O que amar quer dizer – Mathieu Lindon

O que amar quer dizer – Mathieu Lindon

“Convivi com ele intensamente durante seis anos, até sua morte, e vivi quase um ano em seu apartamento. Hoje me dou conta de que aquele período foi responsável por mudar minha vida, foi a bifurcação que me fez abandonar um destino que me conduzia ao abismo.”

o que amar quer dizer Localizado em uma espécie de prefácio, o trecho evidencia a importância que o jornalista, escritor e crítico literário Mathieu Lindon atribui à amizade que o uniu ao filósofo Michel Foucault — e, o que está implícito, ao próprio Foucault. No final da década de setenta, quando passaram a se encontrar com regularidade, Lindon era um jovem melancólico e aturdido — e recém-saído de uma adolescência claustrofóbica —, enquanto Foucault, um intelectual incansável e provocador, desfrutava de enorme prestígio na França. O vínculo que estabeleceram foi crucial para o mais novo deles. O que amar quer dizer, publicado recentemente pela Cosac Naify, é um relato autobiográfico em que Lindon procura esmiuçar as raízes e as ramificações de um afeto pontuado por aprendizado e gratidão.

A narrativa não segue a trajetória de Foucault. Seus escritos e sua militância (que são, para todos os efeitos, uma e a mesma coisa) não têm lugar no texto. Seu famoso curso aberto no Collège de France tampouco recebe alguma atenção, uma vez que Mathieu Lindon não esteve entre seus alunos. (Lindon assistiu ao seminário de Roland Barthes, mas foi afastado quando rejeitou uma investida do autor de Fragmentos de um discurso amoroso.) O que Lindon entrega ao leitor é antes um autorretrato revelador do que uma tentativa de esboçar a figura de Foucault. E é também nisso, na ideia acertada de que não se pode traçar os contornos de alguém de forma isenta, sem revelar algo da própria visão e do próprio estilo, que reside a beleza do livro.

É por aceitar as limitações de sua perspectiva que Lindon escreve o que, do início ao fim, pode ser considerado um relato autobiográfico. Com alguma nostalgia — o que parece inevitável —, o autor recria a atmosfera de uma época e um lugar específicos. Descrições de episódios são raras, breves e pouco detalhadas. Nada disso causa espanto — um bom tempo se passou entre 1984, ano da morte de Foucault, e 2011, ano em que o livro foi publicado na França (num dos capítulos, Mathieu justificou que “é preciso tempo para compreender o que amar quer dizer”). Consequentemente, por falhas na memória ou escolha própria, o autor concentra sua narrativa nas lições genéricas e no autoconhecimento proporcionados pelo convívio com Foucault.

Num paradoxo criado pela impossibilidade de concretizar o que de fato seria a intenção inicial, O que amar quer dizer tanto abraça quanto rejeita o rótulo de homenagem. Os livros que ele escreveu, diz Mathieu, são a maior homenagem à memória de Foucault. Se não se pode ver na narrativa um tributo, também é difícil enxergar nela uma declaração de amor explícita. Todavia, destoando do tom contido do restante do relato, algumas manifestações de reconhecimento e gratidão parecem desproporcionais. Lindon soa exagerado quando observa que, em certo sentido, Samuel Beckett “teve menos talento do que eu”, uma vez que o autor de Murphy, que foi amigo de James Joyce, nunca conheceu Michel Foucault.

Jérome Lindon x Michel Foucault

“Eu tinha vinte e três anos e ele me educou”, escreve Lindon. Por vários motivos, o autor diferencia a instrução que recebeu até a adolescência daquela que veio em seguida, oferecida por Foucault. A distinção poderia levar um desavisado a acreditar que a família negligenciou sua educação — o que é falso, uma vez que Mathieu Lindon é, em certo sentido, um privilegiado. Ele mesmo conta que passou boa parte da adolescência imerso em suas leituras. Sua boa bagagem o leva a fazer comparações constantes entre o que viveu e o que está nos livros, como no trecho em que relembra uma das passagens do romance mais conhecido de F. Scott Fitzgerald:

“Guardei em minha memória as primeiras frases de O grande Gatsby: ‘Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: ‘Sempre que você tiver vontade de criticar alguém, lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou”. Meu pai nunca me dirigiu essas palavras, não sei dizer se correspondiam ao que ele pensava, pois é preciso ser um pai muito seguro para pronunciá-las, mas a frase de Fitzgerald corroborava algo subentendido em minha educação, tal como eu a digerira”.

Mathieu Lindon é filho de Jérome Lindon, o falecido fundador da Éditions de Minuit. “Cresci bem perto de grandes e reconhecidos autores”, relata ele. Jérome foi editor de Alain Robbe-Grillet, Claude Simon, Marguerite Duras, Robert Pinget, Pierre Bordieu, Gilles Deleuze e Samuel Beckett (esse último foi seu grande amigo, a ponto de Mathieu comparar o sentimento que os uniu por cerca de quarenta anos ao que o uniu a Michel Foucault). Como consequência da educação excepcional, Lindon parece encaixar, com frequência e não tão metaforicamente assim, um livro entre ele e o mundo.

E é isso que Michel, um intelectual do novo tempo, transforma em Mathieu. Se Jérome o entupiu de livros e tolheu seus movimentos, a tarefa do outro é apontar o valor do conhecimento empírico. Não à toa, a figura do pai é um dos pontos de partida para que o autor analise a amizade com Foucault. Cada uma das relações, com suas regras e princípios próprios, traz lições específicas. Jérome Lindon e Michel Foucault foram contemporâneos (nasceram, respectivamente, em 1925 e 1926), mas havia um abismo entre eles. Foucault era, em ideias e comportamento, muito mais jovem. Jérome tentava, mas não conseguia ocultar o conservadorismo. Mesmo ciente da homossexualidade de Mathieu, ele nunca a aceitou completamente — o medo de que o filho o envergonhasse sempre esteve presente. “Meu pai era um fato, Michel fora uma sorte”, comenta Mathieu. Enquanto Foucault tentava fazer com que o garoto se abrisse apara o mundo (“ele aperfeiçoou meus afetos”, escreve), o pai continha seus impulsos. Como Lindon observa:

“Quanto a Michel, eu o amava, mas não como um filho. Ele me ajudava a criar a estrutura de uma relação completamente original, que me faria desenvolver outras tantas, necessárias para lidar com afetos que ainda viriam. (…) Me agradava que meu pai fosse meu pai, me agradava que Michel não o fosse.”

Amor & luto

Lindon não esconde que houve uma pequena ambiguidade no início da relação — que poderia ter sido maior do que a amizade que transformou a vida de um deles —, que, no entanto, logo é dissolvida. Michel e Mathieu não foram amantes, mas compartilharam uma intimidade terna. Os vislumbres da rotina de Foucault no apartamento da rue de Vaugirard, onde o filósofo morou por muitos anos, são os melhores momentos do livro. O lugar servia de ponto de encontro para uma turma de jovens da idade de Mathieu, a maior parte deles do sexo masculino. Num cenário que continua colorido pelo hedonismo, resiste a vontade de aproveitar, numa inundação dos sentidos, boa parte dos prazeres da vida. Lindon, que saía de sua adolescência solitária, é um dos mais ávidos.

Foi na rue de Vaugirard que Mathieu viveu o que se pode chamar de seus anos de formação. “Morar ali é morar na própria juventude”, escreve ele. E também observa que “mesmo que fosse idêntico, o apartamento não seria o mesmo se não fosse dele [de Michel Foucault]”. O lugar é atraente porque Foucault pode ser sentido em cada canto — é ele que está no centro daquela turma de jovens. O espaço favorito dos visitantes habituais é o “recanto Mahler”, um punhado de poltronas dispostas numa ponta da grande sala. É ali que, com uma frequência considerável, encharcados de ácido, Foucault e os garotos escutam sinfonias do compositor austríaco. Sessões de cinema embaladas pelo LSD também não são raras.

Tudo desmorona com o surgimento do vírus da Aids, que vitimaria Foucault e outros rapazes que compartilharam bons momentos na rue de Vaugirard. Eis que surge outra face do livro: o luto. Desde o início, o relato transita com sensibilidade da amizade à perda dela — uma perda que não impede suas reverberações. Mesmo ausente, Foucault continua a afetar a vida de Mathieu. No fim, escreve Lindon, que de fato atribui uma importância crucial a esse aprendizado, Michel “me ensinou até mesmo a morte, o luto irremediável”.

Na dor e perplexidade da perda, assim como outros autores que passaram por experiências semelhantes, Lindon tem boas epifanias. Numa delas, observa que a morte “tem ao menos uma vantagem, aquele que sobrevive passa a dominar a relação”. É o que Mathieu faz. E lá estão mais alguns elogios rasgados, com os quais dificilmente o elogiado concordaria — como quando ele escreve que Michel foi “um desses homens de quem queremos mostrar-nos dignos” e “um homem tão fora do comum que não pode servir de exemplo”. Não surpreende que o afeto esteja nas entrelinhas, e não na adulação desmedida — é ali que o leitor irá descobrir o que, afinal, amar quer dizer. São nos pequenos gestos que Mathieu capta — o sorriso de Michel ao abrir a porta do apartamento, por exemplo — que o significado se manifesta.

É possível dizer que o relato de Mathieu abre possibilidades e caminhos a cada parágrafo, senão a cada frase. É essa abrangência que o torna O que amar quer dizer um daqueles livros de que uma resenha não é capaz de dar conta. No desenvolvimento de atalhos e recuos, nas referências que usa para corroborar uma lição de Michel ou um momento que compartilharam, Lindon cria uma estética particular. (Esta é parecida, aliás, com a definição que ele arranja para um livro de Adalbert Stifter — segundo ele, “tinha algo ali de A noite do caçador, texto de Stifter e filme de Charles Laughton se unindo numa espécie de classicismo exagerado, que era ao mesmo tempo infantil e maduro”.) Nessa miscelânea, cujo resultado geralmente é de bom gosto, Mathieu Lindon pode citar Paul Valéry, Willa Cather e Gustave Flaubert, mas também pode se aproximar de Bob Dylan: “Sabia o que estava perdendo, e se perdia, era porque o tivera”.

Apesar das inúmeras e variadas citações, das voltas no tempo e no espaço, das mudanças de foco de Jérome Lindon para Michel Foucault, o texto guarda uma ordem e cadência perfeitas. Cada capítulo é cíclico, pousando delicadamente no assunto em que começou. Mathieu arranca um bocado de conclusões e perguntas do embate entre a vida vivida e a vida, inventada, contida nos romances que ele lê com avidez. Essas e outras fazem de O que amar quer dizer um livro excepcional sobre afeto e perda, realidade e ficção, vergonha e (auto)aceitação.

“É preciso tomar as coisas como filosofia”, ensina Foucault em dado momento. E Lindon é um bom aluno, pois completa: “A filosofia também é uma prática muito amigável”.

Por mais que sejamos prudentes, a existência também é feita de imponderáveis.

7 Comentários O que amar quer dizer – Mathieu Lindon

  1. Aline T.K.M.

    Segunda resenha linda e altamente encorajadora que leio deste livro. Já babei muito por ele na livraria, mas não comprei, e agora só confirmo minha vontade de lê-lo. O que mais me atraiu, além da sinopse, das personalidades envolvidas e da capa, foi a sensibilidade que a narrativa parece trazer. Sabe aquele texto cheio de delicadezas? Pois é isso o que penso que encontrarei no livro. Gostei muito da resenha e agora só espero comprar logo esse pequeno tesouro. =)

    Beijos, Livro Lab

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  2. Graça

    Oi, Camila!
    “um livro sobre afeto e perda, realidade e ficção, vergonha e auto-aceitação”, lindo e comovente comentário.
    Obrigada
    Beijos

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  3. Auzier

    Olá, conheci a pouco tempo esse blog é já estou cada vez mais apaixonada. Conheço Foucault a pouco tempo, mas tenho uma imensa admiração por ele e seus trabalhos. Quem dera poder haver mais pessoas assim como ele, com a sua sede de conhecimento e luta contra aqueles que o humilhavam devido a época no qual ele se encontrava em relação a sua sexualidade. Suas lutas pertinentes em encontrar sempre a verdade. O livro escrito por Lindon me deu uma vontade de ler, porque eu sei que onde quer que Foucault esteja envolvido vale muito a pena ser lido. Um Abraço.

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  4. Vítor

    Comecei a ler o livro com muito entusiamo, mas o capítulo Rue de Vaugirard fez com que por pouco não largasse tudo para preservar o quanto gosto de Foucault. Michel Lindon por vezes parece uma Narcisa Tamborindegui, fazendo do nome de Michel uma escusa para narrar episódios banais.

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