Limonov – Emmanuel Carrère

Limonov – Emmanuel Carrère

Nova York, final da década de setenta. Um expatriado russo, ao ler os escritos de um certo Limonov, reconhece neles alguns ecos da música de “Lou Reed: a walk on the wild side”. Admite que T.S. Eliot ou Wystan Auden poderiam evocar Prokofiev ou Britten, mas Limonov representaria o momento atual. Verdade seja dita, “uma performance de Lou Reed na Factory é algo mais contemporâneo que uma récita de Romeu e Julieta no Metropolitan Opera”.

limonovSaído da cena underground soviética, em certo sentido mais medíocre do que a norte-americana, Limonov acaba de desembarcar em Nova York. Seu nome é Eduard Savenko: virou Limonov em uma “homenagem a seu humor ácido e belicoso, pois limon significa limão, e limonka, granada”. Filho de uma dona de casa e de um oficial tchekista, nascido na antiga URSS em fevereiro de 1943, Savenko é uma figura notável. Agora que a idade lhe permite olhar para trás e enxergar uma extensa e rica trajetória, uma trajetória sobre a qual os outros demonstram interesse, pode colaborar — não com muito entusiasmo, como fica claro — com Emmanuel Carrère na escrita do que deveria ser uma reportagem sobre sua atuação controversa em diversas frentes, mas que, dada a extensão e o caráter do trabalho, terminou por se transformar em um livro.

Publicado na França em 2011, Limonov não tem o rigor de uma biografia. Isso não significa, no entanto, que a pesquisa do autor seja insuficiente. Carrère, um dos escritores contemporâneos mais aclamados, não se propõe a construir um dossiê minucioso de Eduard Limonov. Seu relato, embora não seja ficcional, emprega recursos do romance. E isso faz toda a diferença na hora de avaliá-lo. (Hélène Carrére D’Encausse, famosa historiadora e mãe de Emmanuel Carrère, estudou em profundidade a União Soviética — tendo sido uma das únicas a prever sua dissolução, e justamente em um momento em que isso não parecia provável. Todos os assuntos que têm a ver, direta ou indiretamente, com a trajetória de Limonov são discutidos na família Carrère há tempos.)

Carrère não procura dissimular sua presença no texto. Pelo contrário: relembra episódios da sua vida, como um relacionamento de juventude fracassado que terminou durante uma temporada na Indonésia e que o fez retornar a Paris “sozinho, infeliz, lastreado pelo original de um primeiro romance que contava uma história de amor encantada e por cinco mil biquínis costurados com linha dourada que evocavam a derrocada desse amor”. Também apresenta constantemente sua visão dos fatos. É como se também ele, Carrère, pudesse se passar por um personagem de ficção que procura investigar e documentar a vida de outro.

Limonov, por sua vez, foi delinquente na Ucrânia, ídolo do underground soviético; mendigo, depois mordomo de um bilionário em Manhattan; escritor da moda em Paris; soldado perdido nos Balcãs; e agora, no imenso caos do pós-comunismo, velho chefe carismático de um partido de jovens desesperados. Ele mesmo se vê como um herói, podemos considerá-lo um tratante: suspendo nesse ponto meu julgamento. Mas o que pensei (…) é que sua vida romanesca e perigosa contava alguma coisa. Não apenas sobre ele, Limonov, não apenas sobre a Rússia, mas sobre a história de todos nós desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Alguma coisa, sim, mas o quê? Começo este livro para saber.

Limonov é dono uma personalidade explosiva. Consegue despertar, em doses variáveis e não raro ao mesmo tempo, compaixão, repulsa, simpatia, perplexidade. O próprio autor reconhece que seu herói — como Carrère o chama sarcasticamente, uma vez que Limonov está lembra mais um anti-herói desconjuntado — parece “estar a maior parte do tempo perdido”. Limonov tira proveito das circunstâncias, como um bom malandro (o que ele tampouco é), sem defender ou assumir uma única posição, ou, o que parece irreal quando se fala em Limonov, uma posição minimamente coerente. Suas convicções, se realmente as têm, dificilmente se sustentam. Como escreve Carrère, “seu pensamento político era confuso, sumário”. Mesmo com a maturidade, Limonov não parece avançar muito nesse campo. E, suprema ironia, nele o sujeito é uma figura de destaque.

Eduard Limonov é um arrivista dedicado. Jovem, engatou um relacionamento com Anna Moisseievna Rubinstein, por quem jamais foi apaixonado, a fim de viver no centro de Kharkov, lugar menos abjeto que sua Saltov, e frequentar o círculo de artistas locais — formado sobretudo por poetas. É ali, e depois em Moscou, que integra a cena underground cujo éthos, ao transparecer em sua escrita, levou à comparação com Lou Reed. Costurou calças boca de sino, raridade na União Soviética do final da década de sessenta e início da de setenta, para conseguir sobreviver. Seus primeiros poemas foram escritos ainda na Rússia. Depois de emigrar para os Estados Unidos com a namorada da época, Elena, começa a escrever relatos autobiográficos que, graças a bons contatos, obtêm algum sucesso na França. E é em Paris que Limonov se instala em seguida, não sem antes ter enfrentado sua parcela de problemas. Está separado de Elena, que o trocou por um fotógrafo medíocre; viveu algum tempo nas ruas, depois em hotéis desprezíveis, até finalmente trabalhar como mordomo para um bilionário excêntrico — o que acirra ainda mais seu ódio de classes. Limonov “dividia a humanidade em fortes e fracos, ganhadores e perdedores, vips e ralé, [e] vivia dilacerado pela angústia de fazer parte da segunda categoria”.

Mais do que dinheiro, sucesso significava, para Limonov, fama. E o reconhecimento, pelo menos até certo ponto, ele alcança. Sua carreira deslancha, e Eduard Limonov se torna um autor famoso em Paris; logo depois conquista a Rússia. Seu status é o de uma estrela do rock, o que ele abraça com vontade. Eduard, a essa altura já ficou claro, pega carona nos ventos favoráveis e tira proveito das circunstâncias. As máscaras que sustenta raramente parecem mais do que isso: máscaras.

Tampouco sua adesão à Guerra da Bósnia, capítulo introduzido bruscamente em Limonov, é uma decisão puramente ideológica. Ao ser convidado a conhecer o front, num contato que não fica exatamente claro, Limonov pondera “que, em breve com cinquenta anos, nunca esteve na guerra, que é uma experiência que todo homem deve ter um dia”. Aceita. Ganha um fuzil, participa do Cerco de Sarajevo, parece contente. “O que o atrai são os soldados em armas, os blindados, os sacos de areia, os uniformes verdes contrastando com a neve, os tiros de morteiro que começam a ouvir ao longe”, escreve Carrère. Limonov enxergava na guerra algum glamour, uma opinião que provavelmente continua a mesma. Essa mudança brusca de rumo — de escritor festejado em Moscou para guerrilheiro sérvio — é uma das tantas reviravoltas absurdas da vida de Eduard.

Há outro passo importante que parece gratuito, ou (pelo menos) pouco motivado por convicções defensáveis: a criação do Partido Nacional-Bolchevique — que em dado momento é uma mistura insensata de ideologias, opiniões e posturas conflitantes. Carrère chegou a conhecer alguns dos nasbols, como são chamados seus militantes, ao conversar pessoalmente com Limonov. Importante ressaltar que o livro é o resultado de quatro anos de pesquisas e de alguns encontros esparsos entre biógrafo e biografado. Apesar da intenção de entrevistar Limonov mais longamente, Carrère — o que se deve à aparente indiferença do outro — acaba por se contentar com o pouco que coletou. Prefere a pesquisa histórica e a leitura dos diversos relatos autobiográficos de Eduard.

Afastando e aproximando as lentes de seu objeto de interesse, ou seja, de Limonov, e a partir de uma perspectiva mais ou menos pessoal, Carrère reconstrói a trajetória de uma figura fascinante cujas experiências são o reflexo de sua ousadia e coragem, mas também de sua época e lugar de origem. Páginas e páginas são dedicadas à derrocada da URSS, à Guerra da Bósnia, à economia precária da Rússia pós-comunista e à politicagem pura e simples. Nesse aspecto, Limonov é uma biografia como qualquer outra, que levanta uma enorme quantidade de dados e traça um panorama do que se passava em determinado ponto no tempo e no espaço por onde o seu herói transitou.

A força de Limonov, o homem, aparece no final, quando, acusado de terrorismo e de outras transgressões, enfrenta as provações da prisão e do campo de trabalho de Engels. Ele aprende meditação e passa, sem que tenha a tenha procurado, por uma experiência mística — que, somada a outra semelhante ocorrida alguns anos antes, muda a forma como enxerga o mundo.

No final, é impossível dizer que do livro emerge uma imagem nítida de Limonov. Apenas sua contradição fica clara. Eduard é um mistério para o próprio Carrère — que diversas vezes admite a confusão e a perplexidade, e mesmo a aversão. Limonov alterna vilania e nobreza, arrogância e humildade, egoísmo e generosidade com uma facilidade assombrosa.

Limonov  foi publicado antes das eleições de 2012. Eduard bem que tentou concorrer à presidência da Rússia, plano que fracassou — os dois milhões de assinaturas requeridos para que pudesse lançar sua candidatura independente não foram autenticados por um tabelião. Numa apuração altamente controversa, Vladimir Putin acabou reconduzido ao poder. Como em uma espécie de premonição, no final de Limonov Carrère se volta para a figura do atual presidente russo, na época o titereiro do fantoche Medvedev, comparando-o ao seu protagonista/biografado. O que diferencia Limonov e Putin, diz o francês, é o sucesso do segundo. De resto, suas trajetórias são muito semelhantes.

Um grande impasse se apresenta nas últimas páginas. Como encerrar um livro baseado na vida real de um herói que não está morto, um herói que nunca dá pistas do lugar aonde vai estar daqui a alguns anos? Carrère acha uma boa saída, como verá quem decidir encarar as mais de trezentas páginas de Limonov. O esforço tem sua recompensa. Até então, a vida do sujeito foi de fato uma “vida romanesca, perigosa, uma vida que assumiu o risco de misturar-se à história”.

Não apenas sobre ele, Limonov, não apenas sobre a Rússia, mas sobre a história de todos nós desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Alguma coisa, sim, mas o quê?

1 Comentário Limonov – Emmanuel Carrère

  1. v.

    parece um livro interessante, e me interessei muito mais quando você disse que de acordo com o francês, o que o diferencia de pútin é que este chegou ao poder, e o limonov não. eu tenho uma certa… fascinação pela figura do pútin. acho-o tragicamente engraçado. já o limonov eu não me recordo de ouvir histórias, logo, essa parece ser uma boa maneira de começar a ouvir.

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