Eclipse – John Banville

Do início ao fim, Eclipse é marcado pela imprecisão. Nas primeiras páginas do romance, as cenas difusas que se interpõem num ritmo acelerado desafiam o leitor a determinar se pertencem ou não à série de delírios do protagonista. As respostas não demoram a surgir, mas podem se revelar contraintuitivas: o que parecia sonho é realidade, e vice-versa. “A linha divisória entre ilusão e seja lá o que for o seu oposto para mim ficou apagada a ponto de desaparecer. Não estou dormindo nem acordado, mas em algum confuso estado intermediário entre os dois”, escreve o narrador.

eclipPublicado originalmente em 2000, Eclipse é o primeiro livro da trilogia protagonizada por Alexander Cleave. No ano passado, numa manobra curiosa, a Biblioteca Azul lançou Luz antiga, de 2012, justamente o último deles. Por que curiosa: porque o drama central de Luz antiga depende de um acontecimento que só tem lugar nas derradeiras páginas de Eclipse, o que estraga boa parte da surpresa para o leitor que inverteu a ordem. Já o segundo volume, Sudário, de 2002, deve chegar às livrarias em breve.

Em Eclipse, Alexander Cleave, então um famoso ator de teatro, sofre um estranho colapso. Durante uma apresentação importante, Cleave esquece suas falas e parece momentaneamente paralisado. Sem justificativas, deixando o resto do elenco em maus lençóis, ele abandona o palco. Ato contínuo, se retira também da vida de artista.

À procura de certas explicações, Cleave se isola na casa em que morou quando criança. A mulher, Lydia, não foi incluída no plano de fuga, de modo que a situação de seu casamento (como todo o resto) é indefinida. A existência parece suspensa. “Eis-me ali, o assombrado, em meu quinquagésimo ano”, escreve Alex. “Eis-me aqui, um homem adulto numa casa assombrada, obcecado pelo passado.” Recolhido à antiga casa, confuso e deprimido, errando pelos cômodos num estado de ânimo contemplativo, Cleave tenta recolher e unir os caquinhos daquilo que foi sua vida.

O protagonista busca a solidão, mas acaba topando com personagens esquisitos. Na velha casa há Quirke, o caseiro despreocupado, e sua filha Lily, que não parecem dispostos a partir. Algumas aparições, reais ou não, também dificultam o sossego de Cleave. As interrupções de Lydia são frequentes — junto com as queixas, costumam trazer a reboque as notícias do paradeiro da única filha do casal, Cass.

Narrador habilidoso, John Banville controla a atmosfera — aqui, dúbia e sufocante — com uma precisão incontestável. Exemplos disso não faltam. O mais óbvio é a marcação do tempo, que nos romances de Banville se dá de forma peculiar. Logo que Cleave chega à casa, nota que ali demora a escurecer, e “quando escurece de verdade, as noites parecem que não vão terminar nunca”. Tudo se passa nessa indeterminação dos dias, como se Alex de fato estivesse num limbo curioso. Em outra manobra, o sacro e o blasfemo, que fazem parte das obsessões de Cleave, se alternam sem muita sutileza. Além disso, o passado, o presente e o futuro — numa linha do tempo que permite divisar um através do outro, o que exige certa aceitação do sobrenatural como elemento narrativo — se misturam completamente. É fácil lembrar de A Invenção de Morel, novela primorosa de Adolfo Bioy Casares na qual as cenas também se sobrepõem.

Os opostos ditam o tom e o andamento de Eclipse. No entanto, nem sempre é possível encarar a claridade ou a escuridão totais — aqui, as fronteiras entre uma coisa e outra podem ser difusas. Os opostos podem coexistir na mesma frase, como quando o protagonista sente “um arrepio de horror quase prazenteiro”. Assim — o que explica por que não é fácil sustentar a atmosfera ambígua do romance —, a narrativa só resiste se for calcada nesse balizamento. E é surpreendente que Banville não o perca de vista em momento algum.

Seguindo uma característica da escrita de Banville, o bom e o mau gosto se misturam com naturalidade. Não é incomum, afinal, que as escolhas estéticas do autor soem bregas e/ou sentimentais. Foi “como se uma gota do mais refinado, do mais puro ácido houvesse pingado na câmara aberta de meu coração”, observa Cleave em uma passagem. Todavia, num artifício que poucos escritores são capazes de sustentar, os chavões e os exageros não parecem deslocados, mas, ao contrário, ajudam a moldar o tom do romance. Assim, em Eclipse, o kitsch contribui para o efeito geral de estranhamento. Ponto para Banville.

Aumentando a tensão que a manutenção dos opostos e de suas nucances exige, no texto há também uma qualidade expectante, como se alguma coisa fossse se romper a qualquer momento — e de fato se rompe. “A fera à espreita é sempre mais sedutora do que a que salta”, diz Cleave. John Banville segue a própria fórmula à risca.

A subjetividade é incontornável. Com o embotamento de seus sentidos e sua confusão mental, tudo está condicionado, de forma mais intensa do que se vê em outras narrativas em primeira pessoa, à percepção de Alex Cleave. As experiências são filtradas por seu estado alterado e (é claro) instável. Da primeira à última página, Cleave está “fitando com crescente perplexidade um mundo onde nada é exatamente plausível, nada é exatamente o que é”. Ao relembrar o passado e ao encarar o presente, o narrador dificilmente está convicto do que quer que seja.

Alex enxerga a si mesmo em todas as idades, numa linha do tempo deliberadamente confusa e indistinta onde só alguns vislumbres e algumas conclusões são permitidos. As respostas, quando surgem, parecem todas incompletas. Cleave tem a sensação de não ser autêntico; em outras palavras, acredita que, desde a infância, é um ator dentro e fora dos palcos. Eclipse poderia contar a história de seu colapso e seu consequente estado de autoconhecimento, não fosse o fato de que Cleave, mesmo professando o contrário, não parece alcançar o segundo. A crescente e nunca mitigada confusão do protagonista, no entanto, não parece um erro de Banville. É como se a complexidade de Cleave — simultaneamente aumentada e escorada pela sua percepção distorcida — fosse tão gritante que escapa ao controle.

É justamente a qualidade cambiante e estranha do texto de Banville — a percepção embotada de Alex e a lucidez jamais alcançada — o ponto forte do livro. Alex Cleave não é o mais decidido dos seres humanos, e assim permanece. E suas hesitações, na prosa cuidadosa do autor irlandês, têm uma beleza assustadora.

Fica claro que Eclipse é o trabalho de um autor maduro, no domínio de seu estilo e de sua voz — mas não de seu personagem, o que é um grande feito. Alexander Cleave se volta contra o próprio criador, o que significa que ele, o criador, aparece aqui em sua melhor forma. Mais de uma década depois, nas últimas páginas de Luz antiga, Banville irá escorregar em um sentimentalismo patético e injustificado, algo que, se não for visto como um erro isolado, pode comprometer todo o trabalho anterior. É bom ter em mente que o auge de Alexander Cleave não ocorre no desfecho de Luz antiga, mas justamente em Eclipse. Na ânsia de esgotar todas as possibilidades do personagem, Banville pesou a mão e passou dos limites. A fim de preservar a imagem de um Alex Cleave forte e tridimensional, com dilemas próprios e peculiares, pode não ser uma boa ideia ler o último livro da trilogia.

Pouca coisa acontece de fato em Eclipse. As ações são lentas e nem sempre nítidas, o que apenas aumenta o poder da voz — das experiências desconexas e da angústia palpável, a única coisa palpável em todo o livro — de Alex Cleave.

No final de Eclipse, Alex assiste à apresentação de uma trupe de circo ordinária na companhia da adolescente Lily, a filha do caseiro. Se a familiaridade com o ritual do mágico e dos malabaristas faz com que Cleave veja tudo com ironia e desagrado, Lily, para quem tudo é novidade, observa os artistas com devoção. É na contemplação de um espetáculo popular que parece pesar a indagação maior de Eclipse. O que diferencia os clownescos Vladimir e Estragon de um mero palhaço de circo? Não é apenas o texto de Beckett ou a elegância da montagem, é o que John Banville parece querer dizer. É a entrega com que mimetizamos o que quer que seja.

3 Comentários Eclipse – John Banville

  1. Vanessa

    .Ótima resenha.
    Estou lendo aos poucos, degustando…. e curtindo! Tenso, cômico, reflexivo Muito bom. Como vc escreveu no início … marcado pela imprecisão.
    Bjk
    Vanessa

    Reply

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *