Do valor da insignificância

1.

“Agora, a insignificância me aparece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência.Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui, neste parte, diante de nós, olhe, meu amigo, ela está presente com toda a sua evidência, com toda a sua inocência, com toda a sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação perfeita… e completamente inútil, as crianças rindo… sem saber por quê, não é lindo? Respire, D’Ardelo, meu amigo, respire essa insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave do bom humor…”

13750_gg2.

Ramon, um dos personagens centrais de A festa da insignificância, recorre à argumentação acima para forçar seu interlocutor, D’Ardelo, a encarar a falta de sentido da existência. O Jardim de Luxemburgo, numa repetição de um encontro fortuito ocorrido nas primeiras páginas do livro, serve de cenário para o diálogo. Quando conclui seu discurso, Ramon nota que o “elogio da insignificância não agradou àquele homem tão ligado à seriedade das grandes verdades”.

3.

Curtos, os capítulos de A festa da insignificância mostram cenas fugazes e cotidianas, formando um mosaico curioso cuja representação dificilmente pode ser tomada em sua totalidade. São quatro protagonistas de idades distintas — Ramon, Charles, Alain e Calibã — com dramas próprios e imprecisos. No centro da narrativa fragmentada, conectando todos os outros eventos, há uma festa promovida por um quinto personagem — o próprio D’Ardelo. Nesse fluxo de acontecimentos misteriosos e difíceis de prever, num ritmo bem marcado, nem apressado e nem lento, Milan Kundera insere temas diversos e aparentemente incompatíveis: anjos, teatro de marionetes, stalinismo, umbigos, uma doença incurável, a figura materna.

3.1.

No livro, o fundamento da insignificância parece indissociável da ideia (e do fato concreto) da mortalidade. Muita coisa parece banal ou sem sentido quando analisada do ponto de vista da finitude.

4.

Não é possível ler Milan Kundera sem questionar os limites do romance. O exercício me interessa, por uma ou outra razão, e assim gasto algum tempo tentando decifrar o arranjo interno (sem lógica aparente) de A festa da insignificância, e também seus limites externos. Quando, no final do livro, Ramon observa que o “elogio da insignificância não agradou àquele homem tão ligado à seriedade das grandes verdades“, a intenção é destacar o tema que a narrativa abandona e retoma de forma inconstante. O tema, é claro, é a própria “seriedade das grandes verdades”. Não ousando chegar perto demais, sob risco de contaminação, Kundera debocha do dogmatismo como se o enxergasse de cima — ressaltando igualmente seu perigo e sua insignificância. A crítica só é viável e bem-sucedida porque o narrador foi imbuído de certa postura filosófica — um artifício sempre presente nos livros do autor. É essa mesma característica que modifica a chave de interpretação de algumas cenas: por mais que tenham valor em si mesmas, certas passagens, descritas com aparente displicência, também têm um sentido maior.

4.1.

Nessa forma de narrar escolhida por Kundera, literatura e filosofia se misturam. Penso num ensaio de Jeanne Marie Gagnebin inserido no excelente Lembrar escrever esquecer (Editora 34). O texto, intitulado “As formas literárias da filosofia”, procura encontrar semelhanças e diferenças entre “discursos literários e filosóficos”. O caso é que a autora não está convencida dessas diferenças. Ressaltá-las “pressuporia ter, a priori, definições claras daquilo que é literatura e daquilo que é filosofia para poder, justamente, distingui-las com clareza e determinação”. É possível separar uma e outra? O próprio Milan Kundera, em seus livros e em uma entrevista esclarecedora, aponta uma solução. (Número 8.)

5. 

Em A festa da insignificância, Kundera insiste em assinalar a superficialidade das relações contemporâneas. Isso não é novidade — não é incomum, em qualquer época, que um grupo de pessoas denuncie a pobreza espiritual que toma conta da juventude. Daí que causa certo espanto que o autor tenha recorrido a um clichê apocalíptico desse nível. Kundera, todavia, não se deixa intimidar: “Se um temor existe na mente humana há séculos, deve haver algo por trás dele”. A frase pode ser lida em um livro de entrevistas concebido e organizado por Philip Roth, Entre nós – Um escritor e seus colegas falam de trabalho (Companhia das Letras). As duas conversas entre Roth e Kundera transcritas para o livro aconteceram em 1980 — uma em Londres, outra em Connecticut.

5.1.

O trecho:

Roth: Você acha que a destruição do mundo vai acontecer em breve?
Kundera: Depende do que você quer dizer com “em breve”.
Roth: Amanhã ou depois de amanhã.
Kundera: A sensação de que o mundo está caminhando rumo à destruição a passos largos é muito antiga.
Roth: Quer dizer que não temos motivo para preocupação.
Kundera: Pelo contrário. Se um temor existe na mente humana há séculos, deve haver algo por trás dele.

5.1.1.

É óbvio que tomei certas liberdades com o termo “destruição”.

6.

Roth dedicou O escritor fantasma (livro que trata basicamente da escrita, onde apresenta Nathan Zuckerman e E.I. Lonoff) a Kundera. Este também foi incorporado ao enredo de A marca humana, publicado alguns anos mais tarde. A aparente admiração mútua, somada à astúcia de Roth para conduzir uma entrevista, geram boas respostas. Uma, sobre os limites do romance, é certeira: “Quando ouço pessoas argumentando a sério que o romance esgotou suas possibilidades, o que sinto é exatamente o contrário: no decorrer da história, o romance deixou de lado muitas possibilidades”. E continua: “A forma romanesca contém uma liberdade enorme. É um erro encarar determinada estrutura estereotipada como a essência inviolável do romance”.

6.1.

E então:

Roth: Mas deve haver alguma coisa que faz com que o romance seja romance e que limita essa liberdade.
Kundera: Um romance é uma extensão longa de prosa sintética fundada no jogo de personagens inventados. Esses são os únicos limites. Por “sintético” entendo o desejo do romancista de apreender seu tema de todos os ângulos, do modo mais completo possível. Ensaio irônico, narrativa romanesca, fragmento autobiográfico, fato histórico, rasgo de fantasia — o poder sintético do romance é capaz de combinar tudo num todo unificado, tal como as vozes da música polifônica. A unidade do livro não precisa se fundar no enredo, mas pode ser dada pelo tema. (…)

6.1.1.

A resposta de Milan Kundera dialoga com o que Jeanne Marie Gagnebin argumenta em seu ensaio:

“(…) o grande perigo dessas análises, a saber: tornar os filósofos especialistas na invenção de ‘conteúdos teóricos’, mais ou menos incompreensíveis, e os escritores, especialistas em ‘formas linguísticas, mais ou menos rebuscadas. Assim, só caberia aos escritores e aos poetas traduzir de maneira mais agradável aquilo que os filósofos já teriam pensado de maneira complicada ou ‘abstrata’, como se diz às vezes. No limite, isso significa que os filósofos sabem pensar, mas não conseguem comunicar seus pensamentos, que não sabem nem falar nem escrever bem; e que os escritores sabem falar bem, sabem se expressar, mas não têm nenhum pensamento próprio consistente.”

6.1.1.1.

E Milan Kundera tem pensamentos consistentes. Se não tem, emprega bem o de terceiros, filósofos inclusos, e os transporta para o centro do romance — onde os próprios personagens desaparecem diante daquilo que dizem.

6.1.2.

Jeanne Marie Gagnebin:

“A imagem da literatura como sendo uma linguagem bela, mas vazia, que precisa de ‘recheio filosófico’ para não se reduzir a uma brincadeira tão graciosa quanto fútil, tem seu oposto simétrico numa representação da filosofia como ‘pura’ atividade intelectual, séria, profunda, complicada e incompreensível para o comum dos mortais (que, aliás, passa muito bem sem ela, o que torna questionável sua reiterada importância).”

6.1.3.

A grande beleza e coragem que há em Kundera misturar um e outro, rejeitando os limites implicitamente impostos (o trecho também é de Jeanne Marie Gagnebin):

“Ora, a afirmação implícita da existência de uma dimensão ‘meramente metafórica’ ou ‘meramente retórica’ repousa numa concepção acrítica, dogmática e mesmo trivial das relações entre pensamento e linguagem: como se o pensamento se elaborasse a si mesmo numa altivez soberana sem o tatear na temporalidade das palavras que, no entanto, o constitui. Dito de maneira mais simples: a concepção da literatura como algo belo, mas ornamental, supérfluo, e a concepção da filosofia como algo verdadeiro, mas difícil, incompreensível e profundo, esses dois clichês complementares perpetuam, no mais das vezes, privilégios estabelecidos e territórios de poder no interior de uma partilha, social e historicamente constituída, entre vários tipos de saber. Assim, os escritores e poetas poderiam se dedicar ao sucesso e ao entretenimento, enquanto os filósofos continuariam aureolados pela busca desinteressada da verdade.”

7.

Tanto Roth como Kundera conhecem a importância do humor, e sabem que isso não diminui o valor de seus livros. “Estão todos em busca do bom humor” é o nome de uma das partes de A festa da insignificância.

7.1.

Roth: O riso sempre foi importante para você. Os seus livros provocam o riso através do humor e da ironia. Quando os seus personagens se dão mal, é porque eles esbarram num mundo que perdeu o senso de humor.
Kundera: Aprendi o valor do humor durante o tempo do terror stalinista. Eu tinha vinte anos na época. Sempre consegui reconhecer quem não era stalinista, uma pessoa de quem eu não precisava ter medo, pelo modo como ela sorria. O senso de humor era um sinal de reconhecimento em que se podia confiar. Desde então, tenho pavor de um mundo que está perdendo o senso de humor.

7.1.1.

E Stálin é um personagem picaresco em A festa da insignificância — escolha que está diretamente ligada à trajetória pessoal de Kundera, cujo país esteve sob o domínio do ditador. Ainda numa das entrevistas concedidas a Philip Roth, o autor fala de sua Tchecoslováquia: “Em apenas meio século, ela viveu uma série de experiências: democracia, fascismo, revolução, o terror stalinista e também a desintegração do stalinismo, as ocupações alemã e russa, a deportação em massa e a morte do Ocidente em seu próprio território.”

7.1.1.1.

Sim, Stálin é um personagem do livro. O objetivo é justamente ressaltar a insignificância que também marcou, como marca a todos, o grande líder. O narrador cita episódios engraçados da vida particular de Stálin encontrados na autobiografia de Nikita Khruchóv, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. Roth, ainda em Entre nós, é certeiro: “O que é característico da sua prosa é o confronto constante entre privado e público. Mas não no sentido de que histórias privadas ocorram tendo como pano de fundo o cenário político, ou de que eventos políticos tenham impacto sobre vidas privadas. O que você faz é demonstrar constantemente que os eventos políticos são governados pelas mesmas leis que regem os acontecimentos privados, de modo que a sua prosa é uma espécie de psicanálise da política.”

7.1.1.1.1.

Não se pode falar em Kundera sem falar em totalitarismo. Trecho de Entre nós:

“O totalitarismo não é apenas o inferno mas também o sonho do paraíso — o sonho antiquíssimo de um mundo onde todo mundo vive em harmonia, todos unidos por uma única vontade e uma única fé, sem que ninguém guarde segredos. (…) Se o totalitarismo não explorasse esses arquétipos, que vivem no mais profundo de cada um de nós e têm raízes em toda as religiões, ele jamais conseguiria atrair tanta gente, principalmente nas primeiras fases de sua existência. Quando o sonho do paraíso começa a se transformar em realidade, porém, aqui e ali surgem pessoas que se transformam em obstáculos, e por isso os governantes do paraíso são obrigados a construir um pequeno gulag ao lado do Éden. Com o passar do tempo esse gulag vai ficando cada vez maior e mais perfeito, enquanto o paraíso ao lado vai ficando menor e mais pobre.”

8.

Segundo Kundera (Entre nós), “o homem usa a mesma manifestação fisiológica — o riso — para exprimir duas atitudes metafísicas diferentes”. Em síntese, “quando o riso é levado ao extremo ele também denota um apocalipse duplo: o riso entusiasmado dos anjos fanáticos, que têm tanta certeza do significado do mundo deles que estão dispostos a enforcar todo mundo que não compartilhe esse júbilo. E o outro riso, vindo do lado oposto, que proclama que tudo perdeu o sentido (…)”. Ele completa dizendo que a “vida humana é limitada por esses dois abismos: o fanatismo de um lado, o ceticismo absoluto do outro.”

8.1.

Parece óbvio, mas vale sublinhar. A festa da insignificância está do lado do ceticismo absoluto. De acordo com o narrador do livro, um personagem é atraído pelo nonsense “justamente porque não tinha nenhum sentido”.

8.1.1.

Kundera em Entre nós:

“Há uma certa linha divisória imaginária além da qual as coisas parecem desprovidas de sentido, ridículas. A pessoa pergunta a si própria: não é um absurdo eu me levantar de manhã? Ir para o trabalho? Lutar pelo que quer que seja? Fazer parte de uma nação só porque eu nasci nela? O homem vive muito próximo dessa fronteira, e por isso não é difícil para ele passar para o outro lado. A fronteira existe em todos os lugares, em todas as áreas da vida humana, até mesmo na mais profunda e mais biológica de todas: a sexualidade. E justamente porque ela é a região mais profunda da vida, a questão que se coloca para a sexualidade é a mais profunda de todas.”

8.1.1.1.

Nada a ver com Kundera e nem com o livro em questão, mas: Sabbath.

9.

Uma passagem de A festa da insignificância (o grifo é meu).

“Nós compreendemos há muito tempo que não era mais possível mudar este mundo, nem remodelá-lo, nem impedir sua infeliz trajetória para a frente. Havia uma única resistência possível: não levá-lo a sério. Mas constato que nossas gozações perderam o poder. Você se obriga a (…) se divertir. Em vão. Sente apenas cansaço e tédio.”

9.2.

O bom humor pode ser também uma manifestação de frivolidade. Pelo menos é o que o narrador de A festa da insignificância deixa claro.

10.

“Mas como encontrar o bom humor?”, pergunta um personagem do livro. Um deles cita Hegel (!): “Somente das alturas do verdadeiro bom humor é que você pode observar abaixo de si a eterna tolice dos homens e rir dela”. E Vila-Matas por acaso não chegou lá? E Philip Roth? E Beckett?

10.1.

Hegel? Mas um filósofo alemão pode ser engraçado? Hegel, o sujeitinho dos trocadilhos, pode ser engraçado?

10.2

De todo modo, a visão de Milan Kundera sobre o humor (demonstrada tanto em Entre nós quanto em A festa da insignificância) tem relação com o trecho de um ensaio surpreendente de Virginia Woolf:

“O humor é das alturas; só as mentes raras são capazes de escalar o pico de onde a totalidade da vida pode ser contemplada como num panorama; mas a comédia, que anda pelas estradas, reflete o trivial e acidental — os erros desculpáveis e as peculiaridades de todos os que passam por seu reluzente espelhinho. Mais do que qualquer outra coisa, o riso preserva nosso senso de proporção; lembra-nos sempre que somos apenas humanos, que não há homem que seja um herói completo ou inteiramente um vilão. Tão logo nos esquecemos de rir, vemos coisas fora de proporção e perdemos nosso senso de realidade.”

(Note que Woolf diferencia “humor” e “comédia”.)

11.

Para amarrar tudo o que foi compilado até então (trecho de Entre nós):

“Eu invento histórias, ponho uma em confronto com a outra, e dessa maneira faço perguntas. A burrice das pessoas vem de elas terem uma resposta para tudo. A sabedoria do romance vem de ele ter uma pergunta para tudo. Quando dom Quixote saiu pelo mundo afora, esse mundo se transformou num mistério diante de seus olhos. É esse o legado que o primeiro romance europeu deixou para toda a história subsequente do romance. O romancista ensina o leitor a compreender o mundo como uma pergunta. Nessa atitude há sabedoria e tolerância. Num mundo baseado em certezas sacrossantas, o romance morre. O mundo totalitário — seja ele baseado em Marx, no Islã ou em qualquer outra coisa — é um mundo de respostas e não de perguntas. Nesse mundo o romance não tem lugar. Seja como for, creio que em todo o mundo as pessoas hoje em dia preferem julgar e não compreender, responder e não perguntar, de modo que a voz do romance é difícil de ouvir em meio a toda a tagarelice insensata das certezas humanas.”

12. 

Na entrevista concedida a Roth, Kundera destaca que enxergar em seus livros somente uma alegoria é um equívoco: “Nada me é mais alheio do que a alegoria, uma história inventada pelo autor com o fim de ilustrar uma tese. Os eventos — sejam realistas, sejam imaginários — devem ser significativos por si próprios, e o leitor deve ser seduzido, de modo ingênuo, pelo poder e a poesia desses eventos.” 

13. 

Outro bom ponto de A festa da insignificância está na frase de La Franck, uma personalidade famosa que, no entanto, não tem a ocupação revelada. De forma nada inédita, ela denuncia a “solidão cercada de solidões”. A própria estrutura do romance parece comprometida com a frase.

13.1.

A citação tem relação com o que diz o narrador: “Até o diálogo de verdadeiros amantes, se as datas de nascimento deles são muito distantes, não passa do entrelaçamento de dois monólogos que guardam para o outro uma grande parte de coisas incompreensíveis.”

14.

Kundera quer saber de enxergar os personagens insignificantes, ou a faceta insignificante de personagens grandiosos. Assim, põe ao lado de Stálin o peculiar Kalinin — em homenagem a quem a antiga Königsberg, cidade de Kant, passou a se chamar Kaliningrado. O saudoso alemão (cuja rotina regular levava os moradores do lugar a ajustar sem erro seus relógios) também é citado no livro.

14.1.

A mediocridade também é encarnada em Quaquelique, um personagem cujo nome já serve para defini-lo. Quaquelique só diz o óbvio — mas sua banalidade, antes de depor contra ele, é como um passe que autoriza sua entrada em diversas situações.

14.2.

O narrador ainda cita “a glória do poeta que, graças à sua humilde veneração pela poesia, havia jurado jamais escrever um único verso”. Mas não escrever também é uma covardia. E é aí que Kundera atira a pergunta: não há covardia na completa e absoluta insignificância?

14.3.

Outras manifestações da insignificância: a) Um câncer imaginário que parece glamoroso justamente porque não contém em si o sofrimento real da doença. b) As máscaras oferecidas a Ramon durante um passeio ao Jardim de Luxemburgo — de Berlioz, Hugo e Dumas. Você pode usar a máscara, mas não pode incorporar o gênio.

15.

Uma passagem do livro:

“Já vim três vezes. De modo que, na verdade, não venho aqui para ver Chagall, mas para constatar que a cada semana as filas estão maiores, portanto o planeta está cada vez mais populoso. Olhe para eles! Você acha que, de uma hora para outra, começaram a gostar de Chagall? Estão dispostos a ir a qualquer lugar, a fazer qualquer coisa, apenas para matar o tempo com o qual não sabem o que fazer. Não conhecem nada, portanto se deixam conduzir. São soberbamente conduzíveis.” Bem. Conduzíveis como os stalinistas? (Notem que o fato de ser o russo Chagall tampouco é gratuito.)

16.

A ideia de manada-coletivo-turba é uma obsessão do autor. No Jardim de Luxemburgo, todos “olham para a esquerda e para a direita, esperando um sinal esclarecedor: como interpretar o comportamento do caçador? deveria ser considerado condenável ou divertido? deveriam eles vaiar ou aplaudir?”

17.

O narrador é um professor, isso está claro. Um dos personagens, quando ganha um livro (as Memórias de Nikita Khruchóv) diz que este foi dado pelo professor. Depois, o professor-narrador diz que presenteou os amigos com a referida autobiografia “por simpatia”, e “a fim de que todos se divertissem”.

17.1.

Quando falam de Hegel, um dos personagens menciona “nosso professor que nos inventou”. Quem é o professor que os inventou? Só pode ser Kundera.

17.2

O narrador engraçadinho também se permite ironizar o leitor. Numa passagem: “Não quero esconder que esse enigma continua a preocupá-lo, como vocês também se preocupam durante meses, às vezes anos, com os mesmos problemas (certamente muito menos nulos do que este que obceca Alain).”

18.

O umbiguismo, numa passagem do livro:

“Mas não esqueça que a moda do umbigo inaugurou o novo milênio! Como se alguém, nessa data simbólica, houvesse levantado uma cortina que, durante séculos, tivesse nos impedido de ver o essencial: que a individualidade é uma ilusão.”

18.1.

“O amor, outrora, era a festa do individual, do inimitável, a glória do que é único, daquilo que não suporta nenhuma repetição. Mas o umbigo não só não se revolta contra a repetição, ele é um apelo às repetições! E nós vamos viver, em nosso milênio, sob o signo do umbigo. Sob esse signo, nós somos todos um como o outro, soldados do sexo, com o mesmo olhar fixo não na mulher amada, mas no mesmo pequeno buraco no meio do ventre que representa o único sentido, o único objetivo, o único futuro de todo desejo erótico.”

18.1.1.

Onde está o umbigo deste livro?

18.2.

A individualidade, agora, seria uma ilusão. Seria a propagação da mediocridade.

“Claro, a uniformidade reina em toda parte. Mas, neste parque [Jardim de Luxemburgo], ela dispõe de uma escolha maior de uniformes. Assim você pode guardar a ilusão da sua individualidade”.

19.

Voltando ao ensaio de Jeanne Marie Gagnebin, e pulando o trecho em que ela menciona as transformações históricas dos discursos, há uma frase excelente: “Entre a palavra que enuncia e a realidade que ela quer apreender, sempre haverá um abismo que ela pode, sim, atravessar (Blanchot), mas nunca abolir.” E não é isso que Milan Kundera procura mostrar?

20.

São pouco mais de cem páginas difíceis de unir. O todo, como já foi dito, teima em escapar à percepção — e aí o exercício de interpretação continua muito depois de encerrada a leitura. Nem todos gostaram. Muitos leitores, talvez ansiando por algo parecido com A insustentável leveza do ser, acreditam que A festa da insignificância seja um tantinho mais impenetrável do que eles são capazes de tolerar. Essa resposta, por si só, já prova que Milan Kundera acertou o alvo de uma maneira cômica, denunciando a mediocridade duplamente  primeiro no enredo, e aí na reação do público e de uma parte da crítica a esse enredo. Dizer que um livro é “pretensioso”, e que ele poderia ser mais palatável, que seu sentido poderia se entregar de forma mais fácil etc., bem, isso não serve. O problema não é de Kundera — o problema deste livro é a preguiça de alguns leitores.

Existe um heroísmo mais prosaico e mais humano?

4 Comentários Do valor da insignificância

  1. Graça

    Olá, Camila!
    Já estava com saudades.
    Parabéns pela profundidade na resenha, como sempre show.
    Na “fila”, amei.
    Beijos

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  2. Graça

    Oi, Camila, acabei de ler.
    Destaco: “até o diálogo de verdadeiros amantes, se as datas de nascimento deles são muito distantes, não passa do entrelaçamento de dois monólogos…….”
    “Usar a máscara, sem incorporar o gênio”, estupendo!
    “E nós vamos viver, em nosso milênio, sob o signo do umbigo”, a realidade atual.
    “filas maiores para ver Chagall” acontecendo a todo instante. O livro é ótimo!
    Camila, o livro é para ler, ter, guardar e reler sempre.
    Obrigada , sua crítica literária está perfeita!
    Beijos

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  3. Jusberto Cardoso Filho

    Olá Camila tudo bem… Estou plugado em Ouro Preto, já li a insustentável leveza do ser, que virou filme… tem uma turma da pesada aí no sul… Daniela Kern, Sandra Verenose, Luiza Geisler, Carol Bensimon, agora descobri o site… Vamos à leitura…. Tou cansado dos twiter da vida e nerds… Parabéns…

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