Meus documentos – Alejandro Zambra

Meus documentos – Alejandro Zambra

Até então era Bonsai, o primeiro livro do chileno Alejandro Zambra publicado pela Cosac Naify, o favorito dos leitores brasileiros. A vida privada das árvores e Formas de voltar para casa foram bem recebidos, mas Bonsai, pelo que se podia observar, permanecia no topo. Permanecia. Meus documentos, que tira Zambra da lista dos jovens promissores e o coloca definitivamente entre os grandes autores, tem méritos suficientes para desbancar o número um do público — favoritismo que, no geral, tem o endosso da crítica.

meusdocs

São onze contos distribuídos por três partes. Em comum, todos têm personagens solitários e sem rumo. Bem ao gosto do autor, muitas das narrativas revelam amores fracassados ou que irão fracassar. Também ao gosto de Zambra, a figura do escritor e a difícil (e necessária) tarefa de transformar a vida em literatura, ou vice-versa, são continuamente investigados.

Como já provou em Bonsai, Zambra gosta de comparar a vida nos livros com a vida vivida, contemplando uma através da outra. No último conto de Meus documentos, de forma indireta e algo tortuosa, o autor relaciona um escritor a um detetive. Ambos, argumenta sem argumentar, têm de prestar atenção aos mínimos detalhes, enxergando, no fim das contas, o que ninguém mais enxerga. O leitor, em especial quando se trata da ficção escorregadia do chileno, assume um papel parecido.

Nos contos de Zambra, ou na literatura de Zambra em geral, o que de fato importa dificilmente é explicitado. Muita coisa, de forma mais radical do que se costuma ver em casos semelhantes, permanece subentendida. Em cada um dos contos, dois ou mais eventos funcionam como uma cortina de fumaça que não permite que se enxergue de imediato o que está por baixo. Cabe ao leitor intuir, ou imaginar, os contornos de algo não dito. Não há, de qualquer forma, respostas prontas e fáceis.

Na esteira disso, como é próprio das narrativas curtas, todos os contos têm um desfecho mais aberto. No caso específico de Meus documentos, temos personagens erráticos que encontram uma espécie de sentido mínimo e breve — que experimentam um impulso de coragem ou de paz ou um lampejo de beleza — num cotidiano de resto frustrante e monótono. Essas pequenas epifanias, que carregam um quê de melancolia, contribuem para o efeito geral de uma ficção que comporta interpretações distintas.

“O homem mais chileno do mundo”, por exemplo, mostra um rapaz que, a fim de visitar a ex-namorada na Dinamarca, parcela no cartão de crédito uma passagem de avião. Ainda que as coisas não saiam conforme o planejado, o sujeito decide aproveitar a viagem com a coragem (pouca) e o dinheiro (também) que restaram. O seu apoio vem de (e aqui entra o humor e a sutileza de Zambra) um guarda-chuva. Em “Vida de família”, um sujeito é convidado a morar na casa do primo por quatro meses. Pelos móveis e objetos, pela insinuação de vida doméstica, pelo gato e o álbum de fotos, o homem acaba desejando uma rotina diferente da que tem longe dali. Em Zambra, pequenos detalhes — não raro utensílios ordinários — contam uma história dentro da história.

O conto que dá título ao livro mostra um inventário de situações e de referências de um garoto que toma consciência da situação política do Chile na medida em que cresce. É nele que o humor de Alejandro Zambra fica mais evidente. Tudo o que cerca e pontua a vida do garoto é anotado: a figura da avó, a música de Simon & Garfunkel, as pipas, a liturgia do catolicismo, o terremoto de 1985, Augusto Pinochet. A ditadura militar chilena, aliás, normalmente atua como pano ou ruído de fundo nos contos do livro.

Mais ou menos aos onze anos eu me tornei, quase simultaneamente, um leitor voraz e um fumante bastante promissor.

Computadores também são elementos importantes. O título Meus documentos vem da pasta do Windows em que costumamos armazenar os textos — o livro sai da pasta de Alejandro Zambra direto para o formato em que se encontra. O autor parece encarar computadores com o espanto necessário: em mais de uma ocasião, menciona a quantidade de vida e de lembranças que, desde a década de 1980, despejamos nas máquinas, como se para aliviar o peso dos ombros.

Com ou sem o humor escancarado do primeiro conto, Meus documentos é, de todos os livros do chileno traduzidos para o português até então, o mais sombrio. O incerto, o pesar e a melancolia, ainda que narrados com a delicadeza do autor, parecem mais fortes e mais brutais.

É comum que haja, em uma coletânea, contos bem-sucedidos e outros nem tanto. Não é o caso de Meus documentos, livro em que, sem exagero, todas as narrativas são ótimas. Zambra tem, afinal, boas influências. Em “Eu fumava muito bem”, ele mesmo sublinha a leitura do peruano Julio Ramón Ribeyro, autor do excelente Só para fumantes. No conto de Zambra, um homem perde o rumo da própria vida ao deixar de fumar. Antes, ele lia e escrevia para fumar, ou fumava para ler e escrever. Caminhava para fumar, ou fumava para caminhar. Fumar conferia significado às ações e ainda cumpria a função de marcar o tempo. Soa exagerado? “O que é verossímil para um fumante, para um não fumante é literatura”, diz ele, listando as situações bizarras a que a falta de cigarro o conduz.

“Sou um correspondente, mas gostaria de saber de quê”, escreve o autor no conto sobre o fumo. No caso de seus livros, nós sabemos: Zambra é o melhor correspondente da vida cotidiana — de sua rotina opaca e seus fulgores ocasionais.

7 Comentários Meus documentos – Alejandro Zambra

  1. Rejane

    Obrigada pela excelente resenha, Camila!
    O livro é maravilhoso, foi uma das minhas melhores leituras de 2015.
    Beijo!

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  2. Graça

    Oi, Camila,
    tenho tudo de Alejandro Zambra, irei providenciar a leitura de Meus Documentos, ainda hoje.
    Adoro “intuir e imaginar”. Zambra é um autor que desperta este lado em nós.
    Resenha adorável, perfeita.
    Beijocas para você e Rejane.
    Obrigada.

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  3. Zeno

    Esse livro é excelente! Havia lido apenas “Bonsai” antes dele e tinha um pé atrás com Zambra – ao contrário do que aconteceu com a maioria, eu não tinha achado o livro essa Coca Cola toda. Mas “Meus documentos” me tomou com uma força como poucos livros fizeram. Gostaria de ter feito uma resenha dele no meu blog, mas esses contos me calaram de tão bons. Agora estou lendo os outros trabalhos do chileno e pretendo reler “Bonsai”. O seu texto diz muito do que penso. Parabéns pelo site, acompanho-a já há um bom tempo, mas nunca comentei nada. Acho que o “Livros abertos” é, hoje, uma das melhores e mais importantes páginas virtuais para o cenário literário brasileiro atual. Abraços!

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    1. Camila von Holdefer

      Muito obrigada pelo comentário, Zeno. 🙂 ‘
      Fico em dúvida se, depois de “Meus documentos”, prefiro “Bonsai” ou “A vida privada das árvores”. Gostei muito desse último.
      Abraços!

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  4. Graça

    Oi, Camila,
    estou amando “Meus Documentos”.
    Amei também o que Zeno escreveu sobre Livros Abertos.
    Mil vezes parabéns!
    Abraços

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  5. José Roque Guimarães

    Acabo de ler e este foi uma ótima apresentação ao mundo de Zambra. Ha muito não lia livro de contos pois sempre prefiro romance. Lembrei de como me deliciava com os contos do Cortazar eras passadas. Obrigado Camila.

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