O jovem mestre de Natsume Soseki

O jovem mestre de Natsume Soseki

“Era um pedido totalmente exorbitante, para alguém tão impulsivo como eu, servir de exemplo aos alunos e ser um modelo respeitado por toda a escola. Segundo ele, eu não me tornaria um educador se não estendesse a influência de minha virtude moral para além dos bancos escolares. Haveria alguém de tão nobre caráter que em sã consciência se deslocaria para este fim de mundo por um salário de quarenta ienes?”

botchan

Quanto mais singular um narrador, mais destacada, na trama, a ideia de subjetividade. Descritos por uma voz dissonante, todos acontecimentos soam estranhos — o que é o mesmo que observar uma cena através de lentes que distorcem a percepção. É o que acontece neste pequeno romance de Natsume Soseki. Narrado em primeira pessoa por um excêntrico professor de matemática que deixa Tóquio para lecionar na pequena ilha de Shikoku, Botchan é um bom exame da alteridade.

Há muito da experiência do próprio autor — cujo livro mais conhecido é o romance Eu sou um gato, também publicado pela editora Estação Liberdade — em Botchan. Como seu criador, o protagonista perdeu a mãe ainda adolescente e nunca contou com a aprovação do pai. Soseki também foi professor, mas de língua inglesa. No final do século dezenove, afetado por uma série de crises nervosas, o escritor abandonou Tóquio para lecionar em Shikoku. No caso do narrador de Botchan, o que o leva à ilha é a oferta de emprego que recebe depois de se formar. A única.

“Botchan”, que significa “jovem mestre”, é tanto a expressão usada pela criada Kiyo para se referir — não sem uma nota de censura — ao protagonista quanto um termo pejorativo. Na visão do próprio narrador, quando “veem alguém sincero e puro, [as pessoas] o criticam e humilham, chamando-o de garotinho mimado ou Botchan”. Seu nome não é mencionado.

Nas primeiras páginas, quando os eventos principais ainda não foram postos em marcha, Botchan dá a impressão de ser um livro engraçado. Seu lado inquietante vem à tona quando se entende um traço peculiar do protagonista: o desinteresse. No geral, Botchan se satisfaz com lautas refeições e com visitas diárias aos banhos públicos. Afora isso, não faz planos e não tem objetivos. É imediatista. As emoções e os pensamentos não criam raízes. Todos os seus passos são dados por acaso. Não manifesta desejo algum. Sem desejo, sobra a inércia. Ele mesmo diz que não gostaria de ter aprendido “algo tão inútil quanto matemática”, ainda que tenha tido a chance de escolher aquilo que o sustentaria pelo resto da vida. É difícil imaginar um protagonista menos propenso à reflexão. Todo discurso ou ação responde a um impulso fácil, que perde força em seguida.

Botchan se constitui principalmente de expectativas frustradas. Num primeiro momento, o humor se mostra mais sombrio do que parecia. Em seguida, o que é bem planejado pelo autor, é o enredo que dá guinadas inesperadas. Quando a gula do protagonista passa a ser objeto de escárnio na pequena escola de Shikoku — ele é visto por alguns alunos devorando enormes quantidades de lámen em um restaurante —, tudo leva a crer que o atrito com os estudantes, intensificado pela paranoia e pelo desequilíbrio de Botchan, sairá do controle. Não é aleatório que um impulso elementar tenha dado início ao distúrbio: como uma criança pequena, o narrador exige a imediata satisfação da fome e imediato abandono ao sono. Com isso, Botchan tampouco pode exercer sua autoridade: apesar da idade, é um menino entre tantos. Quando entra na sala de aula, ele tem “a impressão de estar penetrando em território inimigo”. O caso é que as expectativas do leitor são logo desfeitas. Antes de tomar rumos ainda mais esquisitos, o enfrentamento se estende aos professores. No fim das contas, sobra a idiossincrasia de Botchan. Segue-se o embate entre o jovem mestre e o mundo real, adulto, representado por uma pequena cidade do interior.

O maior mérito de Botchan é dar voz a um narrador incapaz de fazer uma avaliação razoável das situações e do caráter alheio. Ele não é interrompido; não há contraponto à visão de Botchan. O efeito é cômico, mas também incômodo. Pouco articulado, o jovem mestre fala o que vem à cabeça e compra brigas com facilidade. Não há qualquer sutileza na sua visão de mundo — não há sequer uma visão de mundo definida. “Para alguém simples como eu, tudo precisa estar preto no branco”, diz ele, que sabe, até certo ponto, reconhecer a própria imprudência. Ao enumerar seus malfeitos, agradece por ter vivido “esse tempo [todo] sem ter ido parar atrás das grades”. Como qualquer pessoa impulsiva, Botchan se pauta pela intuição. O problema é que suas intuições, como é de praxe, são frágeis e volúveis.

A excentricidade do protagonista garante uma sequência de pérolas. Ao mencionar os habitantes de Shikoku, Botchan diz que “apesar de [serem] provincianos” eles “menosprezam as pessoas”, sem notar que ele próprio os considera inferiores. Natural que um sujeito tão peculiar tenha lá suas dificuldades com a autocrítica. Quando Botchan diz que os alunos, quando crescerem, acabarão por se tonar o tipo de gente que pega dinheiro emprestado e não devolve (?), esquece que não ressarciu a criada que lhe cedeu três ienes. A já mencionada infantilidade tempera tudo. Mal é apresentado aos colegas, como se fosse um aluno e não um professor, Botchan coloca apelidos em todos eles.

Sua lógica é peculiar. “Se for para mentir para escapar de um castigo, não se deve desde o início traquinar. Afinal, aprontar e ser punido são dois lados da mesma moeda. É por haver punição que se pode praticar boas estripulias”, diz. Diferente da maioria, para ele o problema não são as transgressões, e sim a covardia que faz com que se evite o castigo. Ele também acredita que se “a intenção é fazer alguém se desculpar de modo sincero, deve-se espancá-lo até que se arrependa de verdade”. Ao medir seus colegas e alunos pela própria régua, Botchan descreve sobretudo a si mesmo — como quando diz que “as pessoas são movidas pelo amor e pelo ódio”, de modo que “o coração delas não é tocado pela lógica”.

Contrariando as expectativas, o jovem mestre procura fazer o que considera certo, ainda que isso envolva (no melhor dos casos) violência física e invasão de privacidade. No fim das contas, Botchan se presta a duas interpretações diametralmente opostas. Tanto pode haver aí uma crítica à impulsividade quanto ao seu oposto — à manipulação, à manobra para levar vantagem, ao fingimento de que o protagonista, em sua dificuldade de arquitetar e premeditar, mas também em sua simplicidade, não se sente capaz.

Talvez sobre honestidade no narrador de Soseki. Botchan demonstra um tipo muito particular de ignorância orgulhosa e (por que não) franca. Resta especular se ele aprenderá alguma lição, ou, o que não é muito diferente, se a lição é mesmo necessária. É possível que a maturidade e o conhecimento genuíno apaguem justamente o que Botchan carrega de singular e autêntico. Na resolução desse dilema está a beleza do livro.

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