Formas de voltar para casa – Alejandro Zambra

Formas de voltar para casa – Alejandro Zambra

Formas de voltar para casa é o terceiro livro do chileno Alejandro Zambra publicado no Brasil. Foi precedido por Bonsai e A vida privada das árvores, também editados pela Cosac Naify — dois romances curtos que dialogam entre si. Entre este e os anteriores há algumas diferenças notáveis; se o tom continua similar, há alterações importantes na mensagem. O próprio título sugere que aqui não haverá metáforas com plantas: nenhum paralelo entre a poda de um bonsai e a escrita de um livro ou entre a imobilidade das árvores e a paralisia e a indecisão que podem marcar uma trajetória individual.

Se antes as narrativas davam conta da angústia existencial difusa dos protagonistas e se ocupavam do que há de mais doloroso e difícil em relacionamentos familiares e amorosos, aqui, de uma forma concreta, tudo fica mais grave e mais intenso. Neste Formas de voltar para casa, sem fugir muito do que se espera de sua literatura, Zambra eleva o tom.

Formas de voltar para casa_capaAs frustrações dos personagens ainda reverberam num cotidiano comum e pouco movimentado — mas a causa dessas frustrações é, em certo sentido, bem definida (eis a diferença entre Formas de voltar para casa e os dois livros anteriores do autor). O tal leitmotiv, que acaba servindo também como ruído de fundo inquietante, é a ditadura militar no Chile. Zambra se detém especificamente na realidade da geração que cresceu durante o terrível governo de Pinochet — os nascidos no final dos anos sessenta ou início dos setenta —, à qual ele pertence. “Enquanto os adultos matavam ou eram mortos, nós fazíamos desenhos num canto”, escreve.

Alejandro Zambra continua a propor discussões sobre os limites da literatura dentro da sua própria ficção. Aqui, a solução encontrada foi estruturar Formas de voltar para casa em quatro partes. A primeira escancara uma história relativamente simples: a de um garoto de nove anos que assume, a pedido de Claudia, uma amiga, o compromisso de vigiar seu solitário vizinho — o problema é que o menino não sabe bem por qual razão aceitou a missão e nem o que motivou Claudia a propor tal coisa. O vizinho, de todo modo, se comporta de forma suspeita.

A segunda parte, bem ao estilo de Zambra, traz o diário do romancista que supostamente escreve a história de Claudia e seu amigo. É neste ponto que o autor insere as divagações de costume sobre a função dos romances e dos romancistas. O hipotético ficcionista exprime suas dúvidas a respeito do nome de uma personagem, rumina o angustiante processo criativo, reflete sobre a ética e a necessidade de transformar em literatura o que é vida real etc. Para Zambra, tão importante quanto a história em si é dissecar os recursos de que dispõe para contá-la. O produto final não apenas traz marcas visíveis de seu desenrolar: ele é o desenrolar. Na terceira parte, Zambra retoma a história de Claudia. Na quarta, resgata o escritor com seu diário e sua angústia. Fecha-se um ciclo.

Esqueça Julio e Julián, os protagonistas dos romances anteriores que guardam muitas semelhanças entre si. Nem o menino — que na terceira parte já se detém em sua vida adulta — e nem o escritor são nomeados, o que sublinha o caráter comum de algumas de suas vivências. As vozes de um e de outro se sobrepõem de maneira deliberadamente confusa, e os relatos contidos no diário do escritor acabam, mais para a frente, incorporados na metanarrativa. Lançando mão de experiências variadas, particulares e genéricas, Zambra procura descrever a sensação de abandono e desamparo e as dores inevitáveis que se acumulam em quem aprendeu “a falar, a andar, a dobrar os guardanapos em forma de barcos” em um período tão turbulento. Ele e os de sua geração seriam “personagens secundários” em uma história de que não puderam participar ativamente, mas da qual sofreram as dolorosas consequências.

Alguns foram atingidos de forma mais traumática e irreparável, enquanto outros conseguiram escapar tão ilesos quanto possível. Seja como for, o narrador escreve que desejaria “recuperar as cenas dos personagens secundários. Cenas razoavelmente descartadas, desnecessárias, que no entanto colecionamos sem cessar”. O foco nos filhos de quem suportou uma ditadura — filhos que estiveram longe da ação, mas que não foram privados do drama — é uma outra roupagem do já conhecido apego do autor pelos bastidores, pelo tom comedido, pelas ações que escorrem lentamente e pelos personagens que externamente traem pouca ou nenhuma perturbação.

O contraste entre as marcas percebidas nos filhos de famílias militantes e de famílias que permaneceram neutras — ou ao lado do regime de Pinochet — é bem marcado. Num tenso jantar com a família, o pai de um dos narradores pronuncia a temida frase: “Pinochet foi um ditador e tudo mais, matou algumas pessoas, mas pelo menos naquele tempo havia ordem”. Desconcertado, o personagem se pergunta se seu pai sempre havia sido assim ou se, graças a fatores desconhecidos, havia desenvolvido certas ideias e posturas com o tempo. Ele já não podia compreender o ambiente de onde saiu e nem aqueles que o educaram. Por essas e outras, um ponto crucial em Formas de voltar para casa é o que muda e aquilo que permanece igual. Dois exemplos. 1. Com vontade de reviver os tempos felizes do casamento, o escritor quer reatar com a ex-mulher. O fato é que já não podem: não mudaram, são as mesmas pessoas, de modo que é possível prever que o relacionamento fracassará novamente graças às suas incompatibilidades. 2. E talvez a mensagem mais significativa: os narradores sentem uma nostalgia desmedida. Querem voltar para casa e refazer sua infância, o que evidentemente não é possível. Tudo mudou.

2 Comentários Formas de voltar para casa – Alejandro Zambra

  1. Graça

    Olá, Camila!
    Belíssima resenha!
    Li Bonsai e A vida privada das Árvores, amei.
    Zambra é notável, tenho certeza que irei gostar deste também.
    Abraços
    Graça

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  2. Maria Angela

    Olá Camila,
    Li os três livros de Zambra. Inicialmente fiquei na dúvida se gostei, ou exatamente do que gostei. A ideia de que nada acontece na história permeou minha leitura, mas fiquei com a impressão de que pulei algo. Voltei a ler o último. Li algumas críticas para ver se ajudava. Gostei do texto dele, da forma de “delay” que um crítico ressaltou.
    Mas acho que o seu texto sobre os três volumes fechou a questão.
    Parabéns!
    Abraços
    Angela

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