Mau título, bom livro

Desapontamento é o que sinto quando descubro que o título original do livro é mesmo Why Be Happy When You Could Be Normal? — nada de culpar a editora brasileira (Record) por uma tradução malfeita, manobra que seria justificada, na minha suspeita inicial, pela necessidade de contornar um trocadilho sem equivalente em português. É uma péssima aposta, e na verdade pouco importa de qual lado ela tenha partido.

Um título que alude à ideia de felicidade, especialmente como objetivo a ser alcançado e em seguida como condição a ser mantida, lembra uma daquelas análises canhestras que recebem os mais diversos rótulos — autoajuda, desenvolvimento pessoal, espiritualidade & reflexão — e que nunca vão além da superfície. De modo que é fácil confundir o relato autobiográfico de Jeanette Winterson com um dos lançamentos genéricos que enchem as livrarias.

Por que ser feliz quando se pode ser normal?E eu teria perdido uma boa leitura se não investigasse mais a fundo. Por que ser feliz quando se pode ser normal? é o título sem graça de um livro de memórias brutal. Jeanette Winterson, escritora inglesa nascida em 1959, teve (tem) uma vida interessante. Tão interessante que a lógica comum se inverte: a maneira escolhida para narrar suas experiências — o estilo e a forma — não parece tão importante aqui.

Ainda bebê, Jeanette foi adotada por um casal peculiar. Mr. e Mrs. Winterson, mais velhos do que a maioria dos pais, adotivos ou não, pareciam incapazes de manifestar afeto ou consideração. Ambos levavam a religião a sério — eram membros de uma igreja pentecostal —, mas era a mãe quem proibia livros e assustava a criança com observações frequentes sobre a ira divina e o fim dos tempos. Quando a menina se comportava mal, diziam que o demônio os havia conduzido ao berço errado (uma alusão ao processo de adoção). Jeanette estava habituada a ser trancada do lado de fora da casa ou no depósito de carvão. Não se sentia protegida, e muito menos amada. Até sair de casa aos dezesseis anos, seu sofrimento foi intenso.

A explicação para o título está em um dos capítulos finais. Mrs. Winterson, uma mulher que conheceu poucas e efêmeras alegrias, ficou escandalizada quando soube que Jeanette saía com garotas. (Cidade provinciana no Norte da Inglaterra, ideias religiosas, severos problemas psicológicos: é bem fácil entender o raciocínio de Mrs. Winterson.) Quando ameaças e castigos deixaram de funcionar, a mulher confrontou a filha adotiva. Por quê? Por que as garotas — o pecado, o inferno etc? A adolescente Jeanette respondeu que se sentia feliz quando estava com Janey, sua namorada na época. E Mrs. Winterson retrucou: “Por que ser feliz quando se pode ser normal?” É uma frase engraçada e absurda, mas continua sendo um mau título.

Mrs. Winterson funcionaria excepcionalmente bem como personagem de um romance — e Jeanette deve ter pensado o mesmo, já que aproveitou a figura da mãe adotiva para construir a autoficção Oranges Are Not the Only Fruit (sem tradução no Brasil), que algum tempo depois serviu de base para o roteiro de uma série da BBC. Mrs. Winterson costurava algum dinheiro para o próprio funeral na bainha das cortinas (Jeanette certa vez o roubou). Guardava um revólver na gaveta de produtos de limpeza. Quando começava a apresentar um comportamento mais estranho do que o habitual, era quase certo que sumiria de casa por um curto período. Anotava exortações bíblicas e as grudava pela casa. Se recusava a dormir na mesma cama que o marido e passava as madrugadas assando bolos. Sua única alegria era colecionar porcelana de mau gosto.

Jeanette volta a essa infância horrível e também narra acontecimentos mais recentes. A literatura ocupa um lugar central no relato — como adorno do texto, na forma de comparações, alusões e metáforas, mas também como elemento do enredo, como tábua de salvação que ajudou Jeanette Winterson a escapar de um destino sombrio. Como os livros eram proibidos em sua casa, Jeanette comprava edições baratas de segunda mão e as escondia debaixo do colchão. Mrs. Winterson descobriu (má sorte: o primeiro a aparecer foi um de D. H. Lawrence) e os queimou. Restou a biblioteca pública e a “literatura inglesa de A a Z”, que a garota Jeanette lia seguindo a ordem.

Jeanette é feminista, posição visível sobretudo no valor que ela atribui à contribuição das escritoras para a literatura. Adora Gertrude Stein e A autobiografia de Alice B. Toklas e rejeita Lolita, de Nabokov, por considerá-lo machista. Trechos sobre livros produzidos por mulheres são recorrentes em suas memórias. (Como este, logo no início: “Tentava afastar-me da ideia de que as mulheres escrevem sempre sobre sua própria ‘experiência’ — o território que dominam —, enquanto os homens escrevem com ousadia sobre temas mais amplos — a grande tela, a experimentação com a forma. Henry James não foi feliz quando disse que Jane Austen escrevia sobre pequenas minúcias da vida. O mesmo foi dito sobre Emily Dickinson e Virginia Woolf. Tais comentários me deixavam com raiva. Afinal, por que não poderia haver experiência e experimentação? Por que não o observado e o imaginado? Por que uma mulher tinha de ficar limitada por alguma coisa ou por alguém? Por que uma mulher não podia ter ambições em matéria de literatura? Ambições próprias?”)

Jeanette pula uns bons anos, como um filme que deve ser acelerado numa determinada parte. Mas a verdade é que ela parece ainda menos segura sobre aquela fase intermediária do que sobre as fases anteriores (a infância) e seguintes (a busca pela mãe biológica, o relacionamento amoroso mais maduro).

Tentando persuadir C. a ler o livro, digo que Jeanette Winterson é amiga de Ali Smith (“A Ali Smith convenceu a Jeanette Winterson a beijar uma hétero. Durante um almoço. Digo, a Ali e a Jeanette almoçaram juntas.”) Parece um argumento válido quando é direcionado a alguém que leu todos os livros de Ali Smith e a tem em alta conta. Depois concluo que não faz sentido. A verdade é que eu tenho poucas justificativas racionais. Por um motivo ou outro, é difícil propor que alguém leia Por que ser feliz quando se pode ser normal? sem receber olhares de desconfiança. Ninguém com quem falo sobre o livro leva a dica muito a sério. Minha própria mãe, para quem eu ressaltei os aspectos trágicos da história, agradeceu a dica (nenhum entusiasmo) e disse que ficaria com o Karl Ove Knausgård, esse norueguês parece bom mesmo, em seguida veremos. Tradução: não vai ler.

A rejeição a Winterson é muito rápida. Rápida demais. A culpa é do título? (Sim, eu acho que sim.) Da capa? Dessa reunião de tragédias que às vezes deixa a coisa toda meio sufocante? Enfim. Jeanette tem boas sacadas. As frases são bem construídas, espertinhas (o que às vezes pode ser cansativo), bonitas. Por que ser feliz quando se pode ser normal? reúne pequenas epifanias, memórias soltas que estão ligadas por gancho muito sutil. E nem tudo o que ela escreve faz sentido, veja bem. Certas coisas parecem simplesmente absurdas — o que aumenta a simpatia e a força da voz que narra as memórias. Que figura interessante, você pensa. E que infância de merda ela teve. Acho que a chave é a empatia. E nesse caso parece bastar.

Em tempo: a capa com a foto da mulher nua rende uns olhares enviesados no transporte público.

Por que uma mulher não podia ter ambições em matéria de literatura?

5 Comentários Mau título, bom livro

  1. Tati

    Interessante, porque o título foi algo que me chamou a atenção, apesar de concordar que é meio apelativo. Mas ando estudando algumas coisas a respeito de melancolia e esse é um questionamento que sempre me faço, essa felicidade que é cobrada a algumas pessoas e a normalidade que a elas é possível alcançar (no caso, a normalidade seria um estado que não é bem visto na nossa sociedade).
    Vou procurar o livro!
    Tati

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  2. Aline T.K.M.

    Simplesmente incrível. Concordo em relação ao título, mas gostei muito da capa e esta com certeza atrairia minha atenção numa livraria. Não sou grande fã de relatos autobiográficos, mas essa coisa de infância sofrida, pais obcecados pela religião, torturas físicas e psicológicas, é um combo que quase sempre me interessa. Além de tudo isso, tive a impressão de uma narrativa bem construída, e essas “coisas sem sentido” que Jeannette diz me atraem – tenho um fraco por coisas com um quê de excentricidade.
    Enfim, depois dessa resenha, é um livro que eu leria sem nenhum tipo de hesitação.

    Beijos, Livro Lab

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  3. v.

    gostei muitos dos trechos destacados por você. o segundo me lembrou meu relacionamento com minha mãe. heh. a tua resenha está, como sempre, bem boa. entre a leitura desse livro e o segundo volume de minha luta, eu fico com o norueguês, com quem já criei empatia. não sei se por ela ser lésbica e defender a literatura “feminina” (escrita por mulheres), ou pelo relacionamento difícil em casa, me lembrei da alison bechdel (só li fun home, por sinal, preciso ler o “você é minha mãe?”) e o teste para saber se um filme é misógino ou não (algo assim, uma tirinha dela, não lembro bem, mas era bem interessante).

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  4. Kali

    Adorei a resenha.
    A capa me chamou atenção, o título ficou nadando fundo no questionamento, – O que tem ai dentro?
    Bom, você esclareceu as duas dúvidas.
    Gosto dessa abordagem, desse misto de confissões. Vou ler assim que possível.
    Abraço.

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