Luz antiga – John Banville

Luz antiga – John Banville

Um narrador que decide examinar o passado à luz da maturidade. Nem sempre é possível reconhecer o catalisador dessas sessões de autoanálise; a solidão, algum acontecimento imprevisto e a própria consciência da idade avançada são algumas das alternativas.

Tampouco é possível driblar as longas reflexões sobre a memória e, o que tende a se manifestar de diversas maneiras, a boa dose de nostalgia. É a essa fórmula que o irlandês John Banville se agarra em Luz antiga, último volume de uma trilogia. Graças a uma sutil combinação de fatores que o impelem a isso, nem todos visíveis para o leitor, o protagonista destranca e revolve minuciosamente o baú de lembranças. O que surge dessa busca são bonitas imagens.

No presente do livro, Alexander Cleave, Alex, tem sessenta e cinco anos. Ator de teatro — mas afastado dos palcos graças a um deslize — , durante toda a vida adulta recorre à memória, que ele classifica como “fotográfica”, para decorar as falas das peças de que participa. A despeito de exercitar continuamente seu poder de recordação, algumas coisas acabam se perdendo. “Imagens do passado distante se aglomeram na minha cabeça, e quase nunca sei dizer se são memórias ou invenções. Não que exista muita diferença entre as duas, se é que existe qualquer diferença. Há quem diga que, sem percebermos, vamos inventando tudo à medida que avançamos, com bordados e enfeites, e inclino a concordar, pois a Senhora Memória é muito dissimulada e sutil”, escreve ele. O trecho é determinante para a compreensão do livro, uma vez que Banville insiste na ideia da precariedade dos registros do passado. Os fatos expostos pelo narrador não são confiáveis, e ele mesmo se dá conta disso — reconhece, portanto, que há armadilhas internas. Entre invenções e recordações genuínas, censurando-se por eventuais erros, Alexander avança de maneira tateante.

No passado e no presente, Alexander Cleave está cercado por mulheres que lhe parecem insondáveis. Luz antiga é, em grande medida, sobre o fascínio de um homem diante do feminino — não no sentido clássico do termo, uma vez que são justamente as mulheres transgressoras (que absorvem algo do universo reservado aos homens) as que estão ou estiveram ao lado de Alex. Uma é sua filha Cass, que se suicida aos vinte e sete anos em circunstâncias não de todo esclarecidas. Outra é Lydia, sua mulher, de quem se mantém a uma certa distância. Há sua mãe, a quem ele se refere sistematicamente de maneira impiedosa. Há Dawn Devonport, uma atriz de cinema com quem o envelhecido Alexander forma um improvável par romântico no (até então) único filme de sua carreira.

A mais marcante, no entanto, é a sra Gray. É sobre ela a primeira frase do romance, o que atesta a sua importância: “Billy Gray era meu melhor amigo, e me apaixonei pela mãe dele”. Alexander tinha quinze anos; Celia Gray, trinta e cinco. (A icônica personagem de A Primeira Noite de um Homem (The Graduate), Mrs. Robinson, é uma conexão óbvia. Cedo ou tarde, a música interpretada pela dupla Simon & Garfunkel rebenta na mente leitor de Luz antiga.) Boa parte do romance é dedicada a resgatar essa relação clandestina — os encontros furtivos em que o jovem descobre, além do corpo feminino e das possibilidades do sexo, as dificuldades e sutilezas de uma relação amorosa. Impossível ignorar a interpretação freudiana do mito de Édipo; a mulher e o adolescente projetam um no outro suas carências e suas aflições, resultando em uma ligação, por maior que seja o esforço do narrador em colocar as coisas de outra forma, um tanto doentia e perturbadora. Banville reforça a provocação ao evocar constantemente as imagens sacras — uma cena em que Alexander está deitado no colo da sra Gray é comparada à Pietà.

Alexander se mostra, nas dificuldades da relação com a amante mais velha, um ator em formação. Suas cenas de ciúmes, sua atuação canhestra diante da família Gray e as mentiras que desfia diante da mãe antecipam a profissão que ele abraçará na vida adulta. A ocupação do protagonista, aliás, rende boas passagens sobre ficção e interpretação — o que é reforçado quando, no presente do livro, Alex, aposentado e ressentido, recebe um convite para atuar em um estranho filme sobre um crítico literário controverso. Luz antiga oscila, assim, entre esses dois pontos: o passado com Celia Gray, resgatado com inúmeros furos e distorções, e o presente, um tanto confuso, com novos desafios e personagens.

Banville se mostra tão detalhista como alguém que montasse o cenário de uma peça ou de um filme: a iluminação, as cores, os matizes e as texturas são alvo da obsessiva memória fotográfica do narrador.

Luz antiga avança (muito) bem até chegar às páginas finais, quando, tão repentina quanto incompreensivelmente, tropeça numa armadilha que forja para si. A queda é feia. Banville, no ponto em que deve esclarecer o destino da sra Gray, apela para uma saída sentimentaloide que acaba soando, mais do que um tanto patética, absolutamente inverossímil. É como se o autor, a despeito de haver relutado durante todo o processo de escrita, enfim cedesse, na reta final, a algum ideal romântico que o estivesse seduzindo desde o começo. A resvalada não chega a manchar por inteiro o romance, mas causa alguma estranheza — sobretudo pela conhecida arrogância de Banville, um autor que tem a si mesmo na mais alta conta.

Para além do desfecho sofrível, Luz antiga deixa pontas soltas. Mesmo assim, a leitura é mais do que válida. É possível dar uma mãozinha para a memória seletiva e guardar — com a ajuda de anotações e marcações — as muitas boas sacadas do romance, e abençoadamente esquecer o final.

2 Comentários Luz antiga – John Banville

  1. Fernando

    O livro Os Infinitos esta na minha lista de compras futuras pois achei a sinopse muito interessante, quando li a sinopse de luz antiga não tive a mesma impressão, não tive a mesma vontade e curiosidade em ler o livro porem com os detalhes e comentarios que você postou a historia tornou-se bem mais atrativa.
    Ó duvida cruel…Os Infinitos ou Luz Antiga?

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  2. Pingback: Eclipse – John Banville | Livros abertos

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