Onde cantam os pássaros – Evie Wyld

Onde cantam os pássaros – Evie Wyld

Boa parte dos elogios escolhidos ou encomendados pelas editoras com a finalidade de transformar um livro num produto atraente são exagerados. Poucos, no entanto, são tão delirantes quanto os que a DarkSide (não há reprovação aqui) selecionou para a contracapa de Onde cantam os pássaros. Antes de mostrar a realidade do livro, as citações revelam uma crítica literária pouco consciente de sua função.

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Entre o gostar e o desgostar há, é claro, um amplo espectro de apreciação — que admite, em diferentes graus, a resposta subjetiva. A comparação, entretanto, pede bases concretas. Aquilo que se diz deve fazer sentido. Daí o espanto com o paralelo traçado por William Boyd entre o livro de Evie Wyld e “o melhor de Nabokov”. Ou com a resenha do The Spectator, que achou justo relacionar Onde cantam os pássaros aos “primeiros romances de Ian McEwan”.

É surpreendente que Onde cantam os pássaros não seja o trabalho de estreia da autora — já que, percebe-se, reúne todas as falhas de um original em que o romancista em formação testa suas possibilidades sem, no entanto, prestar atenção ao ritmo, à transição entre os capítulos, à acuidade das descrições. Digo original de forma consciente, já que o livro não parece ter passado por uma boa edição. No fundo, o resultado obtido por Wyld é ainda mais precário do que aquele que um estreante, se bem orientado, poderia alcançar. Ao contrário do que costuma acontecer com a maioria dos novatos que têm seus trabalhos lapidados, as falhas de sua escrita não são apenas pontuais. Antes de escorregar aqui e ali, a narração não chega a deslanchar em momento algum. Além da dificuldade de movimentar os personagens em cena, Wyld, o que é tão ou mais grave, foi incapaz fornecer uma base sólida para o livro.

A trama é simples. Uma jovem mulher australiana, Jake, deixa o país de origem para se instalar em uma ilha da Grã-Bretanha. Isolada em uma fazenda, Jake cria ovelhas. Em dado momento, seus animais começam a aparecer mortos, um a um, com claros sinais de violência. Encontrar o responsável pelos ataques, que pode ser humano ou animal, é o objetivo imediato da personagem.

Onde cantam os pássaros é vendido como um suspense que se ocupa do tal mistério das mortes das ovelhas. É um erro. O livro não pode ser considerado um suspense. Qualquer rótulo, se rótulos são mesmo desejáveis, parece não se encaixar — inclusive o de “literatura”. No fundo, a narrativa de Evie Wyld não é nada além de uma sucessão de capítulos atrozes e descosturados, sem coerência interna ou ritmo, com um arremedo de tensão mantido, ainda que a duras penas, tanto às custas de um evento presente que mal e mal é mencionado (o assassinato das ovelhas) quanto do passado (representado, acima de tudo, pelas cicatrizes que Jake exibe nas costas).

O livro alterna duas linhas narrativas. Uma, que mostra as baixas no rebanho, é linear e marca o presente da trama. Outra retrocede cada vez mais para o passado de Jake na Austrália, do mais recente ao mais remoto, chegando aos eventos que deram origem à sua personalidade arredia e insegura, além das famigeradas cicatrizes. Não é um recurso novo. Para ficar no exemplo mais recente, basta evocar Os luminares, romance da neozelandesa Eleanor Catton — no vencedor do Man Booker Prize de 2014, a trama também recua para o passado até se esgotar, consumindo-se na própria repetição. A diferença é que Catton, narradora competente e com um bom fôlego, alcançou um resultado próximo ao excelente. No caso de Wyld, a impressão que se tem é a de que o livro foi escrito de forma linear e em seguida recortado, tendo sua ordem invertida. Na reunião dos capítulos, não houve uma revisão criteriosa da passagem das cenas. O resultado é um avançar truncado, de um amadorismo constrangedor.

Wyld, que integra a Granta britânica (se ela entrou, penso nos que ficaram de fora), é, sem exagero, praticamente incapaz de narrar uma cena de forma satisfatória. Se um autor não consegue trabalhar num único quadro, é inútil esperar que seja bem-sucedido no encadeamento de vários deles. E, bingo, o encadeamento de Onde cantam os pássaros é terrível. Sequer se pode acusar Evie Wyld de falta de sutileza: seu problema, aqui, é a absoluta falta de competência.

Talvez o melhor adjetivo para descrever a narração de Wyld seja artificial. Profundamente artificial — o que, antes de indicar um trabalho complexo com a linguagem, indica uma falha séria. Jake é uma protagonista apática e, como não faltam exemplos na literatura, uma narradora pouco ou nada confiável. A apatia deriva de um passado repleto de acontecimentos traumáticos. O pouco crédito que se pode dar a ela é consequência de uma, digamos, perturbação causada pelos mesmos eventos. Wyld, no entanto, não consegue assinalar nada disso. A apatia da protagonista resulta não em uma escrita crua, mas em um monólogo em geral maçante e sem qualquer atrativo. Quase não há reminiscências, mesmo quando os capítulos descrevem a vida pregressa da personagem. Toda ação, inclusive a que utiliza o verbo no passado, é executada num presente imediato e estéril, resultando em uma sucessão de trivialidades — descrições de cenários e ações que inventariam, sem outro propósito que não preencher páginas e arrastar a trama, objetos e movimentos inúteis, muitos e muitos deles. A resolução é adiada, mas sem que com isso haja, entre a criação e a dissolução do arremedo de tensão, literatura. Os diálogos são primários, e boa parte é descartável. Metade do livro poderia ser eliminada sem prejuízo. Na verdade, a narrativa inteira.

A impressão que se tem é que a própria autora desistiu de trabalhar no livro. Wyld não se deu sequer o trabalho de examinar a trama, já que, no geral, as contas não fecham. É fácil determinar que a ambiguidade não é uma escolha, mas mera consequência de uma escrita capenga. Isso acontece em dois níveis: tanto nas cenas, na descrição canhestra e truncada, quanto no momento em que se analisa, à distância, a cadeia de causa e efeito dos eventos.

Há muitas e muitas pontas soltas. Quando Jake deveria soar confusa, é a narração que soa assim — e não de um jeito positivo, uma vez que nada parece deliberado. Ora o ritmo é apressado, ora é excessivamente lento. Quando deveria correr, se arrasta; quando a cena pede calma, Wyld pisa no acelerador. Além de não ligar para a cadência da escrita, a autora não consegue marcar o tempo interno da trama — ou, que seja, a confusão da protagonista com o tempo. Onde cantam os pássaros é irregular na pior acepção do termo. Num livro que depende tanto da tensão, é vergonhoso constatar a completa falta de habilidade da autora para elaborá-la. Se não fossem os dois mistérios iniciais, ambos ruins, nada se sustentaria. Nas cenas, os elementos de suspense não vão sendo sugeridos ou entregues aos poucos — são, ao contrário, jogados sem qualquer critério no meio de um parágrafo, da forma mais abrupta e anticlimática possível.

As metáforas e comparações são atrozes — são tão batidas e de mau gosto que lembram as de Sylvia Plath no superestimado A redoma de vidro. Uma mulher usando um vestido com um laço sugere um “presente pronto para ser desembrulhado”. Um sujeito ostenta “uma expressão de que poderia comer alguém com os olhos”. Em dado momento, Jake diz que seus ossos doem “como um navio rangendo”. Da primeira à última página, em detalhes e recursos variados, o clichê está lá. O cachorro de Jake se chama “Cão”. Se algo tem potencial de afligi-la, Jake, vezes sem conta, tenta “não pensar sobre aquilo”. Afinal, um narrador que pensa dá trabalho.

E, é claro, o que é ruim sempre pode piorar. Ou o sujeito sabe o que está fazendo, ou seu livro está automaticamente arruinado quando ele decide pintar um homem xucro — suado, arredio e misterioso, com os cabelos revoltos ao vento, preferencialmente ficando grisalhos, que guarda uma sabedoria profunda das coisas do mundo — como uma figura sexy. O personagem deve cobiçar a mocinha, porque, apesar da rispidez ou da falta de rodeios com que ela diz as coisas, já que ela obviamente é dura na queda, uma vez que passou por poucas e boas, e apesar da pouca hospitalidade que ela oferece, enfim, apesar disso tudo, ele vai desejá-la e ela, depois de lutar contra o próprio desejo, vai corresponder. Todos já vimos isso antes. O homem xucro-sedutor-de-peito-descoberto e a mulher indelicada são mais do que a fina flor da subliteratura: são sua matéria-prima. No primeiro encontro, que obviamente é malsucedido, já é possível visualizar os dois rolando no feno ao som de “Cotton-Eye Joe”. É o clichê do clichê, a tal ponto que só funcionaria, hoje, como caricatura, ou, ao contrário, graças à habilidade de um romancista com pouca disposição para o humor.

A lâmpada para de piscar, mas ainda há sombras e lugares onde se esconder. A bancada está coberta por uma lona azul que cai até o chão, escondendo tudo. Greg pega o cano de metal que está apoiado na parede. Fico feliz por ele não ter tirado a cueca — penso Seria tão mais horrível se ele estivesse nu. Fiz seu nariz sangrar, mas ele ignora isso, deixando escorrer sobre o lábio enquanto segura o cano com ambas as mãos, como se fosse um bastão de críquete. Caminha devagar e com cuidado na direção da bancada, os olhos percorrendo todos os cantos procurando novas sombras. Sinto os pelos de minha nuca se arrepiarem. Tento não pensar em Kelly, ou imaginar Otto do lado de fora com uma arma na mão, observando. Segurando uma navalha. Ele vai cortar minha mão fora e dar a ela como um prêmio. Kelly está morta, penso, mas não é um pensamento reconfortante.

Em Onde cantam os pássaros, o homem xucro é um andarilho, ou algo próximo disso, chamado Lloyd. Vindo não se sabe de onde, ele aparece na fazenda de ovelhas. Seu passado permanece uma incógnita e, graças a isso, suas ações são mais ou menos incompreensíveis. Lloyd vai se deixando ficar. Jake, embora não admita, gosta de tê-lo por perto. É evidente que o personagem funciona como uma oportunidade de redenção para Jake — a redenção pelo amor. Num livro em que só há cenas deploráveis, aquelas em que Lloyd aparecem conseguem ser as piores. Ou são sem sentido e arrastadas, ou são como esta: “Lloyd saiu do banheiro com a toalha enrolada na altura do abdome. Tentei não olhar para suas partes nuas, mas eram a maioria. Havia muito pelo em seu peito, alguns grisalhos. Caminhou devagar em minha direção e senti o desespero de ver aquela toalha cair”. [Pausa sugerida pelo Livros abertos.]

Romances de banca de jornal, a subliteratura encarnada, sabem bem o que são e o que seus leitores esperam. Dificilmente fogem muito do script e não têm pretensões elevadas. O mesmo ocorre os clássicos do suspense. Onde cantam os pássaros, no entanto, escapa das classificações mais óbvias — o que seria positivo, e até desejável, não fosse o fato de que a impossibilidade de rotulá-lo deriva não de inovações formais ou de combinações interessantes, mas do fracasso da autora em dar um sentido e um formato para a narrativa. Muito me preocupa a crítica e o júri que não percebe a diferença entre um autor que entrega situações abertas a diferentes interpretações, o que sempre pode favorecer um livro, e um autor visivelmente picareta. Apontar certos defeitos na escrita nem sempre é uma questão de opinião. É gritante o quanto Wyld não soube estruturar e desenvolver uma trama.

Junte a isso uma tradução que deixa a desejar e uma revisão sofrível, incapaz, entre os muitos outros erros que ignora, de diferenciar “mau” de “mal”. Se o livro é pavoroso em inglês, posso garantir que ficou ainda pior em português.

Na sinopse do livro disponível nos sites de algumas livrarias, a DarkSide garante que “também é [uma editora de] alta literatura”. Até pode ser, desde que não utilize Onde cantam os pássaros como a prova do investimento em um catálogo de qualidade. Para que se possa considerar Onde cantam os pássaros um romance ruim, seria preciso submetê-lo a uma revisão longa e cansativa. Por enquanto, a incursão horrenda de Evie Wyld na escrita pode ser qualquer coisa, menos literatura.

19 Comentários Onde cantam os pássaros – Evie Wyld

  1. Simone

    Masterpiece!!!
    Ri muito, especialmente na “Pausa sugerida pelo Livros abertos”.
    Obrigada por esta obra-prima, Camila!

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  2. Francine Ramos

    Oi, Camila!
    Que resenha interessante! Eu realmente achei linda a capa do livro e vi/li algumas resenhas falando bem da obra, o que me deixou com vontade de comprar. Ainda bem que li a sua resenha porque a frase que vc destacou mais a comparação com A Redoma de Vidro me tirou qualquer vontade de ler.
    Bjo!

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  3. Renato Dowsley

    (Eu ri ALTO com a pausa sugerida.)
    A internet precisa de mais pessoas como você, Camila; precisa de mais críticas como essa. O camilavonholdefer sempre entrega excelência (nos elogios e nos esculachos)

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  4. Taina Almeida

    Acabei de ler o livro (depois de muito enrolar) e sinto que perdi parte do sábado pra uma obra que nao vale a pena. Vim buscar comentarios (na verdade, consolo)acerca do romance, porque achei terrivel o ritmo, me perdi no início. Alem dos misterios sem proposito, que continuaram uma completa incógnita. A sensualidade (ou talvez erotismo, a autora nao decidiu qual linha seguir) foi bastante grosseira, e desnecessária -porque foi mal desenvolvida. A edição é bruta, terrível. Inclusive no penultimo capitulo um bendito artigo que foi erroneamente escrito, prejudicou o entendimento e eu tive que reler e considerar o erro.
    Nunca mais julgo um livro pela capa. Rs

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  5. Yasmim

    Estou lendo o livro há alguns dias e só uma palavra define a experiencia, decepção, a sinopse aponta uma história diferente em diversos pontos do livro.
    Adorei seu post, parabéns!!!

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  6. Ricardo

    Redoma de Vidro foi, talvez, minha pior leitura de 2015. E como esse romance é supestimado, principalmente entre a comunidade dos booktubers! O livro resenhado está na minha estante, mas quase no final de uma longa fila de prioridades de leitura.

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  7. Annie

    Com muito sacrifício consegui terminar o livro hoje. Acho horrendo o hábito de se abandonar o livro e julgá-lo sem conhecê-lo por completo.
    O livro é realmente bastante confuso e não tive o exemplar em inglês para comparar em quesito de tradução mas concordo quanto aos erros gramaticais e de digitação.
    Não achei o livro de todo ruim. Os últimos capítulos, na minha opinião, foram as melhores coisas do livro inteiro. E se reparar a capa do livro tem algumas referências que só passamos a compreender melhor depois de terminarmos a leitura.
    Apesar da beleza externa do livro me gritar um 10 interior não consigo dar uma nota 7 a história do livro por inteira.
    E eu achava que não existia livro pior que A Menina Submersa. Que engano!

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  8. Esa

    Decepção total não se iludam com esse livro, não sou um leitor aleatório. pornografia e palavrões demais o resumo da capa não condiz com a historia do livro toda via podem ignorar esse comentário e sigam adiante “Eu avisei”

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  9. Dominique Carvalho

    Acabei de ler o livro e o final ficou completamente esquisito pra mim eu não sei se sou idiota mas eu não compreendi o fim dele. O livro de certa forma me prendeu muito, por conta do passado de Jake, sobre o Lloyd e se é realmente um criatura que ataca somente as ovelhas, grande parte do livro fala sobre a dificuldade de ser mulher e como tudo nada vida dela sempre envolveu o sexo para dar prazer aos homens ou até pelo fato das pessoas a acharem que é lésbica porque ainda não casou, isso tudo foi completamente compreensível pra mim, mas o final me pareceu tão bobo aquela criatura que eu achava ser algo da cabeça dela ou uma metáfora até a Lloyd ve-lá também, se você puder tem como me esclarecer o final?

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  10. AMANDA

    Deveria ter lido essa pagina antes de comprar e perder dias lendo esse livro, mas que porra mais confusa, to tentando entender aquele final, e não consigo compreender porra nenhuma, em certo momento achei que a criatura era o Lloyd, que se transformava, tudo seria possivel naquele livro horrivel, mas ai veio esse final, que devo ser completamente burra, pq não compreendi nadaaaaa.
    o livro é muito arrastado…
    e o pior é que comprei varios livros da Darkside, essa tortura, a menina submersa (que já li em um comentario aqui que é horrivel), o dos warrens, e o exorcista.

    PELO AMOR DE DEUS, ALGUÉM ME INDIQUE LIVROS DE TERROR/SUSPENSE BONS

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