O herói discreto – Mario Vargas Llosa

O herói discreto – Mario Vargas Llosa

Felícito Yanaqué, empresário do ramo dos transportes, recebe uma carta anônima. Fazendo ameaças veladas, o autor da mensagem exige o pagamento de uma taxa para que nada aconteça a Felícito, ao seu negócio e à sua família. Ironicamente, o sujeito escreve que os depósitos seriam uma forma de proteger o patrimônio do senhor Yanaqué “contra qualquer contratempo, aborrecimento ou ameaça de facínoras”.

O transportista não cede à chantagem, e sua denúncia à polícia dá início a uma investigação cheia de percalços. Felícito vive em Piura, no norte do Peru, e sua suposta coragem, que logo vem à tona, se torna assunto obrigatório na modesta cidade.

A 980 quilômetros dali, em Lima, Ismael Carrera, o bem-sucedido dono de uma companhia de seguros, decide se casar novamente. A idade de Ismael: oitenta anos. A escolhida é Armida, sua antiga empregada doméstica. Mais do que um ato de amor, a intenção de Ismael é irritar os filhos gêmeos e diminuir a porção da herança que caberia aos irmãos. Tudo faz parte de um desentendimento que começou quando o velho, depois de sofrer um enfarte que o deixou à beira da morte, escuta os filhos — que discutiam em voz alta ao lado de seu leito de hospital — torcendo pelo seu fim. Recuperado, Ismael está decidido a se vingar.

O desenrolar da trama, da qual o resumo acima fornece um panorama geral, não foge àquilo que se espera de Mario Vargas Llosa. O “herói discreto” do título, que remete sobretudo à figura de Felícito, é um cidadão comum que luta como pode para manter seus privilégios. Todo o discurso do autor está amparado na meritocracia, sem jamais levar em conta o pano de fundo das desigualdades sociais. É nessa linha que é narrada a trajetória sofrida de Felícito Yanaqué. “Nunca se deixe pisar por ninguém, filho. Este conselho é a única herança que posso lhe deixar”, diz, antes de morrer, o pai de Felícito. O ensinamento será levado ao pé da letra. Depois de erguer a firma de transportes e proporcionar uma vida confortável à família, Felícito só faz lamentar a injustiça que a chantagem representa. É esse melodrama — um cidadão de bem que, depois de se estabelecer na classe média, deseja a) honrar a memória paterna e b) preservar sua riqueza — o ponto de partida do novo romance do autor peruano.

As histórias de Felícito Yanaqué e Ismael Carrera se desenrolam paralelamente: é só no final, através de um vínculo que o leitor intui rapidamente, que os dois núcleos irão se encontrar. A narrativa em terceira pessoa — o autor emprega, no romance, o discurso indireto livre — se aproxima de vários personagens alternadamente. Para assistir e contar os desdobramentos do drama de Ismael Carrera, Vargas Llosa resgata Rigoberto, Lucrecia e Fonchito (Os cadernos de dom Rigoberto e Elogio da madrasta). Diante dos novos desafios, não há uma única menção àquilo que seria o passado da família — ou seja, os acontecimentos bizarros dos livros anteriores. Rigoberto, uma das testemunhas do casamento civil de Ismael, terá de enfrentar sua parcela de problemas com os gêmeos, que movem todos os recursos para invalidar a união do pai com Armida. Além disso, Rigoberto é arrastado por outro conflito: um homem chamado Edilberto Torres, que pode ou não existir, começa a perseguir Fonchito, agora um adolescente, pelas ruas de Lima. O pai e a madrasta do garoto irão forjar suas próprias explicações para os aparecimentos misteriosos do sujeito. Várias dessas interpretações flertam com a religião, o que garante algumas páginas (um tanto deslocadas) sobre o assunto.

Na medida em que a leitura avança, fica claro que não haverá nada além da uma trama banal e farsesca descortinada da pior maneira possível. Llosa parece consciente disso: quando pensa nos dramas extravagantes que têm lugar na vida cotidiana, dramas semelhantes aos que vê à sua volta, Rigoberto reconhece que “não [são] obras-primas, [estão] mais perto das novelonas venezuelanas, brasileiras, colombianas e mexicanas que de Cervantes e Tolstoi, sem dúvida”. E completa: “Mas não tão distantes de Alexandre Dumas, Émile Zola, Dickens ou Pérez Galdós”.

Claro: a forma como o enredo é construído importa mais do que o enredo em si. Por esse motivo, e por nenhum outro, é descabido comparar o fraco romance de Llosa a qualquer trabalho de Dumas ou Dickens, escritores que, a despeito da ou graças à temática corriqueira, produziram uma série de obras-primas. Não há crítica social, deboche, autoironia ou algo semelhante em O herói discreto. Há uma série de acontecimentos previsíveis e um tanto óbvios que se sucedem com alguma agilidade. Dentro do gênero policial, com o qual Vargas Llosa parece flertar, há boas possibilidades. Todas foram desperdiçadas. A trama de investigação — e de manipulação e intrigas — não traz nenhum diferencial. Não há surpresas e originalidade. Llosa se mantém agarrado a uma zona de conforto literária e (é óbvio) ideológica.

O herói discreto não é, portanto, mais do que um livro de mistério escorado na mesmice e em uma visão de mundo simplista. A despeito da escrita segura e elegante de Vargas Llosa, há poucas passagens dignas de nota. Se fosse bem-sucedido, o romance poderia se limitar a satisfazer um desejo primitivo — algo a que Bioy Casares se referiu em 1965 como “o desejo inesgotável [do ser humano] de ouvir histórias”. Contar uma boa história — e se limitar a isso — não seria nenhum demérito. O problema é que O herói discreto não alcança sequer o patamar do entretenimento fácil.

O romance está repleto de ideias reacionárias. Dom Rigoberto se refere à sua biblioteca como um “espaço de civilização”, um lugar onde seus livros de arte e seus discos de música clássica formam uma espécie de barricada contra a ignorância. Os dois únicos negros da história, Adelaida e Narciso, são extremamente pobres. (Quando o narrador se refere a esse último, é bem possível acreditar que se está diante de escritos de Faulkner ou de Flannery O’Connor, ambientados no sul dos Estados Unidos em meados do século passado.) Um dos personagens usa a palavra “bastardo” para se referir a um sujeito — e a ideia de honra é que respalda e valida seu discurso. Nada disso, é claro, está representado como uma crítica aos modelos estabelecidos. Há outro ponto em que a ambientação é precária: O herói discreto é um romance contemporâneo dos mais inverossímeis. Chantagistas mandam cartas manuscritas. Não ocorre a dom Rigoberto pesquisar o nome de Edilberto Torres, o sujeito que persegue seu filho, na internet — mas ele a utiliza com frequência para checar outras coisas. Piura soa como um universo paralelo parado no tempo, a despeito de seus cinemas enormes e de seu tráfego constante e barulhento.

Não é difícil, apesar de tudo, encontrar e apontar pontos positivos n’O herói discreto. Vargas Llosa usa o recurso de evocar um diálogo durante outro, fazendo sobreposições e encadeando cenas com uma precisão infalível. O autor consegue, até certo ponto, criar uma tensão digna de nota. Com segurança e habilidade, brinca com o leitor como fazem os narradores dos bons romances policiais: distribui pistas, fabrica suspeitos, faz com que uma investigação enverede por caminhos que em seguida podem se revelar infrutíferos. Assim que o maior mistério é esclarecido, o livro perde boa parte daquilo que era, até então, sua única força. Como nem tudo é explicado, é possível imaginar se, de uma forma de outra, o septuagenário Vargas Llosa pretende retomar a história em um segundo volume.

O herói discreto não apresenta uma visão de mundo peculiar, como no caso de Deixa comigo, de Mario Levrero, outro livro que flerta com o policialesco. Além de ser um perfeito lugar-comum, o novo romance de Llosa é um livro cheio de furos e inconsistências, um livro que não escapa de ser um exercício um tanto vazio. Nem a menção ao Prêmio Nobel, destaque de capa, livra O herói discreto de despontar como aquilo que de fato é: um romance pobre e reacionário.

8 Comentários O herói discreto – Mario Vargas Llosa

  1. Graça

    Oi, Camila!
    Adoro esta característica marcante em seus comentários: sinceridade
    Llosa já escreveu histórias bem melhores.
    Parabéns, garota!
    Beijos
    Graça

    Reply
  2. Jéssica Amorim

    Vargas Llosa é um dos meus autores favoritos, ainda não li toda sua obra mas é um projeto de vida. Gostei de tudo que li até hoje, mas vou deixar este por último, pois não é a primeira crítica negativa que leio. Gosto muito de Conversa na Catedral, Travessuras da Menina Má e O Sonho do Celta.

    Reply
  3. Claudio Faria

    Pois é, gosto muito de seus comentários, considero-os como referências mesmo. Não me esqueço de suas resenhas para os primeiros volumes de 1Q84, do Murakami, no qual você elogiou discretamente o primeiro e criticou elegantemente o segundo. Na ocasião eu só havia lido o primeiro e quando fui para o segundo… bingo!, você tinha acertado em cheio ao apontar os defeitos – frequentes, aliás – na escrita dele. Por isso agora hesito em ler esse novo livro do Llosa. Logo ele, que considero um dos melhores.

    Reply
  4. v.

    fico triste pelo llosa. gosto muito da escrita dele, manja muito da malemolencia das palavras, esse peruano. esse ano li “a guerra do fim do mundo” e achei “nuuuussa muito foda” tõ com “lituma nos andes aqui” para ler.
    se ele trouxe o rigoberto e fonchito de volta sem mencionar nada do passado deles, então vacilou muito. acho muito legal revisitar personagens (zuckerman, kepesh…), usar sua história e desenvolve-la.
    do llosa quero muito ler o conversa na catedral.
    excelente resenha.
    abraço.

    Reply
  5. chicotpc

    “…romance pobre..” : totalmente de acordo .
    desilusão e sensação-tirando a mestria da escrita-de tempo perdido na sua leitura.
    fiquei triste.

    Reply
  6. Ray

    Acabo de ler o livro e confesso que apesar de ter notado alguns dos pontos negativos que você apontou, eu estava gostando da leitura. Não sei, algo me encanta na maneira como Llosa escreve. A parte que você fala sobre ser “um romance contemporâneo dos mais inverossímeis” concordo plenamente. Piura parece parada no tempo, as vezes achava que estava lendo um livro que havia sido escrito em outro seculo, não neste. Há algumas incoerências também, muitas lacunas… Bem, este pode não ser um dos melhores, mas continuarei lendo o restante da obra dele. Parabéns pela crítica muito bem elaborada.

    Reply
  7. Sergio Junior

    Excelente resenha, com a qual concordo inteiramente. Sem falar nas descrições desnecessárias e na repetição dos pensamentos e falas dos personagens, que enchem de vãs palavras muitas páginas. Cansativo e frustrante. Realmente, parece uma novela mexicana.

    Reply

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *