O estupro e a impunidade numa cidade universitária

O estupro e a impunidade numa cidade universitária

“Estupradores contam com o silêncio de suas vítimas para escapar impunes. Ao revelar suas histórias e quebrar esse silêncio, sobreviventes de agressão sexual desferem um golpe poderoso contra seus agressores. Inevitavelmente, muitas vítimas que se apresentam vão ser desacreditadas e não vão encontrar justiça nos tribunais, nos salões da academia ou em qualquer outro lugar. Mas, ao falar, provavelmente vão encorajar outras vítimas a contar suas histórias também, e ainda podem descobrir que avançaram na própria recuperação. Ao sair das sombras e revelar o quanto a agressão sexual está presente, mais e mais sobreviventes vão encontrar forças. Essa força coletiva atinge todas as vítimas, mesmo aquelas temerosas demais para falar por conta própria, por erradicar o sentimento imerecido de vergonha tantas vezes vivido no isolamento.”

 

 

missoulacapaSegundo Jon Krakauer, a cidade norte-americana de Missoula “apresenta uma cultura própria, graças à fusão de sua herança de bravura do Velho Oeste com os inúmeros impactos causados pela universidade”. O autor se refere à Universidade de Montana, com seus quinze mil alunos e mais de oitocentos membros do corpo docente. A combinação não parece incomum, ainda que, ao contrário de outros lugares com o mesmo éthos, Missoula tenha sido apontada como a “capital do estupro”. Entender os fatores que levaram à má fama — que envolvem a mistura de que fala o autor, ainda que não se resumam a ela — é o tema de Missoula: Estupro e justiça numa cidade universitária.

Três fatores, todos interligados, contribuíram para a má fama da cidade. O primeiro — vinculado ao despreparo de detetives e policiais para coletar e investigar queixas de crimes sexuais — pode ser descrito como uma espécie de inércia da promotoria. Entre 2008 e 2012, “dos 114 casos de agressão sexual remetidos à promotoria, em somente catorze deles o gabinete ofereceu denúncia”. A maior parte das recusas recebeu como justificativa a ausência de “causa provável”, ou seja, falta de provas — é a palavra da vítima contra a de seu abusador, o que, aliado à atuação em geral implacável dos advogados de defesa, poderia resultar em uma derrota no tribunal. Assim, os promotores abriam mão da justiça antes mesmo de pôr em funcionamento a engrenagem que poderia assegurá-la. Quando o escândalo de Missoula estourou, a discrepância nos números levou a uma investigação do Ministério da Justiça, que, uma vez concluída, culminou no estabelecimento de novas diretrizes de investigação. Segundo Krakauer, processar adequadamente casos de violência sexual “requer uma compreensão sofisticada do conhecimento jurídico e científico mais recente”.

A fim de estender o conhecimento científico ao leitor de Missoula, Jon Krakauer recruta David Lisak, professor e pesquisador (já aposentado) da Universidade de Massachusetts. Lisak é especialista em estupro por conhecido, o tipo mais comum, e estuda tanto a reação das vítimas — a desorientação e a sensação de insegurança — quanto o comportamento dos agressores. Suas análises sugerem que um abusador dificilmente ataca uma única vez. Para Lisak, “as chances de que qualquer estupro tenha sido cometido por um agressor [em série] são de cerca de 90%”. É um dado preocupante, que só reforça a necessidade de punição. Segundo o pai de uma das jovens agredidas, ele mesmo um ex-policial, quando “policiais e promotores deixam de investigar com rigor casos de agressão sexual” a mensagem transmitida é a de que “as mulheres são alvo fácil e [é possível] estuprá-las impunemente”. Ele tem razão.

Embora examine apenas a cidade de Missoula, Krakauer põe em xeque todo o sistema jurídico dos Estados Unidos — em especial a manipulação dos advogados de defesa, que não raro assumem uma postura que, no que soa incoerente, pareceria inaceitável fora de um tribunal. Vale tudo para desacreditar a conduta, o caráter e a sanidade da vítima. Enquanto o álcool é uma desculpa para responsabilizar as mulheres, não raro serve de atenuante para o comportamento masculino. (Ela foi estuprada porque estava bêbada: ninguém mandou beber. Ele estuprou porque estava bêbado: bem, então não se pode julgar com severidade.) Há a clássica insinuação de que o estupro não ocorreu, e de que a mulher, ao denunciá-lo, estaria em busca de atenção. Segundo estudos do próprio Lisak, falsas acusações de estupro ocorrem, mas são incomuns.

Até aqui, nada em Missoula parece diferir do restante dos Estados Unidos. Os números são chocantes, mas são semelhantes aos encontrados no restante do país. De acordo com uma pesquisa divulgada em 2012 e citada em Missoula, de 5% a 20% dos “estupros violentos” nos Estados Unidos são denunciados à polícia. (As aspas não aparecem no original, mas há algum estupro que não seja violento?) Destes, de 0,4% a 5,4% são levados a julgamento. Por fim, de 0,2% a 2,8% dos estupros efetivamente levados ao tribunal resultam em uma condenação. “Eis outra forma de pensar nesses números: quando uma pessoa é estuprada nos Estados Unidos, [em] mais de 90% das vezes o estuprador sai impune do crime”, escreve Krakauer.

O segundo fator que explica o caso de Missoula é, da forma como se apresenta aqui, um tanto desconhecido dos brasileiros: a importância atribuída ao esporte nos campi, sobretudo ao futebol americano. A grande paixão da cidade de Missoula é o Grizzlies, o time da Universidade de Montana, “junto com os milhões de dólares com que ele [contribui] para a economia local”. No decorrer de uma investigação motivada pelo escândalo, o presidente da universidade encontrou “uma associação desproporcional” entre as denúncias de abuso sexual e “padrões de comportamento de uma série de alunos atletas”. Há uma rede de proteção que conta com a participação entusiasmada da comunidade de Missoula. “O futebol americano [do] Grizzly existe num reino à parte, onde há um sentimento generalizado de presunção. Os fãs, treinadores e jogadores da Universidade de Montana, assim como seus advogados, esperam, e com frequência recebem, um tratamento especial”, observa Krakauer.

De acordo com um membro do Conselho Administrativo de Ensino Superior em Montana, o Grizzlies “estava recrutando valentões demais”. Segundo o sujeito, “os jogadores eram mimados e adorados. Muitos deles tinham a sensação de que eram à prova de balas e imunes às regras que todos nós devemos seguir”. Para Buzz Bissinger, num texto publicado no The New York Times em outubro de 2014 (“The Boys in the Clubhouse”) e citado em Missoula, “não se trata do indivíduo, ou do esporte em si, mas da cultura que permitimos que se formasse em torno deles”.

O caso que abre o livro é um dos mais chocantes. Em 2010, uma jovem — que havia crescido em Missoula, mas optara por estudar em outro estado — voltou para casa a fim de rever os pais e os ex-colegas. Depois de uma festa, enquanto dormia, foi estuprada por um amigo de infância, na época um proeminente jogador do Grizzly. Quando finalmente pôde fugir da casa, foi perseguida pelo rapaz até ser resgatada pela mãe, para quem telefonou antes de a bateria do celular acabar.

Missoula tem apenas setenta mil habitantes. Qualquer fato ou boato se espalha com rapidez. Notícias geram um clamor e um engajamento popular significativos. Nesse clima de interesse pelos acontecimentos e rumos da cidade, o jornal local é importante. Cobradas, as autoridades constantemente expressam ou justificam uma posição por meio de um texto publicado nas páginas do Missoulian. Nem sempre, no entanto, os missoulianos leem o que esperam ler.

O que leva ao terceiro fator: as matérias publicadas no Missoulian que descreviam os estupros e a maneira como as vítimas foram tratadas pela polícia e pela promotoria do condado. No início de 2012, uma jornalista resolveu dar voz às garotas que haviam sofrido algum tipo de abuso sexual — vários deles, mas nem todos, cometidos por atletas. Uma jovem, por exemplo, foi estuprada por quatro jogadores do Grizzly. Como conseguiram se safar, eles não foram fichados como estupradores.

Para a (naquela época) procuradora-assistente, que daria uma boa personagem de ficção — ao estilo do Juiz Holden de Cormac McCarthy —, as matérias geraram um “frenesi midiático injustificado”. Foram as denúncias da jornalista, aliadas à fama do Grizzly e à postura da promotoria, que atraíram a atenção do restante do país para Missoula. A repercussão foi surpreendente. Em um dos casos, um quarterback do Grizzly foi levado a julgamento por estupro. Ele foi expulso do time, que perdeu a temporada. A maioria dos missoulianos ficou furiosa — com a jornalista e com a vítima.

Krakauer não tenta fazer jornalismo literário. Nas cenas de tribunais, que ocupam boa parte do final do livro, apenas em raros momentos o autor se aproxima do olhar afiado de Capote no julgamento de Dick Hickock e Perry Smith em A sangue frio. O clima de Missoula tampouco é tão bem apresentado como o clima de Holcomb que Capote evoca, ainda que no início do livro Krakauer descreva a cidade de Missoula de modo parecido. No fim das contas, os objetivos dos dois autores são bem diferentes. Há, naturalmente, menos preocupação com o particular em Missoula, uma vez que a cidade universitária acaba atuando como uma amostra de um problema muito maior. Embora Krakauer relate histórias de dor e sofrimento individuais — que ele não diminui e nem trata de forma apressada —, há a preocupação de denunciar todo um sistema ineficiente. Como revela ao final, “Missoula tinha na verdade uma incidência de agressões sexuais ligeiramente menor do que a média”, o que é, para Krakauer, “o verdadeiro escândalo”.

Há poucas falhas em Missoula. No geral, Krakauer peca pela repetição. Vezes sem conta, reitera que o termo legal para estupro em Montana é “relação sexual sem consentimento”, como se o leitor não pudesse compreender ou memorizar da primeira vez. A mensagem de texto enviada por uma vítima de violência sexual é reproduzida em torno de dez vezes. Por fim, embora haja referências ao final do livro, elas não estão ligadas ao trecho correspondente, o que dificulta a pesquisa do leitor que deseja se aprofundar no assunto.

São defeitos irrelevantes que não chegam a comprometer um livro tão poderoso. Além da extensão da pesquisa e dos dados chocantes que apresenta, o que o torna tão impactante é que, apesar de usar alguns pseudônimos, os nomes e sobrenomes dos principais envolvidos são mencionados. Uma porção de informações, incluindo textos e fotografias de jornalistas norte-americanos, estão disponíveis na internet. Ou seja: o pior de Missoula, o mais insuportável, é a naturalidade com que Krakauer deixa claro que nada ali é ficção. Por essas e outras que Missoula é um livro perturbador, mas fundamental.

7 Comentários O estupro e a impunidade numa cidade universitária

  1. Rogério

    Olá Camila a alguns meses venho acompanhando suas resenhas, a resenha de Tirza me fez comprar o livro e me deliciar com a estória. Vi em um canal sobre livros no Youtube uma tag dos 50% chamada Mid-Year, confesso que estou curiosíssimo para saber qual é a sua lista dos melhores livros lido até agora, na metade do ano.

    Obrigado pelo excelente trabalho!

    Rogério

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  2. Martha Julia Martins

    eu adoro as suas críticas. profundas, completas. me inspiram a escrever um pouco sobre minhas impressões de leitura também. Grande abraço.

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  3. Jusberto Cardoso Filho

    olá Camila, como ja lhe falei mexo com livros, navego por aí em busca de livros e sugestões, já tive uma livraria… A grande mídia fala do carrosel Alemão no futebol, aí tem o carrossel gaúcha com suas grandes escritoras que eu já lhe falei, por que não um carrossel alemão tb. Como já lhe falei, estou plugado ak em Ouro Preto, como todo mundo… Foi um prazer conhecer teu trabalha, creio que uma das escritoras do carrossel, já teve na vetusta cidade tombada pela Unesco. Estou sempre aberto a um café… a um debate… minhas discussões passam tb por ái…. Parabéns pelo site…

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