O lugar sem limites – José Donoso

O lugar sem limites – José Donoso

Quase meio século separa a publicação de O lugar sem limites de sua primeira edição brasileira. Disponibilizada há poucos dias pela Cosac Naify (tradução de Heloisa Jahn), a novela de José Donoso está entre os lançamentos mais importantes de 2013.

o lugar sem limitesMuito já se falou sobre a estrutura e o conteúdo de O lugar sem limites, controversos e singulares a ponto de provocar inúmeros debates e acarretar dezenas de interpretações distintas. Sua protagonista, Manuela, é uma personagem emblemática e complexa; o próprio cenário árido que a circunda e no qual ela está inserida parece oscilar entre a reprodução fiel da realidade e a mera alegoria. Manuela é Manuel González Astica, travesti que mantém um prostíbulo com a filha Japonesita em El Olivo, localidade fictícia do interior do Chile.

Este parece ser, de fato, um momento ideal para as discussões em torno do enredo de O lugar sem limites — pautas sobre a homossexualidade, que normalmente se seguem às argumentações a respeito do casamento igualitário, nunca estiveram tão presentes. Embora tenha sido escrito em 1966 — o que coloca José Donoso, com sua sensibilidade e sua percepção, como uma personalidade à frente de seu tempo —, algumas análises e investigações só puderam avançar no final do século XX. Em 1990, a publicação de Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade, da filósofa pós-estruturalista Judith Butler, deu um importante passo para que possamos desvendar a condição de Manuela.

Citando um trecho do Doutor Fausto de Marlowe, a epígrafe da novela diz que o inferno é onde “somos torturados e ficamos para sempre: o inferno não tem limites, não se localiza em um só lugar; porque o inferno é onde estamos, e onde for o inferno, lá estaremos para sempre”. Os infernos de Manuela são múltiplos, embora seja possível afirmar que a prisão de seu próprio corpo lhe é especialmente dolorosa — a personagem parece ser, com base na interpretação de algumas passagens, uma transexual. Em Problemas de gênero, Butler separa com propriedade os conceitos de gênero, sexo e desejo, sublinhando a norma compulsória a que somos submetidos e destacando que todas as definições são mutáveis e intercambiáveis. Noções binárias são, portanto, desconstruídas. É possível, a partir daí, olhar Manuela de um ponto de vista diferente, menos estereotipado e mais abrangente.

Outra prisão a que a protagonista está submetida é a do patriarcado. A estrutura da novela compreende um dia de tensão crescente na vida de Manuela: há informações de que Pancho Vega, arruaceiro e mulherengo, está de volta ao povoado. Um dos objetivos do sujeito é ver Manuela e agredi-la. Enquanto espera pelo desfecho — a fatídica visita de Pancho, que pode ou não acontecer — a personagem relembra de seus primeiros tempos no lugarejo, quando, ao ganhar um aposta, torna-se sócia de um prostíbulo e “pai” biológico de uma menina. A vergonha e a raiva de Manuela ao ser chamada de pai são comoventes, e ela reitera frequentemente para a filha que, se uma denominação for necessária, ela prefere ser chamada de mãe. A garota não lhe dá ouvidos; como que para ratificar a infelicidade com a própria vida e a incompreensão de seu contexto, continua destratando Manuela.

Há outras questões em O lugar sem limites — questões não necessariamente subordinadas ou atreladas à problemática de gênero. El Olivo, descrito como “um amontoado de casas em ruínas cercadas pela geometria dos vinhedos que dão a impressão de que estão a ponto de engolir o povoado”, é comandado por uma espécie de caudilho, um sujeito que, embora tenha conexões com a política oficial como senador, é também um latifundiário carismático e ardiloso que manobra a vida dos moradores da localidade de acordo com os próprios interesses escusos. A má distribuição de renda, com o caudilho exibindo sua riqueza e adquirindo boa parte das propriedades de El Olivo, contribui para endossar a argumentação dos que veem a obra como uma alegoria. O lugarejo desprezado, onde a própria estação de trem funciona sem regularidade e do qual a estrada vicinal está a dois quilômetros de distância, é como um microcosmo esquecido e abandonado às margens da própria sociedade — embora faça, claro, parte dela.

A narrativa de Donoso em O lugar sem limites é uma curiosa e convincente mistura de estilo indireto livre com escrita em primeira pessoa. A voz se alterna, muda, se transforma e pula de um personagem para outro, o que confirma a ideia central de não ser possível encontrar uma classificação única e imutável para certos elementos e personalidades.

Um exemplo perfeito da narrativa de Donoso é este trecho: “Aquilo não é mulher. Ela vai mostrar a elas quem ali é mulher e como é ser mulher. Tira a camisa e a dobra sobre o lanço da escada. Os sapatos também… isso, pés descalços como uma verdadeira cigana. Tira também a calça e fica nu no galinheiro, braços cruzados sobre o peito e aquela coisa esquisita pendurada. Enfia o vestido de espanhola pela cabeça e a saia cai em torno dela como um banho de calidez, porque nada é capaz de abrigá-la tão bem quanto aqueles metros e metros de cansado percal rubro. O vestido se encaixa na cintura. Ajeita as pregas que contornam o decote… um pouco de recheio aqui onde não tenho nada. Claro, é que a gente é tão miudinha, a ciganinha, um primor, não passa de uma menininha que vai dançar e por isso não tem seios, assim, quase como um rapazinho (…)”Há a mistura uniforme entre primeira e terceira pessoa, mas há, além disso, a mudança significativa no gênero empregado para se referir à protagonista. Enquanto pensa em si mesma como mulher e veste o traje de espanhola de que mais gosta, Manuela é ela; quando está sem roupa, “braços cruzados sobre o peito e aquela coisa esquisita pendurada”, ele está nu. Para o narrador aproximado e para a própria personagem, Manuela só é aceita na definição que lhe convém quando coloca o seu melhor vestido, aquele que a faz sentir-se, de fato, próxima de si mesma.

O lugar sem limites é essencialmente trágico, melancólico e desesperador. A cidade fria, enlameada e vazia parece uma metáfora perfeita da dor da incompreensão, da solidão e do isolamento. Manuela, em sua bolha, não entende e não pode pedir que entendam sua condição. Ela não gosta de seu corpo, não se sente atraída por mulheres e não sabe dizer a que gênero pertence. Para fugir da sua dor, dança. Põe seu vestido de cigana e foge, por uns instantes, do próprio inferno.

O lugar sem limites foi adaptado para o cinema em 1978 — a direção é de Arturo Ripstein. O trailer pode ser visto aqui.

9 Comentários O lugar sem limites – José Donoso

  1. Graça

    Olá, Camila!
    Vi o trailer e gostei imensamente.
    Acredito que o livro seja melhor, como normalmente acontece e como demonstra sua resenha.
    Obrigada pela sugestão.
    Bjs.
    Graça

    Reply
  2. Mariane

    Olá!
    Me interessei muito pela sugestão também. Tive um “primeiro contato” com José Donoso no ano passado, ao ler o conto Uma Senhora.
    Este parece ser um pouco diferente e, diria, até mais ousado, tanto pela história quanto pela narração.
    O tema me lembrou também os filmes do Pedro Almodóvar (Tudo Sobre Minha Mãe, etc.), que frequentemente abordam transexualismo.
    Não deixarei de ler este!
    =*

    Reply
  3. Pingback: O obsceno pássaro da noite, José Donoso | Livros abertos

  4. Pingback: » Breve hiato Livros abertos

  5. Pingback: A origem do mundo – Jorge Edwards | Livros abertos

  6. Pingback: Sergio Y. vai à América – Alexandre Vidal Porto » Livros abertos

  7. Pingback: A origem do mundo – Jorge Edwards | Livros abertos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *