentação, destaca que a figura de “Opalka […] ecoa o pintor franco-polonês de monocromos numéricos e de série também intitulada Opisanie świata”. O artista é Roman Opałka, que morreu em 2011. Como tudo no romance, a referência não é gratuita: Veronica Stigger é doutora em história da arte — e uma das autoras do incrível Maria, sobre a vida e a obra da escultora Maria Martins, também publicado pela Cosac Naify.

Por falar na editora, é bom mencionar a apresentação de Opisanie świata, outro grande acerto da Cosac Naify: cores metalizadas e suas diferentes combinações ajudam a compor uma das obras mais bonitas do catálogo. Dispostos aqui e ali, há algumas fotografias e anúncios publicitários do início do século passado. Ainda que as imagens dialoguem com o enredo, isso não ocorre de modo tão explícito quanto em Esquilos de Pavlov, de Laura Erber, livro em que o visual parece ter tanta importância quanto a escrita.

Assim como quem viaja descobre novos caminhos e possibilidades, o leitor de Opisanie świata tem a chance de enveredar pelos mais diversos atalhos. Há muitas referências e inspirações, algumas delas compiladas ao final do livro em uma seção que a autora chamou de “Deveres”. De qualquer forma, como que ressaltando a própria estrutura fragmentária e seus desdobramentos, o romance de Veronica Stigger trata daquilo que se ouve e se enxerga em um trajeto qualquer — e dos afetos que se deixa no lugar de onde se parte.

Foi lá. Na mata. Entre as árvores. Foi justamente lá que a senhora apareceu. Eu estava deitado na minha rede, cochilando, quando a senhora chegou perto de mim, sem fazer barulho, sem pisar numa folha seca sequer. Sem pisar em nada. No maior silêncio. Não tinha ninguém. Só eu. Era o primeiro dia do ano, logo depois do almoço. Fazia sol e muito calor. Um calor infernal, abafado — Bopp fez uma pausa antes de continuar, agora olhando para Opalka, que o encarava, atento. — A senhora era bem pequena, não devia ter mais de um metro e meio de altura, muito magra e muito enrugada. Ela tinha os cabelos brancos, lisos e compridos, e uma espécie de barbicha no queixo: uma meia dúzia de pelos longos e grisalhos. Parecia ter uns cem anos. Usava uns óculos de grau muito grandes, quase do tamanho de seu rosto. Sua pele era dourada e brilhante. Talvez do suor. Ou de algum óleo que ela tivesse passado no corpo. Não sei de onde ela veio. Só a percebi quando estava à minha frente. Vestia-se como um homem. Trajava calças de marinheiro azul escuras e camisa branca larga e solta, que descia até os joelhos. Não usava chapéu. A brancura dos cabelos refletia a luz, o que os tornava ainda mais brancos. Ela chegou perto e me desejou feliz ano novo. Retribuí o cumprimento, e ela não se afastou. Ficou por ali, a princípio calada. Caminhou até uma árvore e arrancou os galhos secos e mortos que se achavam ao alcance de suas mãos. Depois, se aproximou novamente e me perguntou se eu era dali. Eu disse que não e ela indagou se eu estava viajando a passeio. Respondi que sim e então ela quis saber se eu costumava viajar. Disse de novo que sim. Falei que adoro viajar, que adoro conhecer lugares diferentes. Ela perguntou então por onde eu tinha andado. Quando lhe contei do Sul e da região de onde vinha, dois países vizinhos que visitei, do Norte, do Nordeste, das capitais onde vivi, dos lugares da Europa em que estive, ela estalou a língua no céu da boca e sacudiu a mão direita no ar, como se espantasse um mosquito próximo a seu rosto. Não, não, não, me disse ela. Viajar é ir para o Egito, para a Líbia, para a Turquia. O rapaz — emendou Bopp, afinando a voz numa tentativa de imitar o modo de falar da senhora — deveria procurar a Associação Cristã de Moços e viajar para lá. Para o Egito, para a Líbia, para a Turquia. Vá trabalhando. Consiga um emprego no navio. Pode ser de cozinheiro, faxineiro. Mas vá trabalhando. Assim o rapaz ganha dinheiro e pode ficar o tempo que quiser fora. Trabalhe lá fora também. Aproveite enquanto é jovem. Eu viajei muito, continuou ela. Conheci o Egito, a Líbia, a Turquia. Fiquei dois anos fora. Sempre trabalhando. Trabalhando e viajando. Mas preste atenção, me disse ela, por fim, com o dedo apontado para o meu nariz, é preciso voltar. Fique um ano, dois, três. Mas volte. Vá e volte. É preciso saber voltar.

2 Comentários Opisanie swiata – Veronica Stigger

  1. Graça

    Oi, Camila!
    O trecho em que você escreve: “o romance trata daquilo que se ouve e se enxerga em um trajeto qualquer – dos afetos que se deixa no lugar de onde se parte” é lindo e comovente.
    Emociona.
    Obrigada.
    Beijos
    Graça

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  2. mateus pinheiro

    grande livro.
    li há um tempo e tenho sentido vontade de retornar a ele depois de ler o excelente sul, nova empreitada da autora (arriscadíssima, devo dizer, mas exitosa, te recomendo fortemente). opsianie tem uma ternura difícil de descrever, é e não é, acho que foi isso o que me fascinou — além dos personagens, deliciosos. é daqueles livros que a história em si não importa tanto. estou terminando a montanha mágica, do mann, e sinto isso. a graça é a viagem — literalmente, no caso do livro da veronica.
    adorei a resenha, as always.

    abraço,
    mateus

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