Longe da árvore – Andrew Solomon (Ou: Um livro que você precisa abrir)

Longe da árvore – Andrew Solomon (Ou: Um livro que você precisa abrir)

Longe da árvore, publicado pela Companhia das Letras em setembro de 2013, desponta como um livro indispensável. Em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, o psicanalista Contardo Calligaris classificou-o como “um dos ensaios mais importantes da última década”. Calligaris não é o primeiro a se mostrar genuinamente impressionado com a qualidade e a magnitude da investigação de Solomon.

Descrever o que Andrew Solomon entrega em Longe da árvore é ao mesmo tempo fácil e inviável. É fácil (ainda que terrivelmente simplificador) dizer que Solomon produziu uma investigação exaustiva sobre a forma pela qual certas características dos filhos afetam e determinam as relações com seus pais. O que parece inviável é a ação de apreender e relatar uma experiência mais profunda de leitura — que, apesar de variar de um leitor para o outro, 1. certamente será transformadora e 2. espelha a riqueza das nuances contidas no livro.

Minha experiência de leitura envolve adjetivos como “encantadora”, “fundamental” e “reveladora”. Isso se deve a uma equação equilibrada a que o autor parece ter chegado — mistura de rigor incansável e sensibilidade aguda.

Solomon esquadrinha os filhos que, ao contrário do ditado, caíram longe da árvore. O exercício de imaginação (indiretamente) proposto no prefácio faz sentido tanto para os que já experimentaram a paternidade como para aqueles que têm uma vaga ideia sobre como a coisa funciona.

Você descobre que vai ter um filho, e imediatamente começa a desenvolver expectativas e fantasias em relação à criança que ainda não nasceu. Você espera que ela tenha a melhor vida possível e é capaz de apontar os atributos que fariam parte (e os que definitivamente estariam excluídos) de uma existência ideal. Além disso, você obviamente deseja enxergar suas melhores características encarnadas em outro ser humano — nossos genes, como escreveu Solomon, são de fato “egoístas”. Então imagine que algo não sai conforme o esperado e planejado. Há uma característica peculiar, que possivelmente é estranha a você, que define seu filho. E, na medida em que o define, ela pode ao mesmo tempo comprometê-lo seriamente.

O subtítulo — Pais, filhos e a busca da identidade — dá uma boa pista sobre o conteúdo. A palavra-chave do estudo de Solomon é “identidade” — que pode ser vertical ou horizontal. De acordo com a explicação do autor, uma identidade vertical compreende tudo aquilo que o filho compartilha com os pais, da aparência física à nacionalidade. A identidade horizontal, significativamente mais complexa, ocorre quando o filho apresenta “uma característica inata ou adquirida que é estranha a seus pais”. Essa característica pode se manifestar em consequência de “genes recessivos, mutações aleatórias, influências pré-natais” ou, de maneira distinta, mas ainda assim poderosa, pode refletir “valores e preferências que uma criança não compartilha com seus progenitores”.

As características horizontais que entrariam no livro foram previamente definidas pelo autor. Solomon esclarece no prefácio: “Os seis primeiros capítulos tratam de categorias classificadas há muito tempo como doenças” — surdez, nanismo, síndrome de Down, autismo, esquizofrenia e deficiências múltiplas —, “enquanto os quatro que os seguem descrevem as categorias que parecem ser mais socialmente construídas” — prodígios, filhos concebidos por estupro, criminosos e transgêneros.

Ao reunir uma série de relatos — todos baseados em entrevistas ou leituras de Solomon — em que se destacam as maneiras pelas quais as famílias percebem e assimilam as diferenças, Longe da árvore garante seu maior trunfo: provocar empatia imediata e extrema. Questionamentos e autoanálise poderosos são consequência direta dessa possibilidade de reconhecer o outro que Solomon tão generosamente oferece. Pouco importa que as diversas experiências, com suas respectivas cargas de dor e sofrimento, estejam distantes daquelas a que o leitor está habituado. As histórias de tantos desconhecidos, como destaca o autor, “apontam para todos nós um caminho para expandir nossas definições de família humana”.

“Como um pai ou mãe pode saber se deve apagar ou celebrar uma determinada característica?”, pergunta Solomon. E sublinha que “identidades verticais em geral são respeitadas como identidades; as horizontais são muitas vezes tratadas como defeitos”. Isso significa que alguns pais tentam, geralmente com boas intenções, eliminar ou modificar alguma característica do filho. “Muitas vezes usamos o termo ‘doença’ para depreciar um modo de ser, e ‘identidade’ para validar essa mesma maneira de ser. Trata-se de uma falsa dicotomia”, escreve o autor. Nada impede que ambas convivam em harmonia: necessitamos “de um vocabulário em que os dois conceitos não sejam opostos, mas aspectos compatíveis de uma condição”. Como esclarece Solomon em um dos capítulos, a maior parte dos casos encontrados no livro “admite um modelo positivo de identidade e um modelo negativo de transtorno”.

Ao descobrir que seus filhos comportam uma identidade horizontal, muitas famílias buscam comunidades de apoio — para a criança e para os pais. O amparo e a troca de informações são essenciais para que aqueles que ainda não estão seguros sobre o rumo a tomar se sintam acolhidos e orientados. Os mais experientes normalmente ficam felizes em ser úteis. Assim, não raro a dedicação — e a percepção das dificuldades, como uma mãe de autista que se dá conta do número limitado de vagas em escolas públicas — desemboca na militância. Boa parte dos casos apresentados por Solomon mostra pais orgulhosos e engajados, que afirmam que o fato de ter tido um filho fora do comum os ajudou a desenvolver a sensibilidade, a coragem e a empatia. Isso não quer dizer que a jornada seja simples. A maioria dos pais, segundo o autor, precisa de um “espaço para sua ambivalência”: essa parcela ratifica que o filho é uma fonte de alegria e satisfação, mas admite a complexidade de sentimentos e o estresse envolvido na equação.

É fácil acreditar que Andrew Solomon, que já havia publicado O demônio do meio-dia — uma análise da depressão —, é um autor que reúne as qualidade essenciais para interpelar um tema tão delicado. Sua moderação e diligência acenam em cada bloco de texto. A pesquisa de Solomon, ele próprio gay e disléxico duas identidades horizontais , é tão extensa e pormenorizada que termina por revelar uma personalidade deliciosamente obsessiva e perfeccionista. Bom frisar que Longe da árvore é um tijolo de mais de mil páginas, vertido para o português por três tradutores (Donaldson M. Garschagen, Luiz A. de Araújo e Pedro Maia Soares). Durante dez anos, Andrew Solomon entrevistou mais de trezentas famílias para o livro. Foram produzidas cerca de quarenta mil páginas de transcrições e entrevistas. As notas ao final do volume parecem intermináveis  e apontam para vários tipos de fontes, de artigos acadêmicos a poemas de Emily Dickinson. Solomon é versátil, e sua sensibilidade refinada e rigor extremo desembocam tanto na arte quanto na ciência.

A fórmula é a mesma em todos os capítulos. Andrew Solomon narra a trajetória de uma família pais e seus filhos que fogem do comum  e suas impressões sobre ela. São várias famílias por capítulo. Trechos das entrevistas são destacados, de modo que os protagonistas das histórias possam ter voz. Intercaladas com os relatos, o autor insere informações que podem contribuir para o entendimento do assunto em pauta: contexto histórico, últimos consensos científicos, conclusões de livros específicos etc. Além disso, a forma como as comunidades e o Estado acolhem as diferenças é um ponto importante da pesquisa. Bons exemplos: o despreparo generalizado para tratar esquizofrênicos e a escassez de programas que evitem que jovens se tornem delinquentes (“Nossa sociedade se insurge contra as atrocidades perpetradas por menores, mas invariavelmente prefere a satisfação da retribuição à eficácia da prevenção”, diz, certeiro).

Algumas declarações, como a de um pai de uma menina com deficiências múltiplas, causam uma comoção imediata: “Você vai ao Central Park com uma criança com necessidades especiais, e outro pai finge que não vê. Não lhe passa pela cabeça aproximar-se e propor que os filhos dele brinquem com os seus”, diz ele. Em um dos trechos mais teóricos do livro, Solomon menciona o imaginacionismo, “a ideia de que mães com desejos pervertidos produziam filhos deformados e perturbados” conceito tão absurdo que é difícil de ser assimilado. Esse insight para selecionar os pontos cruciais de diálogos e abstrações é outro ponto forte do autor  o que mantém o ritmo de leitura inalterado.

Em relação às seis primeiras partes, as que tratam de condições que são consideradas doenças, é possível evocar um trecho escrito por Alan O. Ross — numa citação do próprio Solomon em um dos capítulos de Longe da árvore: as expectativas dos pais “pressupõem invariavelmente que o filho conseguirá superar ou pelo menos atingir o nível de realização sociocultural deles”. No momento em que veem que “o filho não corresponde a essa imagem, os pais em geral precisam de ajuda para adaptar seu comportamento à realidade — necessitam aprender a lidar com a dissonância entre a imagem que têm de ‘um filho’ e a realidade do ‘seu filho'”. E aí vem o ponto mais importante: a aceitação. “É difícil saber até que ponto as experiências positivas geram percepções positivas e até que ponto ocorre o inverso”, escreve Solomon.

A experiência pessoal do autor não ficou de fora do livro — outro ponto que demonstra que Longe da árvore está longe de ser uma pesquisa convencional. Em “Filho”, uma espécie de prefácio, Solomon faz uma análise corajosa e honesta de sua decepção com os pais, que rejeitaram sua homossexualidade. No final, “Pai”, narra a trajetória da família diferente que construiu com o marido, John.

Boa parte dos relatos, de familiares de surdos a familiares de autistas, têm um ponto em comum: o desespero e a ansiedade dos pais para encontrar uma linguagem adequada a fim de compreender e serem compreendidos por seus filhos. O leitor é um espectador angustiado (e possivelmente solidário) das dificuldades envolvidas nessas tentativas de estabelecer uma ponte que alcance uma criança ou um jovem incomum. No caso dos que têm as ferramentas necessárias para exprimir seus pensamentos e emoções e compreender os dos outros, há a barreira quase intransponível da experiência: o exercício que um pai precisa fazer para imaginar a vida de seu filho transgênero é complexo; uma mãe que deseja se colocar no lugar do filho portador de nanismo também enfrenta alguma dificuldade.

A esquizofrenia é uma das experiências mais dolorosas. Ao contrário da síndrome de Down, que pode ser detectada antes ou ser percebida minutos após o nascimento, e do autismo, que se manifesta nos primeiros anos de vida da criança, a esquizofrenia surge no fim da adolescência ou no começo da vida adulta. É mais difícil para os pais “aceitar que o filho que eles conheceram e amaram durante mais de uma década pode estar irremediavelmente perdido, ainda que pareça ser o mesmo de sempre”.

A inclusão de prodígios não causa surpresa, uma vez que, segundo Solomon, “os pais de filhos excepcionalmente talentosos são guardiões de crianças fora do alcance de sua compreensão”. O autor concentrou sua atenção nos prodígios da música, tópico com o qual tem mais familiaridade. O sofrimento de pais de gênios e dos próprios gênios é, ao contrário do que se pode supor, tão grande quanto o dos demais. “Se as expectativas da sociedade pela maioria das crianças com diferenças profundas são demasiado baixas, as expectativas depositadas nos prodígios tendem a ser perigosamente altas”, escreve Solomon. Ressaltando o apoio medíocre que os prodígios recebem, o autor reproduz uma observação mordaz do maestro Leon Botstein  uma crítica ao sistema escolar norte-americano: “Se pusessem Beethoven numa creche de hoje, iriam medicá-lo e ele seria um funcionário do correio”. “Os pais de muitas crianças excepcionais precisam ser educados para enxergar a identidade dentro de uma doença percebida; os pais de prodígios confrontam-se com uma identidade e precisam ser educados para reconhecer a possibilidade de doença dentro dela”, diz Solomon. Isolamento, altos níveis de suicídio, a dificuldade implícita na difícil tarefa de escolher entre praticar à exaustão ou desperdiçar um talento são problemas graves e centrais para os gênios e suas famílias.

Os nascidos por estupro fazem o caminho inverso da maioria das outras características abordadas no livro. “As identidades horizontais normalmente se original nos filhos e, a seguir, extravasam para os pais. Aqueles concebidos em estupro, no entanto, adquirem sua identidade horizontal por intermédio do trauma materno”. Solomon ainda trata dos estupros ocorridos durante o genocídio de Ruanda, mazela que gerou os chamados de enfants de mauvais souvenir, ou “crianças das más lembranças”.

As histórias dos transgêneros assustam pela intolerância. Nem todo mundo é capaz de compreender que algumas mulheres têm pênis e alguns homens têm vagina — nasceram em um corpo que não condiz com a maneira como enxergam a si mesmos. Solomon entrevistou famílias cujas filhas que nasceram no corpo de um homem demonstram, desde cedo, sua predileção por vestidos. O contrário também é válido: há a história do menino que nasceu em um corpo feminino e não compreendia por que não podia tirar a camisa quando jogava futebol com os irmãos. A questão não é fácil, uma vez que esbarra em estereótipos de gênero — os gêneros binários, masculino e feminino, com tudo o que isso implica socialmente — que alguns têm tentado derrubar.

Longe da árvore propõe problemas morais extremamente complexos, e encontrar uma resposta para cada um deles parece impossível — talvez A paisagem moral, de Sam Harris, traga algumas respostas importantes quando lido em seguida. Um dos problemas mais incômodos do livro de Andrew Solomon envolve Ashley, uma menina com deficiências graves que foi submetida a uma terapia com hormônios que interrompem o crescimento. Para que não menstruasse e não desenvolvesse seios, Ashley sofreu uma histerectomia e a mastectomia bilateral. A justificativa dos pais parecia plausível: seria mais fácil carregar e dedicar a Ashley os cuidados necessários se ela permanecesse pequena e frágil. Já a ausência de cólicas menstruais a livraria do desconforto físico — e ela era sensível a ponto de um chorar por longos minutos após um espirro. Alguns defendem a ideia de que os pais infantilizaram para sempre a garota. Um grupo chamado Reação Feminista em Ativismo de Deficiência alegou que “não surpreendia que a primeira a receber o ‘Tratamento Ashley’ [a interrupção da puberdade] tivesse sido uma menina, já que as meninas, sobretudo as meninas com deficiência, são consideradas objetos mais fáceis de mutilar e assexualizar”. Alguns se colocaram ao lado dos pais. O mais desconfortável é que todos parecem ter sua parcela de razão.

Seja como for, Longe da árvore é provocativo sem se propor a isso — e Solomon provoca com graça e coragem. “As questões morais enredadas em casos como o de Ashley tornaram-se continuamente mais complexas nos últimos cinquenta anos”, diz ele. E tem razão. O alcance dos exames para encontrar algumas deficiências ainda na gestação e, no caso da detecção de alguma anomalia, a possibilidade de que os pais decidam por um aborto são vistos com desconfiança por alguns grupos. Militantes pró-escolha e militantes em favor das identidades horizontais batem de frente. O próprio Solomon usa a expressão “um cálculo moral sutil” — e todo o seu cuidadoso estudo parece, em certa medida, a exposição desse cálculo espinhoso que poucos desejam enxergar e resolver. De modo geral, no entanto, o que funciona para uma família nem sempre irá funcionar para outra — seja na mesma identidade horizontal, seja em uma identidade horizontal diferente.

Se “identidade” é o primeiro conceito apresentado por Solomon em Longe da árvore, “diversidade” é a palavra que ecoa com força ao final da leitura. Felizmente.

5 Comentários Longe da árvore – Andrew Solomon (Ou: Um livro que você precisa abrir)

  1. Leandro

    Possuo esse livro e não sei por que fico fazendo cera para entrar na leitura dele. Textos assim reacendem minha vontade. Já disse uma vez pelo Twitter e reitero, o Livros Abertos é um (se não o melhor) site/blog de livros. Sua escrita é agradável, sem piegas.

    Continue assim. De longe, sempre observo e acompanho.
    Parabéns pelo trabalho.

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