O primeiro homem mau – Miranda July

O primeiro homem mau – Miranda July

o primeiro homem

Não é fácil avaliar O primeiro homem mau, romance de estreia da norte-americana Miranda July. Ao mesmo tempo que oferece boas passagens, a narrativa reúne falhas consideráveis.

Cheryl Glickman, protagonista e narradora do livro, é uma mulher de meia-idade apaixonada (ou antes obcecada) por um colega de trabalho vinte anos mais velho. Ela acredita, como não se cansa de repetir, que o conhece de vidas passadas. Cheryl é funcionária de uma antiga escola de artes marciais — local não mais conhecido pelos treinamentos, agora substituídos pela produção e venda de DVDs didáticos voltados para a boa forma e a defesa pessoal.

Cada mínimo acontecimento, tal como descrito pela personagem, ganha um verniz tragicômico. A graça está na forma como Cheryl interpreta as situações, ainda que sejam — em sua maioria, ou pelo menos até a trama engrenar — ocorrências banais e repetitivas inseridas em um cotidiano deprimente.

Cheryl forjou para si mesma uma rotina que não admite sobressaltos. Seu sistema de organização, que envolve utilizar apenas uma panela e jamais lavá-la (você leu certo), ou deixar de ler um livro para não precisar recolocá-lo no lugar, requer pouca reflexão e quase nenhum movimento. Ela o descreve com visível satisfação, salientando que, depois de adotar o método, seus dias “se tornam mais oníricos, sem arestas, sem nenhuma das dificuldades e confusões que a vida oferece”. Quando passa muito tempo sozinha, diz Cheryl, ela não se dá conta da própria presença. Pouca coisa além de Philip, o colega de trabalho — ou as próprias demandas do emprego —, desperta sua atenção.

Tudo muda quando Cheryl aceita hospedar Clee, a filha dos donos da empresa, durante o que ela espera que sejam alguns poucos dias. A notável falta de higiene da garota é o menor dos problemas que Cheryl enfrenta durante o período de convivência forçada. Clee é, para dizer o mínimo, um tanto ríspida. De início, as ofensas e agressões da jovem deixam o leitor consternado — é difícil imaginar que alguém retribua uma gentileza com violência. Causa ainda mais espanto a falta de reação de Cheryl, que, no começo, permite que Clee a destrate e desafie. Finalmente, depois de interpretar a situação a seu modo, Cheryl passa a impor alguma resistência. Quando seus atritos evoluem para combates corpo a corpo (você leu certo mais uma vez), o livro, que já era esquisito, fica quase grotesco.

Na dinâmica que se instala, Cheryl e Clee chegam a usar alguns dos vídeos educativos de autodefesa a fim de afetar lutas mais intensas. O título do romance vem da simulação do ataque de uma gangue que as duas decidem representar. Uma delas faz o papel do “primeiro homem mau”, um dos sujeitos do grupo que, na gravação, ataca a atriz. Nessa troca de personalidades que questiona a própria identidade de gênero, Cheryl, admitindo pela primeira vez o seu desejo pela garota, mas sem abrir mão da obsessão pelo colega mais velho, chega a fantasiar que é Philip — e que, com seu pênis imaginário, consegue subjugar Clee.

Cheryl e Clee, em uma reviravolta improvável, mas não de todo inesperada, acabam assumindo publicamente o desejo que sempre esteve presente em seus embates. Depois disso, lá pela metade do livro — quando se acredita que a trama já rendeu tudo o que podia —, o enredo toma outros rumos. É aí que a vida de Cheryl, antes vazia e sem conexões significativas, de fato se transforma.

O primeiro homem mau ultrapassa em muito o inverossímil, o que não é um defeito. Todos os eventos descritos no romance, o que não se deve apenas à perspectiva da protagonista, pertencem à ordem do esdrúxulo ou do inusitado. Cheryl interpreta os acontecimentos de forma peculiar, sem dúvida, mas o que acontece a ela depois de certo ponto da trama — ou seja, as circunstâncias externas sobre as quais ela não tem controle — também é extravagante.

Se algumas das cenas parecem conter o pior de certos romances — lembrando, digamos, as desventuras de Bridget Jones —, outras são ótimas. Os diálogos da protagonista com sua terapeuta são hilários, assim como as interações de Cheryl com Philip. Mesmo o que há de mais questionável, como as agressões físicas que dão início ao relacionamento das duas mulheres, é bem trabalhado.

Um dos problemas da escrita de Miranda July é quando o humor parece servir apenas a ele mesmo. Algumas das cenas não têm outro propósito que não o de serem engraçadinhas — suscitando, é claro, o riso fácil. Com isso, depois de bem avançada a leitura, a impressão que se tem é a de um enredo que acumula pontas soltas e situações que ficaram por ser aprofundadas. Muita coisa é interessante, mas aleatória.

No fim das contas, é a mistura entre a escrita afiada (o humor brutal) e o clichê (o humor que descamba para o pueril e o pastelão) que torna O primeiro homem mau tão difícil de avaliar. Não é fácil empregar altas doses de comicidade na escrita de ficção e ainda assim entregar um livro de qualidade. Miranda July quase chegou lá. A ironia e as boas reflexões de que a autora se vale a fim de delinear a solidão de Cheryl constituem, de fato, o melhor da narrativa, mas não se pode esperar muita coisa além disso.

O maior problema do livro reside numa espécie de irregularidade ou inconsistência na construção de Cheryl, uma vez que todo o romance depende da evolução da protagonista. Até a metade do livro, Cheryl é abertamente alienada. Ela não entende quando é alvo de deboche; não percebe que caiu em uma armadilha; não é capaz de fazer a avaliação correta de uma circunstância. Ela é inocente, insegura e desajeitada. Em seguida, depois enfrentar um punhado de situações novas e difíceis que se sucedem em um curto espaço de tempo, Cheryl se transforma em alguém capaz de perceber nuances, de agir com sutileza, de fazer planos sólidos e de ponderar com sensatez. A mudança de registro é necessária para a personagem, que descobre, quando sai de sua zona de conforto, uma autoconfiança até então desconhecida. O estranho é a rapidez com que a mudança acontece. Num passe de mágica, Cheryl é uma nova pessoa. E, por mais inverossímil que seja o restante do livro, a transformação não convence.

O primeiro homem mau é um romance divertido — e que ainda assim consegue comover em alguns poucos momentos, em especial no final. Impossível não levar em conta a ousadia da autora ao assumir os riscos de uma trama mirabolante repleta de personagens excêntricos. Para um romance de estreia, O primeiro homem mau é satisfatório. Miranda July tem uma voz. Falta afiná-la.

12 Comentários O primeiro homem mau – Miranda July

  1. Simone

    Olá, Camila!
    O site está maravilhoso, excelente trabalho! Agora está ainda mais prazeroso viajar pelas páginas do Livros abertos. Talento, qualidade e beleza aliados, parabéns pelo excelente trabalho!
    Quanto ao livro O primeiro homem mau, sei não, parece bizarro demais para o meu gosto…

    Reply
  2. Marcos

    Oi, Camila.
    Deve ter mais gente curiosa sobre a tua velocidade de leitura. Poste algo sobre isso algum dia desses.

    Reply
    1. Levi

      Essa com certeza é uma coisa boba para se estar curioso, afinal, cada um tem seu passo e… Mas não posso dizer não estar curioso eu mesmo. É como querer saber a rotina de grandes escritores: você sabe que não foi a rotina que os tornaram, mas não pode deixar de pensar que “se eu implementar aquela coisinha…”

      Reply
  3. Rômulo Pessanha

    Deve ser interessante apesar dos pontos fracos apresentados. Me interessei e quero ler esse e provavelmente os próximos livros dessa autora e talvez a o que aparenta defeito pode vir explicado em outros livros posteriores. Isso talvez aconteça por causa de pressa da autora e outros fatores além, é claro, de madurecimento literário.

    Reply
  4. Jaqueline

    esse livro é seu mais recente, nao seu primeiro
    The Boy from Lam Kien (July 1, 2005) (Cloverfield Press)
    The Dead bones (October 20, 2005) (Cloverfield Press)
    No One Belongs Here More Than You: Stories (May 15, 2007) (Scribner)
    Learning to Love You More (with Harrell Fletcher) (Fall/Autumn 2007) (Prestel Publishing)
    Corpse Tale (May 30, 2009) (McSweeney’s, Irregulars)
    It Chooses You (November 15, 2011) (McSweeney’s, Irregulars)
    The First Bad Man: A Novel (January 13, 2015) (Scribner)

    o livro é muito divertido, e o absurdo faz parte dele. tente conhecer melhor o trabalho dela.

    Reply
      1. PAULO

        Olá Camila, antes de mais nada cheguei aqui hoje apenas e estou muito satisfeito com o conteúdo, limpo, agradável e com ótimo títulos resenhados. Também fiquei curioso a respeito do seu ritmo de leitura e também sobre a escolha dos títulos. Escrevi aqui pois não posso deixar de lado minha crescente admiração pela sua capacidade de análise e honestos apontamentos. Também, é claro, a sua adorável resposta ao comentário acima. Parabéns e até logo.

        Reply
        1. Camila von Holdefer

          Obrigada pela leitura e pelo comentário, Paulo. 🙂 Dependendo da dificuldade e do número de páginas, leio de dois a quatro livros por semana. (No caso de uma biografia mais extensa ou de qualquer outro calhamaço, esse número diminui para um.) A escolha de títulos é basicamente arbitrária: pego aquilo que considero relevante, ainda que no geral (exceção feita a Elena Ferrante e a outros poucos) tente evitar aquilo que, dos maiores jornais aos menores blogs, todo mundo vai resenhar. Foi algo que ajustei com o tempo. Não posso deixar de resenhar Franzen nem a ganhadora do Nobel de 2015, por exemplo, mas declino facilmente de alguns outros. Ou seja: acho que a seleção só faz sentido na minha cabeça. Tento ter uma lista de leituras única, sem repetir a de outro resenhista ou outro espaço. E claro, há a escolha dos títulos resenhados para jornal, sobre os quais eu não tenho poder de decisão.

          Reply
  5. Thiago Guedes

    Olá. Gostei muito da resenha.
    Conheço o trabalho da autora Miranda July à algum tempo e o que mais me fascina nela, e ao mesmo tempo me causa um desconforto, é o fato de sua narrativa ser muito acessível e até um pouco ingênua. Dito isso, quando seus personagens caricatos abrem seus corações e as coisas mais estranhas acontecem, beirando ao escatológico, é desconfortável, mas ao mesmo tempo me faz pensar que todos nós estamos sujeitos a passar por coisas desse gênero em nosso dia-a-dia, só que a relevância e o peso que isso vai gerar em nossas vidas, somos nós que decidimos.

    Ela possui dois filmes que merecem uma conferida: EU, VOCÊ E TODOS NÓS e THE FUTURE.

    Reply

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *