O gigante enterrado – Kazuo Ishiguro

O gigante enterrado – Kazuo Ishiguro

Dez anos depois do flerte com a ficção científica em Não me abandone jamais, Kazuo Ishiguro retorna com uma trama que investiga as possibilidades do fantástico. Como em qualquer livro do gênero, os episódios descritos em O gigante enterrado transcorrem em uma dimensão paralela, meramente próxima da realidade como a conhecemos. Fadas, ogros e dragões circulam com desembaraço. O lendário rei Arthur e seus cavaleiros, além do fiel mago Merlin — figuras aperfeiçoadas e enriquecidas pelos escritores ao longo dos anos —, são, no enredo de Ishiguro, personagens que descobriram uma forma canhestra de frear as hostilidades entre saxões e bretões. Consequentemente, não é difícil situar os acontecimentos do romance em um ambiente que lembra a Grã-Bretanha entre o final do século 5 e o início do século 6 — tempo e espaço que, embora sirvam para regular certos detalhes, poderiam facilmente encontrar substitutos à altura, mais ou menos remotos, uma vez que o contexto, com tudo o que carrega de mítico e de factual, não é nada além de um meio a serviço de um fim bem marcado.

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Um casal de idosos bretões decide partir em busca do filho que não vê há muitos anos. Desde o momento em que Axl e Beatrice deixam a vila onde moram até bem avançada a viagem, sua memória deficiente impede que algum vestígio de seu passado venha à tona. Algo, eles sabem, oblitera suas recordações. Os dois logo descobrem que o esquecimento, consequência de uma espécie de névoa que se insinua pelas redondezas, não recai apenas sobre eles. No caso de Axl e Beatrice, a névoa impede que consigam acessar, além de uma série de outras, qualquer lembrança relacionada ao filho — o local onde mora, suas feições, seu caráter, sua idade. O nome do rapaz, numa omissão significativa, não é mencionado.

Por um lado, o mais recente romance de Kazuo Ishiguro delineia uma trama singela cuja metáfora principal, sobre o amor e a morte, ficará clara para a grande maioria dos leitores — uma metáfora que depende inteiramente da construção dos protagonistas, uma vez que apela para suas lembranças afetivas e particulares. Por outro, é uma parábola lúgubre sobre a elaboração da memória coletiva, especialmente a que procura assimilar o inassimilável. “Alguns de vocês têm belos monumentos por meio dos quais os vivos podem se lembrar do mal que lhes foi feito. Outros têm apenas toscas cruzes de madeira ou pedras pintadas. E também há aqueles que têm que permanecer escondidos nas sombras da história”, diz o narrador de O gigante enterrado.

Os conflitos entre os saxões e bretões estão — ou deveriam estar, se a névoa permitisse — cravados na memória dos habitantes da região, incluindo o casal protagonista. Todos foram afetados pelo ódio e suas consequências, embora não tenham como resgatar, mas apenas intuir, suas raízes e sequelas. No geral, como acontece com Axl e Beatrice, suas lembranças, pouco nítidas, vêm e vão. Não há um único personagem com a memória intacta. Porém, amarrando os detalhes que o casal coleta aqui e ali durante o percurso, o leitor tem a chance de compreender e ordenar alguns acontecimentos de um passado comum que se revela cada vez mais abjeto.

Algumas das figuras que surgem pelo caminho têm enorme peso no desenvolvimento da trama. Na trajetória que parte de sua vila e termina em uma travessia de barco, Axl e Beatrice conhecem o guerreiro Wistan e o menino Edwin, ambos saxões, que podem ajudar a restabelecer as recordações dos moradores do lugar. Outro personagem, ainda que o livro de Cervantes só chegasse muito tempo depois do período em que a história supostamente se passa, tem forte inspiração quixotesca: é o cavaleiro Gawain, sobrinho do rei Arthur. Vestido “com uma cota de malha enferrujada”, Gawain anda por aí montado “num corcel combalido”, Horácio, que bem poderia ser Rocinante. É como uma paródia da paródia, e apenas aí — nos trejeitos de Gawain, em suas evasivas e delírios — há algum humor. De resto, O gigante enterrado é um livro delicado, mas sombrio.

O grande mérito do romance de Kazuo Ishiguro é, quase à maneira das narrativas infantojuvenis, emprestar um verniz agradável (ou menos violento) a temas dolorosos. Uma outra face da mesma interpretação leva a considerar a brutalidade que as próprias histórias destinadas ao público infantil, que constituem nosso primeiro contato com a ficção, costumam esconder. No entanto, uma vez que o livro foi escrito para adultos, nem sempre é desejável evitar ou mascarar a crueldade — e Ishiguro de fato não a evita, nem a mascara. Em outros momentos, porém, e em especial quando se considera um quadro mais amplo, o autor prefere se esquivar do literal, deixando implícito o que há de mais grave. Consequentemente, a narrativa ardilosa, ora afastada, ora aludindo ao que há de pior na realidade imediata, potencializa o argumento da tragédia e da vergonha coletivas.

O gigante que está enterrado é metafórico, e remete, é claro, à guerra entre saxões e bretões. Mais do que aludir a milhares de túmulos, Kazuo Ishiguro pretende destacar a facilidade e a rapidez com que um povo enterra a lembrança da injustiça, da vileza e da degradação. “O fato da palavra grega sèma significar, ao mesmo tempo, túmulo e signo é um indício evidente de que todo o trabalho de pesquisa simbólica e de criação de significação é também um trabalho de luto. E que as inscrições funerárias estejam entre os primeiros rastros de signos escritos confirma-nos, igualmente, quão inseparáveis são memória, escrita e morte”, observa Jeanne Marie Gagnebin no excelente Lembrar escrever esquecer (Editora 34). Quando Gagnebin ressalta “o caráter literário, e até mesmo ficcional” da escrita da história, é fácil entender o motivo pelo qual o romance de Ishiguro alcança uma dimensão muito maior do que a trama pálida e quase inocente em primeiro plano deixa entrever. De forma ora sutil, ora mais direta, O gigante enterrado procura não só desenvolver como simbolizar a ideia de investigação e narração de um passado nada ameno.

O que aconteceria com o presente se o passado fosse apagado? Subtrair um acontecimento importante da memória coletiva não implicaria no enfraquecimento da memória individual? Na maioria das vezes, sugere Ishiguro, a obliteração tem a função principal de mitigar a culpa. “Será que é a vergonha que deixa a memória deles tão fraca ou é só o medo mesmo?”, pergunta Ivor, um ancião bretão que vive entre os saxões. Alguns, numa reação não tão distante do arrependimento, temem que as memórias desencadeiem um ciclo de vinganças que nunca terá fim.

“Será que não é melhor que algumas coisas permaneçam encobertas?”, questiona, por sua vez, um sábio monge. Também a memória pessoal pode se beneficiar do esquecimento, sugere Kazuo Ishiguro — ainda que seja uma alternativa covarde e pouco sincera, invariavelmente fadada ao fracasso. Além das lembranças do filho, Axl e Beatrice desejam recuperar os momentos felizes que viveram juntos, também perdidos. A restauração das lembranças, no entanto, acabará por desenterrar os desentendimentos e os ressentimentos. Beatrice não teme as más recordações, uma vez que confia nos seus sentimentos por Axl, e vice-versa. Sua trajetória em comum, no entanto, também se constituiu a partir do conflito. Não há relação sem a experiência, boa e má. Sem (agora num microcosmo que abriga duas pessoas) a construção conjunta, uma construção diária e difícil de quem aprende a ver e a aceitar o outro como aquilo que ele é, não é possível manter um vínculo tão profundo. “Eu me pergunto se, sem as nossas lembranças, o nosso amor não está condenado a murchar e morrer”, observa Beatrice. Provavelmente está.

Tudo posto na balança, a habilidade do autor de Não me abandone jamais fica evidente mais uma vez. Basta ler um de seus livros para encontrar a fluidez assombrosa da escrita de Kazuo Ishiguro. Aqui, elementos aparentemente irreconciliáveis se juntam para compor uma trama que entrelaça Eros e Thanatos. Embora seja possível ler o romance de forma literal — como as cenas de ação permitem e até encorajam — O gigante enterrado é um livro profundamente metafórico, onde o significado mais bonito também está abaixo da superfície.

5 Comentários O gigante enterrado – Kazuo Ishiguro

  1. Rejane

    “Notável” é a tua resenha, parabéns!
    Poucas vezes na minha longa vida de leitora desisti de um livro e O gigante enterrado foi um deles. Penso que me faltou sensibilidade, porque achei uma chatice só.

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  2. Graça

    Oi, Camila,
    parece inacreditável, eu pensei em começar dizendo que “notável” é a sua crítica, mas felizmente outra leitora já escreveu o que eu pretendia.
    Olha, crítica show, como sempre.
    Irei colocar na “fila”, amei o que você escreveu.
    Beijos

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  3. mariana trevellin

    Olá Camila.
    Primeiro queria dizer que adorei o site. parabéns.
    sua resenha fez todo sentido para o livro. Li o mesmo a 3 meses atrás e achei super chato como um comentário acima. Achei a narrativa confusa e pra mim a história não tinha continuidade. E hoje percebo que levei a leitura no nível `literal´como vc disse. é realmente uma leitura densa, por isso talvez tenha acho maçante.

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  4. Fatima Pombo

    Realmente excelente a resenha do livro do Ishiguro Kazuo. No inicio achei muito dificil a leitura, como em O DESCONSOLADO, mas aos poucos fui me envolvendo com a relação dos protogonistas principais e ai foi como descer uma ladeira sobre rodinhas! Adorei. Sensivel. Muito japonês. Amei.

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