Mudança – Mo Yan

Ignorando o fato de ter sido expulso, um menino continua a aparecer na escola rural do vilarejo onde mora. Para tanto, “esgueira-se tímido pelo portão sem vigia, atravessa um corredor comprido e escuro e alcança um pátio”. Gosta de estar ali, e é provável que não saiba bem para onde ir. Diante da obstinação do ex-aluno, os professores desistem de colocá-lo para fora e terminam por ignorá-lo. Tentando não chamar a atenção, ele permanece “colado a um canto do muro, todo encolhido”. Quarenta anos mais tarde, o menino, Mo Yan, recebe o Nobel de Literatura.

Mudança é um relato autobiográfico publicado originalmente em 2010. Como Mo Yan só receberia o Nobel em 2012, a justaposição de cenas — em que há, naturalmente, uma dose de sentimentalismo — acontece somente na cabeça do leitor. Na medida em que o autor foi traduzido (Amilton Reis, do chinês) e publicado (Cosac Naify) graças ao prêmio, é inevitável a associação entre o menino confuso e o escritor bem-sucedido.

Simpático livro de pouco mais de cem páginas, Mudança é o resultado de uma encomenda. Um editor de Calcutá — a quem Mo Yan é apresentado em uma viagem à Itália — pede ao autor que escreva “sobre as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas”. Dá a Mo Yan toda a liberdade para criar o que quiser. Graças a essa liberdade, <emMudança pouco debate as reviravoltas de que a China foi palco — no máximo, e de maneira muito vaga, tangencia uma e outra. Mo Yan optou por uma narrativa autobiográfica em que, a fim de seguir a proposta do editor, designa a Lu Wenli e He Zhiwu os papéis dos personagens secundários.


Os três estudaram juntos na escola rural. A autodescrição de Mo Yan dá uma pista de como a história começa para ele: “desde pequeno sou atrevido, desde pequeno sou desastrado, desde pequeno sou mestre em arranjar sarna para me coçar”. É impedido de assistir as aulas depois de um mal-entendido. Lu Wenli vem de uma família privilegiada; seu pai dirige um caminhão Gaz 51 importado da União Soviética, algo com que todos os meninos sonham. Em He Zhiwu há, desde cedo, uma mistura de rebeldia e malandragem. Ainda garoto, deixa os colegas boquiabertos com sua coragem quando, depois de confrontar um professor, decide abandonar a escola rural.

Todos tomam rumos distintos, aproveitando as mudanças da China a seu modo. Mo Yan narra a própria trajetória sem grandes detalhes — filho de camponeses, por pouco seu destino não foi bem diferente. Fica claro que, para chegar onde chegou, o autor se adaptou ao meio.

Mudança não é propriamente um livro impactante, mas parece o ideal para o primeiro contato com Mo Yan. A escrita é extremamente simples, o que faz com que o livro possa tranquilamente ser lido em um par de horas. A leveza e o humor de Mo Yan são boas surpresas. (Uma marcação aleatória no meu exemplar: “Um grande vilão tem sempre algo de heroico, e um grande herói tem sempre algo de vil”.)

Mo Yan se encontra (separadamente) com He Zhiwu e Lu Wenli depois de alguns anos. As coisas estão, de fato, bem diferentes para os três. A China também não é a mesma, e o que parece mais incrível é que o país tenha resistido à morte de Mao Tsé-Tung — o que, em 1976, Mo Yan acreditou que não aconteceria. É no reencontro que o malandro He Zhiwu desabafa: “Daí se vê que a vida é cheia de mudanças, o acaso é que ata as pontas do destino. Tudo se encaixa de maneira estranha, bizarra mesmo, ninguém é capaz de prever essas coisas”. Como era impossível prever o destino de Mo Yan, o garoto encostado ao muro.

3 Comentários Mudança – Mo Yan

  1. Rômulo

    Muito bom. Estava procurando algo diferente e que fosse fruto de um desafia na vida. Igualzinhozinho a escrever. (ainda não sei usar muito bem a crase; isso é um desafio que nem usar ponto e vírgula: meu outro desafio— aprender a usar dois pontos e o travessão.)
    A minha luta com a escrita parece como uma imposição, de uma linda ditadura chinesa de olhinhos puxados me aprisionando e me fazendo querer lutar mais para não sei o quê. Aprender a usar o “que” é minha outra luta. Aprender a querer a amar e ser livre são lutas simétricas: ser livre é estar preso pelo amor que liberta. Um belo aprendizado.

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  2. Pingback: As rãs – Mo Yan | Livros abertos

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