Esquilos de Pavlov –  Laura Erber

Esquilos de Pavlov – Laura Erber

Em 2012, a lista com os vinte melhores jovens escritores brasileiros da revista Granta incluía o nome de Laura Erber. Na edição que reuniu os trabalhos selecionados, seu conto se destaca como dos mais originais e consistentes — o que é o mínimo que se pode dizer sobre ele. Laura é autora quatro livros de poesia e de um ensaio sobre o poeta romeno Ghérasim Luca, ainda que seu trabalho não se restrinja à escrita. Seu primeiro romance, publicado recentemente pela Alfaguara, propõe uma junção das diferentes formas de expressão encontradas por ela.

O livro é protagonizado por Ciprian Momolescu, um artista nascido na Romênia. Ciprian, que trabalha com intervenções, viaja pela Europa graças às inúmeras bolsas que recebe. “Era uma vez um artista contemporâneo e os abismos que arrastava por onde ia”, escreve Laura. Os abismos de Ciprian são variados e enormes, e nem sempre, em todo caso, identificáveis (fazem parte: decepções, carências e incompreensões). Constantemente presentes, suas lembranças estão relacionadas tanto à intimidade familiar quanto, de modo mais amplo, a um período crítico na história da Romênia — os últimos tempos do governo socialista de Nicolae Ceauşescu e os anos turbulentos que se seguiram ao seu assassinato. O confuso protagonista não cessa de reviver as memórias de infância e adolescência e de tentar entender, remanejar ou restaurar determinadas cenas e emoções.

Em certo ponto da narrativa, um personagem afirma que “não existe história individual, mas sim uma série de histórias paralelas”. É basicamente o que se tem em Esquilos de Pavlov. Muitas das narrativas paralelas remetem às relações familiares do próprio Ciprian, aquelas que, de uma forma ou de outra, estão entre suas primeiras recordações e constituem uma espécie de pedra de toque para analisar as futuras experiências. É lembrando de seus pais, seu avô e sua irmã que Ciprian se relaciona com os variados personagens que chegam e partem continuamente — gente que Ciprian conhece ou de quem ouve falar. Há um bolsista com um passado sofrido e um hábito assustador; há um escultor pouco interessado nos danos que certos materiais tóxicos podem causar aos seus ajudantes; há uma vendedora de morangos que conta histórias de uma avó idealizada e diz coisas como “A lua de Baudelaire é preguiçosa, maquiada como uma japonesa é a lua de Michel Deguy, em Jules Laforgue ela é gorda e formosa (…). Em Quevedo é sangrenta, em Sylvia Plath é fria e planetária, careca, selvagem e cega, em Sandburg é uma lua bebê indiana, e em David Byrne um móbile de discoteca. A lua de Borges é a lua de todos os poemas lidos por Borges em Whitman ela é de novo sagrada, não é justiceira mas é justa, e recobre uma noite de guerra com seu nimbus irrestrito e, em Wallace Stevens, ela é o próprio páthos”.

Por essas e outras, Esquilos de Pavlov é sobretudo um livro que aponta para diversos caminhos. Sua característica mais marcante é justamente a de conceder uma enorme liberdade para que se empreenda diversas leituras, e, partindo de certas manobras da autora, para que se atribua diferentes formas e significados ao conjunto. É como escreve Leyla Perrone-Moisés em um artigo de 1968 (numa colocação um tanto visionária quando se leva em conta os rumos que a arte tomou desde então): “Na linguagem artística, o sentido não é único e claro. A obra pode ser lida em vários planos, e nenhum é definitivo. (…) Quem compreender isso terá compreendido o nouveau roman, o cinema de Godard, a pop art e tantas manifestações artísticas do nosso tempo”.

O fato é que arte não está presente apenas na ocupação de Ciprian Momolescu. Laura Erber, como seu protagonista, é artista visual. Unindo duas de suas facetas, dispôs várias fotografias ao longo do livro, todas em preto e branco. O conjunto é de uma força esmagadora; as duas formas de expressão, escrita e imagem, são potencializadas quando postas lado a lado. Nem todas as figuras dialogam com o texto — apenas umas poucas têm uma conexão mais óbvia com um ou outro elemento da narrativa. Um exemplo é a curiosa maneira pela qual Ciprian descreve sua aparência: “Quando estou fora de foco me pareço com a filósofa Maria Zambrano” — ao que se segue, algumas páginas depois, a imagem desfocada da mulher. (Essa graça perturbadora não é estranha à narrativa de Laura). Para além das fotografias, a autora dispensa a função de erguer, a partir de descrições minuciosas de paisagens ou ambientes, imagens vívidas na imaginação do leitor. Raros cenários são detalhados pelo protagonista.

Marcam presença no texto as pequenas e peculiares epifanias. Algumas delas: “Detestaríamos menos as pessoas se não tivessem ideias a respeito de si mesmas”; “A terra tem milhares de rios e há mais de trinta maneiras de se matar um porco mas o repertório do amor fascina pela pobreza”; “Já nascemos com luz hiperbórea e emoções desconexas, já nascemos transtornados sem saber narrar tim-tim por tim-tim, só com muito esforço e tarde demais descobriremos que alegria é uma questão de momento, que arte é uma palavra gasta e que para cada sim há sete nãos e dois talvez”; “Um artista é sempre alguém muito parecido com o sujeito que procura parecer interessado na conversa mas no fundo se pergunta se não terá deixado o gás aberto antes de sair”. Da metade para o final, como se perdessem sua razão de ser, desaceleram as frases de efeito. A autora sobe, nesse ponto, o tom da reflexão em torno da arte. Se “o poder cultural tornou-se devedor da generosidade das empresas”, é possível “continuar a encorajar jovens artistas a persistirem em suas trajetórias como se nada terrível estivesse acontecendo”? Os artistas teriam se tornado prisioneiros dos seus próprios sistemas de produção? São muitas as perguntas, ainda que não haja, na estrutura do romance, qualquer movimento em direção a uma resposta (“Os escritores criativos pedem a seus leitores que arrisquem uma solução; não oferecem uma fórmula definida” — resumiu Umberto Eco.)

Esquilos de Pavlov toca fortemente em questões relativas 1. ao mercado e 2. aos problemas de ordem prática a que os artistas estão sujeitos, mas também observa, de forma tangencial, questões mais abstratas. Ainda que Laura não a aborde diretamente, o leitor consegue intuir — ou tomar a iniciativa de propor — uma discussão sobre a arte contemporânea. Uma das questões, talvez a que resuma todo o resto, foi colocada pelo teórico Peter Bürger: “Se, hoje, um artista assina e expõe um cano de estufa, de forma alguma ele está denunciando o mercado da arte, mas a ele se incorpora; não destrói a ideia de criatividade individual, mas a confirma”³.

Aqui e ali, o leitor mais atento consegue pescar alguns nomes conhecidos. A história de cada um deles, assim como o seu trabalho, acabam por se converter em elementos extras na miscelânea de Esquilos de Pavlov, e, dependendo da vontade do leitor de pesquisar e seguir as pistas, pode alterar seu sentido ou enriquecer uma discussão que parece infinita. Para citar só alguns: há Blinky Palermo, pintor abstrato alemão; há Eva Hesse, escultora judia pioneira no uso de fibra de vidro, plástico e látex em seus trabalhos; há Bas Jan Ader, artista conceitual holandês que em “1975 partiu de Cape Cod, sozinho, numa pequena embarcação construída com ajuda do seu galerista e da sua namorada, num projeto batizado ironicamente ou sem ironia alguma de Em busca do milagre” (os destroços do barco foram encontrados na costa da Irlanda; seu ocupante, porém, nunca mais foi visto). Há o próprio Ghérasim Luca, tema do ensaio publicado pela Eduerj, que Laura transforma em um dos personagens ligados, ainda que indiretamente, a Ciprian Momolescu.

É esmagadora a melancolia de Esquilos de Pavlov; mesmo o humor, quando surge, é um tanto triste e desesperado. Há uma zona do romance de estreia de Laura Erber que as palavras não alcançam — e, se alcançassem e fossem escritas ou pronunciadas, possivelmente seriam tão diferentes entre si quanto os leitores dos quais partiram. Não há dúvidas, no entanto, da grandiosidade e da originalidade do trabalho. Certamente um dos destaques de 2013.

A Romênia aparece em Aquele vento na praça, seu conto na Granta. Você também organizou um livro sobre Ghérasim Luca, o responsável por introduzir o surrealismo em seu país de origem — a Romênia, naturalmente —, e assinou uma excelente resenha sobre Acontecimentos na irrealidade imediata, do escritor romeno Max Blecher, em um jornal de grande circulação. Em Esquilos de Pavlov, Ciprian Momolescu é romeno — o que permitiu aludir ao turbulento fim da ditadura de Nicolae Ceauşescu. Qual a sua relação com a Romênia? Como ela começou, e como tem se mantido?

É uma relação enviesada, que inclui o fetiche pela sonoridade da língua romena, o interesse por determinados autores, algumas conversas com amigos que nasceram e cresceram lá, há também um dado autobiográfico, mas praticamente insignificante, meu bisavô, por um acaso geográfico nasceu numa cidade chamada Dobreta-Turnu Severin, onde o pai trabalhava na construção de embarcações para navegação no Danúbio. Quando adulto teve que deixar Trieste por ter insultado um coro de jovens fascistas que atrapalhava suas aulas, então mudou-se para Bucareste onde viveu por dois anos creio. Suas opiniões sobre a Romênia e os romenos não eram nada lisongeiras, pelo menos não aquelas que chegaram até mim através do telefone sem fio da família, sobretudo piadas terríveis contadas em dialeto triestino. Mas quem mais fortemente me aproximou da Romênia foi, paradoxalmente, Ghérasim Luca. Paradoxalmente porque depois de migrar para a França Luca cortou todos os laços com a Romênia e com a ideia de rumanidade, tornou-se apátrida e foi radicalmente questionador da noção de identidade nacional.

Penso que sua proposta de fundir romance e fotografia foi extremamente bem-sucedida. Texto e imagem não conversam diretamente, mas alcançam alguma harmonia — e é por isso que o resultado é muito forte. A própria temática do livro, sendo Ciprian Momolescu um artista, contribui para essa intensidade. É impossível, para o leitor, escapar de alguns questionamentos. Como foi o trabalho de aliar a escrita às artes visuais? Ele é uma tentativa de responder a qual pergunta?

Muitas imagens foram geradoras do texto, como se a escrita fosse um modo de criar versões possíveis que exploram a carga ficcional das fotografias. Outras imagens foram agregadas mais tarde. Mas de fato, a ideia era criar um encontro desencontrado entre elas, em alguns momentos parece que esse circuito imagem-texto vai se definir, mas é uma promessa que não se cumpre. Por outro lado me interessava que as imagens contivessem meio secretamente histórias não contadas no livro, algumas delas vêm dos arquivos de pessoas que me são muito próximas. Há também um desenho feito por meu avô quando ele tinha uns oito anos e era estudante num colégio interno na Hungria, é um desenho que reproduz uma imagem então muito difundida do imperador da Áustria e rei da Hungria, Franz Joseph. Essa materialização do poder através de exercícios escolares eu vejo como uma versão das atividades patrióticas de que fala Ciprian.

Qual foi o gatilho de Esquilos de Pavlov? Como foi o processo de escrita do livro?

Foi esse nome, Ciprian Momolescu, ele desencadeou o processo ficcional numa velocidade maluca, mas nem sempre constante. A partir daí descobri um prazer narrativo novo pra mim, o livro foi se tornando um buracão para onde convergiam diversos materiais, anotações, inquietações, estorietas e imagens antes dispersas. Tentei não pacificar totalmente essa tensão entre a fluidez e um ritmo de tropeços, entre uma cadência mais sincopada e a construção do arco de tempo de uma vida.

“Havia um defeito no olho esquerdo do meu pai, esse olho piscava involuntariamente quando, por qualquer motivo, qualquer mesmo, ele se irritava. E o homem se irritava. A irritação se traduzia em frases fáceis de entender e difíceis de engolir. Agradeço a essa e a todas as frases de efeito moral que chegaram até mim atravessando gerações e gerações de homens irritados. Eis o grande legado Momolescu: a irritabilidade. Ele foi feliz com aquela animosidade e eu poderia aproveitar este espaço para exercer minha ternura. Eu poderia dissimular o mal-estar, descrever meu pai com os ardis de um mágico de quermesse. Eu poderia sacrificar detalhes sórdidos do close-up pela beleza do conjunto. Eu poderia descrever os suspiros que ele soltava por tudo e por ninguém. Eu poderia falar sobre o assunto em tom didático ou fazendo associações livres, minha voz em off sobre a imagem em preto e branco de um grande ralo engolidor de água. Eu poderia pintá-lo em tons pastéis, vestir Draguta de saia plissada, eu de azul e nós três segurando sorvetes coloridos sem nenhum sabor. Eu poderia acelerar o ritmo das imagens e mostrar o quanto nossa vida era de fazer rir ou abusar do slow motion, dos arranhões e de luz imprópria para saciar nosso desejo retrô. Eu poderia me dar ao luxo de esquecê-lo ou desvendá-lo com a paciência de um oráculo. Com candura e um pouquinho de graça, poderia fazer dele o protagonista aflito e desastrado de um filme mudo. Eu também poderia simplesmente amá-lo.
Poderia?”

6 Comentários Esquilos de Pavlov – Laura Erber

  1. Simone Mello

    A resenha, os trechos destacados e a entrevista estão simplesmente PER-FEI-TOS! Muito obrigada, Camila! Abraço!

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  2. Juliana

    Então agora eu finalmente entendi esse livro.
    Porque olha, senti-me obtusa quando terminei a leitura e não conseguia, sequer, resumir a história.
    Quem dirá, compreendê-la…

    Ain como eu amo suas resenhas <3

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  3. Pingback: Opisanie swiata, Veronica Stigger | Livros abertos

  4. Viviane

    Olá Camila, passando aqui só para agradecer pelas belas resenhas que você faz neste imenso blog, suas resenhas são fantásticas e quando as leio acabo me apaixonando não só pela obra que você nos apresenta, mas também pela sua escrita gostosa e cativante.
    Beijos, Viviane.

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