Derrida – Benoît Peeters

Derrida – Benoît Peeters

“Toda leitura que procura compreender não é senão um passo num caminho que nunca tem fim. Qualquer um que envereda por esse caminho sabe que nunca chegará ‘ao termo’ de seu texto; ele acusa esse golpe. Quando um texto poético o tocou a ponto de ele terminar por ‘entrar’ nele e se reconhecer nele, isso não supõe nem a concordância nem a autoconfirmação. Entregamo-nos para nos encontrar. Não me julgo tão distante de Derrida, quando aponto que nunca sabemos antecipadamente o que seremos quando nos encontrarmos.”
(Hans-Georg Gadamer) 

Derrida é um ponto de interrogação excepcional em uma lista particular (e relativamente longa) de pontos de interrogação. Digo que é, com o verbo no presente, mesmo depois de ter lido a biografia de mais de setecentas páginas escrita pelo francês Benoît Peeters. Natural: o trabalho e as ideias de Derrida estão fora do alcance de uma pesquisa que pretende mesclar suas trajetórias profissional e pessoal. Não é fácil, de qualquer forma, enxergar com nitidez tudo aquilo que o filósofo representou e representa. A controvérsia permanece, e talvez seja isso o que se sobressai no livro de Peeters — o enorme conflito, jamais assentado, em torno da figura e das propostas de Derrida. É possível que a faculdade de letras tenha alguma ressaca de seu pensamento, exaustivamente repisado na década de oitenta. A de filosofia, com raras exceções, nunca o abraçou por completo. Derrida está fora de moda (da forma como um pensamento entra e sai de moda), a Gramatologia acumula poeira em certas bibliotecas e muita gente acredita que já se discutiu tudo o que há para ser discutido sobre a desconstrução.

Assumo a hesitação, ou Derrida não seria esse ponto de interrogação que volta e meia me assombra com vontade. Talvez eu deva confessar que sentia alguma simpatia pela figura do filósofo muito antes de poder situar seu pensamento em qualquer contexto — o que me levou a dar umas voltas aleatórias, indiretas e normalmente improdutivas em torno de algumas das suas ideias.

As objeções em relação a Derrida não diferem muito do que Emmanuel Martineau, seu ex-aluno, escreveu em 1981. De acordo com ele, o professor teria uma predileção por se entregar a “acrobacias verbais ‘astuciosas’, desprovidas de qualquer seriedade e sentido filosófico”. Seus textos seriam “pura literatura” e nada teriam a ver “com a filosofia em geral, nem com a história da filosofia em particular”. Sua produção pessoal constituiria “um dossiê tão tedioso quanto superabundante”. As queixas de sempre: um pensador hermético, um herege, um profanador etc.

Isso não impediu que a desconstrução fizesse um enorme sucesso, em especial (e graças, em parte, a Paul de Man) nos Estados Unidos. Um tanto duvidosa, essa glória atingiu níveis surreais. Peeters escreve que “algumas revistas de decoração convidavam seus leitores a ‘desconstruir o conceito de jardim’, enquanto um super-herói de quadrinhos enfrentava o ‘Doutor desconstructo’; quanto à revista Crew, gabava o ‘paletó Derrida’ e o ‘terno desconstrutor’. Em pleno Monicagate, o próprio Bill Clinton fez uso da desconstrução para se defender”. Derrida não fica satisfeito com essa popularização do seu trabalho (tampouco aprova o filme que Woody Allen lançaria em 1997, Desconstruindo Harry).

Gostem ou não, esteja o pensamento derridiano em voga ou não, a curiosidade em torno de sua figura parece bem viva. É bem possível que haja uma boa dose de malícia nesse interesse, uma vez que muitos dos que bradam contra a desconstrução não escondem a vontade de conhecer a trajetória (e as polêmicas) de seu criador. No prefácio, o escritor, ensaísta e professor universitário Evando Nascimento, que também assina a revisão técnica, faz uma análise certeira: “Certamente deve haver um limite além do qual a vida de um filósofo ou escritor deixa de servir ao interesse público. Contudo, se tal limite nunca foi nitidamente demarcado, hoje então, com toda a cultura das celebridades, a exposição da vida íntima virou mercadoria comum e nada mais choca nem espanta”. Todos querem se aproximar dessa figura controversa. Evando continua: “A meu ver, Peteers encontrou o justo equilíbrio entre os dois âmbitos por que passa sua pesquisa: o da atividade filosófica de Derrida, com sua respectiva persona de homem público, e o de sua vida privada”.

De fato, o trabalho de Peteers, em rigor e harmonia, é notável. O biógrafo consultou “deveres escolares, cadernos pessoais, manuscritos de livros, aulas e seminários inéditos, transcrições de palestras e mesas-redondas, artigos de imprensa e, naturalmente, a correspondência”. Peeters diz ter optado “menos por uma biografia derridiana do que por uma biografia de Derrida”.

“Durante três anos, Benoît Peteers mergulhou na vida e obra de Derrida, lendo e relendo seus textos fundamentais, a fim de dar uma fundamentação teórica à investigação, evitando assim meramente narrar os fatos de uma existência sem dúvida excepcional”, escreve Evando no prefácio. A pesquisa foi iniciada em 2007 e publicada em 2010, quando Derrida completaria 80 anos — aqui, Derrida – Biografia saiu há poucos meses pela Civilização Brasileira. Trois ans avec Derrida (Três anos com Derrida), um diário da escrita do livro mencionado no prefácio e na introdução, não foi incluído na edição brasileira.

Judeu nascido na Argélia, Derrida enfrentou as adversidades da segregação e da guerra da independência; além disso, conheceu bem a sensação de se sentir um estrangeiro na França e em seu próprio país. Descobre cedo a paixão pela literatura, mas acaba optando pela filosofia. Já em Paris, demora a ingressar na École Normale Supérieure.

Peeters define Derrida como um homem “excessivo e íntegro (…) tanto nos entusiasmos como nos ressentimentos”. Derrida podia ser afetuoso ou áspero. “A gentileza, a disponibilidade e sua escuta amiga às vezes sofrem guinadas bruscas e cóleras intensas. Basta uma discordância ou indelicadeza para se cair em desgraça e passar para o lado dos inimigos”, escreve Peeters.

Seu temperamento é difícil, mas nem sempre Derrida é o único culpado por um rompimento. É notável (questionável?) a fidelidade demonstrada em relação a Paul de Man e a Louis Althusser quando, em diferentes momentos, tiveram seus nomes envolvidos em polêmicas. A de Paul de Man, póstuma, acontece quando vêm a tona uma boa quantidade de artigos antissemitas que ele teria escrito quando jovem. Já Louis Althusser, que tinha frequentes crises e passou boa parte da vida internado em clínicas de repouso, assassinou a mulher durante um surto psicótico. Ciente das falhas dos dois amigos, Derrida não os abandona. Preserva a memória de Paul de Man como pode, ainda que isso lhe custe algumas inimizades; contrata um advogado para defender Althusser e oferece sua solidariedade em visitas regulares ao amigo.

A biografia tangencia o maio de 1968, no qual Derrida se envolveu menos do que alguns poderiam esperar. Peeters não se esquiva das polêmicas: aborda o rompimento de Derrida com Philippe Sollers, Julia Kristeva e a equipe da revista Tel Quel; narra, em linhas gerais, a briga com Michel Foucault; menciona a troca de socos e empurrões com Bernard-Henri Lévy no anfiteatro da Sorbonne, durante o que ficou conhecido como “estados gerais da filosofia”; conta em detalhes a sua prisão em Praga, quando drogas foram supostamente encontradas em sua mala (o que, é claro, não passou de uma armação do governo local).

Demonstrando grande respeito (e comparando a situação à de Heidegger e Hanna Arendt), Benoît Peeters menciona o longo romance de Derrida e Sylviane Agacinski. Os dois tiveram um filho na década de 1980, ainda que Jacques, que nunca se separou da mulher, Marguerite, não acompanhe o crescimento do garoto e deixe de encontrar a amante por ocasião de sua gravidez. A situação parece ainda mais delicada quando se sabe que Sylviane, que supostamente guarda uma enorme quantidades de cartas de Derrida, se recusou a colaborar com Benoît Peeters. Marguerite, ao contrário, facilitou o acesso do biógrafo à vida íntima do marido.

De qualquer forma, o grande foco do autor de Derrida – Biografia parece ser o desenvolvimento do pensamento derridiano — e todas as barreiras que este enfrentou ao longo das décadas, especialmente na França. As barreiras são conhecidas: com uma ou outra alteração, são as mesmas que levantou seu ex-aluno — citadas alguns parágrafos acima. Os entraves e represálias vão surgindo na medida em que o trabalho de Derrida ganha corpo e consistência — o que começa a acontecer no período de suas discussões em torno de Husserl. Cartas, trechos de seminários e livros e pedaços de entrevistas e são usados para explicar, tanto quanto possível em uma biografia, o jogo paralelo de Derrida e seus detratores.

É possível dizer que a maior penetração da desconstrução se deu nos departamentos de literatura comparada nos Estados Unidos. Nem na América, no entanto, Derrida escapou dos críticos. Um bom exemplo da desconfiança que orbitava o pensamento derridiano é este artigo amargo publicado na The New York Times Magazine: “Desde o fim dos anos 1970, um grupo, apelidado por alguns de ‘máfia hermenêutica’, viu a sua influência insinuar-se cada vez mais nos estudos literários de Yale. […] Lá, vários críticos mais em voga adoram a maneira de pensar de Derrida, buscando disseminar seu nome e seu estilo ao mesmo tempo que os deles próprios”.

As mudanças que ocorrem a partir de 1980 estão bem marcadas: a dissolução da Escola Freudiana de Paris por Lacan (outra figura por quem Derrida não morria de amores, e vice-versa); a morte de Roland Barthes; a morte de Sartre, cujo cortejo fúnebre foi acompanhado por mais de 50 mil pessoas; a paulatina substituição do marxismo dominante por um liberalismo cego. É nesse ponto que o trabalho de Derrida começa a se modificar e a se tornar mais politizado — ou, em outras palavras, é nesse ponto que a sua posição política se torna mais clara. A transformação, que já vinha se anunciando há algum tempo, parece inevitável.

É marcante (e premonitório) o trecho que cita as palavras que um dos examinadores da banca da École Normale Supérieure profere depois da apresentação de Derrida: “Enfim, esse texto é muito simples; o senhor não fez senão complicá-lo e carregá-lo e torná-lo pesado ao introduzir algo de seu”. Era apenas o começo.

Há outros trechos cômicos. 1) Peeters descobriu que a mãe de Derrida se recusou a interromper uma partida de pôquer quando entrou em trabalho de parto. 2) O autor relata as dificuldades que Derrida, que adorava papéis e não jogava nada fora, enfrenta quando decide utilizar um computador. 3) Há a clássica história envolvendo a guerra que Ruth Barcan Marcus move contra a escola de Yale (que abraçou com força o pensamento derridiano). Irada, ela escreve a Laurent Fabius, ministro da Indústria e da Pesquisa, para protestar contra a nomeação do autor da Gramatologia para um dos maiores cargos do Colégio Internacional de Filosofia. É aqui que entra a conhecida frase do ministro, que, junto com uma cópia da missiva, envia a Derrida a recomendação de “nunca descer uma escada à frente dessa dama”. 4) Peeters conta que a mãe de Derrida, quando ouve o filho falar do sucesso de alguns de seus trabalhos, fica horrorizada ao ver que ele escreveu différance com a. 5) Derrida é apresentado ao jazzman Ornette Coleman, e este o convida para tomar a palavra durante um concerto que dará no festival de jazz de La Villette. Derrida faz (é claro) uma intervenção derridiana, longa e não muito clara, é vaiado e fica sem entender o que aconteceu.

Destaque para o trecho em que Jacques Taminiaux, fenomenólogo belga, faz uma visita a Heidegger após um seminário deste último. Eis a definição de saia justa: Heidegger pede que Taminiaux explique rapidamente o trabalho de Derrida. Difícil não rir ao imaginar Taminiaux gaguejar e suar frio diante da tarefa. “Eu não podia falar em ‘desconstrução’ sem cair em uma armadilha, pois o uso por parte dele, anterior e diferente, da palavra Destruktion, me impedia. Quanto à différance com a, tente, sem pedantismo, quando o seu pensamento é romano, traduzir isso em alemão e, como se não bastasse, perante o pensador da diferença ontológica. Uma vez que, na véspera, ele tratara de sua relação com Husserl via as Pesquisas lógicas, investi de cabeça baixa num possível resumo de A voz e o fenômeno. […] Precipitei-me num balizamento bem esquemático das questões detectadas na distinção husserliana da expressão e do indício. Logo compreendi pela reação de Heidegger que eu errara o alvo: Ach so! Sehr interessant! Ele reagiu, apressando-se a acrescentar: ‘Mas no que escrevo, creio que há coisas bem próximas do que o senhor acaba de me dizer.’ Como a sra. Heidegger entrava para pôr fim à conversa, mal consegui balbuciar: ‘Sim, sim, sem dúvida, ele lhe deve muito, mas ainda assim é completamente diferente'”.

É claro que nem todas as passagens são leves e levam ao riso fácil. Como maior parte da pesquisa de Benoît Peeters está atrelada ao pensamento derridiano — as primeiras publicações, as tentativas de ingressar na École Normale Supérieure, as aulas, os colóquios e os seminários —, não se pode falar em leitura simples. De qualquer forma, a biografia contribui para aumentar o interesse e a discussão em torno de uma das personalidades mais geniais do século XXÉ claro que Derrida continua controverso — talvez o trabalho de Peeters tenha aumentado ainda mais a controvérsia. Há muita coisa esperando para ser discutida.

Não é o propósito de uma biografia situar, classificar e explicar o trabalho do biografado. Se fosse o caso, Benoît Peeters teria uma tarefa ingrata pela frente. Nada impede, no entanto, que ele tangencie o assunto. Quatro trechos, sobre o trabalho de Derrida em geral e a desconstrução em particular, me parecem significativos:

1)

Nas palavras de Benoît Peeters, que cita uma entrevista que Derrida concedeu ao próprio Evando Nascimento (publicada em agosto de 2004 na F. de São Paulo):

“Para Jacques Derrida, a desconstrução permanece acima de tudo uma maneira de pensar a filosofia. Não se trata de uma doutrina, mas de uma maneira de analisar a genealogia da história da filosofia, ‘os seus conceitos, os seus pressupostos e a sua axiomática, e de fazê-lo não apenas de maneira teórica mas igualmente interrogando as suas instituições, as suas práticas sociais e políticas, em suma a cultura política do Ocidente'”.

2)

Jean Lacroix, numa coluna no Le Monde, depois da publicação da Gramatologia:

“A filosofia está em crise. Essa é igualmente uma renovação. Na França, uma plêiade de pensadores (relativamente) jovens a transformaram: Foucault, Althusser, Deleuze etc. A esses nomes, convém doravante acrescentar o de Jacques Derrida. Conhecido por um pequeno grupo de normalianos entusiastas, ele acaba de se revelar a um público mais vasto ao publicar três livros em seis meses, em especial a Gramatologia. Pela atenção dispensada ao problema da linguagem, parece aproximar-se dos ‘estruturalistas’. Faz-lhes justiça e reconhece que a reflexão universal recebe um formidável impulso de uma inquietude com relação à linguagem, que não pode ser senão uma inquietude da linguagem e na linguagem. Contudo, afasta-se deles na medida em que esse iconoclasta, longe de se inspirar num modelo científico, permanece às voltas com o demônio filosófico. […] O objetivo de Derrida não é a destruição, mas a ‘desconstrução’ da metafísica. Os conceitos fundadores da filosofia encerram o logos, a razão, numa espécie de ‘fechamento’. (…) É preciso romper esse ‘fechamento’, intentando um arrombamento”.

3)

O próprio Derrida, numa carta:

“Quando escolhi essa palavra, ou quando ela se impôs a mim, […] eu não pensava que lhe atribuiriam papel tão central no discurso que me interessava na época. Entre outras coisas, eu desejava traduzir e adequar à minha proposta os termos heideggerianos Destruktion e Abbau. Naquele contexto, ambos significavam uma operação que incide sobre a estrutura ou a arquitetura tradicional dos conceitos fundadores da ontologia ou da metafísica ocidental. Em francês, porém, o termo ‘destruction’ implicava muito visivelmente uma aniquilação, uma redução negativa mais próxima da ‘demolição’ nietzschiana, talvez, do que da interpretação heideggeriana ou do tipo de leitura que eu propunha. Por conseguinte, descartei-o. Lembro-me de ter pesquisado se a palavra ‘déconstruction’ era de fato francesa. Encontrei-a no Littré.”

4)

Roland Barthes:

“Sou de uma geração diferente da de Derrida e provavelmente da de seus leitores; a obra de Derrida me pegou então no curso da vida, no curso do trabalho; o projeto semiológico já estava bem delineado na minha cabeça e parcialmente executado, mas coria o risco de permanecer confinado, encantado na fantasia da cientificidade: Derrida foi daqueles que me ajudaram a compreender o que estava em jogo (do ponto de vista filosófico, ideológico) em meu próprio trabalho: ele desequilibrou a estrutura, abriu o signo: para nós, ele é aquele que soltou a ponta da corrente. Suas intervenções literárias (a propósito de Artaud, de Mallarmé, de Bataille) foram decisivas; quero dizer com isso: irreversíveis. Devemos-lhe palavras novas, palavras dinâmicas (aspecto em que sua escritora é violenta, poética) e uma espécie de deterioração incessante de nosso conforto intelectual (esse e estado em que nos reconfortamos com o que pensamos.) Há finalmente em seu trabalho alguma coisa de calado que é fascinante: sua solidão advém do que ele vai dizer.”

3 Comentários Derrida – Benoît Peeters

  1. v.

    ok, agora vou passar o resto do dia pesquisando coisas sobre derrida e seu pensamento, você me deixou curioso e ando numa fase em que desejo conhecer os grandes pensadores, já que me afundei em ficções e medicina.
    ótimo texto. bem instigante.
    abraço.

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  2. Graça

    Olá, Camila.
    Estupenda resenha!
    Adoro ponto de interrogação, sempre aprendo muito com este tipo de leitura.
    Obrigada pela sugestão.
    Beijos
    Graça

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