É grande, mas não é Pynchon: Paulo Henriques Britto e a tradução de <i>Atlas de nuvens</i>

É grande, mas não é Pynchon: Paulo Henriques Britto e a tradução de Atlas de nuvens

atlasPublicado originalmente em 2004, Atlas de nuvens, romance mais conhecido do inglês David Mitchell, acaba de chegar ao Brasil pela Companhia das Letras. A tradução, que oferece alguns desafios próprios, coube ao experiente Paulo Henriques Britto.

São esses desafios, visíveis ainda nas primeiras páginas, que levam muitos leitores a sentir uma curiosidade incomum pelo trabalho do tradutor. Boa parte do que torna difícil verter Atlas de nuvens para outro idioma são as várias mudanças de registro presentes na trama. Os personagens, o que se reflete nos diálogos e na escrita em primeira pessoa, pertencem tanto ao passado quanto a um futuro não tão próximo. Alguns manifestam cacoetes particulares. Não são poucas as soluções que exigem do tradutor um trabalho criativo.

Britto, que é responsável pela tradução dos maiores livros de Thomas Pynchon, reconhece os desafios impostos por Atlas de nuvens. Mitchell, porém, como sabem alguns leitores — que se fizeram, com O arco-íris da gravidade ou Mason & Dixon, perguntas muito semelhantes às suscitadas por Atlas de nuvens, todas relacionadas ao ofício do tradutor —, não é um Pynchon. Se é difícil compará-los de outras maneiras, também é difícil tentar aproximar um e outro através do processo de tradução.

A seguir, uma breve conversa com o tradutor.

 

Como é seu método de trabalho (e a sua rotina, de modo geral) como tradutor?

Desde que comecei a atuar na pós-graduação de Departamento de Letras, na PUC-Rio, traduzo relativamente pouco, um livro por ano, no máximo — no passado, eu fazia às vezes três por ano. Atualmente trabalho mais nas férias da universidade. Normalmente faço um rascunho de cada capítulo e em seguida cotejo o texto traduzido com o original; ao final do último capítulo, faço uma revisão completa do texto, sem cotejar linha a linha.

Você é um dos tradutores mais respeitados do Brasil. Como começou a traduzir? Há algum marco ou ruptura na sua trajetória, algum livro ou situação que você considera um ponto de amadurecimento ou virada?

Comecei a traduzir por volta dos 21 anos, antes mesmo de começar meu curso de Letras, para ganhar um pouco mais dinheiro — eu era professor de inglês num curso de idiomas. Não tinha um projeto de vida de me tornar tradutor, e não tinha qualquer formação nessa área (nem em nenhuma outra, aliás). Alguns anos depois, ao me formar, fui contratado para lecionar Tradução Literária no curso de formação de tradutores na PUC, onde até hoje trabalho.

Você é um excelente tradutor de poesia. A tradução dos poemas de Elizabeth Bishop, incluídos na edição bilíngue da Companhia das Letras, é impecável. Seu trabalho como poeta facilita ou atrapalha nesses casos?

Facilita, certamente. O trabalho de escrever e a tarefa de traduzir são atividades muito próximas. Eu diria até que a tradução literária é uma das melhores maneiras de aprender a escrever. A poesia que eu escrevo guarda marcas de alguns poetas que passei anos traduzindo.

Em um artigo, você comenta que “a prática da tradução literária e a teorização […] nem sempre caminham lado a lado”. Então você exemplifica, assinalando a noção de fidelidade que tem gerado algumas discussões. Você assinala que “os tradutores literários de hoje tendem, de modo geral, a levar a meta de fidelidade ao original mais a sério” do que no passado. Os teóricos, ao contrário, têm destacado a autonomia da tradução em relação ao texto original. Nesse ponto, você introduz um conceito que teria partido de Friedrich Schleiermacher, hoje transformado na distinção entre a tradução domesticadora (que aproxima o texto do universo linguístico e cultural que já é familiar ao leitor) da tradução estrangeirizante (que aproxima o texto do universo linguístico e cultural original). Na prática, o que você escolhe? A escolha depende do livro? Como isso se aplica ao trabalho realizado com Atlas de nuvens?

Hoje em dia, o público de literatura dá preferência a traduções menos domesticadoras, e eu mesmo tenho adotado estratégias cada vez mais estrangeirizantes ao longo dos anos. É uma tendência geral, tal como no século XIX e na primeira metade do século XX as traduções tendiam a domesticar. Mas a estrangeirização não implica menos apreço à fidelidade: pelo contrário, é justamente a intenção de proporcionar ao leitor do texto traduzido uma experiência a mais próxima possível à de leitura do original que tende a dar força às opções mais estrangerizantes. Quanto aos teóricos que defendem a autonomia do texto traduzido, são acadêmicos que não exercem a atividade de traduzir literatura com regularidade — ou então, quando o fazem, não seguem suas posições teóricos na prática. É possível, por exemplo, encontrar nos escritos teóricos de Haroldo e Augusto de Campos afirmações que colocam a tradução num plano de igualdade com o original, ou que até valorizam a tradução em detrimento do original. No entanto, as traduções poéticas dos Campos são das mais fiéis que conheço. É claro que quando digo que uma tradução de poesia é fiel não me refiro apenas ao plano semântico. No caso da poesia, fidelidade também diz respeito ao plano da forma, aos elementos de versificação, à rima, à distribuição de consoantes e vogais etc.

Em A tradução literária, você reforça a ideia do pertencimento do texto a um contexto específico do tempo e do espaço, algo que o bom tradutor precisa levar em conta. Atlas de nuvens, um romance contemporâneo, brinca com diferentes contextos. Há muitos tempos, espaços e situações no livro. De que modo isso dificultou ou interferiu no trabalho de tradução?

Foi necessário trabalhar com um pastiche do português do século XIX nas seções passadas nesse tempo, e inventar o que seria o português num futuro distante e depois num futuro muito distante. Esse lado criativo da tradução literária, embora implique dificuldades, é na verdade o que torna esse trabalho mais fascinante.

A tradução de Atlas de nuvens apresenta desafios bastante específicos. No início, por exemplo, a escrita do personagem Adam Ewing, que compõe um diário, é bastante datada. Você poderia listar alguns desses desafios? De todos, qual foi o mais difícil de resolver?

Eu diria que o mais trabalhoso foi manter a coerência de linguagem dentro de cada seção — a linguagem oitocentista e as versões futuras imaginadas do idioma, os cacoetes linguísticos de Timothy Cavendish que o assinalam como um homem mais velho vivendo nos anos 90, os coloquialismos dos anos 60 que marcam as seções de Luisa Rey…

Entre a primeira linha escrita em português e a última revisão, quanto tempo levou a tradução do romance de David Mitchell?

Quinze meses.

Qual a sua visão geral sobre o livro, e quais, na sua opinião, são os maiores méritos da escrita do autor? Você também acha que Atlas de nuvens é um dos romances mais importantes dos últimos tempos?

É um romance engenhoso e criativo. A imaginação do autor é prodigiosa, e ele mantém o interesse do leitor constantemente. Mas eu não diria que é um dos maiores romances dos últimos anos.

Você é tradutor de Thomas Pynchon. A respeito de O arco-íris da gravidade, você comentou que, na época, acreditou estar diante de “todos os tipos de dificuldade que um tradutor literário poderia imaginar”. Depois traduziu Mason & Dixon, ainda mais complexo, e Contra o dia. Com Atlas de nuvens, as dificuldades para o tradutor impostas pela obra de um Pynchon se repetem? 

O texto de David Mitchell é muito menos difícil de traduzir que o de Pynchon. Em seus melhores momentos, como é o caso do Arco-íris, o trabalho de Pynchon com a linguagem é de uma densidade extraordinária, atingindo um nível de complexidade só comparável a Joyce e Guimarães Rosa.

Você esteve em contato com Thomas Pynchon, via fax, durante uma ou mais traduções, não? Como o contato com o autor pode auxiliar o tradutor?

A consulta ao escritor é sempre recomendável. No caso de um autor como Pynchon, é particularmente importante consultá-lo diretamente, porque ele trabalha com um volume assustador de referências diretas e indiretas a livros, filmes, discos, programas de televisão, personagens históricos… Existe na internet um wiki de anotações detalhadas a todos os livros do autor, que resolve a maior parte dos problemas, mas volta e meia me deparo com um trecho sobre o qual o wiki nada diz, provavelmente porque nenhum de seus participantes foi capaz de elucidá-lo.

13 Comentários É grande, mas não é Pynchon: Paulo Henriques Britto e a tradução de Atlas de nuvens

  1. Yago Cavalcanti

    Ótima entrevista!
    É sempre bom ler o que um tradutor como o Paulo fala por aí. É, também, muito bom ler o que os bons críticos escrevem. Resumindo: tô esperando sua resenha com ansiedade!

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  2. Gabriel Pardal

    Só li essa entrevista agora. Excelente! Paulo Hércules Britto, como chamamos aqui, me arrepia pelos desafios que cumpre. Ótimas perguntas, você questionou todas as minhas curiosidades. Baita ideia entrevista-lo para o site. Beijos

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  3. Zeno

    Ótimo! Adoro o trabalho do Paulo Henriques Britto como poeta: “Mínima lírica” e “Formas do nada” são livros excelentes. Isso para não falar das traduções e da teoria…
    Mudando um pouco o foco do assunto: Camila, quais livros do Pynchon você indica?
    Grande abraço!

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    1. Camila von Holdefer

      Sigo lutando bravamente com O arco-íris, Zeno, e gostei demais de Contra o dia. De resto, tenho aqui, não lidos, V., Vício inerente e Mason & Dixon (tudo bem, 30% lido). Quem conhece mesmo Pynchon indica justamente o Contra o dia para começar, e subscrevo. É realmente excelente.

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    1. Camila von Holdefer

      Que difícil, Vinícius. Acho que os dois ocupam mais ou menos o mesmo nível. Eu particularmente prefiro o DFW, mas é uma questão de gosto. Eu começaria pelos ensaios dele, Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo. Depois tentaria o Contra o dia, do Pynchon, e aí o Graça infinita.

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  4. Rômulo Pessanha

    No começo achei que seria uma entrevista qualquer, mas quando falou dos desafios da tradução, algo que não me interesso, me chamou atenção. Fiquei interessado em ler algum dia, se tiver oportunidade, Mitchell e Pychon.

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  5. Roberson Guimarães

    Camila: sempre que passo por aqui me encanto com teu “trabalho”. É de uma riqueza incalculável. Graças e loas a você.

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