Névoa, círios e esquilos

Nasce em Viña del Mar, Chile, em 1910. Passa os anos de juventude em Paris com a mãe e a irmã, onde absorve algo das vanguardas e do surrealismo. De volta ao Chile, engata um romance com Eulogio Sánchez Errázuriz, pioneiro da aviação civil — quando o relacionamento chega ao fim, ela, transtornada, tenta o suicídio. Seu amigo, um certo Pablo Neruda, faz com que permaneça uns tempos em Buenos Aires. Na capital argentina, além de Neruda, ela mantém contato com Federico García Lorca, Jorge Luis Borges (com quem inicia uma sólida amizade), Luigi Pirandello e outras personalidades da cena literária da época. Conhece o artista plástico Jorge Larco, com quem se casa e de quem se separa rapidamente. Em 1941, compra um revólver e tenta assassinar o ex, Eulogio, que consegue escapar. Ela viaja então aos Estados Unidos, onde, em 1944, se casa com o francês Fal Marie Henri Saint Phalle, um banqueiro falido, com quem tem sua única filha, Brigitte. Adolescente, Brigitte determina que não quer mais ver a mãe. <>Esta morre sozinha em uma casa de repouso em 6 de maio de 1980, aos 70 anos, vítima do alcoolismo.

Poderia ser um relato de ficção, mas é um resumo, com foco nos episódios mais controversos, da vida de María Luisa Bombal. Por aí se vê que a autora, passional e excêntrica, acabou por não se submeter a certos papéis que a sociedade reservava — e ainda reserva — às mulheres.

A escritora chilena é constantemente comparada ao mexicano Juan Rulfo, autor de Pedro Páramo, tanto pela modesta extensão de suas obras quanto pelo impacto enorme que causaram — a de María Luisa, junto com uma significativa renovação do romance latino-americano, marca também uma tênue mudança na narrativa feita por mulheres. Isso faz com que A última névoa, publicado pela Cosac Naify, seja um dos lançamentos mais importantes de 2013. Como o de José Donoso, outro autor chileno redescoberto este ano, o retorno de Bombal às livrarias é motivo para comemoração.

Com excelente tradução de Laura Janina Hosiasson, A última névoa traz a novela do título, publicada em 1935, e A amortalhada, esta de 1938. Há ainda um simpático texto de não ficção sobre os esquilos de Washington D.C.

A importância da névoa se vê na capa: as próprias letras somem na bruma proposta. O livro é maleável, com folhas finas que mostram um leve degradê.
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Uma névoa permanente

Duas novelas, duas protagonistas do sexo feminino às voltas com dilemas muito particulares — e, se os próprios dilemas não constituíam uma novidade na década de 1930, ao menos a sua perspectiva era inteiramente original. Na primeira delas, A última névoa, as fronteiras entre sonho e vigília são atenuadas; na segunda, A amortalhada, suaviza-se a linha que separa a vida e a morte. A ambiguidade parece indissociável da ficção de María Luisa Bombal.

“Todas as protagonistas padecem de um tipo de introspecção que as isola e ao mesmo tempo as coloca em contato direto com sua intimidade”, escreve Laura Janina Hosiasson no posfácio do livro. E mais adiante: “Na armadilha de salvá-la de sua clausura, o leitor é chamado a entrar, feito uma espécie de psicanalista que escuta um monólogo poeticamente atrapalhado e imaginoso, e tenta decifrar um sentido a partir dessa fala”.

Quando tenta decifrar as protagonistas das duas novelas, o leitor é detido pela névoa.

1) A última névoa ocupa a primeira parte do livro. a) Uma protagonista sem nome está presa a uma existência esvaziada de sentido — o que para ela significa esvaziada de amor. Casa-se com seu primo “por casar”, e vive com ele como viveria com um irmão. Uma noite, enquanto flana pela cidade, conhece um homem e vai para cama com ele. Finalmente sua sexualidade incipiente, explícita durante toda a narrativa (o que evoca belas imagens, aliás), encontra uma válvula de escape. Há, entretanto, um detalhe inquietante, que irá descobrir aquele que ler o livro. b) “A atmosfera onírica de movimentos fluidos, ancorada numa sintaxe altamente alusiva e enxuta, causaram espanto e surpresa em 1935, ainda mais em se tratando de uma novata”, escreve Laura Janina Hosiasson no posfácio. Impossível ignorar a questão da sexualidade feminina, que também tem seu impacto: não só a protagonista expressa seu desejo e narra as descobertas do próprio corpo com enorme lirismo como, ainda mais sugestivo, não chega a manifestar qualquer embaraço pelos pensamentos e atos. Há uma única cena em que ela, nua em frente a seu amante e consciente do que se espera de uma mulher, afirma que “um pudor singular” lhe diz para “fingir medo”.

2) A amortalhada vem em seguida. a) Ana María está em seu velório, assistindo a tudo em algum nível remoto de consciência. Junto dela há dois círios que vão queimando lentamente. Enquanto vê chegarem os amigos e familiares, rememora aquilo que viveu. A despeito de todas as lembranças, as boas e as más, esbarra em uma enorme falta de sentido. Como escreve Laura Janina Hosiasson: “Essa tentativa de dar sentido, de compreender o percurso de uma vida é sempre frustrada em Bombal, e ao mesmo tempo se constitui como eixo temático fundamental”. b) Bombal alterna a narrativa entre a primeira e a terceira pessoa (em estilo indireto livre), pulando de um personagem a outro. Essa maneira de intercalar a vozes potencializa o componente inquietante da própria temática.

É preciso dizer que as protagonistas de A última névoa e de A amortalhada romperam barreiras sem abrir mão de certa visão conservadora — a valorização do amor e do matrimônio e a total passividade dentro do limitado lugar que ocupam. É quase como se a autora houvesse empreendido uma revolução feminista sinuosa e discreta, ainda que possivelmente inconsciente. “A obra de Bombal, nesse aspecto, situa-se no limiar entre duas épocas, entre um romantismo tardio da época moderna e uma sensibilidade contemporânea”, diz Hosiasson.

Mas há muito mais ali além das questões que rondam o feminino, é claro. A vida interior das personagens é riquíssima (e confusa), e seu olhar abrange uma gama enorme de assuntos, que por sua vez vão desaguar em outros tantos. Para citar mais uma vez Laura Janina Rosiasson — nesse prefácio que, já deu para perceber, está imperdível: <“O ritmo cadenciado de sua prosa e o tom poético das imagens evocadas a cada passo afastam a pieguice melodramática e minam, aos poucos, toda e qualquer possibilidade de separação entre noções de vigília e sonho. A subjetividade (…) impregna tudo em volta, borrando os limites entre razão e imaginação, desmontando linhas cronológicas ou unidades de espaço”.

É impossível falar de Bombal em poucas linhas. Cada frase (curta) de suas duas novelas, e mesmo de seu pequeno texto sobre esquilos, desdobra uma nova imagem e um novo significado — uma nova camada. O leitor não só sente a névoa como também a enxerga por todos os lados.

1) Para os que desejam ler a biografia de María Luisa Bombal (e é difícil não desejar), uma boa notícia: a Cosac Naify deve lançá-la em breve. 2) Para os mais apressados, outra boa notícia: já existe um filme inspirado na vida da autora. Saiu em 2012. Dá para assisti-lo aqui

= Yambo.

Yambo é o protagonista de A misteriosa chama da rainha Loana, romance de Umberto Eco publicado em 2004. Num genial exemplo de intertextualidade, Eco insere vários trechos aleatórios sobre névoa no início de seu livro — Yambo perdeu a memória, está acordando no hospital etc. É interessante tentar descobrir de onde provêm os excertos.

1) “Onde a névoa flutua entre as torres como o incenso que sonha? Uma cidade cinzenta, triste como uma tumba florida de crisântemos onde a bruma pende desbeiçada das fachadas como um arrás…”
2) “Minha alma limpava os vidros do bonde para afogar-se na névoa móvel dos sinais. Névoa, minha incontaminada irmã… Uma névoa espessa, opaca, que embrulhava os rumores, e fazia surgirem fantasmas sem forma…”
3) “Mastigava a névoa. Os fantasmas passavam, tocavam-me, desvaneciam-se. As luzinhas longe luziam como fogos-fátuos num campo-santo…”
4) “Alguém caminha a meu lado sem rumor, como se tivesse os pés descalços, caminha sem saltos, sem sapatos, sem sandálias, uma faixa de névoa me desliza sobre a face, uma frota de bêbados grita lá embaixo, no fundo da balsa.”
5) “Maigret mergulha em uma névoa tão densa que não consegue ver nem onde põe os pés… A névoa pulula de formas humanas, fervilha de uma vida intensa e misteriosa.”
6) “A cortina de vapor cinza gradualmente perdia seu matiz cinzento, o calor da água era extremo, e sua nuança leitosa mais intensa que nunca… Então nos precipitamos nos abraços da catarata onde um abismo abriu-se para nos engolir.”
7) “O céu é de cinzas. Névoa rio acima, névoa rio abaixo, névoa que morde as mãos da pequena vendedora de fósforos. Os passantes da Ilha dos Cães olham um ínfimo céu enevoado, envoltos eles mesmos na névoa como em um balão suspenso sob uma névoa morena, que nem morte muita poderia desfazer. Cheiro de estação e de fuligem.” 

Trecho de A amortalhada:

“Dá um passo. Atravessa o duplo anel de névoa que o circunda. Entra nos vaga-lumes, até os ombros, como num pó de ouro flutuante.
Ah! Que força é essa que a envolve e arrebata?
Ei-la aqui, novamente imóvel, deitada de costas no amplo leito.
Leve. Sente-se leve. Tenta se mexer e não consegue. Como se a capa mais secreta, mais profunda de seu corpo se mexesse aprisionada dentro de outras capas mais pesadas que ela não consegue erguer e que a retêm cravada, ali, no chispar oleoso de dois círios.
O dia queima horas, minutos, segundos.
— Vamos.
— Não.
Exausta, deseja, todavia, desvencilhar-se daquela partícula de consciência que a mantém atada à vida e deixar-se levar para trás, até o profundo abismo macio que ela sente lá embaixo.
Mas uma inquietação a faz não se desprender do último nó.
Enquanto o dia queima horas, minutos, segundos.”

11 Comentários Névoa, círios e esquilos

  1. Fernando

    Nossa Camila obrigado por mais uma dica valiosa!

    A descoberta independente da avaliação final já vale a viagem, a leitura, o decorrer…

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  2. Denilson

    Olá, Camila:
    Surpreendentes seu empenho e sua dedicação; extraordinários seus comentários e suas avaliações; notáveis suas escolhas e suas preferências. O seu blog está nos meus favoritos. É fonte inesgotável de sugestões e ótimos textos. Obrigado e longevidade ao primoroso projeto!

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  3. Samuel Freitas

    Descobri José Donoso através do seu blog e foi -de longe- a melhor indicação do ano.
    Acredito que não será diferente com Luisa.
    Parabéns pelo blog!
    Abraços

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    1. camilakehl

      Valeu, Samuel! Os latino-americanos são mesmo as grandes reedições do ano.
      Donoso é um dos meus autores favoritos, e só posso simpatizar com quem gosta dele, haha 🙂
      Abração!

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  4. Graça

    Olá, Camila!
    Enquanto janeiro não chega, estou por aqui matando as saudades.
    Acabei de ler um conto da Maria Luisa Bombal, A árvore , está entre Os Melhores Contos da América Latina, organização de Flávio Moreira da Costa.
    Delicado e sutil, amei.
    Beijos

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