O segundo e (até então) melhor livro de Jeffrey Eugenides

O segundo e (até então) melhor livro de Jeffrey Eugenides

Em 1993, o norte-americano Jeffrey Eugenides fez sua estreia na literatura com o superelogiado As virgens suicidas. Seis anos depois, em 1999, a novela foi adaptada para o cinema por Sofia Coppola, o que só aumentou a expectativa em torno do segundo livro do autor. Com quase 600 páginas, tão original quanto primeiro trabalho, Middlesex chegou em 2002, levando o Pulitzer em 2003. O terceiro, o igualmente longo A trama do casamento, foi lançado em 2011.

middlesex

Middlesex já havia sido publicado no Brasil pela Rocco (tradução de Paulo Reis), em edição que permanecia fora de catálogo. No final do ano passado, com visual repaginado (e agora com tradução de Christian Schwartz), o romance saiu pela Companhia das Letras. A editora também publica As virgens suicidas (tradução de Daniel Pellizzari) e A trama do casamento (tradução de Caetano W. Galindo), completando a obra do autor.

A originalidade do enredo de Middlesex é ressaltada por sua condução. Do início ao fim do livro, pequenos truques e ornamentos ajudam a sustentar o relato do personagem, que, de forma não tão súbita quanto as primeiras linhas levam a crer, sofre uma importante transformação durante a narrativa. “Nasci duas vezes”, diz, sem rodeios, na frase de abertura do livro. Cal Sthephanides, um homem de 41 anos que vive sozinho no distrito de Shöneberg, em Berlim, logo entrega a mudança ocorrida. Até a adolescência, Cal foi Calíope — indivíduo do gênero feminino. Numa reviravolta inusitada, descrita no primeiro parágrafo do livro, descobre-se que seu sexo é mais ambíguo do que parecia à primeira vista. Cal é um pseudo-hermafrodita.

Cal, todavia, narra suas memórias depois passar muitos anos vivendo como homem. Não temos acesso direto ao que Calíope, com sua visão adolescente, pensou ou sentiu quando descobriu o que a tornava (o tornava) diferente da maioria das pessoas. Tudo é analisado em retrospecto. Em Middlesex, o tempo, bem marcado, faz toda a diferença.

Cal escreve que “para seguir adiante é preciso voltar ao começo”. E volta. Numa manobra curiosa, Cal assume um ponto de vista onisciente, descrevendo com convicção e em detalhes aquilo que não presenciou. Retrocedendo muitos anos no tempo a fim de explicar sua condição de pseudo-hermafrodita, ele resgata a trajetória de seus avós gregos, Desdêmona e Eleutherios (Esquerdinha), que deixam a Esmirna recém-tomada pelos turcos para viver na América. Uma vez nos Estados Unidos, demoram até se estabelecer e se habituar à nova realidade. Desdêmona, impedida de criar seus bichos-da-seda — e com suas longas tranças agora guardadas em uma caixa —, nunca se habitua de todo. O casal sobrevive graças à boa vontade da prima Sourmelina, que emigrou antes deles. Indo em frente, Cal logo se detém nos avanços e recuos do namoro dos pais, Milton — filho de Desdêmona e Esquerdinha — e Tessie, em episódios que envolvem serenatas de clarinete e uma boa dose de tragicomédia. Eles finalmente se casam. Nasce o irmão mais velho do narrador, Um-Sete-Um. Em seguida, momento em que “os deuses da biologia zoaram com um gene do quinto cromossomo de um certo bebê”, Cal passa a existir. Sua história é a história da família Stephanides.

Cal nasce em Detroit, Michigan, em 1960. O local e o ano de nascimento, os mesmos do autor Jeffrey Eugenides, têm seu peso na trama. Partindo de um e de outro, recuando no tempo e avançando no espaço, o narrador retraça os acontecimentos cruciais de um período de quase cinquenta anos. Revisita a Grande Depressão da década de 1930, cujos efeitos não poupam o casal de imigrantes. Relembra a Lei Seca e a breve atuação de Esquerdinha no contrabando. Evoca o conflito global que marca os voluntários norte-americanos e suas famílias. Refaz os passos que levaram Detroit a se tornar, paulatinamente, a cidade dos carros — descrevendo o mal-estar de Esquerdinha na linha de montagem da Ford. Os conflitos que eclodem em Detroit em 1968 — motivados pela segregação racial que já era observada, muitos anos antes, pela avó do protagonista — são narrados em detalhes.

Cal vai e volta no tempo. Ora se concentra no presente, em Berlim, ora está de volta ao passado, à trajetória de seus avós e de seus pais e à própria infância. Saltando de um episódio a outro, o narrador descreve a oscilação e finalmente a ascensão da família Stephanides. Esta última culmina na mudança para Middlesex, o endereço de classe média alta que passa a ser seu lar quando os negócios — uma rede de lanchonetes de nome Hércules — começam a prosperar.

 

A obra

A Grécia (Eugenides também é descendente de gregos) tem mais peso em Middlesex do que nos dois livros anteriores. O país é pouco mencionado em As virgens suicidas — a não ser que se leve em conta que a primeira pessoa do plural, a escolha do autor para a narração do livro de estreia, esteja ali para simular um coro. A avó de um dos garotos que compõem o possível coro, em todo caso, uma senhora cheia de máximas sobre a felicidade, é grega. O país tampouco ocupa um lugar de destaque em A trama do casamento, onde as referências começam e terminam em Mitchell Grammaticus, um dos personagens centrais. Em Middlesex, por outro lado, a inspiração é bem marcada. “Desculpem se às vezes minha prosa parece um pouco homérica. Também é genético”, entrega Cal no começo do livro. O narrador usa diversas referências da literatura grega, tanto da poesia quanto das tragédias. “Canta, ó Musa, a mutação recessiva do meu quinto cromossomo!”, invoca ele. Em outro trecho, que naturalmente apresenta uma reviravolta inacreditável, Cal diz que “todo drama grego precisa de um deus ex machina“. Uma referência importante é Tirésias, o profeta cego de Tebas que, castigado por ter matado uma serpente do sexo feminino, passa anos vivendo como mulher.

Empregadas de forma leve e bem-humorada e combinadas ao enredo contemporâneo, as referências constantes à literatura grega só evidenciam a originalidade da narrativa de Eugenides. O que para alguns é o ponto alto da carreira de um autor, para outros é um ligeiro declínio. Boa parte dos críticos defende que o talento do norte-americano aparece com mais força — uma vez que foi lapidado e polido — em As virgens suicidas.

As virgens suicidas é uma novela onde o não dito ocupa um lugar de destaque, o que contrasta com a abundância de detalhes aparentemente desimportantes apontados em certas cenas. O que realmente conta — a razão por trás do suicídio das cinco irmãs Lisbon — permanece oculto. É um exercício brilhante, sem dúvida. O incômodo é intensificado pela narração em primeira pessoa do plural — o conjunto das vozes dos ex-vizinhos da família, responsáveis por entregar ao leitor sua visão dos fatos. A precisão da prosa, combinada à facilidade de Eugenides em recriar um subúrbio norte-americano da década de 70, valeu ao autor uma atenção que poucos estreantes recebem. É fácil entender por que muita gente considera As virgens suicidas seu melhor trabalho, superando o vencedor do Pulitzer.

eugenides

A principal diferença entre um e outro é o tamanho: Middlesex é três vezes maior que As virgens suicidas. A engenhosidade na escolha e na condução das tramas, no entanto, é a mesma. A ousadia desaparece no terceiro livro, considerado o trabalho mais fraco do autor. Do começo ao fim, A trama do casamento é errático. Dois rapazes disputam a atenção da protagonista, a inexpressiva Madeleine, que acaba de se formar em letras. Focado inicialmente no ambiente acadêmico, o livro quase se salva ao compor uma sátira de certa corrente teórica francesa (a “máfia hermenêutica”) que tomou conta das universidades norte-americanas no final dos anos oitenta. O assunto logo é abandonado, e o enredo segue por outro caminho. O triângulo amoroso, um clichê que o autor mal procura disfarçar ao esboçar a viagem de um dos personagens à Índia e ao descrever o apego do outro à ciência, passa a ser o centro do romance. Com tantas mudanças de direção e falsos começos, resta a forte impressão de que Eugenides não soube bem como, e nem para onde, conduzir a narrativa. Como resultado, A trama do casamento é insosso e repetitivo.

 

Middlesex

As virgens suicidas se destaca pelo domínio técnico, especialmente o demonstrado na criação e manutenção do ponto de vista coletivo que conduz a trama. Mas há um problema. Se é um dos maiores trunfos do livro, a distância imposta entre o leitor e as irmãs Lisbon também pode anestesiar. É possível admirar a destreza do livro de estreia, mas é mais fácil criar algum vínculo com o relato de Cal.

Middlesex alia alta legibilidade — o leitor avança rápido e com avidez — com referências tão integradas à narrativa que podem passar despercebidas. Eugenides desenrola a trama com segurança, mas sem pressa. Desde o início Cal amplia seu foco e o estende tanto às singularidades dos personagens secundários quanto aos acontecimentos maiores, recurso que anula o aspecto autocentrado da voz em primeira pessoa do singular.

Eugenides não abre mão do extraordinário. Além da onisciência inicial de Cal, o improvável ocupa outros redutos da trama. Um personagem morto aparece vivo e com uma nova identidade. A então pequena Calíope cruza, de bicicleta, uma cidade (literalmente) em chamas para salvar o pai. No final, uma sequência que envolve um roubo de dinheiro e um acidente de carro, digna de um filme de ação, encerra bem o que começou mais ou menos incomum.

As brincadeiras não anulam a exposição sensível e gradual do drama do protagonista. Como já havia demonstrado em As virgens suicidas, Jeffrey Eugenides sabe enxergar e respeitar as zonas cinzentas. Narrado de modo tão natural que faz a própria ação de narrar parece fácil, Middlesex delineia a personalidade de Cal enquanto aponta calmamente para as referências histórias e para a literatura grega. É um romance irretocável. A todo momento há o deslocamento do mítico para o realista, e então para uma espécie de distorção deliberada.

Cal, como não poderia deixar de ser, é complexo. “Emoções, pela minha experiência, não cabem numa única palavra. Não acredito em ‘tristeza’, ‘alegria’ ou ‘remorso’”, diz ele. O desprezo pelas nuances está encarnado na figura do médico que descobre seu pseudo-hermafroditismo. De acordo com o protagonista, o doutor Luce “não estava nem aí para avós marcados por um crime, ou caixas de bichos-da-seda, ou serenatas de clarinete”. O fato é que vários pequenos detalhes de sua história, e não apenas sua ficha clínica, compõem o indivíduo chamado Cal. Eugenides destaca que o gênero é mais fugidio do que parece — somos uma mistura complexa, e quase imponderável, de tudo o que acontece desde muito antes de nosso nascimento.

Cal cresceu cheio de dúvidas. Seu corpo não não entra na puberdade: Calíope não tem seios e não menstrua. A então garota se apaixona por uma colega de escola, e a descoberta do amor e da sexualidade se revela um dos trechos mais bonitos de Middlesex. Mas Cal sofre, claro, apesar do humor e da delicadeza de alguns momentos. Aqui, o resgate do mito platônico (grego, óbvio) do ser humano dividido em duas metades pode funcionar como uma espécie de chave do livro.

“Eu não poderia ir para nenhum lugar que não fosse eu” é, em dado momento, a grande revelação de Cal. É a brutalidade de existir aumentada por um corpo ambíguo.

Mas eu estava começando a entender uma coisa sobre a normalidade. A normalidade não era normal. Não podia ser. Se a normalidade fosse normal, ninguém se importaria com ela. Todo mundo ficaria numa boa e deixaria que a normalidade se manifestasse por conta própria.

7 Comentários O segundo e (até então) melhor livro de Jeffrey Eugenides

  1. Fernando

    Oi Camila, ainda não li nenhum livro do autor, porem depois desta minuciosa resenha com certeza o livro Middlesex será o primeiro.

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  2. Hugo Reis

    Estou lendo “As Virgens Suicidas” e sua resenha foi um começo para compreender melhor o universo do Jeffrey. Entendo que, talvez, a voz narrativa (“nós”) possa soar como um distanciamento “anestesiante”, como você disse. Mas isso é só aparência e não chega a constituir um problema. Embora a perspectiva do livro não permite acesso aos pensamentos da irmãs Lisbon, ela é essencial para a manutenção do mistério do livro. A partir dele, a gente se relaciona não com as garotas em sua individualidade, mas como uma entidade, complexa e misteriosa sob vários aspectos. Além disso, a voz narrativa coletiva do livro também inclui o leitor como parte da trama. Desse modo, ao ler o relato, nos tornamos cúmplices do grupo e passamos a conhecer, junto com ele, o desenrolar da narrativa das garotas Lisbon. É daí que surge a empatia, talvez não direta e fácil, mas sem dúvida intensa e eficaz.

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  3. Marcos Daniel

    Muito boa a resenha. Eugenides conduz como poucos a narrativa, um livro que se lê sem sentir que está lendo, poderia ter bem mais páginas e acho que só neste momento me daria conta de que o autor precisa concluir. rsrs. completamente envolvente. Um fato curioso sobre isto é, que como leio no kindle, fora os entremeios de cada capítulo em que Cal situa o leitor de sua situação atual aos 41 anos, os primeiros 40% do livro é um regresso aos seus avós e pais (aliás, Desdêmona e Esquerdinha são personagens encantadores), e somente aos 70% do livro Cal, enquanto Calíope descobre sua condição fisiológica, e os 30% final é o que decorre disso. Segurar o leitor por tanto tempo em histórias que embora sejam importante para o personagem, mas não são propriamente dele, e fazer isto sem perder o fôlego, é para poucos.

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  4. Kelly Sene

    Olá Camila,
    Parabéns pelo site e por resenhas tão maravilhosas. Você é uma profissional, com certeza!! Uma maravilha de site de resenhas. Li sua entrevista no site da Unisinos – As letras de Camila. Parabéns e muito sucesso em sua carreira!!!

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  5. Tiago Melo

    Eu amei Middlesex, fiquei fascinado pela leitura e pelo desenrolar da trama. Em parte porque fiquei um tanto intrigado pelo fato do Eugenides inserir em Cal/Callie inúmeras particularidades de sua própria vida (segundo as informações que coletei no próprio perfil dele no livro e algumas matérias na Internet). Não sei, fiquei com a impressão que o livro todo é um exercício do autor expurgar seus próprios fantasmas, sua experiência e suas origens. Provavelmente é só uma impressão mesmo, mas isso ficou e ainda fica na minha cabeça (o que só reforça o brilhantismo do livro e da prosa do Eugenides).

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