O pintassilgo – Donna Tartt

O pintassilgo – Donna Tartt

Livros que geraram reações extremadas, positivas e negativas, uma enorme quantidade delas, que repercutiram em todos os cantos e motivaram discursos que parecem ter alcançado vários tons, enfim, livros cujo pendor para a polêmica parece nascer junto com suas frases raramente são fáceis de avaliar. No caso d’O pintassilgo, graças a algumas particularidades que você vê a seguir, a tarefa é ainda mais delicada. Procuro fugir do burburinho, mas não a ponto de ser incapaz de ouvir uma ou duas coisas do que é dito no centro da agitação.

o pintassilgo_grande(Por que não ignorar tudo, inclusive o próprio livro?, é uma pergunta que deve aparecer por aí. A lógica por trás da questão revela um tantinho de preconceito: se o romance atingiu uma marca altamente significativa de exemplares vendidos — e aqui estamos falando de algo em torno de 1,5 milhão só nos Estados Unidos —, logo surge quem denuncie as supostas concessões da narrativa àquilo que se pode chamar de senso comum, o que acarretaria uma literatura que de forma alguma seria digna desse nome etc. Nesse caso, o romance de Donna Tartt se mostra a exceção ao que sequer é uma regra.)

O pintassilgo — mais de 30 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times, elogios rasgados sendo disparados por gente que raramente emite opinião sobre literatura — carrega duas referências que, se não são determinantes, ao menos depõem a seu favor. a) A informação ganhou destaque nas capas, mas não custa sublinhar: o romance foi vencedor do Pulitzer de 2014, feito que costuma despertar a curiosidade do público em geral. b) A credibilidade da autora, a norte-americana Donna Tartt — muito elogiada por seus dois trabalhos anteriores, A história secreta e O amigo de infância —, contribuiu para o sucesso do novo livro.

A crítica especializada se dividiu entre os que aplaudiram rapidamente e com entusiasmo e os que fizeram a linha do vamos-analisar-com-mais-calma. Ambos têm sua parcela de razão, uma vez que as visões não são mutuamente excludentes. É possível apontar qualidades no livro e ainda assim entender, ou aceitar, a existência de certas falhas. O pintassilgo entusiasma, e — da escrita notável de Tartt ao enredo cativante — de fato é um livro excepcional. Mas vamos analisar com mais calma.

Theodore Decker, narrador do livro, visita uma exposição dedicada aos grandes mestres holandeses na companhia da mãe. Num momento em que ela e o filho estão distantes um do outro, uma bomba explode em uma das salas do museu. Audrey Decker morre na hora. O garoto de treze anos acorda atordoado, mas sem ferimentos. Ele não é o único sobrevivente: caído no cenário caótico e desolador, coberto de sangue, um velho luta para continuar respirando. O sujeito consegue estabelecer algum tipo de comunicação com Theo — uma torrente de palavras desconexas, e então algumas orientações que na hora não fazem muito sentido. Encorajado por ele, Theo escapa dali levando consigo, além de um anel e de um punhado de informações guardadas na memória, um dos quadros da exposição. Trata-se de O pintassilgo, pintado por Carel Fabritius em 1654. Na confusão de sirenes e cordões de isolamento, ninguém repara no menino que se arrasta para longe dali. Da hora em que Theo desperta até o momento em que finalmente escapa dos escombros, lá se vão cerca de trinta páginas. O livro inteiro soma mais de setecentas.

Por que O pintassilgo? Segundo uma explicação genérica, a pintura marcaria uma ruptura sutil com a temática e o estilo da época. Quando as representações de troféus de caça faziam sucesso, faisões e codornas mortos e empilhados, o pequeno pássaro aparece vivo. Um personagem negociante de arte observa que o quadro de Carel Fabritius seria “uma resposta magistral a toda a ideia de trompe-l’oeil” (uma técnica que torna a figura mais real, que fornece certa ilusão de profundidade e/ou que simula uma distorção num ângulo surpreendente). Numa de suas poucas falas, o negociante garante que Fabritius “desmonta a imagem de forma bem deliberada para nos mostrar como a pintou”. Algumas pinceladas corresponderiam ao que se espera de um trompe-l’oeil. Outras, mais grosseiras e estilizadas, não passariam uma provocação deliberada. “Você vê a marca, vê a tinta, mas também o pássaro vivo”. Não é isso, porém, o que fascina o protagonista.

Depois da morte da mãe — que sempre gostou do pássaro pintado por Fabritius, o que torna o roubo do quadro mais especial para o filho —, Theo inicialmente permanece em Nova York, cidade em que nasceu e onde morou a vida toda. Ele é conduzido pelos assistentes sociais à casa de um amigo rico, onde sua rotina e suas interações são um tanto estranhas. Em seguida, numa guinada brusca, seu pai ausente reaparece a fim de levar o filho consigo para a casa enorme e desolada que ocupa em Las Vegas. O sujeito — que passa os dias e as noites apostando em jogos de azar — conseguiu superar o alcoolismo que tanto afetava a vida em família, mas substituiu seu vício em uísque pelo vício em comprimidos. Xandra, sua nova mulher, está longe de representar o papel de uma mãe. Uma pergunta de Theo resume a mudança para esse cenário triste: “Como é que tinha ido parar naquela estranha nova vida, na qual estrangeiros bêbados gritavam à minha volta à noite, todas as minhas roupas estavam sujas, e ninguém me amava?”

Se uma única frase é capaz de resumir a terceira parte do livro, isso não significa que Donna Tartt não tenha feito o possível para esticá-la até o limite. Theo logo encontra um amigo, Boris — russo, a mesma idade e uma vida tão ou mais miserável que a de Theo —, e o foco passa a ser a rotina dos dois garotos. É aqui que as falhas do livro começam a surgir com mais força.

Os problemas d’O pintassilgo residem justamente nas promessas que ele não chega a cumprir, ou que cumpre pela metade. A pintura desempenha um papel central na trama, mas, pelo menos até as últimas páginas, é tratada como um elemento periférico — ela permanece escondida e raramente é mencionada. Assim, quem espera encontrar um romance sobre “o submundo da arte” — uma promessa da sinopse — pode acumular alguma frustração durante a leitura. O “submundo da arte”, representado na parte final do livro, é marcado sobretudo por uma confusão digna de um filme noir. Tartt constrói o enredo, portanto, contornando a ideia da arte e do belo, só revelando o que mais importa quando tudo parece ter acabado há muito tempo. Enquanto isso, fique com páginas e páginas da vida de um adolescente abandonado, chapado e entediado.

A parte em que o protagonista vive em Las Vegas é de fato interminável. Theo e Boris bebem vodca e cerveja, fumam maconha, têm ressacas monumentais, passeiam com o cachorro, nadam na piscina, trocam socos e chutes, assistem à televisão e comem as sobras do jantar que estão na geladeira. As cenas têm o seu encanto e o seu propósito, mas, com a repetição infernal, acabam esvaziadas de sua importância. Se fosse possível falar em um niilismo tênue, a visão e o comportamento de Theo e Boris — um fã de Dostoiévski, o que não é nada gratuito — poderia se encaixar na definição. Nesse sentido, são bonitas as palavras em russo gritadas em desespero, a aflição que aqui é enfrentada com o entorpecimento sistemático, o completo desamparo dos dois garotos.

Quando finalmente acaba sua temporada em Vegas — de forma brutal, aliás — Theo segue mais uma vez as instruções do velho que esteve no local na explosão, que já o levaram, e o levam novamente, a um antiquário acolhedor e a um simpático restaurador de mobília chamado Hobie. (Esse é um ponto importante do livro: as guinadas são tão aleatórias quanto possível. Theo parece mais um barco à deriva, passivo e à espera, do que o agente das mudanças.) Mesmo com novo cenário, a narrativa continua a apontar, e apontar de novo, e apontar mais uma vez, e então uma quarta, quem sabe uma quinta?, para detalhes irrelevantes.

A repetição ad nauseam é o que mais se destaca no livro. Mesmo alguns gestos de personagens são reforçados com insistência maníaca e desnecessária. Hobie seca o suor da testa. Boris ajeita os cabelos. A reiteração também pode ser vista nos diálogos — que, numa tentativa de reproduzir as interações com fidelidade, são cheios em hesitações e silêncios. O problema é que o recurso é utilizado em excesso, a tal ponto que as coisas se tornam caricatas. “Fiz uma pausa, abatido.” “Fiz uma pausa, com a boca cheia.” “‘Nossa’, falei, depois de uma pausa desconfortável.” “‘Bem’, falei, depois de outra pausa interminável.” “‘Texas?’, falei, depois de uma pausa atordoada.” “‘Platt’, falei, depois de uma pausa chocada.” Acredite, são muitas as pausas nas mais de setecentas páginas. Tartt ainda comprova que há várias maneiras de incluir uma pausa em um diálogo sem precisar recorrer à palavra — e de repente os personagens coçam o nariz, tomam um gole de café, olham para os lados, abrem e fecham a boca e então fazem outra tentativa de dizer o que têm a dizer, e assim por diante. O mais inseguro de todos é Theo, que emerge dos diálogos como um personagem apático, estúpido e desnorteado, que nem de longe confirma a eloquência, a rapidez de raciocínio e a capacidade de observação demonstradas na narrativa. É possível creditar o fato à introspecção do protagonista, mas a explicação não se sustenta por muito tempo.

Porque Theo não se desenvolve. A literatura está repleta de exemplos de personagens que se agarram à própria imaturidade, e, fosse esse o caso, não seria nenhuma surpresa. Mas não, não é o caso. O fato é que as experiências traumáticas em Las Vegas pouco ou nada contribuem para amenizar a insegurança de Theo e moldar uma visão de mundo distinta da que ele apresentava aos treze anos. Com exceção do vício em remédios, de um pequeno cão, do carinho por Boris e de umas poucas lembranças, todo o resto é deixado para trás. Não há aprendizado ou marcas visíveis — para o bem ou para o mal, nada daquilo tem efeito sobre o protagonista. O Theo que volta para Nova York de ônibus, acovardado e apático, com medo de ser flagrado carregando um cachorro no transporte público, com medo dos assistentes sociais, doente e precisando de cuidados, é o mesmo Theo que deixou a cidade poucos anos atrás. Tartt não consegue criar uma personalidade coerente com a vivência acumulada em um período de privações severas. Uma explicação possível para o fato é que é o próprio Theo, já adulto, que relembra a infância a fim de narrar os contrastes de sua vida — mas a explicação, tal qual a dos diálogos, também parece frágil. O personagem poderia apontar as mudanças internas, mas não há nada a ser apontado. Theo presencia e sofre violência, rouba pequenos estabelecimentos, para de estudar e (o mais importante) é responsável por si mesmo em uma fase da vida em que os adolescentes em geral não o são. E nada disso opera alguma mudança.

Mesmo desenvolvendo a personalidade do protagonista de forma um tanto descuidada, Tartt atribui a ele uma curiosa tendência à autodestruição. Esse lado obscuro da personalidade de Theo, visível desde a infância, é um dos grandes acertos da autora. Outro — o que não pode ser tomado como algo isolado — é a narrativa elegante e dotada de assombrosa qualidade descritiva. Do início ao fim, O pintassilgo é pura estética. “Olhar abatido, queixo nobre, grandalhão, algo nele lembrando as fotos antigas de poetas e pugilistas irlandeses que ficavam penduradas no bar onde meu pai gostava de beber” — é como Tartt descreve um dos personagens. Metáforas, alusões, comparações e referências se combinam de modo extraordinário, formando um estilo coeso e ritmado que só é alterado no final. O modo como duas tragédias são contrapostas também é um êxito de Tartt: em Delft, no mesmo ano em que O pintassilgo foi pintado, uma explosão numa fábrica de pólvora próxima ao ateliê de Fabritius vitimou o artista. A partir daí, de forma muito sutil, a autora une o evento real à bomba fictícia no museu. A junção não chega a ter reverberações no enredo, uma vez que pouco ou nada além da trajetória individual de Theo parece importar.

Tartt também acerta ao contrapor a percepção subjetiva que se tem de uma pintura — sua capacidade de ser um “gatilho emocional”, como Hobie a descreve — à sua posição na história da arte e ao valor que ela atinge como objeto de culto em museus ou nas mãos de marchands. Essa transformação é bem marcada — quadros pintados há cerca de quatrocentos anos que passam a corresponder a uma montanha de dinheiro, que funcionam como moeda de troca no mercado negro, que demandam complexos esquemas de proteção em órgãos oficiais etc. Na esteira disso, o atentado terrorista em um museu parece um bom ponto de partida para uma reflexão sorrateira que mede o valor de qualquer vida humana em comparação ao das obras expostas no lugar. Tudo é mostrado superficialmente, mas está lá: quando há gente morta e ferida, certas equipes estão preparadas para salvar ou rastrear quadros perdidos nos escombros.

Mas é preciso preservar o que se pode da história, Tartt parece querer dizer. Em comparação com a pintura, o protagonista acredita que sua própria vida é “uma rajada de energia sem padrão e passageira, um sibilo de estática biológica (…) aleatório”.

Para o protagonista, todavia, O pintassilgo de Fabritius tem uma importância muito maior do que aquela que em geral costuma ser atribuída ao quadro. Theo é fascinado pela pintura de uma forma muito particular. “E o objetivo todo das coisas — das coisas belas — não é te conectarem a uma beleza maior? Aquelas primeiras imagens que arrombam seu coração e você passa o resto da vida perseguindo, ou tentando recapturar, de uma forma ou de outra?” É O pintassilgo, com sua beleza e mistério, que Theo busca (e tenta reter) avidamente. Numa aposta inteligente, o ruído de fundo do romance  está em sintonia com uma das máximas de Theodor Adorno na Teoria estética — para ele, “a sobrevivência das obras” estaria relacionada com “a recusa a deixarem-se compreender e a vontade de serem compreendidas; esta tensão é o clima da arte”. E, ao menos nas páginas derradeiras, essa tensão é o clima d’O pintassilgo.

Nas últimas páginas, num giro interessante, a história se volta para o início de tudo — não só o quarto de hotel em Amsterdam, ponto de partida do relato de Theo, mas o país de origem de Carel Fabritius e da pintura. As conclusões finais são o que há de melhor no livro, embora não tenham, como nada teria, o poder de reparar as repetições exaustivas da narrativa. É só na última curva que a escrita ganha novo fôlego, como se Tartt desistisse de seguir adiante no ritmo lento e imprevisível, sem um rumo definido.

No desfecho, Theo finalmente compartilha sua visão de mundo com o leitor. Se não há surpresas nas confissões e reflexões do protagonista, ao menos é possível contar com a elegância com que Tartt expõe os argumentos — elegância capaz de remodelar com graça (tornando aceitável e até agradável) qualquer máxima conhecida e repisada sobre a vida que ele despeja nas páginas finais. Talvez o poder d’O pintassilgo, o livro, esteja justamente nessa inversão deliberada — porque Tartt, ao fornecer as bases do enredo somente no último minuto, promove uma quebra na lógica mais intuitiva das narrativas. Uma quebra que, com ou sem intenção, na arte que lhe coube, Carel Fabritius também propôs.

20 Comentários O pintassilgo – Donna Tartt

  1. Aline T.K.M.

    Esta é a primeira resenha que leio do livro e achei-a suficiente, quero dizer, saciou algumas de minhas dúvidas quanto ao livro. Recentemente passei por essa situação de ler algo superestimado pela mídia, elogiado até não poder mais, e minha opinião foi que o livro (A verdade sobre o caso Harry Quebert) é muito bom, mas nada que chegue à altura do que foi dito a respeito dele. Imagino que seja este o mesmo caso de O Pintassilgo. Levando em conta os prós e os contras mencionados na resenha, eu penso que ainda leria o livro caso tenha a oportunidade. Mas iria com “menos sede ao pote” – acho que essa é sempre a opção mais vantajosa.

    Beijos, Livro Lab

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    1. gentil

      Li a resenha e os comentários. Chamou-me a atenção do conteúdo do livro. Conforme mencionado a autora deu muita ênfase aos detalhes sobre bebidas e drogas. Algumas de suas “páginas tornam-se monótonas”. Para uma análise mais precisa teria que lê-lo, mas pelo resumo apresentado fico em dúvida se vale a pena.

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  2. Sue Lobo

    Boa noite!
    Bela análise! O que podemos notar é que geralmente guiar-se pela opinião da maioria geralmente é seguir pelo caminho errado. E que o mercado editorial é confuso, pois muitas vezes exalta muito uma obra não tão magnífica, e não divulga algumas realmente maravilhosas. Eu sei lá como funcionam as editoras, mas deve haver uma votação do tipo: que livro citado abaixo você considera o ideal para ser o carro-chefe de vendas e marketing esse mês?
    É realmente enlouquecedor esse negócio. É o que torna livros muito ruins fenômenos literários, e não dá espaço a livros bons. É o que faz um autor só precisar escrever um livro bom na vida, e os outros vão vender de carona.
    Aliás, obrigada por seu trabalho de bom nível acadêmico. Lerei o livro para tirar minhas próprias conclusões.

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  3. vera

    Olá,
    Acabei de ler o livro (depois de algum tempo) e gostei muito do estilo narrativo da autora, de suas metáforas, das riquíssimas descrições – tanto de personagens, quanto de cenários. Concordo com a monotonia (páginas e mais páginas)na temporada de Theo em Las Vegas.
    Mas é um livro de fôlego, sem dúvida, que me pegou pela extrema beleza.

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  4. Tadeu

    Resenha incrível.
    Parabéns pelas observações bem colocadas e precisas.
    Estou no início da leitura e gostando muito da cadência.
    Veremos as problemáticas, rs.

    Abs

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  5. Adriana

    Ontem estive com este livro na mão, quase comprei-o, mas devido às decepções com as últimas leituras, uma delas o já citado A verdade sobre o caso Harry Quebert, resolvi buscar mais informações. Depois de ler esta resenha e também algumas outras, decidi por não comprá-lo. Prefiro voltar a algum clássico, os meus preferidos. A literatura atual me deixa sempre com a sensação de superficialidade, infantilidade. Sempre me parecem roteiros prontos de filme, no qual o autor já vislumbra o lucro que terá com a venda dos direitos. Mas sempre resultam em filmes também fracos, sem profundidade, apenas para uma distração temporária e esquecível.

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  6. Tata

    Muito bom livro e uma leitura que não temos vontade de parar,pressa de ver o que vai acontecer, pena que fala muito em bebidas e drogas

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  7. Ingrid

    Acabei de ler O Pintassilgo neste momento. Achei a análise perfeita. Estou impressionada com a precisão das observações. Pra mim, o que se sobressai é a fraca qualidade dos diálogos. Como bem mencionado, o protagonista realmente não se desenvolve, em total descompasso com sua trajetória. E assim como ocorre com Theo, Boris também é mal construído, de uma superficialidade irritante, parecendo uma caricatura. No entanto, apesar de tantos defeitos, o livro é bom. Uma boa trama – apenas boa – e vários trechos de muita beleza.

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  8. Edu

    Ótima análise, principalmente na parte em que destaca o erro da autora quanto à falta de desenvolvimento da personalidade do narrador da história.
    Eu gostei do livro, apesar de passar quase seis meses para terminar de ler (quase desisti em vários momentos e inclusive li em paralelo outros livros mais leves). O último livro com tantas páginas que li foi “A Montanha Mágica”, que, ao terminar, tive a mesma sensação de quando terminei de ler “O Pintassilgo”: um apêgo aos personagens depois de uma jornada tão longa.

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  9. Ana Lucia C. A.

    Boa resenha. Acabei de ler o livro, demorou mais do que eu pretendia, mas no geral achei uma narrativa bem escrita e detalhada. As vezes, cansativo e um tanto repetitivo nas histórias passadas entre Theo e Bóris. Não é o meu romance preferido mas não deixa de ser um bom livro.

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  10. Pingback: Toda luz que não podemos ver – Anthony Doerr | Livros abertos

  11. gentil

    Pela resenha muitos trechos do O Pintassilgo poderiam ter sido suprimidos, o que daria uma leitura mais amena. Caberia a autora, Donna Tartt, fazer uma avaliação e torná-lo mais sucinto, sem prejuízo da qualidade.

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  12. Carlos

    Resenha de excelente qualidade, muito bem escrita, aliás, mas discordo de alguns pontos importantes e acho que ao final, parece um pouco injusta, na medida que desencoraja a leitura, que, na minha opinião, vale a pena demais.
    Decidi ler, vencendo os preconceitos: literatura norte-americana, contemporânea, best-seller…
    Acho a crítica quanto ao não desenvolvimento do personagem impertinente, na medida que o próprio personagem-narrador o admite em vários momentos, de certa forma, atribuindo ao trauma ( em um trecho explícito ele menciona estudos que observam que pessoas envolvidas no tipo de situação por que Theo passa sofrem de não-desenvolvimento inclusive físico).

    Acho que os ecos de Dostóievski vão além de expressões e personagens russos. De alguma forma, a saga de Theo lembra a de Raskohlnikov, ambos atraídos magneticamente pelo destino e pressionados por circunstâncias, a inexoráveis problemas e mesmo ao crime. As digressões de Theo nos intermezzos das ações e particularmente suas reflexões no final, sobre aceitação, culpa é redenção igualmente lembram o Crime e Castigo e os cortes na psicologia do personagem.

    Também remete a um Holden Caulfield menos ingênuo do que o de Salinger, numa comparação mais óbvia. Além dos perfis problemáticos, os dois têm vocabulários adolescentes, embora Theo seja claramente mais culto.

    Outro bônus do livro são as menções temperadas, elegantes e oportunas a referências da cultura, artes, música, cinema e do design, do erudito ao pop, feitas com bastante bom gosto e contexto. A própria obra que dá o título é tratada com menções esporádicas, não-óbvias, meio sutis, que mantém a curiosidade e o fascínio sem cansar ( ao final, Theo menciona que em todos os seus escritos, o quadro não é citado, mas é o que mais fala na narrativa, a presença do não-dito. Acho que, de certa forma, o livro faz um pouco isto, evitando a excessiva citação).

    Acho que as partes repetitivas e tediosas que se apresentam como problemas de leitura, quebrando o ótimo ritmo das outras partes, aproximam o leitor do próprio tédio niilista dos personagens e de suas sofridas esperas.

    No geral, excelente resenha, muito bem escrita ( aliás, vale como prazerosa leitura), porém acho que merecia um desfecho mais favorável a O Pintassilgo.

    Comecei a lê-lo me preocupando em observar se era boa literatura e acabei completamente envolvido com a leitura, esquecendo este questionamento, guardando apenas para o final. Pergunto-me se este livro atemporal tivesse sido escrito há alguns séculos, teria uma crítica mais complacente.

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  13. Daniel

    Eu sou do time dos que adoraram este livro. Eu já era fã da Donna Tartt desde “A História Secreta”, e continuo gostando demais do jeito elegante que ela escreve, seus detalhes e preciosismos. Adoro as reflexões inseridas no texto, isso gera uma identificação imediata com o narrador… Adoro como os personagens secundários são bem construídos; quando estes ressurgem na trama parece que encontramos velhos amigos.

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