No meio do caminho tinha um prefácio

No meio do caminho tinha um prefácio

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Uma resenha que Woody Allen escreveu sobre a A lanterna mágica, a autobiografia de Ingmar Bergman, virou uma espécie de prefácio da versão brasileira do livro (Cosac Naify). “Com uma história dessas, o sujeito é forçado a virar um gênio. Ou isso, ou ele acaba rindo, trancado num quarto de paredes espessamente estofadas pelo Estado”, escreve, logo depois de enumerar as desgraças pessoais de Bergman. O texto de Woody Allen, curiosamente leve quando comparado a uma autobiografia que se mostra chocante em muitos pontos, funciona como uma boa aproximação entre A lanterna mágica e seu candidato a leitor. (Mais: “[O livro] fala muito de problemas de estômago. Mas é interessante. É aleatório, episódico.”; “No livro está também seu colapso nervoso por causa do escândalo dos impostos. É fascinante ler sobre isso.”) O fato é que um preâmbulo eficiente e interessante, que prioriza o leitor e o acolhe, ainda é raridade.

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Já perdi horas e horas amaldiçoando prefácios e autores de prefácios e editores que têm um fraco por prefácios e qualquer pessoa que se declare admiradora de prefácios. Costumo fazer isso antes mesmo de ler um livro, ou seja, antes de poder determinar se o prefácio que está ali é bom ou ruim. Se somasse os intervalos de tempo entre um daqueles instantes de constatação — sim, há um prefácio aqui, e ele é gigantesco — e o momento em que finalmente tomo coragem para, tudo bem, encarar aquela coisa, intervalos de tempo em que me dedico basicamente a resmungar e suspirar, eu já poderia ter lido a Suma Teológica completa — e provavelmente encontraria um prefácio ali também. É um rancor enorme e, reconheço, nem sempre razoável, por mais que eu possa enumerar motivos racionais para definir e em seguida rejeitar todos aqueles que me parecem maus prefácios — porque prefácios bacanas existem, é claro, e quero dizer com isso que são úteis e sedutores. (Nem sempre se dá o devido valor aos bons prefácios, da mesma forma que, acho, não se critica com ânimo suficiente aqueles que são totalmente desgastantes, irritantes, pedantes, falaciosos, aqueles que não são mais do que um exercício vazio, enfim, todos aqueles que afastam leitor e livro.)

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Prefácios mobilizam minha atenção. Gasto mais tempo pensando em prefácios e odiando prefácios do que qualquer pessoa que eu conheça. É bom esclarecer que costumo enxergar introdução, apresentação, prólogo e prefácio como equivalentes, mesmo sabendo que são gêneros textuais com particularidades distintas — ainda que essas particularidades dependam mais da criatividade de quem escreve do que de formatos específicos e totalmente rígidos. De modo geral, sem desprezar a diversidade (que os próprios nomes já adiantam), todos têm uma função prática mais ou menos parecida. Vou deixar de lado como surgiram, e sua evolução, seu propósito etc. O que importa é unicamente o texto que a editora escolheu colocar entre o leitor e o livro que ele decidiu explorar.

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Não sei quando foi que passei a olhar com desconfiança para prefácios. Dizer que isso acontece desde sempre não me parece exagero. Não lembro de uma fase da vida em que, já habituada a ler livros com prefácios, eu tenha simpatizado com essa espécie de preâmbulo. Talvez seja apenas um sintoma da vontade de passar logo ao que interessa, quando tudo o que atrasa a leitura do livro propriamente dito é só um empecilho desagradável. O fato é que os prefácios ruins, que estão por toda a parte, podem acabar com a disposição do leitor.

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Por que eu leio prefácios?, alguém pode perguntar. Por que eu simplesmente não pulo direto para o começo do livro e deixo de reclamar dos malditos preâmbulos? É o bom e velho sentimento de culpa. As páginas ignoradas, lisas e sem rabiscos, são uma espécie de monumento à minha preguiça ou à minha impaciência ou ao meu rancor nem sempre justificado. Como nessas horas eu costumo me sentir um fracasso, volto para o começo do livro a fim de ler tudo.

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Leio, e normalmente detesto. Alguns prefácios, mais do que um adiamento do que realmente interessa, me parecem sem sentido, uma encheção de páginas desagradável, ou aquilo que a gente chamaria de mais-do-mesmo. Quando você termina de ler um prefácio intragável e desnecessário, já perdeu a energia que deveria ser gasta no livro.

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Não vale entregar o livro todo, como o prefácio — forte candidato a um dos piores que já li — de Suspensões da percepção: atenção, espetáculo e cultura moderna (Cosac Naify). Essa coisa de adiantar o que o leitor vai encontrar também vale para literatura, e aqui a gente cai num problema ainda mais complicado.

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A principal pergunta a ser feita: quem é o leitor? Gosto de usar o exemplo de Beleza e tristeza, um dos trabalhos mais conhecidos de Yasunari Kawabata, publicado aqui pela Globo Livros. A tradução japonês-inglês-português conseguiria, sozinha, tornar a edição sofrível — mas eis que Teixeira Coelho, chamado para escrever o prefácio, arrasa de vez com o livro. (A “tristeza” do título poderia ser o prefácio.) Não há nada absurdo ali. O problema é que o texto não é exatamente acessível para o leitor comum: Teixeira Coelho afasta Yasunari Kawabata do público brasileiro. Ainda em literatura: o preâmbulo de Só para fumantes (Cosac Naify), coletânea de narrativas curtas do peruano Julio Ramón Ribeyro, assinado por Alfredo Bryce Echenique, é intragável. Uma vez que Ramón Ribeyro é mestre em prender a atenção do leitor com relatos interessantes e intrigantes, parece injusto submeter seu livro ao comentário de Echenique.

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A Autêntica lançou uma edição caprichada de O erotismo. Esteticamente, o resultado é excelente. O único problema é que a publicação consegue traumatizar um futuro leitor de Bataille — culpa de dois preâmbulos que destoam grosseiramente do restante da obra. A escrita de Bataille é agradável, acessível e clara, divertida etc. Fazer com que ele passe por um autor intragável é uma façanha. Meu ponto é que qualquer pessoa pode ler e entender o livro sem grandes dificuldades. Se eu fosse editora e quisesse encomendar um prefácio para O erotismo, eu pediria que mantivessem a clareza de Bataille. O problema é que a Autêntica vai na contramão da simplicidade. Os dois textos iniciais conseguem transformar o francês num sonífero potente. Contextualizar é uma coisa; afastar o leitor daquilo que ele tem nas mãos é outra. (Um texto mais denso e mais profundo pode virar um ótimo posfácio.) Isso leva à pergunta anterior: quem é o seu leitor? Imaginem uma pessoa que tenha ouvido falar bem de O erotismo e decida encarar o livro, já que garantiram que o texto é descomplicado. Não é difícil prever o resultado, é?

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A biografia de Henry Matisse (Cosac Naify) traz menos de duas páginas de prefácio, já que Hilary Spurling faz a linha do vamos-direto-ao-ponto. Funciona. Em O arco e a lira (Cosac Naify), uma carta que Julio Cortázar escreveu para Octavio Paz a respeito do material que o leitor tem em mãos faz as vezes de prefácio. “Acabo de terminar a leitura — e em grande parte a releitura e até a arquileitura — de O arco e a lira. (…) Tudo o que sinto diante do seu livro não é, portanto, produto de um descobrimento ou uma revelação. Muito pelo contrário, reconheci diversas vezes as influências (as que estão por baixo, as águas profundas) e concordei ou não com as intenções que lhe ditavam o seu texto. Digo isso para que tenha a certeza de que meu entusiasmo, minha admiração e minha alegria diante de sua obra não são atitude de novato, e sim de reconhecimento — por fim — de um trabalho profundo e completo sobre algo que é de longe um dos fogos centrais, se não propriamente o fogo central do homem”. Funciona também.

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Pensamento aleatório: li Moby Dick pela primeira vez na edição da Cosac Naify. Não há prefácio ali. Será por isso que Moby Dick é meu livro favorito?
Mas há um posfácio formidável escrito por D. H. Lawrence:
Moby Dick, ou a Baleia Branca.
Uma caçada. A última grande caçada.
Em nome de quê?
Em nome de Moby Dick, o imenso cachalote; que é velho, grisalho, monstruoso, e nada sozinho; que, tendo estado muitas vezes sob ataque, é inominavelmente terrível em sua ira; e branco como a neve.
É claro que ele é um símbolo.
De quê?”
De novo: o melhor é que é um posfácio, prefácio. (Palmas para D. H. Lawrence por chamar Moby Dick de “grisalho”.)

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Já que estamos falando de D. H. Lawrence, bom citar o prefácio que Doris Lessing escreveu para O amante de lady Chatterrley (edição da Penguin-Companhia). Doris prova que não é só prefácio curto que é prefácio bom. Seu texto vai até a página quarenta, mas a atenção do leitor é mantida — graças, talvez, ao próprio assunto. Há muito o que falar sobre o romance, e Doris é hábil em levantar polêmicas, curiosidades, detalhes relevantes em que você deve prestar atenção ao longo da leitura etc. E ela é clara e direta: “E isso enquanto Mellors se declara disposto a morrer por uma boa boceta. Constance está presente ao longo de todo o romance como uma mulher de verdade, com uma bunda de bom tamanho e as pernas de uma mulher, não uma dessas mocinhas modernas ‘com o tórax chato e as nádegas estreitas de um menino’ (p. 66), sem a menor feminilidade. E como isso me tocou quando eu era jovem: que Mellors amasse Constance Chatterley porque ela era feminina”. Formidável, Doris.

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Outro prefácio fascinante foi redigido por Czesław Miłosz para o volume Ficção completa de Bruno Schulz (Cosac Naify). Ele escreve apenas quatro páginas: apresenta o autor e cria certa curiosidade em torno de sua figura, e depois sai de fininho.“Não caberia aqui tentar situar Shulz no panorama da literatura mundial produzida durante as décadas que nos separam de sua morte, em 1942”, escreve. Renato Janine Ribeiro redigiu sete páginas para o preâmbulo de Os miseráveis (Cosac Naify): “A miséria é um tema novo, no séc. XIX. Como realidade, é bem antiga, mas a novidade é ela se tornar tema, isto é, aparecer como algo que causa escândalo e que, dizem cada vez mais romancistas e cientistas sociais, pode — e deve — ser superado”. Não parece tanto assim, quando comparamos os poucos parágrafos ao calhamaço de Victor Hugo.

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Lila Azam Zanganeh aproveita a liberdade do formato para escrever um prefácio despretensioso (como, aliás, todo o seu livro O encantador: Nabokov e a felicidade, publicado pela Alfaguara): “Pois lá estava eu, na tardinha de uma cidade norte-americana do litoral leste, reclinada num sofá cheio sob uma lâmpada em forma de sino. Do lado de fora, a primavera ainda era recente. Estava nublado e frio e a noite logo iria passar para dentro da sala. Eu estava prestes a ruminar um texto que havia escolhido, quando —  bom, é aí que as primeiras dificuldades apareceram”.

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Henry James provoca algum cansaço com o prefácio de Os embaixadores (Cosac Naify) — mas seu último parágrafo o redime: “Não seria difícil me fazer argumentar, ademais, que é de um jogo equilibrado de oposições como essas que o livro adquire uma intensidade que na realidade contribui para o dramático — embora este último deva ser a soma de todas as intensidades; ou que em todo caso nada tenha a temer nessa correlação. Conscientemente, deixo de furtar-me a essa extravagância — eu a arrisco, em vez disso, em consideração à moral envolvida; a qual não é o fato de a presente produção esgotar as questões interessantes que desperta, mas de o Romance ainda continuar sendo, sob a adequada persuação, a mais elástica, a mais prodigiosa das formas literárias”.

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Lévi-Strauss prefacia seu próprio Antropologia estrutural (Cosac Naify). Cita Jean Pouillon, que faz referência a… Lévi-Strauss. “Em estudo recente, Jean Pouillon escreveu uma crase que, espero, não se importará em ver citada por mim no início deste livro, pois corresponde admiravelmente a tudo o que desejei realizar em termos científicos, duvidando constantemente de tê-lo conseguido: ‘Lévi-Strauss com certeza não é o primeiro, nem o único, a sublinhar o cartáter estrutural dos fenômenos sociais, mas sua originalidade está em ser o primeiro a levar isso a sério e tirar daí, imperturbavelmente, todas as consequências'”. Ainda complementa: “Eu me sentirei realizado se este livro puder levar outros leitores a compartilhar dessa opinião”.

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“‘Ah’, disse Alice, ‘isso não dá para eu fazer’.
‘Por que não?’, perguntou o jovem editor de Nova York que estava tentando persuadi-la a escrever um livro sobre a vida dela com Gertrude Stein e sobre todas as pessoas e aventuras que partilharam.
‘Porque’, respondeu Alice naquela voz sensual, rouca de cigarro, ‘Gertrude já fez minha biografia e está feita.’
Como eu não conseguia pensar numa resposta, devo ter ficado com uma cara muito triste; e como Alice havia criado certa amizade por nós nos anos seguintes à morte de Gertrude, pensou no que poderia fazer.
‘O que eu poderia fazer’, disse ela da maneira mais hesitante que conseguiu, e que não foi muito, ‘é um livro de receitas’. E depois: ‘É claro que seria cheio de memórias’. Ela manteve a promessa”. 
Um livro que começa tão bem, com esta nota de Simon Michael Bessie, editor, sofre as consequências de um prefácio — escrito por Glen Ellen em 1984 — mais extenso do que seria necessário. Estamos falando de O livro de cozinha de Alice B. Toklas (Companhia das Letras, fora de catálogo).

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Há um bom ensaio de Mario Vargas Llosa — “É possível pensar o mundo moderno sem o romance?” — que funciona como uma espécie de prefácio do calhamaço O romance (Cosac Naify, organização de Franco Moretti). Llosa não está entre meus autores favoritos, mas seu texto é relevante: “A literatura, ao contrário, diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geografias, as circunstâncias em que se encontram e as conjunturas históricas que lhe determinam o horizonte”.

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Já Adolfo Bioy Casares, não contente a primeira versão do prólogo da Antologia da literatura fantástica (Cosac Naify), redigida vinte e cinco anos antes, achou bacana escrever um post-scriptum para a segunda edição. Nos acréscimos, lamenta os erros que cometeu: “(…) para descrever os contos de Borges, encontro uma fórmula admiravelmente adequada aos mais rápidos lugares-comuns da crítica. Desconfio que não faltavam provas de sua eficácia para estimular a deformação da verdade. Deplorável”. E para não deixar Borges de fora, vale uma menção ao prefácio escrito para A invenção de Morel  (Cosac Naify), do próprio Bioy Casares — o livro é encerrado de forma magnífica com um posfácio do sempre excelente Otto Maria Carpeaux. Escreve: “Discuti com o autor os pormenores da trama e a reli; não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole classificá-la de perfeita”. Concordo com Borges? Não. Mas quem sou eu para concordar ou discordar de Borges?

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Torci o nariz para o começo do prefácio de Derrida – Biografia, como faço normalmente, mas um parágrafo genial veio para redimi-lo: “Pode-se, com essa forma de leitura inventiva, evitar a ultraespecialização, a qual reproduziria hegelianamente a dialética do senhor e do escravo, do mestre e do discípulo. Por esse motivo, a palavra especialista, em vez da reverência servil, apenas indicaria uma relação especial, afetiva até, com a obra do pensador de partida. Tal especialização jamais deveria se tornar um recurso de autoridade, menos ainda um título de propriedade, com os quais, por si sós, se reivindicasse a primazia e a legitimidade da abordagem. Nada legitima de antemão a leitura do expert, nem tampouco a leitura do leigo, pois ambas necessitam de uma comunidade ampla, e em muitos casos aleatória, de leitores, que confirmam ou infirmam o efeito interpretativo, por meio de diversas recepções interpretativas. Sem o lance do acaso, não há possibilidade desconstrutora, menos ainda alcance efetivo dos exercícios de leitura. E isso ocorre sempre por meio de uma trajetória repleta, a um só tempo, de percalços e de êxitos, que não se pode previamente controlar. Razão pela qual ninguém formado em filosofia, literatura, psicanálise, ou qualquer outra área do saber, pode deter a prerrogativa da interpretação mais fidedigna”. 

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Imperdível é o prefácio de Nadja (Cosac Naify), de André Breton, assinado por Eliane Robert Moraes  intitulado “Breton diante da esfinge”. Escreve: “Assim, entre o trajeto do caminhante surreal e o curso de seu pensamento estabelecem-se nexos inesperados, já que ambos recusam as rotas conhecidas em função da exploração do desconhecido. A perambulação pelas ruas de Paris supõe, portanto, o desejo de soltar as rédeas do espírito, de abandonar-se a seus ritmos incertos e hesitantes, de acolher enfim sua própria possibilidade de errar. Exploração arriscada, que prescinde da orientação de mapas e bússolas — mas que, por isso mesmo, conduz à descoberta da poesia. Aos olhos de Breton, Nadja representa a própria encarnação dessa aventura sensível”. Mesmo fazendo poucas concessões, Robert Moraes não abre mão da clareza.

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E aí temos Rubens Figueiredo, um sujeito que definitivamente sabe como aproximar leitor e livro. As apresentações de Oblómov, Anna Kariênina e Guerra e paz (os três são da Cosac Naify) são de uma clareza extraordinária. Figueiredo consegue diferenciar o que é relevante do que não é — e isso quando se leva em consideração todos os tipos leitores. a) São cinco páginas das mais admiráveis que abrem Oblómov: “Nascido em 1812, Gontcharóv pertence à geração de Gógol, Bielínski, Liérmontov e Herzen, imediatamente anterior à de Turguêniev, Dostoiévski e Tolstói. Situa-se, portanto, no momento em que os membros da intelligentsia literária russa começam a empenhar suas obras, de modo mais consciente e incisivo, num debate incomum sobre os destinos do país”. b) E para falar de Anna: “Tolstói escreveu Anna Kariênina entre 1873 e 1877, em Iásnaia Poliana, sua vasta propriedade rural, onde residia, ao sul de Moscou. Estava à beira de completar 45 anos quando começou a redigir o livro. Era casado e tinha quatro filhos. Na década anterior, havia consolidado sua reputação com o romance Guerra e paz, escrito entre 1863 e 1869”. c) As palavras que abrem Guerra e paz atiram o leitor direto no enredo, sem procurar desviá-lo: “Tolstói escreveu Guerra e paz entre 1863 e 1869, em sua propriedade rural. Havia casado no ano anterior e tinha 35 anos quando começou a redigir o livro. Seu plano inicial era um romance sobre os chamados decembristas, grupo de oficiais e nobres revolucionários, influenciados pelo iluminismo francês, que em dezembro de 1825 desemcadearam um movimento contra o tsar Nicolau I. Como de hábito, Tolstói pesquisou a fundo o assunto, não só em texto como por meio de testemunhos orais colhidos pessoalmente. Concluiu que, para tratar dos decembristas, era preciso recuar no tempo e remontar ao ano de 1812, quando a invasão napoleônica foi rechaçada em solo russo. Todavia, num desdobramento bem expressivo de seu ânimo questionador, Tolstói se convenceu de que era necessário ainda retroceder até 1805, ano em que as tropas napoleônicas derrotaram de forma arrasadora as forças austro-russas na batalha de Austerlitz.”

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Rubens Figueiredo pega o leitor pela mão e o conduz até onde está o suposto segredo do livro e o segredo, para ele, é justamente o fato de não haver segredo algum. Dá pra concluir, graças aos textos mencionados, que há prefácios relevantes e outros nem tanto. E, claro, nem todos os prefácios serão necessária e inteiramente bons ou maus. Há, no entanto, uma pergunta que nada tem a ver com meu rancor e com a minha urgência de partir logo para o que interessa, uma pergunta que tenho feito há tempos e que não sei se algum dia vou chegar perto de responder: quantos leitores estamos perdendo com os maus prefácios?

19 Comentários No meio do caminho tinha um prefácio

  1. Nathan

    Por isso que eu pulo! Sem medo de ser feliz. Pule e leia o prefácio como um posfácio! Eu fiquei traumatizado com prefácios que adiantavam a obra ou o analisavam antes da leitura. Isso é freud!

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  2. Fernando

    Livros abertos leitura obrigatorio, prefacios nem tanto!

    Camila você conhece a obra do escritor Antonio Di Benedetto?
    Gostaria muito de ler uma resenha sua sobre qualquer livro dele.

    Obrigado por mais um ótimo post!

    Reply
  3. Marcos

    Foi no domingo que você postou algo no Twitter sobre prefácios, não foi? Sei que no mesmo dia eu comecei a ler um livro, aí lembrei de você e pulei o prefácio.

    Não perdi nada!

    🙂

    Reply
  4. Graça

    Camila, parabéns pelo post!
    Sabe, aprecio e não deixo de ler introdução, apresentação, prólogo, prefácio e posfácio. Considero um pouco irritante a leitura das tais notas de rodapé, confesso, ainda que algumas sejam necessárias.
    Também sou fã dos prefácios escritos pelo genial Rubens Figueiredo.
    O prefácio escrito por Doris Lessing sobre o Amante de Lady Chatterrley é estupendo, um dos melhores que já li.
    Amei o título que nos lembra o grande poeta : No meio do caminho tinha um prefácio.
    Beijos

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  5. Áurea Cristina

    Taí, seu texto (e não um prefácio; ou como se o fosse) me fez começar a leitura de “O Erotismo”. Passei do post ao primeiro capítulo, direto! Obrigada pela sugestão! Abraço!

    Reply
    1. camilakehl

      Tô tentando, Julia. 🙂 Exige algum esforço, mas tive sucesso com o primeiro. Vou passar para o segundo. (O problema: eu ainda leio o prefácio depois de terminar o livro. Acho que isso ainda não caracteriza a cura.)

      Reply
  6. Sonia

    Olá. Camila,

    Conheci seu blog há pouco tempo…..Que pena!
    É muito bom! Parabéns!
    Fico espantada com o tanto que você já leu, com tão pouca idade.
    Sou leitora contumaz……Mas não sou jovem! Outra coisa a lamentar.
    Raramente leio os prefácios antes do livro. Terminada a leitura, os leio.
    É o momento em que me despeço do livro, e nem sempre a despedida é fácil.
    Por isso, esquadrinho o livro: vejo capa, contra- capa, datas, enfim, faço tudo para prolongar meus momentos com aquele amigo; isso, se gostei dele, claro.
    Há um prefácio que considero maravilhoso: Otto Maria Carpeaux em Madame Bovary, em uma edição antiga da Ediouro.

    Como conheço pouco seu blog, e são tantas coisas a ver, que é possível que me tenha passado despercebido comentário sobre Javier Marias. O que você acha dele?
    Já adianto minha opinião: gosto muitíssimo.

    Camila, obrigada por ouvir-me.
    Um abraço e bom fim de semana.

    Sonia

    Reply
    1. camilakehl

      Otto Maria Carpeaux é excelente escrevendo prefácios e posfácios. Gosto muito dos volumes da “História da literatura ocidental” (editados pela Leya).
      Obrigada pelo comentário. Fiquei muito feliz em saber que você gostou do blog. 🙂
      Um abraço,
      Camila

      Reply
      1. Sonia

        Camila,

        Sim, Histórias da Literatura Ocidental é imprescindível.
        Comprei a coleção há muitos anos, em um sebo aqui no Rio.
        Pois é, sou gaúcha, mas moro e trabalho no Rio há muitos anos.
        Infelizmente, os bons sebos estão desaparecendo. Para minha tristeza…Pois, os adoro. Tenho preciosidades compradas em sebos.
        Um dia, te conto.
        Um abraço e muito obrigada.

        Reply
  7. Sonia

    Olá, Camila,

    Desculpe-me, tão encantada com o seu blog, que me passou despercebida a crítica sobre Os Enamoramentos do Javier Marías!

    Obrigada.
    Um abraço,
    Sonia

    Reply
    1. camilakehl

      Eu adoro o Javier Marías! 🙂 Você já leu “Amanhã na batalha, pensa em mim”? É maravilhoso. Li há pouco tempo e fiquei encantada. Tenho outros dois dele aqui esperando na fila.
      Abração!

      Reply
      1. Sonia

        Oi, Camila,

        Tudo bem?
        O Amanhã, na batalha, pensa em mim, foi o primeiro que li, se não me engano, uma edição da Martins.
        Com o Amanhã, começou a paixão.
        Li Coração tão Branco, Todas as almas, Negro Dorso do Tempo, Quando fui mortal.
        Da trilogia, Seu Rosto amanhã, só li o primeiro, Febre e Lança.
        Os outros dois me esperam.
        Leio mais de um livro ao mesmo tempo.
        Enfim, adoro ler, como já disse.
        Cada vez mais encantada com o seu blog, com a sua cultura, com a sua refinada sensibilidade.
        Mais uma vez, parabéns, Camila!
        Obrigada.
        Um abraço,
        Sonia

        Reply
        1. Jerome

          Sonia e Camila, também adoro Marías! Li todos os romances, acho que meu favorito é Coração Tão Branco. Vou para Madri pela primeira vez daqui a dois dias, estou trazendo The Man of Feeling comigo. Vai ser um prazer estar na cidade dele!

          Abraço,
          Jerome

          Reply
  8. Carlos

    Bela pauta, Camila. Compartilhamos o mesmo sentimento no que se refere a prefácio. Em razão do sentimento de culpa por pular páginas, jamais os deixo de ler. Aliás, acho que os livros só deveriam ter prefácio quando acrescentam informações importantes “pré leitura” (como o próprio vocábulo sugere), como os do Rubens Figueiredo, que tão oportunamente citaste.

    Parabéns pelo blog e pelo teu levíssimo e saboroso texto.

    Reply
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