O círculo – Dave Eggers

Peço desculpas antecipadas por iniciar uma resenha citando uma expressão tão extrema (e indevidamente valorizada) da cultura popular. Goste ou não, você deve conhecer aquela piada em que o garotinho recebe de presente do pai uma caixa forrada com cocô de cavalo. Qualquer outra criança ficaria chocada. Seu próprio irmão ganhou uma bicicleta e continua chorando em um canto da sala, preocupado com a possibilidade de cair e se machucar. Mas não ele. O protagonista da piada, você sabe, é um otimista incorrigível.

Ele sorri para o pai e então pergunta: “Onde está o cavalo, papai?”. Uma postura semelhante pode adotar o leitor de O círculo — apenas o leitor capaz de se entregar ao exercício do pensamento positivo. “Se este é o rascunho, então onde está o livro?”, é a pergunta que ele, o confiante, fará. Aos outros — que no fundo estão mais distantes do garotinho exultante e mais próximos do irmão carrancudo — só resta o constrangimento.

ocirculoColoque uma esfera no alto de uma rampa, e você verá que ela rola gostosamente até que alguma coisa a impeça de continuar. É mais ou menos o que acontece com o novo romance do norte-americano Dave Eggers, publicado pela Companhia das Letras com tradução de Rubens Figueiredo. O livro começa mal, e daí para frente é ladeira abaixo. O obstáculo oportuno — a própria infantilidade da história, que fica mais evidente do que nunca — só surge depois de quinhentas páginas. Se algo se salva no meio de tanta abobrinha, é a intenção do autor. Mas você sabe o que prega aquele ditado, popular como a piada, que fala das intenções.

Dave Eggers tentou criar uma distopia que denunciasse e criticasse o controle da informação — ou de dados específicos — que empresas como o Google e o Facebook detêm. No romance, o Círculo é um monopólio, ou está a caminho de se tornar um. Tudo começa com a criação do TruYou, que mescla “aquilo que antes estava separado e bagunçado — perfis dos usuários das redes sociais, seus sistemas de pagamento, suas várias senhas, suas contas de e-mail”. É necessário ter a identidade confirmada para utilizar o TruYou, ou seja, nada de fakes.

Mae Holland, protagonista do romance, é uma jovem de vinte e poucos anos que está feliz por começar a trabalhar no Círculo. Como define o narrador no início do livro — um narrador que ganha livre acesso à consciência da garota —, ela está diante de “quatrocentos acres de aço escovado e vidro na sede da empresa mais influente do mundo”. Quando Mae é contratada, o Círculo já está em franca expansão. O lugar é chamado de “campus”, e trabalhar ali garante vantagens inimagináveis para alguém que acabou de sair do serviço público — de academias de ginástica a refeições gratuitas. Uma boa premissa, sem dúvida.

O problema é que Eggers não consegue criar um cenário mais complexo do que qualquer pessoa com tendências fatalistas poderia esboçar durante uma conversa no balcão de um bar. Câmeras grudadas nas paredes, pessoas “transparentes” — o nome dado para aqueles que decidem, ou são impelidos a, gravar sua rotina —, microchips implantados em todos os bebês a fim de rastreá-los desde o nascimento, pulseiras que medem sinais vitais e divulgam cada um deles etc. Eggers se limita a tornar mais sinistro aquilo que já é, de certa forma, uma realidade. A falta de imaginação não é assim tão condenável, e de fato não comprometeria o livro a tal ponto se, bem, a narrativa não fosse medonha.

(Livros cujo protagonista é muito jovem exigem um autor habilidoso. Ou isso ou você está diante de um besteirol pós-adolescente. Em O círculo, já deu para notar, você está diante de um besteirol pós-adolescente.)

Sempre próximo da consciência de Mae, o narrador não se afasta para tirar conclusões mais sérias do que aquelas a que ela, por cegueira voluntária ou limitação real, seria capaz de chegar. Essa é a intenção do autor — mostrar os avanços de uma companhia agressiva a partir da visão de alguém inconsequente, egoísta, imaturo e ingênuo —, mas não convence. O resultado é que nenhuma questão é aprofundada. Por motivos óbvios, o enredo permitiria que bons conflitos morais fossem analisados de ângulos distintos.

O autor até tenta, mas, quando dois personagens sensatos finalmente questionam a postura competitiva do Círculo, fica impossível conter a vergonha. É nessa hora que a coisa toda ganha ares de subliteratura ou roteiro de filme B em que os mocinhos precisam salvar o mundo do domínio do mal — de preferência, para que tudo fique mais emocionante, no último minuto. Um dos mocinhos é um gênio da informática cheio de boas intenções. Ele é poderoso, mas sua capacidade de agir por conta própria parece estranhamente limitada — por um motivo que não fica claro, ele, Kalden, precisa da ajuda de Mae, inferior na hierarquia da empresa. O segundo, como num enredo de um romance açucarado (onde se revelaria gentil, atencioso e uma potente máquina do sexo) ou de um conto moralizante infantil (no qual faria o papel de um amigo das árvores e dos animais), é um nobre caipira que quer apenas aproveitar a natureza e vender seu artesanato sustentável feito com chifres de alces. Não há nada de errado com nenhum dos dois tipos — a reunião de clichês é que faz com que pareçam ridículos, como, aliás, qualquer outro elemento em O círculo.

Por falar em subliteratura, vamos às cenas de sexo do livro. 1: “‘Mae’, disse ele, enquanto ela se apertava a ele, as mãos de Kalden seguraram os quadris dela, levando-o tão a fundo que ela podia sentir a cabeça intumescida do pênis em algum lugar perto do coração.” (Juro. Está na página 263.) 2: “Queria Kalden. Queria estar a sós com Kalden. Queria estar de volta àquele banheiro, sentada em cima dele, sentindo a cabeça de seu pênis pressionar e entrar.” 3: “E Francis puxou-a para perto de si, beijou-a, trazendo os lábios dela para os seus e, por um momento, Mae achou que eles iriam ter algo parecido com uma experiência sexual verdadeira, mas na hora em que estava tirando a blusa, Mae viu Francis fechar os olhos e ter um espasmo, e entendeu que ele já havia terminado.”

Chega? Não apenas as cenas de sexo são ruins: o livro todo é porcamente escrito. Aí chegamos num ponto importante: seria possível ler O círculo como uma sátira — se não fosse ruim mesmo como uma sátira. Eggers está tentando debochar do domínio das grandes empresas de tecnologia ou da literatura? De ambos, aparentemente. Mesmo assim, não é difícil entender o raciocínio do autor. O que um escritor pode fazer quando não sabe narrar? Digamos que ele esteja prestes a produzir a última parte de um livro, mas relê tudo o que escreveu até então e se dá conta da extensão do erro. Bem, ninguém precisa jogar o trabalho fora. Vamos reciclar: é só dizer que é uma sátira. O negócio é tornar a última cena levemente caricata, ou mais caricata do que o restante, como se o leitor pudesse ouvir uma risadinha macabra ao fundo, e pronto. (Nossas sátiras, todavia, já foram melhores.)

O círculo não contém uma única frase decente. São páginas e páginas de passagens acessórias, cretinas, vergonhosas, que não servem ao enredo e, consequentemente, como se trata de um mau escritor, mal servem como entretenimento. A trama está cheia de furos, provavelmente porque pesquisar as implicações morais e legais das ferramentas propostas pelo Círculo levaria tempo demais. Talvez essa seja a grande impressão deixada pelo livro: a de uma história escrita às pressas e de qualquer jeito, uma história que não ficou tempo suficiente parada no setor de revisão. O autor quis abordar um tema atual — e necessário, é claro —, mas, talvez na ânsia de ser um dos primeiros a escrever sobre uma das grandes empresas que controlam a informação, terminou com um romance medíocre nas livrarias. É bem provável que Eggers não tenha aprofundado a questão — mantendo tudo na perspectiva curta de Mae — por entender que nada daquilo se sustentaria. Para fazer justiça ao autor, no entanto, é preciso reconhecer que ele está do lado certo: mostra aos leitores jovens (porque certamente haverá muitos) que o divertimento associado aos produtos das grandes companhias pode esconder um perigo real.

Da metade para o final, o que era ruim fica horrendo. No meio de tantos cérebros prodigiosos, dos melhores profissionais de incontáveis áreas, é Mae, a inexperiente, a novata, a de inteligência curta, quem tem a ideia exata que vai permitir ao Círculo dar o passo decisivo para dominar o mundo. Nada impede que a ficção (o próprio nome já deixa claro) parta de situações improváveis, mas antes de cuspir na verossimilhança é bom conferir se o cenário comporta a transgressão. A não ser que o autor saiba onde está pisando, a não ser que deixe clara a sua intenção de não se prender ao que é plausível e conhecido, a não ser que dê à narrativa os alicerces necessários para não ruir sob uma camada de pó malcheiroso, a não ser, em resumo, que seja um grande escritor, abusar das possibilidades do real dentro de uma narrativa que até então havia se mostrado tão realista quanto possível é má ideia. A boa intenção pode (e provavelmente irá) virar literatura trash.

Há gente que foi bem-sucedida naquilo em que Eggers falhou. Em A terrível intimidade de Maxell Sim, Jonathan Coe denuncia, de forma leve e bem-humorada, mas sem fazer tantas concessões a quem nunca leu um livro na vida, a pobreza dos vínculos numa era em que celulares substituem o contato real. Em Tremor, Jonathan Franzen prova que é possível escrever um thriller honesto com protagonistas jovens que se põem a investigar uma questão importante. O enredo é um tanto forçado (oi, é um thriller), mas Franzen sabe como conduzir uma trama — como inserir suspense, romance e ação nas doses certas, e como tornar uma caricatura mais ou menos parecida com arte. Perto dele, Eggers é um amador. Perto de George Orwell, uma vez que O círculo aspira à categoria de distopia, Eggers é um pedinte mendigando criatividade, talento e noção.

Lendo O círculo, enfim, você sabe que o autor está fazendo pouco da sua inteligência. A cada linha, pelo menos seis neurônios seus cometem suicídio, preferindo a morte por autocombustão a serem desperdiçados com tamanho mau gosto. O lado positivo é que você pode aprender a selecionar livros em uma livraria a partir dos blurbs citados na quarta capa do romance. Existe uma margem de erro aqui, mas não é grande: “Impossível de largar” — você já pode sentir um cheiro ruim. “Prepare-se para ficar viciado” — aí já começa a feder.

Como a caixa do garoto da piada, O círculo fede, sem dúvida. Uma das grandes bombas de 2014.

40 Comentários O círculo – Dave Eggers

  1. Cândida Schaedler

    Gostei, Camila! Tua resenha é divertida – além de muito bem escrita, como sempre (diferente do livro, pelo visto).
    Realmente, acho que a obra deve ter sido lançada desse jeito ou pela falta de noção do autor mesmo ou porque ele queria ser o primeiro a abordar o assunto. Para citar outro ditado popular, a pressa é inimiga da perfeição.
    Beijo!

    Reply
  2. Claudio Faria

    Uma pena porque o livro que li dele, “Uma Comovente Obra de Espantoso Talento” até que era interessante. E ouvi falar muito bem de “Zeitoun” – nesse caso uma não-ficção.

    Reply
  3. Mária

    Gostei muito da resenha, a impressão que tenho é que é dessas obras escritas com intenção de virar filme. Hollywood está cheia de filmecos assim. Mas , pelo diálogo citado, também me parece que além de péssimo gosto, esse livro deve ter problemas com a tradução. Há diálogos que na língua inglesa (sempre muito imediatista) soam aceitáveis mas em português vira um desastre. Pode ser o caso. Mas, repito, gostei de você fazer uma resenha no minimo honesta, ao contrário de muitas que vemos por aí.

    Reply
  4. freitas

    Esse livro é apenas uma historia de ficção e a ideia central de perder a privacidade é um fato. O que podemos fazer se quem lê acredita da mesma forma como acreditam no livro sagrado?

    Só lamentar…

    Reply
  5. Caroly Assis

    Nossa O_O nem sei por onde eu começo a falar! Estava tão empolgada para ler esse livro. Chegava a ficar admirando na prateleira da livraria. mas depois desse banho de agua fria …. eu amo tecnologia então pela protagonista ser mulher me chamou a atenção de imediato. Mas lendo a sua resenha muito bem escrita percebo que é melhor procurar outro livro mesmo. Ainda bem que você sugeriu alguns no final. Adorei o site. Serei mais uma leitora nova aqui.

    Reply
  6. Natália Augusta

    Senhora.

    Face á sua crítica fiquei curiosa e comprei o livro. Gostei da estória.

    Não é uma obra prima, mas também não é a merda que você pichou.

    Me pareceu coisa pessoal e de que você não conseguira escrever uma merda assim, como descreveu da bosta da sua crônica.

    Eu acho que era você quem estava na caixinha que o garoto ganhou…..

    Naty

    Reply
  7. Flávio Cicarelli Sanches

    Finalmente alguém que tem a mesma opinião que eu sobre este livro. Li o mesmo, vencido por toda a vibe criada em torno dele na época do seu lançamento. Como sou um entusiasta de tecnologia, realmente me deixei levar por algumas descrições, como quando os monitores vão se acumulando na frente da Mae em sua mesa de trabalho. Porém a leitura foi se tornando enfadonha e arrastada com cada “mimimi” desta personagem infantil e vazia… um retrato do livro em si.

    Reply
  8. Bárbara

    Caramba, estava super curiosa pra ler esse livro. Ainda bem que li essa resenha, pois seria bem chato perder dinheiro…

    E adorei conhecer seu blog, Camila, você escreve muitíssimo bem!

    Reply
  9. Bernardo

    Camila, muito obrigado pela resenha, economizei uma boa prata. Pena que, por ser fã incondicional de 1984, estava empolgado para ler algo como uma atualização da distopia orweliana. Vou ter que voltar uma vez mais à saga de Winston ou a algum filme do Terry Gillian para matar a vontade.

    O livro me deu ao menos a oportunidade de conhecer o blog e a leitura da tua resenha já me rendeu algumas risadas gostosas que valeram o dia.

    P.S. Aproveito para parabenizar também pela resposta estóica à comentarista mal educada.

    Reply
  10. Caio Borrillo

    Não achei o livro essa merda toda, não. Ele não é maravilhoso e não acho que seja nenhuma obra-prima.

    No entanto, Dave Eggers não tentou criar uma distopia, eu nem mesmo considero assim, pra falar a verdade. O Círculo é um retrato do nosso tempo, exagerado e extrapolado para mostrar “olha, se isso continuar, tá vendo como pode acabar?”. Ele traz críticas pertinentes sobre o monopólio da informação, de você ser obrigado a ter sua vida compartilhada para todo mundo, como se ter privacidade fosse um erro. Aliás, é o que vemos com a ultra exploração da vida de celebridades, perseguidas por paparazzos, como se lhes fosse negada a experiência de ter uma vida privada.

    Se para o seu gosto a prosa não caiu bem, concordo. O livro é maçante em algumas partes, mas acho que o exagero do autor foi para demonstrar a quantidade absurda de informação que alguém é obrigado a processar por estar no Círculo – no caso de Mae, por exemplo.

    Acho que as pessoas deviam ler sim e fazer a devida reflexão, que sinto que faltou aqui nesta resenha.

    Abraços cordiais.

    Reply
    1. Camila von Holdefer

      Esse é justamente meu ponto: não há nenhuma sutileza na história. Dave Eggers infantiliza e subestima o leitor. “O círculo” é uma caricatura pobre, narrada de forma medíocre, que falha em entregar aquilo que promete. Concessões como “bem, não é nenhuma obra-prima” não servem a um romance tão mal desenvolvido.
      Não achei o livro maçante, aliás. Achei ruim. Achei a prosa primária. Mas não chega a ser cansativo.
      No momento em que o autor apresenta uma realidade alternativa (modificada para parecer mais sinistra, o que não funciona de todo aqui, claro) em que, como você mesmo disse, privacidade é uma espécie de erro, já se pode considerar o enredo distópico. O próprio monopólio do Círculo e a influência da empresa na política sublinha essa tendência.
      Você acha que eu deveria abrandar a minha visão e recomendar o livro apesar de todos os defeitos que ele me parece ter (em tempo: todos os argumentos da resenha não parecem, para você, constituir uma reflexão; talvez porque divirjam da sua opinião sobre o romance). Como se a tentativa de provar um ponto já devesse valer alguns tapinhas nas costas do autor. Devo ignorar o desenvolvimento desastroso e focar na ideia, na intenção? Jamais.
      Abraços.

      Reply
      1. Ana

        Cara Camila,
        Concordo com o Caio Borrillo. Ele não disse para você recomendar o livro, apenas discorda de sua opinião (assim como eu). Nada pessoal: é apenas uma crítica da crítica. Na verdade, suas respostas tão incisivas lembram a personagem do romance, Mae, que não entendia o motivo pelo qual trezentas e poucas pessoas não concordavam com suas ideias. Em tempos de “transparência” (como aqui no blog ou no “Círculo”) é difícil lidar com opiniões divergentes (e, por vezes, bem malcriadas). Em minha opinião, apesar dos escorregões do texto do Eggers (não é nenhuma obra-prima da literatura), achei o livro bem interessante para uma reflexão sobre a Era da Informação teorizada por Manuel Castells, modernidade líquida do Bauman ou hipermodernidade de Lipovetsky. Abraços cordiais. Em tempo: é bobo desqualificar seu interlocutor por algum desvio de norma culta (focar apenas nos argumentos deixaria sua resposta mais consistente e elegante – afinal, o que a grafia correta de “história” tem a ver com as ideias discutidas? ). Você escreve muito bem! Parabéns! Apenas desapegue de seu texto: deixe que as pessoas gostem dele e o odeiem também – foi para isso que ele foi escrito. Por fim, não fique tão preocupada em dar a última palavra (a paz e alegria de escrever nascem desse cuidado).

        Reply
        1. Camila von Holdefer

          Você deixa um comentário condescendente e cheio de lições sobre como devo proceder (sobre como devo me relacionar com o que escrevo, sobre como devo responder às pessoas), misto de manual de etiqueta e análise do jeito como eu procedo, sobre o qual eu não pedi nenhuma opinião, mas não usa o próprio nome e o próprio e-mail. Bem, Ana, também vou dar uma dica: se quiser se acreditar no direito de dizer a alguém o que e como fazer, se quiser usar a condescendência, use também o nome verdadeiro. Em tempos de transparência, o anonimato é covardia, não? Quanto à correção da ortografia da outra comentarista: você acha mesmo que eu devo levar o estoicismo como máxima e tratar com respeito quem foi capaz de escrever, como você mesma disse, uma resposta tão malcriada? Não faria isso (não faço, aliás) com um comentarista gentil que expusesse seu ponto, contrário ou não ao meu.
          As pessoas se esforçam por encaixar todo mundo num ideal de paciência e retidão, mas nem sempre é assim. Talvez o espanto se deva ao fato de que eu sou mulher. Sempre causa algum estranhamento uma mulher mais, como você mesma disse, incisiva.
          Quando uma linha é cruzada, no entanto, não me importo de cruzar também. Você tem todo o direito de achar o que quiser sobre isso. E comentários cheios de lições de moral que mal se dão o trabalho de usar algum disfarce de gentileza não são meus favoritos. Vamos de novo, então:
          (a) você tem direito à sua opinião sobre o livro. a ter e a externar
          (b) você tem direito de discordar da minha opinião sobre o livro
          (c) que bom que você conseguiu refletir a partir do que leu
          (d) frisar o meu ponto não é o mesmo que desencorajar ou desconsiderar o alheio
          (d) o principal na minha crítica: forma não é mero detalhe. a intenção do autor não basta. não me interessa o que ele quis entregar. me interessa o que entregou. e, no que ele entregou, qualquer discussão (conteúdo) se perde na forma horrenda.
          É bem simples.
          Quanto a ter a última palavra, imagine que todo mundo distorça aquilo que você diz (como se eu não permitisse a discordância, quando permito até comentários anônimos e passivo-agressivos como o seu). É mais uma necessidade do que propriamente vontade de dar uma resposta. Vontade eu não tenho.
          Tudo já está dito na própria resenha, na verdade. Mas tente criticar um livro de que as pessoas gostaram. Elas podem perdoar em você a falha de gostar de um livro que elas consideraram terrível, mas jamais o contrário. O contrário precisa ser combatido o quanto antes, porque como-alguém-ousa-não-ter-visto-o-que-eu-vi-naquele-livro? E não me entenda mal. Os comentários estão abertos aqui para isso. Mas, além de disfarçar seu nome, não disfarce sua tentativa de me dar um punhadinho de lições sobre boas maneiras & trato social sob o pretexto da liberdade de expressão.

          Reply
          1. LuciLu

            Concordo muito com vc quando diz “Como se a tentativa de provar um ponto já devesse valer alguns tapinhas nas costas do autor(..)”!Esse livro é tão assim,vale só a Ideia,pq o modo/jeito como ele foi feita é uma bosta =/ mas em tempos q as pessoas acham que só ter boas “intenções” já vale…

  11. Karol Nogueira

    Discordo completamente da sua crítica. Achei o livro bem interessante e que desperta uma reflexão bacana.

    Abraço,

    Karol Nogueira

    Reply
  12. Clecyo

    _entre as coisas que pretendo melhorar no meu site, tinha a ideia de fazer resenhas divertidas sobre assuntos densos. Desisti ao ler algumas das suas resenhas. Preciso voltar pro jardim da infância. Obrigado! 🙂

    Reply
  13. Wilian

    Acabei de ler o livro hoje. Concordo que questões importantes foram abordadas superficialmente. Mae era manipulada pelos “sábios” do Círculo e de fato faltou um contraponto no meio da história para enriquecer os debates. As técnicas de persuasão lógicas são difíceis de se rebater sem muito respaldo (Mae não tinha). Também acho possível que muitos gaps se devem à tradução. Mas muitos fatos relatados acontecem hoje em dia, (i) os seguidores de câmeras “Big Brother”, (ii) os revoltados que cobram resposta por e-mail de 10 em 10 minutos.. (iii) a necessidade de se ter seguidores..(iv) a pressão dos colegas para se publicar tudo em mídias sociais (Quem nunca foi questionado em uma segunda feira sobre o que fez no fds pq não postou nada..), etc…etc..
    Enfim, as discussões valem mais do que a trama. E provavelmente 500 páginas não são suficientes para se discutir privacidade on-line.
    Que venham livros melhores (Do Giannetti ou Cortella talvez…)

    Reply
  14. Tiago Cardoso

    Quero falar que concordo vom a resenha. Li a resenha antes de baixar o livro. Baixei mesmo assim. Li pelo celular. E hoje q terminei, nao gostei e concordo com a resenha kkkk pelo menos serviu pra melhorar minha leitura kkk bjus

    Reply
  15. Pingback: Da crítica [9] | Livros abertos

  16. Tiago Tobias

    Por gostar muito de distopias, gostei muito do livro. Não é um 1984 ou um Farenheit 451, mas é muito bom. O começo é horrível. As primeiras 30 páginas são muito mal escritas, mas sob meu ponto de vista literário, a narrativa melhora (quem subestima o leitor é o badalado Haruki Murakami).

    Respeito a resenha, muito bem escrita, mas discordo totalmente dela. Mesmo assim, favoritei este blog.

    Reply
      1. Rudney Valentim

        Por que vocês acham que Murakami subestima o leitor?gostei de “Minha querida Sputnick” me deu vontade de ler outras coisas dele. Quanto ao círculo… achei até razoável depois de ter lido… porém a resenha me ajudou me ajudou a considerar que era pior do que o que eu havia julgado. Não acho descartável… mas é realmente fraco e como foi descrito tem vários momentos de vergonha alheia. Gostei da crítica.

        Reply
        1. Camila von Holdefer

          No caso do Murakami, ele reitera informações desnecessariamente ao longo do livro (pelo menos no caso da trilogia 1Q84). Ele vai largando as pistas mais ou menos em néon, em letras maiúsculas em negrito tamanho 80, para o caso de alguém não ter sacado alguma coisa. E isso acaba com qualquer sutileza.

          Reply
  17. Renata

    My 2c: li em o texto original, em inglês, e não achei a prosa tão horrível. É ruim, sim, mas imagino que a tradução possa ter feito parecer pior do que é. Como alguém já falou “mais para cima”, a língua inglesa é mais “imediatista”; passando um registro super coloquial do inglês para o português pode ter estragado um pouco, fazendo parecer mais infantil do que é, talvez.
    Não amei, mas também não achei o livro uma perda de tempo.
    Obrigada e parabéns pelas resenhas. =)

    Reply
  18. Maria Luiza Silveira de Oliveira

    Olá, acabei de conhecer esse livro e até me interessei pela história. Mas quando li as resenhas e os resumos, algo realmente me inquietou: Nas distopias os protagonistas sempre são homens que contestam o “status quo” a partir de um sentimento de estranhamento. As mulheres são coadjuvantes e geralmente tem três funções bem características: 1) são bitoladas e não percebem (ou não querem perceber a situação); 2) demoram a perceber as coisas e acabam tornando-se as vítimas mais vulneráveis; 3) ou, na melhor das hipóteses, ajudam o protagonista a abrir a mente. Eu tinha gostado da ideia desse livro, da protagonista da “distopia” ser uma mulher, mas o fato dela, aparentemente, aceitar tão facilmente a ideia de ser manipulada e monitorada, apesar de todas as evidências claras de que isso está acontecendo e, aparentemente, as únicas personagens a contestarem isso no livro serem homens, honestamente, me frustrou bastante! Se a manipulação fosse colocada de modo mais sutil (mas pelo o que li na sua resenha e em todas as outras que li a respeito, acontece de forma explícita), talvez, explicaria a bitolação da protagonista. Pelo que entendi, diferente de 1984 (onde a vigilância se mantinha de forma nitidamente incômoda, pois a ideia de ser vigiado constantemente era algo inimaginável em 1948), o autor de O Círculo quis mostrar uma sociedade que abraça feliz a ideia de ser vigiada através de uma protagonista tão obtusa quanto a própria sociedade que representa. Mas sinceramente, achei isso um desserviço à representação de personagens femininas na literatura! Um homem sempre seria contestador (mesmo que no final fosse obrigado a se render ao sistema); já uma mulher… aceita contente e feliz, sem precisar de uma grama de soma! Isso, independente de qualquer resenha boa ou ruim, já me deixou de má vontade em relação a uma futura leitura desse livro.

    Reply
  19. ERICA

    Camila, perfeito seu texto!
    Olha eu fico chateada quando leio um livro e vejo que o por traz de tudo, o autor escreveu nele o seguinte: VOCÊ É UM LEITOR OTÁRIO!
    Vamos fazer o que sabemos né minha gente!!! Eu tenho vontade de ser escritora, mas isso requer muito mais conhecimento do que aspiração.
    O tema desse livro é muito importante mesmo, mas é muito triste desperdiçar o tempo (que já é curto para nós leitores) com algo assim (não se pode chamar de obra).
    Quanto ao seu ultimo comentário “impossível de largar” e coisas do gênero, está certíssima… não me atrevo mais a ler livros com frases assim… não se pode esperar coisa boa!
    Abraços

    Reply
  20. Fabio Montarroios

    Olá, Camila. Curti a sua crítica e a indiquei numa discussão que faremos amanhã sobre a obra do Eggers em clube de livros que ajudo a organizar. Consegui encontrar alguns pontos bons ali, mas em termos literários, é sofrível. Você foi muito rigorosa na crítica e acho que toda obra merece esse crivo! Mas há, pelo menos, algumas passagens razoáveis como as da página 250 e as idas ao lago q Mae faz qdo está desolada e confusa. Essas idas ao lago, em particular, talbez sejam uma alusão do autor como era diferente e misterioso navegar na internet antes do Círculo… mas vai saber se era essa ideia mesmo. Prefiro crer q sim. Enfim, estendo a vc o convite pra participar da discussão que ocorrerá amanhã toda no Disqus da própria página. O pessoal que acessa o site manualdousuario.net (conduzido pelo Rodrigo Ghedin) é da área de tecnologia e não da literatura, mas pode ser que algo te interesse ali tb. Abraço!

    Reply
  21. Loris Simon

    Muitos livros atuais estão com cara de “fanfic”. Todos escritos com nivel de redação de ENEM. Os diálogos são trabalhados como nossas primeiras aulas de narração:

    “Aí ele disse:

    – eu amo você

    – eu também te amo Kevin

    – vamos transar

    – oh eu não posso”

    Reply
  22. Leitora Dinâmica

    Muito obrigada pela resenha bem escrita e honesta, a única que li a respeito deste livro. Saí do filme agora com a sensação de ter emburrecido em duas horas perdidas da minha vida, mas ia dar uma chance ao livro (infelizmente já comprado) devido aquela máxima de “o livro é sempre melhor que o filme”. Mas sua resenha foi uma grata e honesta surpresa, que me poupou perder mais tempo e neurônios com um enredo tosco.

    Reply
  23. Luis Cristiano Carmo

    Li o livro e gostei. Estava interessado em ler o livro antes do filme. Pelo visto tanto o filme quanto livro não agradaram os críticos. Para mim o problema livro esta em como foi editado. Em uma parte do livro vi uma folha escrito “Livro II”, fui procurar a folha onde estava escrito Livro I e não achei. A forma como o autor redigiu o livro me lembrou aquelas tiras dominicais dos jornais, ele fez uma compilação das histórias Mae Holand no Circulo. Durante o livro Eu pensei que ela ia matar os sábios e assumir a presidência do Circulo kkkkk.

    Reply

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *