O enigma da visibilidade

“Só se vê o que se olha”, escreveu Maurice Merleau-Ponty em O olho e o espírito. Associar a frase — e o próprio ensaio — ao livro de Siri Hustvedt é tentador. Publicado originalmente em 2003, O que eu amava (What I loved) é um romance de ideias que dialoga diretamente, com ou sem intenção, com algumas das investigações do filósofo francês — em especial as que se voltam para a arte.

Aqui, com mais força do que em outras de suas obras, as escolhas estéticas da autora discutem e analisam o ato de enxergar.

A edição brasileira de O olho e o espírito (Cosac Naify) inclui outros dois ensaios: A linguagem indireta e as vozes do silêncio e A dúvida de Cézanne. Os três textos procuram discutir, de forma direta ou oblíqua, a pintura moderna. No livro de Hustvedt, um dos personagens principais é um artista original e criativo, o que, somado a outros elementos da narrativa, favorece os paralelos com o pensamento de Merleau-Ponty. A discussão sobre arte contemporânea, no romance, também passa a ser subordinada à ação de enxergar. A abordagem faz sentido quando se leva em conta outro trecho de O olho e o espírito: “Pura ou impura, figurativa ou não, a pintura jamais celebra outro enigma senão o da visibilidade”. Outra é mais genérica, mas igualmente válida quando se leva em conta os rumos da trama: “O dilema consiste em meu corpo ser ao mesmo tempo vidente e visível”. Este é o maior enigma/dilema de O que eu amava. Todos os outros — em especial a  Ao longo de mais de quinhentas páginas, Siri Hustvedt procura abarcar vinte e cinco anos da vida de duas famílias. O ponto de partida é Nova York, no SoHo, durante a década de setenta. Galerias florescem, e a arte segue os caminhos abertos pelos impressionistas em Paris, o cubismo de Picasso e Braque, a ousadia de Duchamp e a pop art de Warhol e Lichtenstein.

Leo Hertzberg, protagonista e narrador do livro, é professor de história da arte. Esbarra com Erica na biblioteca da Universidade de Columbia — encontro fortuito que resulta em um casamento relativamente feliz. É no início da carreira de ambos que Leo conhece Bill, ou William Wechsler, um pintor de poucas palavras. O interesse mútuo pelos respectivos trabalhos se transforma em uma amizade sólida entre os dois homens. Bill inicialmente se casa com Lucille, uma poeta indiferente, mas o relacionamento fracassa; é então que se envolve com Violet, uma acadêmica calorosa e espontânea, de quem permanece junto. Nesse meio-tempo, enquanto os adultos solidificam os vínculos que deverão uni-los até o final de suas vidas, nascem Matthew Hetzberg, filho de Leo e Erica, e Mark Wechsler, filho de Bill e Lucile. Assim, nas primeiras duzentas páginas, Hustvedt se dedica a lançar as bases daquilo que irá destruir impiedosamente em seguida.

“Toda história que contamos sobre nós mesmos só pode ser contada no pretérito”, diz Leo. No seu monólogo incômodo, o narrador se refere tanto ao passado luminoso quanto ao presente árido — quando decide escrever suas memórias, tudo já ruiu ao seu redor. Leo chega a mencionar a “ironia inerente ao distanciamento”, o que pressupõe que os anos que separam alguns dos acontecimentos que descreve do instante imediato revestiram seu olhar de alguma frieza. Não é o caso. Wertzberg está paralisado pela dor, pela perda e pela impotência, mas a ironia não é um recurso possível. Leo, ao contrário, oferece uma sinceridade extrema e dolorosa ao leitor. É por priorizar o discurso honesto que, anos depois, o protagonista sofre com a postura cambiante e o caráter duvidoso do jovem (a quem ama como a um filho) Mark Wechsler.

Por isso tantos pintores disseram que as coisas os olham, e disse André Marchand na esteira de Klee: ‘Numa floresta, várias vezes senti que não era eu que olhava a floresta. Certos dias, senti que eram as árvores que me olhavam, que me falavam […] Eu estava ali, escutando […] Penso que o pintor deve ser traspassado pelo universo e não querer traspassá-lo […] Espero estar interiormente submerso, sepultado. Pinto talvez para surgir’.O que chamam inspiração deveria ser tomado ao pé da letra: há realmente inspiração e expiração do ser, respiração no ser, ação e paixão tão pouco discerníveis que não se sabe mais quem vê e quem é visto, quem pinta e quem é pintado.
Maurice Merleau-Ponty

Acontece na segunda parte do livro, quando, sem aviso prévio, uma tragédia altera por completo os rumos da trama. O que era uma exposição quase banal da formação de duas famílias e do trabalho artístico de Bill ganha um viés melancólico e perturbador. Depois do incidente (sobre o qual não convém alertar o futuro leitor), Mark Wechsler, agora um adolescente, assume um comportamento perverso. O curioso é que a fatalidade e seus ecos e a posterior rebeldia de Mark não parecem ter qualquer relação entre si. Aprofundando uma tendência que já demonstrava na infância, o jovem Wechsler passa a alternar diferentes posturas e máscaras — a tal ponto que sua identidade real permanece borrada ou desconhecida. Até mesmo os mais próximos, o que inclui o Leo e seu pai, se sentem confusos e desamparados. Mark transita facilmente entre o feminino e o masculino. Some de casa a intervalos irregulares. Rouba, mente e engana sem demonstrar culpa ou arrependimento. Em dado momento, seu envolvimento em casos de tortura vêm à tona; quando confrontado, sua frieza é devastadora. O responsável por algumas das más escolhas de Mark pode ser um jovem artista sedutor, Teddy Giles, que começa a despontar no cenário local. Além de construir esculturas macabras, Teddy tem algo de performático: modela diferentes personas para si e usa cada uma delas para atrair atenção de diferentes modos — o que leva Leo Hertzberg a fazer um comentário crucial para a compreensão do romance: “Nem sempre é muito fácil separar o ator do número que ele faz.”

É nesse ponto que Hustvedt embarca em uma discussão sobre autenticidade. Ao se referir a Mark, Leo lamenta a “compaixão tão verossímil, tão autêntica que ele soube fingir”. A frase é certeira, e dialoga com boa parte do que a antecede e sucede. [Outras duas passagens são significativas. Uma delas é atribuída a Bill, que diz, intrigado: “Esse é o problema de olhar para as coisas. Nada é claro. Os nossos sentimentos e ideias moldam o que está na nossa frente. Cézanne queria o mundo nu, mas o mundo nunca está nu”. (Mais um motivo para associar o trabalho de Merleau-Ponty ao livro.) Outra, menos misteriosa, dá conta do modo como a autora aborda o universo das artes visuais no romance: “O isolamento peculiar do cenário das artes plásticas de Nova York já tinha feito muitas vezes trabalhos óbvios parecerem sutis, trabalhos imbecis parecerem inteligentes e trabalhos sensacionalistas parecerem subversivos. Tudo dependia da maneira como se ‘vendia o peixe'”.]

O que eu amava pede um leitor disposto a dialogar com cada uma das propostas que surgem alternadamente. E elas são muitas — o que é uma característica da escrita de Siri Hustvedt, autora com notáveis e variados interesses. Para introduzir temas sobressalentes, Hustvedt utiliza o gancho das pesquisas de Violet, companheira de Bill. A primeira discute longamente a histeria; a segunda, já na metade do livro, procura descrever o mecanismo por trás dos transtornos alimentares. [1. Ao final do romance, Siri agradece à irmã por ceder suas pesquisas sobre histeria, que integram a tese de doutorado de Ati Hustvedt. 2. Já o tema dos transtornos alimentares, com exemplos pontuais de quem se recusa a comer ou de quem faz refeições em excesso, está relacionado com o ato de assimilar. A assimilação, é claro, é ruído de fundo no dilema de Mark e no trabalho de Bill.]

A arte da capa — que mostra o quadro Copo d’água e bule de café, de Chardin — não é aleatória: em uma das cenas mais impactantes do romance, o narrador chora durante uma aula ao observar as sutilezas da pintura. Como em outros livros de Siri Hustvedt, o desequilíbrio emocional ou psicológico é bem marcado: os personagens de O que eu amava também oscilam entre a lucidez e a loucura. Todos estão a um passo de cair em um fosso desconhecido. “A insanidade é uma questão de grau. Quase todos nós a experimentamos de vez em quando de uma forma ou de outra, sentimos seu puxão insidioso e a sedução do colapso”, diz Leo. Dan, o irmão esquizofrênico de Bill, está num dos extremos dessa linha de perturbação mental que a autora sempre procura traçar. Lucille está localizada na outra ponta: é capaz de viver em sociedade, mas não por muito tempo; suas experiências mais profundas são também um tanto perturbadoras. Mark parece oscilar num perigoso meio-termo.

Nem tudo faz sentido em O que eu amava. Talvez, de maneira um tanto imprecisa e questionável, a arbitrariedade de determinadas aparições, ações e diálogos aumente a força do trabalho. Hustvedt não procura — e tampouco poderia/deveria — explicar ou validar cada um dos elementos do livro. Muitas das situações permanecem abertas, verdadeiras pontas soltas que dificilmente poderão ser unidas. Num romance de ideias tão peculiar — e desregrado, e assimétrico —, a falta de um arremate adequado não é mero capricho da autora: é consequência natural. O importante é que o livro funciona.

3 Comentários O enigma da visibilidade

  1. Simone Mello

    Certa vez li uma entrevista da autora em que ela dizia que os livros dela começam com algo muito pequeno e neste caso (O que eu amava) começou com uma imagem de um sonho que ela teve de uma mulher muito gorda deitada numa cama. É interessante pensar que esta ideia abstrata levou a um livro genial, um dos melhores que li nos últimos tempos.
    Parabéns pela resenha, Camila, é sempre muito prazeroso ler o teu blog. Abraço!

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