Dois livros sobre a cegueira

Dois livros sobre a cegueira

Em um curto espaço de tempo, dois novos livros sobre a cegueira foram lançados no Brasil. Em Sangue no olho, escrito pela chilena Lina Meruane, a deficiência visual se sobrepõe a um relacionamento conflituoso. Em Turismo para cegos, primeiro romance da cearense Tércia Montenegro, um relacionamento conflituoso se sobrepõe à deficiência visual.

ensaio

Sangue no olho é uma autoficção. A protagonista, como a autora, chama-se Lina (no romance, derivado de Lucina). O livro é narrado em primeira pessoa, com Lina se dirigindo muitas vezes a Ignacio, seu namorado, como se escrevesse a ele. Os problemas de visão de Lina, que surgem na infância da personagem, se agravam depois de sua mudança de Santiago para Nova York. Sua visão está comprometida — como o título adianta, seus olhos estão entupidos de sangue. É o início de uma espera pela operação que poderá reverter a cegueira de Lina ou decretar sua permanência. Enquanto aguarda, Lina visita sua família no Chile, onde é cercada de cuidados que a deixam ainda mais ansiosa. Ela sente (com razão) que perde sua autonomia, voltando à condição de dependência de uma criança. Durante os primeiros dias da viagem, Lina precisa decidir se abandona Ignacio, um professor universitário com quem divide um apartamento nos Estados Unidos. Ele também, embora sua reflexão fique apenas subentendida, deve resolver se permanece com uma companheira que poderá ficar irreversivelmente cega.

Turismo para cegos também se concentra na história de um casal, Laila e Pierre. Estudante de artes e professora de pintura, ela renuncia ao curso e aos alunos quando recebe o diagnóstico de retinose pigmentar. Laila ficará cega de forma gradual, sem possibilidade de tratamento. Quando a moça informa a Pierre, então um dos alunos, o motivo pelo qual suas aulas serão suspensas, ele adivinha uma oportunidade — uma namorada que não pudesse enxergá-lo conviria à sua feiura. Laila suspeita da manobra, mas não rejeita a investida. Não há amor na relação: há comodismo, desespero e perversidade. Laila é cruel. Pierre, a seu modo, também. Temendo que Laila o abandone caso fique entediada, Pierre propõe algumas viagens — daí o título do livro. O foco da narrativa, no entanto, não é o deslocamento: é a sucessiva deterioração de um relacionamento fadado ao fracasso.

Tércia Montenegro buscou uma alternativa à narração em terceira pessoa, normalmente onisciente, e ao narrador não confiável em primeira pessoa. A saída foi criar uma nova personagem, alguém que observasse atentamente o casal — no caso, a atendente do pet shop onde Pierre e Laila encontram um cão guia. Pierre conta sua história para a funcionária, que em seguida entrega o relato de segunda mão ao leitor. A fim de se fazer entender, ela emprega a primeira pessoa (detalhando seus encontros com Pierre) e a terceira (recriando as cenas descritas por ele). Com isso, a narradora preenche as brechas deixadas pelas confidências de Pierre com especulações e adivinhações, o que não é sinalizado de forma clara. O recurso, que pode funcionar quando conduzido por um escritor experiente, resulta, aqui, em um meio-termo que não convence.

O exemplo mais conhecido é o de Pastoral americana, livro em que Philip Roth acerta a manobra arriscada por Tércia Montenegro. Transformado em narrador, o fiel Nathan Zuckerman expõe a tragédia que se abateu sobre seu ex-colega de escola, o Sueco Levov. Para todos os efeitos, Zuckerman está inventando boa parte da trama. Ele brinca com as poucas certezas que tem e, no fim das contas, faz tão bem a sua parte que o leitor não tem dúvidas de que é exatamente aquela a história do Sueco que ele deseja comprar. O leitor quer ser ludibriado. Não interessa que Zuckerman esteja fazendo um exercício de imaginação. Ainda que ele frise o caráter hipotético dos acontecimentos, sua condução é perfeita. Quando a narradora de Turismo para cegos tenta adivinhar os pensamentos de Laila — que nem Pierre, então seu ex-namorado, poderia conhecer — o recurso não é apontado. Mais do que uma manobra feita sob medida para enganar o leitor, o método, cru, entrega uma autora sem jogo de cintura.

A narração em terceira pessoa é o ponto fraco da escrita de Tércia Montenegro. A perspectiva escorrega de Pierre para Laila, e então de volta para Pierre, e mais uma vez para Laila, sem a fluidez do verdadeiro estilo indireto livre. De tão truncadas, a própria autora não parece se dar conta das mudanças de ângulo.

Para piorar, as cenas são estáticas. Nas palavras do crítico inglês James Wood, o romancista pode se prender ao estático “porque é muito mais fácil de descrever do que o móvel: o difícil é tirar as pessoas desse amálgama estagnado e movimentá-las numa cena”. É exatamente o que acontece em Turismo para cegos, o que nada tem a ver com a deficiência de Laila. As cenas se passam em Fortaleza, em Paracuru, em Ouro Preto e em algum lugar da Bahia, variação que só acentua a imobilidade extrema dos breves episódios que compõem cada capítulo. A escrita é dura, rígida, com expressões repetidas como cacoetes; quando parece se soltar, como em fluxos de consciência, pode soar confusa ou excessivamente poética, o que não combina com o tom engessado, beirando o clichê, que predominava duas linhas atrás. Um exemplo: “Porém, quando enfim o carro parou na garagem, as palavras pareceram pressionar. O percurso no elevador foi suficiente como trégua de silêncio, e antes de abrir a porta do apartamento Pierre já questionava”.

Lina Meruane, que chegou a ser elogiada pelo compatriota Roberto Bolaño, é uma narradora astuta. Se (por motivos óbvios) é pobre em descrições do entorno, a narrativa compensa em densidade. Construções de frases oblíquas, enviesadas, cheias de alusões e metáforas são próprias do estilo da chilena. Sem deixar de se dirigir a Ignacio a intervalos regulares, Lina mescla sutilmente passado e presente, agora situada em algum ponto impreciso do tempo em que sua doença finalmente recuou ou se estabilizou em um breu total.

“O que te faz viver é o que, em excesso, poderia te matar”, escreve Lina. Ela se refere à cegueira voluntária e seletiva, é claro — quando escolhemos não enxergar o que nos incomoda ou nos machuca —, e que ameaça se tornar total, mas também ao amor que sufoca. As descrições de sua família chilena, exageradas quase ao ponto da caricatura, são ótimas. “Meu pai metido nuns pijamas largos e muito surrados, quase transparentes, com os quais você o veria passear como um nudista pela casa”, escreve, mais uma vez se dirigindo a Ignacio. As descrições que Lina faz da mãe também são imperdíveis.

Em Turismo para cegos, os personagens, pretensamente complexos, não convencem. O problema não é a aridez da vida afetiva do casal, mas a deficiência da própria escrita, pobre em força e em poder de convencimento. Num dado momento, Pierre acredita que Laila “sonegava sua autenticidade”, oferecendo a ele “um simulacro”. É a impressão deixada pelos três personagens principais. Tampouco é um defeito do recurso escolhido: Zuckerman, ao contrário da narradora de Turismo para cegos, cria um universo detalhado para o Sueco.

No final do livro, Laila é chamada de “contraditória”. É uma saída fácil para uma personagem pretensamente marcante que se revela não só insignificante como pouco convincente. Quando criança, com pena dos peixes, Laila não suportava as pescarias do pai; adulta, passa um dia inteiro sem alimentar o cão-guia, que trata como se fosse “um veículo ou uma máquina”. Depois de frisar que jamais nadaria “num lugar habitado por seres”, Laila entra em um rio e cruza com uma cobra — que ironicamente não vê, nem pressente. A quebra daquilo que ela mesma havia decretado não é assinalada em momento algum. Não parece truque: parece descuido.

Tércia Montenegro dedica o livro “aos que sabem contemplar”. Por um lado, se refere a um enredo que foge completamente à lógica do manipulador versus o manipulado, um dos pontos positivos do romance. Por outro, sugere que há mais ali do que o leitor é capaz de perceber inicialmente. É uma leitura possível, mas que, graças aos defeitos da narração que oscila entre a primeira e a terceira pessoa, acaba não convencendo.

No fim das contas, as relações de causa e efeito em Turismo para cegos são pobres ou inexistentes. Buscando uma maneira de inserir outro personagem, um amigo de infância da moça cega, a narradora escreve que “à custa de lembrar-se do passado, Laila atraiu a materialização dele”. Há outros ganchos que não funcionam, resultando em passagens sem sentido. Numa cena da viagem de Laila e Pierre a Ouro Preto, alguns mendigos que caminham em frente a uma igreja servem como gatilho para uma discussão sobre o “politicamente correto” e os modos de tratar os deficientes. É sua única função.

Certos trechos são repetitivos, insistentes. Certas metáforas também soam ruins: sons de sinos pareciam os de “um bicho mítico”, e Laila teme se transformar em “um enxame de abelhas afogado”. Mas há boas passagens em Turismo para cegos. A diferença entre a visão e a audição, mesmo que não se concorde com os argumentos, é bem apresentada: “Com a cegueira, perde-se o deslumbramento. A capacidade de se maravilhar depende da visão. Há quem diga que é possível ter experiências de encanto com a música, mas é algo diferente. A beleza melódica vem em sucessões, nunca repentina como o que se pode ver”. É preciso lembrar que o livro é narrado por uma mulher que não é cega, mas que tenta (não por empatia, contudo) se colocar no lugar de Laila. Isso distorce, para o bem e para o mal, algumas de suas conclusões sobre a privação da visão.

Lina e Laila aprendem a estar cegas (e lidam com sua condição, temporária ou não) de formas distintas. A primeira oscila entre a melancolia e o desespero. Como narra em primeira pessoa, Lina consegue transmitir a angústia e a sensação de desabar num abismo próprias da perda da visão. Assim, Sangue no olho pode se revelar um tanto claustrofóbico. Já Laila é cruel, e sua crueldade é acentuada na medida em que seu estado piora. Para se sentir viva, a personagem de Turismo para cegos age de forma impetuosa. As viagens valem mais pelo prazer de se lançar no desconhecido do que, através de outros sentidos, pelo prazer de apreendê-lo.

Lina é acadêmica e escritora; ouve diversos livros gravados e teme não conseguir voltar a escrever. Laila, numa boa sacada da autora, é ligada às artes visuais, de modo que sua cegueira parece ainda mais aflitiva. A dimensão da perda é bem marcada no livro — a repentina ausência do estímulo visual, aquilo que para a personagem era o mais importante, é infinitamente dolorosa. O tato e o paladar não parecem tão essenciais para Laila, embora o som das palavras possa se revelar sedutor em dado momento da narrativa. Mas é no jogo com o corpo (na propriocepção) que ela se encontra.

Tudo posto na balança, Sangue no olho é um livro coeso: seu arco narrativo é pequeno, mas consistente. Lina Meruane sabe criar e manter a tensão, que só cai durante a viagem ao Chile, alongada, talvez, mais do que o necessário.

A escrita de Lina tem um humor corrosivo, uma veia cáustica que casa bem com o enredo e com a protagonista. Em comparação, há pouca leveza em Turismo para cegos. A narradora de Tércia Montenegro não tem a presença de espírito exigida pelo humor — uma ausência que não é suprida por nenhum outro personagem. Também o sexo é diferente nos dois livros. Sangue no olho tem certo erotismo à la Bataille, incômodo e brutal, cheio de alusões e insinuações, que é tanto poderoso quanto de mau gosto. Em Turismo para cegos, por outro lado, até o sexo parece insosso.

O final de Sangue no olho é um soco no estômago — não de todo inesperado, aliás. No entanto, é possível partilhar da incredulidade do personagem que está diretamente implicado, junto com Lina, na ação do desfecho. Turismo para cegos também termina de forma perversa, ainda que a conclusão criativa não consiga salvar um livro tão comprometido. O desconforto causado por Sangue no olho é armado aos poucos, culminando justamente nas sugestões macabras da última página. Turismo para cegos, todavia, começa mal e não deslancha.

1 Comentário Dois livros sobre a cegueira

  1. Laísa

    Oi, Camila! O site foi indicação de um estimado professor, e após uma leitura aleatória de algum dos textos da primeira página, resolvi seguir o índice e me vi surpresa com o nome da Tércia. Assim como ela, sou de Fortaleza; li no ensino médio um de seus livros de contos, fui aluna de um de seus professores… Lendo a sua resenha, devo confessar que fiquei muito surpresa. Não li o romance em questão; li “O Vendedor de Judas” e “O Resto de Teu Corpo no Aquário”, ambos pequenas coleções de contos. Tércia sempre foi um “nome” na minha mente — ela publicou o primeiro livro ainda no ensino médio, fato que foi repetido pelo meu professor inúmeras vezes, visto que tal livro (O Vendedor de Judas) foi muito bem aceito. Talvez como alguém que sempre foi muito interessada pelo mundo da escrita, eu tinha Tércia como uma referência (mesmo que atrelada às opiniões do meu antigo professor), e lendo sua resenha, as coisas entraram em perspectiva. Vou procurar “Turismo para Cegos” assim que der. Obrigada!

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