Cinco perguntas para Lica Hashimoto

Cinco perguntas para Lica Hashimoto

Ao optar por um livro de um autor estrangeiro, nem todo mundo está habituado a verificar o nome do tradutor — e, tão importante quanto, se o texto com o qual se trabalhou é o original. Beleza e tristeza, uma obra-prima de Yasunari Kawabata, foi levemente arranhada pela editora Globo ao ser traduzida do japonês para o inglês e do inglês para o português. Perde-se muito neste processo. Tradução, portanto, está longe de ser mero detalhe.

Quanto mais distantes são dois idiomas, mais complexo e importante é o trabalho do tradutor — e maior é o fascínio que a atividade desperta nos leitores. O best-seller que vem chamando a atenção dos brasileiros, 1Q84, foi vertido para nossa língua a partir do original em japonês. Embora os três livros tenham chegado primeiro em Portugal (editora Casa das Letras), seu processo de tradução foi idêntico ao de Beleza e tristeza: japonês-português-inglês. A agilidade é garantida, mas há, claro, maior discrepância entre o texto de Murakami e o material entregue para o público. A Alfaguara, embora tenha lançado o Livro 1 apenas no segundo semestre de 2012, garantiu a qualidade do texto que disponibilizou para seus leitores — reclamar da demora, portanto, não faz sentido nenhum.

Com o sucesso da trilogia e a ansiedade em torno do terceiro volume, o processo de tradução ganha ainda mais destaque. Quem é a tradutora do maior fenômeno de vendas de Murakami? É difícil trabalhar com o texto do autor? Quais são os grandes entraves na hora de verter a trilogia para o português? Fiz esta e outras perguntas para Lica Hashimoto, que gentilmente concedeu uma entrevista para o blog. Lica é mestre em Língua Japonesa e atua como professora assistente do Departamento de Letras Orientais da USP. Além disso, é co-autora de livros didáticos de ensino de língua japonesa para brasileiros e desenvolve projetos nas áreas de linguística e literatura japonesa. Lica verteu para o português, além da trilogia 1Q84 (o terceiro volume ainda está em processo de tradução), Dance dance dance e Após o anoitecer, ambos de Haruki Murakami, E depois, de Natsume Soseki, Grito de amor do centro do mundo, de Kyoichi Katayama, entre outros. Abaixo, as respostas concedidas.

Quais são as maiores dificuldades de se verter para o português obras literárias em japonês? Considerando que uma narrativa de ficção comporta várias sutilezas, qual o grau de complexidade gerado pela aparente distância entre as duas línguas?

A língua japonesa é considerada uma língua de difícil tradução por ter as seguintes características:

1. Não há artigos definidos ou indefinidos e nem preposição;
2. Substantivos não flexionam quanto ao gênero e número;
3. Há dois tipos de adjetivos;
4. Verbos também não flexionam em número, pessoa, tempo, modo e voz. É uma língua predominantemente aspectual, o que, grosso modo, significa que se subdividem em perfectivo (acabado, concluído) e imperfectivo (inacabado e contínuo).

Além dessas características morfológicas (gramaticais), a ordem sintática também difere da do português. Enquanto que em português a oração é SVO (sujeito-verbo-objeto: Paulo comprou um carro), em japonês é SOV (sujeito-objeto-verbo: Paulo um carro comprou). A ordem sintática explica outra particularidade: não existem orações subordinadas relativas, de forma que em lugar delas, a oração explicativa/restritiva é inserida antes do substantivo. Por exemplo, “o filme que assisti ontem com minha amiga foi muito legal” fica “o (eu) – ontem – com minha amiga – fui assistir – filme foi muito legal”.

No entanto, o que normalmente chama a atenção é, sem dúvida, o sistema de escrita. Na língua japonesa temos três sistemas gráficos utilizados concomitantemente: os fonogramas katakana (para grafar palavras estrangeiras), hiragana (para grafar os elementos gramaticais: partículas, sufixos flexíveis etc), e o kanji (ideogramas para grafar palavras ou parte de palavras que, por si só, exprimem conceitos ou ideias). Uma obra literária modernas ou contemporânea requer o conhecimento de, no mínimo, 3 mil ideogramas com suas respectivas leituras (cada ideograma pode ter várias leituras).

Apesar de a língua japonesa possuir tais particularidades, os desafios que enfrento como tradutor é deparar com certos trechos que precisam de tradução mais livre que outros para não obscurecer o sentido do conjunto. O bom senso, neste caso, é fundamental para assumir esse tipo de decisão. Bom senso que, na medida do possível, assegure ao leitor, mediante a adaptação estilística, a sensação estética própria do original.

Quanto tempo a senhora leva para verter para o português um livro como 1Q84?

Desde que assumi a tradução do 1Q84 aprendi a criar uma rotina que, até então, eu não tinha. Hoje, dedico diariamente três horas para esse trabalho. E, quando a agenda permite, seis horas. Este é o meu tempo-limite de concentração para os trabalhos de tradução.

Quais partes do texto de Murakami podem contribuir para a demora e para a fluidez do trabalho?

Em comparação com os diálogos, as partes descritivas requerem um tempo maior de dedicação, uma vez que, não raro, preciso fazer uma pesquisa sobre as referências bibliográficas que constam no texto. Por exemplo: preciso verificar se os livros, os filmes e as músicas que constam no texto original já foram traduzidos para o português e adotar esses títulos para que o leitor brasileiro identifique essas referências. No conjunto, o texto de Murakami é relativamente simples, mas exige do tradutor muitas leituras complementares — história, literatura, música, ciências etc — para enfrentar o processo tradutório.

Qual a maior diferença que a senhora percebe entre o texto original do Murakami e os de outros autores de língua japonesa com os quais já trabalhou?

Cada autor possui suas particularidades, mas, em linhas gerais, os textos diferem quanto à concisão, seleção lexical, o tom da narrativa e o contexto cultural e histórico da obra.

A narrativa de Dance dance dance — que a senhora também traduziu — é ligeiramente mais intrincada e complexa do que a de 1Q84, que, por sua vez, é relativamente fluida. A senhora sentiu alguma diferença ao trabalhar com os dois textos?

Sim.

Em que medida o primeiro é, no original, mais difícil do que o segundo?

A diferença não é exatamente em relação à dificuldade de se traduzir o texto, mas você tem razão Camila, o texto do 1Q84 possui uma narrativa mais fluida. A diferença pode ser atribuída à dinâmica textual existente no 1Q84.

A senhora é fã dos livros do Murakami?

Sim.

Qual o mérito que a senhora enxerga na trilogia?

É uma narrativa que espontaneamente prepara o leitor a adentrar nas possíveis interpretações simbólicas – políticas, econômicas, sociais, metafísicas e psicanalíticas – que permeiam as relações entre o mundo objetivo e subjetivo. Há uma clara alusão de que a interdependência de todos os fenômenos é um dos ensinamentos mais úteis que a experiência e a observação da realidade nos têm ensinado. 1Q84 não é, portanto, um livro de leitura apressada e desatenta. Trata-se de uma obra em que o leitor será gradativamente conduzido a ver — com os olhos físicos, da mente e da alma — um ou mais significados, iluminados por sucessivas camadas de entendimento e denunciar o desencanto e a impotência do ser humano diante das injustiças do mundo contemporâneo. Uma reflexão sobre o poder da intangível ficção que se apropria da linguagem para transformar o mundo.

Sendo alguém que, por força da atividade como tradutora, está próxima de aspectos culturais do Oriente e do Ocidente, como a senhora explicaria o sucesso global de 1Q84?

A recepção de suas obras em diversos países requer um estudo à parte, mas é incontentável que seus livros, traduzidos em 40 idiomas, geram uma enorme repercussão junto ao público. Uma rápida busca em redes sociais, websites e blogs comprova que seus leitores, ainda que inconscientemente, estabelecem um pacto de leitura que os conduz ao universo da ficção. Universo em que “a mentira possui o seu grau de veracidade”, no dizer de Mario Vargas-Lhosa em seu ensaio “La verdad de las mentiras” (1996). A descrição cuidadosa do cotidiano e a maestria com que Murakami desenvolve o fluxo de consciência de seus personagens criam laços entre o leitor e o narrador de modo a aguçar a nossa curiosidade intelectual através do conhecimento da música, história, literatura, moda, culinária etc. Nesse sentido, pode-se dizer que o leitor compartilha a conscientização de que somos cidadãos do mundo, possibilitando o diálogo entre os homens aproximando-os num todo orgânico sem desmerecer suas particularidades.

16 Comentários Cinco perguntas para Lica Hashimoto

  1. Rejane Kehl

    Camila,
    Fiquei muito impressionada com as respostas dadas pela tradutora. Meu interesse pelos livros do Murakami acabou de ser aguçado, especialmente pela resposta dada à penúltima pergunta. Obrigada por postar a entrevista, depois de ler esta sequencia de perguntas e respostas fico sem palavras para descrever a admiração que sinto pelo trabalho da Sr.ª Lica Hashimoto.
    Abraço,
    Rejane

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  2. Márcia Schmidt

    A Lica realmente faz um excelente trabalho na tradução dos livros do Murakami. A gente percebe quando um texto está bem traduzido, mesmo sem conhecer o idioma original; a leitura “flui” organicamente, sem barreiras. Só acho que a editora Afaguara deveria ter esperado ela traduzir os 3 volumes para depois lança-los, numa linda caixa, ou avulsos, ao gosto e ritmo do leitor brasileiro.

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  3. simone mello

    Deve ser maravilhoso ser aluna de uma pessoa com conhecimentos tão profundos e tão generosa quanto Lica Hashimoto demonstrou ser. Linda entrevista, sabia que a língua japonesa era difícil, mas não imaginei que pudesse ser tão complexa.
    Que venham outras entrevistas tão gostosas de ler quanto informativas. Amei! Obrigada a ambas!

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  4. Alexandre Kovacs

    Excelente postagem! Parabéns a Lica Hashimoto que está fazendo um trabalho perfeito na tradução de 1Q84. Imagino a pressão em estar traduzindo o terceiro volume, enquanto o público, ansioso, aguarda a publicação.

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  5. Graça

    Camila,
    tenho especial admiração pelo trabalho dos tradutores.
    A grande maioria “mergulha” no universo do autor e nos presenteia.
    Linda entrevista!
    Parabéns, obrigada.
    Graça

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  6. Marco Severo

    Camila, eu adoro o seu blog, porque 1) você escreve deveras bem e 2) temos gostos literários muito parecidos. Mas só aqui entre nós: utilizar como argumento, dizendo inclusive que “não tem sentido reclamar da demora”, o fato de o livro estar sendo traduzido direto do japonês (o que, em minha opinião, deveria ser obrigação) é, convenhamos, um disparate.

    1Q84 foi publicado em 2009 e o terceiro volume, em 2010 no Japão. Portanto, temos por volta de TRÊS ANOS de lá pra cá. Tivesse a Alfaguara apostado logo, teríamos tido a trilogia aqui em 2011/começo de 2012, no máximo. Não vamos deixar nosso ufanismo tomar conta do discurso, por favor.

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  7. Marcel

    Gostaria de congratular a Lica também pelo ótimo trabalho, e me lembro de seu nome pelos livros de Murakami. Tradução é uma arte difícil.
    Pode até parecer um pouco tolo, mas a razão pela qual não comprei certos livros foi por serem traduções de traduções.

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  8. Luiza

    Que bela entrevista! Minha forte admiração pelo trabalho de Lica Hashimoto só cresce. 😀
    Acredito que meu primeiro encontro (às escuras, devo acrescentar) com Murakami, em Após o Anoitecer, tenha sido ainda mais prazeroso por conta da tradução. Em 1Q84, reforcei meu pensamento a respeito dos dois. Muito talentosos. Nós, leitores, só agradecemos. 🙂
    Conheci o site há pouco tempo e já entrou para os favoritos!

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  9. Clayton Olee

    Acabei de terminar o Livro 2 de 1Q84. Não pude deixar de pesquisar as resenhas e opiniões. Estou fascinado pelo universo de Murakami e a Lica faz parte disto. Muito obrigado Camila e Lica. Contando os segundos para o terceiro volume.

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  11. Roseli Bizari

    Lia Hashimoto.
    Parabéns pela sua bela tradução , foi por ela que me produz a ler toda a obra traduzida do Murakami Haruki Sensei.
    Após isto tentarei em Japones, idioma que estudei e utilizei por 18 anos.

    Um Abraço .

    Roseli Bizari.

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