Deixa comigo – Mario Levrero

Deixa comigo – Mario Levrero

Mario Levrero entrevistou Mario Levrero. O resultado do experimento pode ser visto nas últimas páginas de Deixa comigo, novela que integra a coleção “Otra Língua” — organizada por Joca Reiners Terron e publicada pela Rocco, a coleção resgata, em um momento extremamente favorável, alguns nomes da literatura hispano-americana.

“Os romances policiais não lhe decepcionam?” é uma das questões que Levrero faz a si mesmo. Responde do seguinte modo: “O problema insolúvel do romance policial é que deve ser necessariamente um romance ‘fechado’; os enigmas propostos devem ficar perfeitamente resolvidos, porque senão o romance fracassa ou dá raiva, um sentimento de estafa, ou ambas as coisas. E um romance ‘fechado’ deixa uma sensação de vazio, pois não tem a menor capacidade de mobilizar o leitor. Angustia, e então tira a angústia que foi criada; não deixa uma angústia livre que possa ser aproveitada para modificar a vida — como sucede com a verdadeira literatura”.

Não há um crime e não há detetives legítimos no enredo de Deixa comigo. Há um mistério que aguarda por uma solução, e é possível chegar até ela de vários modos. Seguindo o gancho dado pela resposta do autor, em Deixa comigo, como na verdadeira literatura, a angústia não vai embora.

Um editor uruguaio deseja seguir o rastro de um autor misterioso. Juan Pérez, o que pode ou não ser um pseudônimo, submeteu os originais de um livro extraordinariamente promissor à sua avaliação. O único problema é que não existe um endereço através do qual entrar em contato com o sujeito — isso, é claro, se ele for realmente um homem. A fim de encontrá-lo  é evidente há vários interesses em jogo , o editor envia um escritor em crise, o narrador sem nome de Deixa comigo, no encalço de Pérez. A cidade fictícia e desolada no interior do Uruguai onde a investigação deve começar se chama Penurias; suas vizinhas são Miserias e Desgracias.

Não existe muito mais que possa ser dito sobre o romance de Levrero sem estragar as surpresas que se seguem. O narrador esbarra continuamente em pistas que podem ou não se revelar falsas, e cada uma delas traz a reboque um personagem caricato — ou que parece caricato ao leitor a partir do seu relato. Divorciado e infeliz, o protagonista chega a se apaixonar por Juana, uma prostituta de Penurias, algo que desvia sua atenção da busca por Pérez e faz com que ela seja depositada em seus próprios dilemas. Levrero, ao final de Deixa comigo, é fiel àquilo que declarou sobre os romances de mistério: não se deve resolver tudo; não se deve entregar todas as chaves para o leitor. Apenas o essencial é (muito bem) amarrado. As minúsculas pontas soltas estão, intencional e malignamente, visíveis.

A narrativa acelerada, a abordagem cômica e os capítulos curtos fazem de Deixa comigo uma novela leve e despretensiosa, que não reivindica para si mais do que aquilo que efetivamente oferece. A própria definição do romance fictício de Juan Pérez tem, justamente por remeter a um trabalho grandioso e sério, um tom irônico — havia no romance de Pérez, segundo o narrador, “uma visão profunda do mundo e do ser humano, e (…) piedade pelo ser humano, reafirmação do indivíduo e exaltação do espírito, tudo isso expressado com rigor, convicção e ternura ao mesmo tempo”./p>

Um perfeito exemplo do bom humor contido na novela é a bizarra a descrição do andar de uma senhora “no mínimo octogenária”, que se sacudia “com um ritmo parecido com o de ‘Garota de Ipanema'”. Há várias cenas deliciosamente inusitadas, e não são poucas as que fazem referência a ícones da cultura de massa — algo como Os Três Patetas, Pica-Pau ou o índio Patoruzú (a quem o narrador compara a uma funcionária do hotel em que está hospedado). Um agradecimento de Mario Levrero também evidencia o fato de que ele não se leva assim tão a sério: “A existência desta novelinha foi possível graças ao generoso e paciente apoio de minha esposa Alicia, a quem o leitor não deve julgar demasiado severamente por isso”.

É possível pescar várias boas sacadas. Sem espelho e apressado, o narrador se sai com essa: “me penteei de memória”. O sexo com Juana, segundo ele, foi “uma mescla de Hitchcock, Debussy, Joyce e Velásquez”. Já o romance de Juan Pérez é qualificado como “melhor que García Márquez”, e quem escuta a comparação se limita a assoviar. Há os conselhos delirantes de um velho estrangeiro que, a despeito de não fazerem o menor sentido, chamam a atenção por conter algo de (na falta de definição melhor) curioso. Os símbolos e as advertências dispostos ao longo da investigação e os encontros e desencontros nos quais o protagonista é lançado têm muito a dizer sobre a capacidade humana de percepção — sobre aquilo que uma mente escolhe, conscientemente ou não, absorver ou ignorar.

Mario Levrero nasceu em 1940 em Montevidéu, e morreu na mesma cidade em 2004. Foi um artista multifacetado: escritor, fotógrafo, livreiro, chefe de redação de revista, autor de textos humorístico e de histórias em quadrinhos. Flertou com vários interesses, o que pode ser comprovado — na evidente inquietação, na imaginação e na curiosidade aparentes — na ótima autoentrevista disposta no final da novela. É ela que explica um tanto da visão particular (e nada dogmática) de Levrero sobre a literatura. É nítida a sua obsessão pelo inconsciente, algo que o autor chega a transferir para o personagem da novela. Grande parte do processo criativo de Levrero parece baseada em sonhos e/ou imagens e lembranças que se manifestam de forma abrupta — seu grande prazer, o que também é uma necessidade, é seguir a pista desses lampejos. Por aqui já se vê um eco de Deixa comigo.

Joca Terron, no posfácio, escreve que “Levrero praticou boa parte dessa literatura descomprometida com a seriedade (e seriamente comprometida com o entretenimento)”. Sem fórmulas mirabolantes ou floreios comprometedores, o uruguaio cria uma novela que chama a atenção pela aparente simplicidade e pelas boas tiradas. O organizador da coleção “Otra língua” também justifica o porquê deste parecer um bom momento para resgatar o autor uruguaio e seus pares: 1. Roberto Bolaño está definitivamente em alta, o que pode levar o leitor a querer desencavar outros escritores hispano-americanos e 2. Seguindo o mesmo raciocínio, ele lembra que Vargas Llosa levou, em 2010, o Nobel de Literatura. Os outros títulos da coleção incluem Asco, de Horacio Castellanos Moya, Como me tornei freira, de César Aira, Os Lemmings e outros, de Fabian Casas e Águas-fortes cariocas, de Roberto Arlt.

— Quero lhe mostrar algo — disse, no entanto não abriu a blusa como eu temia. Em troca, abriu a gaveta de uma preciosa secretaire e tirou uma pasta, que me passou. Em seu interior encontrei papéis datilografados. Um bom pacote. Poemas. Dela.
— Nossa editora não publica poesia, senhora — eu disse, me adiantando. Não consegui desiludi-la.
— Não importa — disse. — Sua opinião me interessa. Nessa cidade… — Fez um gesto, uma palmada. Apagava Penurias do mapa.
— Não sou bom pra estas coisas, senhora…
— María — corrigiu.
— Não sou pra estas coisas, María. A poesia…
— Não importa, não importa. — Estava ansiosa, impaciente. — Você é um homem sensível. Me dê sua opinião sincera.
Acabei me sentindo na obrigação de ler. O azul que não murcha do céu. Muita elevação; algo sempre se elevava e se elevava. A imensidão. A vastidão. E acima, e acima, e acima irei. Sem dúvida a dona não devia chegar com facilidade ao orgasmo.
— Está bem — disse, afinal. Conseguira saltar algumas centenas de versos. — Revelam uma fina sensibilidade, uma elevada espiritualidade. E — acrescentei malignamente —, tem também erotismo: um erotismo sublimado, quer dizer, entretanto…
Caiu rendida aos meus pés. Olhou para mim com verdadeira devoção, e voltou a abrir a gavetinha e tirou uma pasta, por sorte mais leve.
— Isto — disse solenemente — não poderia ser mostrado a mais ninguém.
Era a poesia erótica propriamente dita; ou melhor, uma pornografia suja mal encoberta detrás de metáforas grosseiras. Em determinado momento da leitura me senti como se tivesse sobre mim um robusto baleeiro russo destilando suor e cheiro de peixe. Arquejos e suspiros, salpicaduras de substâncias ignóbeis, mais suor e corpos oleosos. Percebi a mim mesmo lendo esse lixo, meu corpo envolto em toalhas, na casa desconhecida de uma cidade perdida no mapa, e me perguntei uma vez mais o que estava fazendo ali.

5 Comentários Deixa comigo – Mario Levrero

  1. Pingback: O herói discreto, Mario Vargas Llosa | Livros abertos

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *