Literatura como fim, literatura como meio (ou: a ética aristotélica na obra-prima de John Williams)

Literatura como fim, literatura como meio (ou: a ética aristotélica na obra-prima de John Williams)

Stoner narra a trajetória de um homem comum — é fácil lembrar da novela homônima de Philip Roth, embora não se possa traçar mais do que dois ou três paralelos entre os protagonistas — da juventude à velhice. Como o título sugere, o foco do romance reside nas noções, nos julgamentos e nas ações que determinam a constituição e o desenvolvimento de William Stoner.

stnrA despeito de suas escolhas, à primeira vista arbitrárias e duvidosas (a maior parte delas fruto de uma ética particular, ou particularista), que no fim das contas resultam em uma vida mais ou menos banal e regular, e mesmo insípida, no íntimo o personagem é (pelo mesmo motivo) atormentando por um peculiar senso de justiça e virtude. No que há de mais elementar, Stoner está mais próximo de Coleman Silk, o protagonista de A marca humana inspirado nas tragédias gregas, do que do sujeito sem nome de Homem comum.

Escrito na década de 1960 pelo norte-americano John Williams, Stoner, da maneira como alguns romances semiesquecidos são redescobertos, voltou a ser lido e discutido. Com suas pouco mais de 300 páginas, é um livro aparentemente inesgotável. De tudo o que se pode pinçar da narrativa a fim de analisar seu funcionamento, a capacidade de operar simultaneamente como um elogio e uma condenação da própria literatura me parece a chave ideal. Haverá um meio-termo?

 

William Stoner

Nas primeiras páginas do romance, o garoto simples deixa o campo a fim de cursar agronomia na Universidade do Missouri. O novo ambiente e as novas experiências o fascinam e o intimidam na mesma medida. Literatura, com suas complexidades e interpretações, está entre as disciplinas obrigatórias para os alunos do primeiro ano. Quando, contrariando as expectativas, Stoner se encanta pelo acervo da biblioteca, passa a não ver sentido nas lições de química dos solos que é forçado a decorar.

No início, como se espera de alguém com pouco ou nenhum contato com os livros, William Stoner enfrenta alguma dificuldade. Para ele, “as palavras que lia não passavam de meros caracteres impressos nas páginas”. Durante uma aula do severo professor de literatura, Stoner ouve pela primeira vez o Soneto 73 de Shakespeare. A mudança de registro é fundamental.

O significado das palavras penetra no inconsciente de Stoner antes que ele possa assimilar por completo o que os versos tentam expressar. O poema lido em sala de aula trata da mortalidade — numa das imagens sugeridas, as folhas que pendem dos galhos de uma árvore simbolizam a vida que está prestes a se encerrar. Stoner, antes de compreender a metáfora, “percebeu que seus dedos estavam se relaxando e soltando as bordas da carteira”. Achou “que conseguia sentir o sangue fluindo invisivelmente através das minúsculas veias” das mãos. Quando o professor pergunta a Stoner o que o poema significa, ele não é capaz de responder. Está emocionado.

Com a literatura, Stoner toma “consciência de si mesmo de um jeito que nunca lhe ocorrera antes”. Suas mãos vibram “com o contato, ainda insólito, com a lombada, a capa e as páginas”. De objetos estranhos, os livros se transformam em dispositivos sagrados. Ele, que deveria deixar a faculdade como agrônomo formado para auxiliar — agora com conhecimentos específicos — os pais no campo, emenda um mestrado e um doutorado a fim de tornar-se professor de literatura. A mãe e o pai de Stoner não compreendem a reviravolta, mas não se opõem a ela — em parte por se sentirem intimidados pelo diploma universitário, em parte, o que é quase a mesma coisa, por não entenderem a importância que os livros passam a ter para Stoner. O afastamento dos pais humildes e do filho letrado é um dos aspectos mais dolorosos de Stoner, para onde convergem boa parte dos dilemas propostos pelo autor. No caso do protagonista, a aguda consciência de si rompeu a ponte de contato com o outro.

A especialidade do protagonista é a literatura medieval, sobretudo a influência clássica em autores da envergadura de Chaucer. William Stoner logo é contratado como professor — no atribulado pós-guerra, quando muitos homens jovens haviam morrido no front, era necessário preencher as lacunas do quadro docente. Stoner, aliás, seguindo os princípios que começava a definir, decidiu não se alistar. Assim, desde que foi aceito como aluno de agronomia até a aposentadoria como professor do departamento de inglês, William Stoner não abandona a Universidade do Missouri. É lá que nota, ao longo dos anos, que a literatura opera “uma contínua transformação em seu íntimo”.

 

Ethica Nicomachea

No início do livro, seu amigo e colega David Masters ironiza a ingenuidade de Stoner. E Stoner de fato é ingênuo, uma vez que procura, sem cinismo e ironia, por aquilo que toma por virtude. Para Masters, William Stoner estaria em busca de algo inalcançável. “O Verdadeiro, o Bom, o Belo. Eles estão logo ali virando a esquina, no próximo corredor; estão no próximo livro, aquele que você não leu, ou na estante seguinte, aquela em que você ainda não chegou. Mas você vai chegar lá algum dia”, provoca o colega. “Você acha que há algo aqui [na universidade], algo a descobrir. Bom, no mundo real você logo descobriria a verdade”, diz Masters, marcando a questão central do livro.

William Stoner acredita na universidade. Acredita no conhecimento. Acredita na literatura. Acredita no Verdadeiro, no Bom e no Belo. Quando descobre que um doutorando — não apenas orientado, mas protegido por um colega de caráter duvidoso — é um embusteiro, Stoner, mesmo sofrendo ameaças, expõe a ignorância do rapaz. Faz isso motivado não por alguma antipatia pelo professor ou pelo aluno, mas para defender a instituição à qual (não há outra palavra) é devotado. Para Stoner, um estudante desqualificado e preguiçoso não teria nada a fazer ali. Ciente das consequências, ele escolheu, em uma situação delicada, o que parecia justo. Sofreu, sem reclamar, todas as represálias.

No princípio, quando não é possível prever as consequências dos eventos inquietantes que começam a se delinear, é difícil relacionar a conduta de William Stoner a princípios éticos mais ou menos definidos. Até a metade do livro — fase em que, a despeito de todas as pistas, ainda não se pode determinar com certeza o que move o protagonista —, o que se vê é um sujeito inclinado à autossabotagem, uma vez que renuncia, em mais de uma ocasião decisiva, a agir em benefício próprio. Se tem a chance de manobrar uma situação a seu favor, Stoner recua — o que de início parece gratuito, pura estupidez ou falta de ambição.

Há, contudo, uma espécie de ideal que governa as atitudes do personagem — um ideal considerado antiquado, é verdade, mas um ideal legítimo. E é ao manter-se firme em suas convicções, que ficam claras na medida em que a trama avança, que Stoner se vê forçado a suportar uma série de provocações e humilhações. A reação do protagonista aos reveses, tão firme e imperturbável quanto possível, levou diversos críticos a associá-lo ao estoicismo (doutrina a que John Williams faz referência no livro). Penso, ao contrário, que é do estoicismo que William Stoner escapa ao rejeitar a vida no campo.

Em consonância com sua formação de medievalista, William Stoner está disposto a defender o que a universidade representa. Imagino que seja mais adequado, ainda que não mais simples, relacionar a conduta de Stoner aos pontos centrais da Ethica Nicomachea — inclusive ou sobretudo graças ao anacronismo, no sentido de que hoje pouco se fala em um ideal de virtude. Claro, é sempre arriscado encaixar um personagem, especialmente o que sofre uma transformação ao longo da narrativa, em um sistema mais ou menos rígido de qualquer tipo. (Aqui, paradoxalmente, a ideia de formação pode ajudar a corroborar o argumento.) Não há, ao longo do livro, uma referência à obra de Aristóteles. Que William Stoner pense e aja em conformidade com o que prega a Ethica é possivelmente uma casualidade, ou resultado de uma influência indireta, já que não parece ter sido a intenção do autor condicionar o romance a uma interpretação tão definitiva. Entretanto, mesmo quando se considera sua gratuidade, os paralelos são convincentes. E o exercício de relacionar uma coisa à outra permite enxergar William Stoner sob uma luz distinta, talvez mais favorável, justamente por ser ele um personagem de ficção a cujos pensamentos se tem acesso.

William Stoner, afinal, é frequentemente apontado, dentro e fora do livro, como um homem medíocre. Se a mediocridade for tomada como o reconhecimento da ponderação, da escolha do meio-termo, da deliberação — ou seja, da perfeita mediedade aristotélica —, a conduta de Stoner ganha outros contornos. Não se pode esquecer que é a Ethica Nicomachea é uma ética particularista, onde a situação e o agente determinam os rumos. O que parece uma postura suicida é, na verdade, uma tentativa, acertada ou equivocada, de seguir determinadas convicções. Afinal, os meios podem mudar. Os fins, não.

Sendo a racionalidade, para Aristóteles, teleológica (orientada para um fim específico), e sendo seu fim último aquilo que se pode chamar de felicidade (a eudaimonia), e tendo, embora alguns críticos discordem, a contemplação como finalidade absoluta e sinônimo da felicidade plena (há uma hierarquia, certamente), então a atuação de William Stoner, a despeito de seus erros, estaria muito próxima do ideal proposto. A finalidade de Stoner, afinal, também é a contemplação — mas a contemplação através dos livros.

Na esteira disso, voltando ao ponto em que Stoner parece simultaneamente enaltecer e rechaçar a literatura, seria ela o fim (participaria da finalidade última), o meio (de alcançar a contemplação), nenhum deles ou ambos? Sendo ambos, o resultado não seria uma duplicação de entidades? Ainda que se possa chegar a uma resposta a partir da própria Ethica, esta é pergunta crucial do romance de John Williams. Um pequeno texto, é claro, não dá conta de respondê-la. Num extremo, a literatura parece conter tudo e, a exemplo do mundo real, dificilmente pode ser estudada em sua extensão e complexidade. No outro, a literatura apenas mascara a verdade — o contato com o mundo real, justamente o que William Stoner abandonou ao seguir para a universidade. Em qualquer um dos casos, mesmo quando se considera os ideais elevados do protagonista e os princípios da própria Ethica, a literatura não funciona (nem poderia) como uma redenção. Seja como for, aqui Stoner não encontrou um meio-termo. Sua obsessão sempre foi canalizada para os livros, e somente para eles.

 

Queda

Stoner também se aproxima de outra obra aristotélica, a Poética. “De fato, uma ver acordado que a composição da mais bela tragédia não deve ser ‘simples’, mas ‘complexa’, e que tal tragédia deve ser a mimese de fatos temerosos e dignos de compaixão […], fica a princípio evidente que não se devem apresentar homens excelentes que passam da prosperidade à adversidade […] nem homens maus que passam da desventura à prosperidade”, escreve Aristóteles. Para o filósofo, até a tragédia pode apresentar uma “situação intermediária”, ou seja, “aquela do homem que, sem se distinguir muito pela virtude e pela justiça, chega à adversidade não por causa de sua maldade e de seu vício, mas por ter cometido algum erro”. O único porém é que Stoner se distingue, ou tenta se distinguir, pela virtude. Os erros, não obstante sua boa intenção, ele os comete em grande quantidade.

Entre a intemperança e a insensibilidade, Stoner parece mais próximo da segunda. A Ethica Nicomachea sem dúvida prevê a falha. Todo conhecimento moral é um conhecimento a posteriori, como Stoner bem descobre. Afinal, é preciso considerar uma vida inteira para determinar os tropeços — no caso de Stoner, especialmente os tropeços da vida privada, que soma um casamento sem amor, quando ainda era um jovem ingênuo, e uma filha que vai se distanciando do pai na medida em que cresce.

Já na meia-idade, Stoner se apaixona por uma aluna. Sua culpa atinge níveis intoleráveis. No entanto, apesar da ética aristotélica condenar fortemente o adultério, o caso com a jovem é uma das únicas experiências genuínas em uma vida devotada à universidade. Numa cena significativa, a moça elogia o conhecimento de Stoner, que responde que “de muitas maneiras” é “um homem ignorante”. Até quase a velhice, Stoner não conhecia o amor senão pelos livros.

Numa prosa seca e desapaixonada como a de John Williams, na descrição brutal de uma vida tão desprovida de afeto e com tantos reveses, é fácil perder de vista algum elemento genuíno e quase ingênuo (comovente, na verdade) que, por mais que não seja capaz de libertar o trágico protagonista, ajuda a explicar os eventos narrados. Penso que a devoção absoluta à literatura, se não o salva e se não promete ou garante qualquer benefício, é bela em si mesma.

Há uma diferença enorme entre a maneira como o mundo enxerga Stoner e a maneira como Stoner vê a si mesmo. Ele, um homem que devotou a vida à contemplação e à busca alucinada por alguma espécie de correção, é visto pela maioria das pessoas como um covarde. Stoner acredita, talvez com razão, que o tomam por “um palhaço fátuo e espalhafatoso”. Em dado momento, diz que aos olhos dos demais não é nada além de “um sujeito patético […] incompreendido por sua mulher, que, na esperança de renovar a sua antiga energia, [namorou] uma garota muitos anos mais nova do que ele, buscando de um modo desajeitado e ridículo uma juventude que não podia voltar”. De fato, Stoner morre sem glória. No entanto, por dois motivos irrefutáveis, o personagem parte orgulhoso. Em primeiro lugar, porque pôde estudar e lecionar o que amava. Em segundo porque, quando veio a tempestade, Stoner não traiu a si mesmo e àquilo em que acreditava acima de tudo. Continuou tão consciente da virtude quanto possível, por mais que hoje a palavra não provoque senão alguns risos.

 

16 Comentários Literatura como fim, literatura como meio (ou: a ética aristotélica na obra-prima de John Williams)

    1. Camila von Holdefer

      Só li a primeira, Vinícius, e é realmente horrenda. Não vi a segunda, mas é um erro imperdoável não terem submetido o texto a uma revisão criteriosa, se for mesmo o caso. Deviam deixar o livro impecável para reparar o fiasco. Por via das dúvidas, quem lê bem em inglês deve ficar com o original. Ouvi dizer que há uma edição em português de Portugal também.

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      1. Victor Toscano

        Acabei de comprar a segunda edição, mas estou lendo no original em versão digital. Acabo de encontrar um erro inadmissível. Acredito que ao final do oitavo capítulo fica faltando praticamente duas páginas. Não sei se acontece mais vezes no livro; ficarei com o original agora. O livro vai ficar na biblioteca, já que é tão caprichado visualmente.

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  1. Claudio Faria

    Uma resenha magnífica, como de praxe. Parabéns.

    Stoner é um livro soberbo, magnífico, merece ser chamado de clássico. Não me recordo de outro livro no qual a história banal de um sujeito comum (ou, após ler sua resenha, não tão comum assim) seja tão impactante e comovente. Stoner nos acompanha por muito tempo após o término da leitura.

    Além do que você magnificamente expôs, dois outros detalhes me chamaram a atenção. Assim como na vida, não há respostas para todas as questões, podemos apenas inferir sobre elas. Por que a esposa de Stoner era tão amarga? Por que tanto ressentimento em relação a ele? Há quase a certeza de que sabemos os motivos. Mas se formos sinceros reconheceremos ser impossível afirmar, sem qualquer dúvida, que os motivos sejam aqueles que supomos. E por que o colega mau-caráter protege tanto o estudante medíocre? Alguma questão homossexual? Interesses escusos? Mais uma vez não podemos afirmar convictamente o que quer que seja. Fazê-lo seria temerário.

    Mas, ao contrário do que ocorreria em outra obra menos qualificada, as questões em aberto não nos frustram. Ao contrário, fazem muito sentido nesse livro, que é uma incrível tela com o que seja a vida, na maioria das vezes: medíocre, com algumas alegrias fugazes, muitas decepções, frustrações,…

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    1. Camila von Holdefer

      Exatamente, Claudio. Também acho que perguntas sem respostas são o maior mérito dos grandes livros.
      Quanto à mulher do Stoner, me parece que ela sempre foi amarga, mesmo antes do casamento. É como se o Stoner fosse aquele que restou, ou seja, alguém que ela não queria mas com quem se conformou, e que ela evidentemente não achava que estava à altura dela. Numa época em que as mulheres deviam se casar até determinada idade, me parece que a Edith acabou ficando com o Stoner por absoluta falta de opção, ou mesmo porque a condição social (a imposição dos pais, talvez) exigia uma vida de esposa e dona de casa quando o que ela queria era ser uma artista.

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  2. Monique

    Oi, Camila.

    Resenha incrível, sobre a qual não restam palavras.

    Uma dúvida: vais resenhar o terceiro livro da trilogia do Juan Pablo Villalobos, Te Vendo Um Cachorro?

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  3. Rômulo

    Muito bom Camila, não li o livro nem conheço o autor, mas pelo que li da sua resenha algo parece que o impulsionou para a literatura da mesma forma que a sangue corre pelas veias do personagem, a literatura é questão de sobrevivência é o sangue que dá continuidade à vida.

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  4. Lucas Bender

    Não conheço a obra, mas fiquei com vontade (lembrei-me de François, o protagonista do último Houellebecq, por vários motivos). A partir daquele extremo em que “a literatura apenas mascara a verdade”, sou levado a pensar em outras filosofias – naquelas em que todo fenômeno apenas mascara a verdade, pois que a verdade (a coisa-em-si kantiana; a Vontade schopenhaueriana; etc) não é acessível ao conhecimento humano. Nesta concepção, a arte ao menos revela o mecanismo da mascarada – ou, para a corrente platônica, revela mesmo o mundo das ideias, ou seja, o mais próximo que podemos chegar da verdade. Como diz nosso velho e querido Schopenhauer, a arte é “a Câmara obscura, a mostrar os objetos com mais pureza”, “o teatro no teatro, o palco sobre o palco no Hamlet”. Seja como for, faço votos de que tuas ótimas resenhas dialoguem cada vez mais diretamente com a filosofia. [Um apontamento, apenas para deixar uma resenha tão bela nos trinques: erro de digitação na citação da Poética em “De fato, uma ver acordado…”

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