Emily & Sarah

Richard Yates foi mestre em criar (e em manter até o limite do suportável) um alto grau de desconforto no leitor. Seus personagens, carentes de afeto e em busca de um sentido que jamais encontram, são autoindulgentes e cultivam expectativas irreais. Suas criaturas são constrangedoramente humanas — e este é seu grande trunfo.

o desfile de páscoaA frase de abertura do livro é um bom alerta sobre seu conteúdo, e, com as devidas alterações, poderia inaugurar qualquer um dos trabalhos de Yates: “Nenhuma das irmãs Grimes teria uma vida feliz”, escreve o autor. Para aproveitar a frase usada por Tolstói em Anna Kariênina, cada uma é infeliz à sua maneira.

Publicado originalmente em 1976, O desfile de Páscoa abrange um longo período: parte de 1930 e desemboca no então presente, o início da década de setenta. Na medida em que o feminino é ponto central do romance, Yates constrói as bases do enredo em uma época de pouca ou nenhuma liberdade, até encostar na recente revolução sexual. Em nenhum momento, no entanto, o narrador se manifesta sobre isso de forma direta. As reviravoltas trazidas pelo feminismo permanecem em segundo plano, mal atingindo a vida das protagonistas. No primeiro plano, vista com lentes de aumento cruéis, está a história das irmãs Grimes, Emily e Sarah. A primeira, mais nova, é financeiramente independente e inicia/rompe diversos relacionamentos ao longo do livro. A segunda logo arranja um marido, e seus três filhos nascem em sequência. A boa sacada de Yates é contrapor os desdobramentos de suas vidas: a da mulher que trabalha fora verus a da mãe e dona de casa. Com essa proposta, Yates resgata alguns clichês comuns às duas posições. Tanto Emily como Sarah representam o que há de universal em cada uma das duas pontas (e na época, bom lembrar, ainda fazia sentido separá-las).

O ponto de vista permanece o de Emily, a cosmopolita de Nova York que se exaspera quando visita a irmã e sua ruidosa família no interior. Sua agitada vida sexual/amorosa não pareceria estranha hoje, mas Yates (sutilmente) faz lembrar em que período a história se passa.

Sem malabarismos, a história das irmãs Grimes é narrada de maneira linear e contida. Na medida em que os anos transcorrem — na contramão dos direitos que as mulheres paulatinamente conquistam, o que poderia tornar suas vidas menos claustrofóbicas ou limitadas —, as tintas com que Yates pinta suas vidas vão ficando mais escuras. Saem os planos pouco concretos e os corpos juvenis e entram a violência doméstica, o alcoolismo e a solidão extrema.

Os diálogos são certeiros. Todos trazem, bem marcados, certos buracos de silêncio em que o que não foi expresso parece ter um grande peso — algo que funciona excepcionalmente bem em livros em que o narrador se limita a descrever, não sem uma ironia subentendida, todas as indignidades e absurdos da vida de um punhado de pessoas infelizes. Em comum com Uma providência especial, um dos trabalhos mais
incômodos do norte-americano, há as características gerais dos personagens — esperanças absurdas, carência excessiva, a sensação de deslocamento. O desfile de Páscoa se aproxima de Revolutionary Road (Foi apenas um sonho), trabalho de estreia do autor, focado nas dificuldades dos relacionamento e nas expectativas de que a vida cotidiana melhore em algum ponto mais à frente.

O desfile de Páscoa não é o melhor de todos, mas é sem dúvida um bom romance de Richard Yates.

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