Canadá – Richard Ford

“Para começar, vou contar o assalto que meus pais cometeram. Em seguida, os assassinatos que aconteceram mais tarde.” As duas primeiras frases de Canadá, sétimo romance do norte-americano Richard Ford, antecipam os dois principais eventos do livro. Mais do que isso, denunciam o distanciamento e a aparente indiferença que marcam a condução do relato.

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Não é difícil traçar alguns paralelos entre Canadá e Fargo, filme de Joel e Ethan Coen no qual um crime cometido por um sujeito comum de Dakota do Norte — mesmo estado onde fica o banco que os pais do narrador de Ford decidem assaltar — acaba em tragédia. Em ambos os casos, uma família de classe média é desmantelada. Os personagens não demonstram especial inclinação para a transgressão, e a motivação do roubo (Canadá) e do sequestro (Fargo) é sobretudo financeira. A diferença é que Canadá é, a despeito dos assassinatos mencionados na abertura do romance, menos sangrento do que Fargo — o que não quer dizer que, aqui e ali, a própria estética dos Coen não apareça transposta para a literatura, como na frase “a insignificante leveza daquela estranha cabeleira postiça ensopada de sangue”.

Não se sabe o que acontece com o filho do casal em Fargo. O foco de Canadá, por outro lado, é justamente a vida de Dell — cujos pais planejaram e levaram a cabo o assalto ao banco — depois do crime. Longe de tornar o livro desinteressante ou ingênuo, Richard Ford transforma Dell em um bom espectador do drama familiar.

A despeito dos acontecimentos trágicos que se desenrolam em sequência, Dell não é um dos tantos adolescentes com pena de si mesmos que entopem a literatura contemporânea. Não que haja algo intrinsecamente errado com a autopiedade — o problema é que os choramingos parecem, de uns tempos para cá, vinculados a uma espécie de arquétipo.

Nossos pais eram as últimas pessoas no mundo capazes de roubar um banco. Eles não eram criaturas estranhas, não eram criminosos óbvios. Ninguém teria pensado que estavam destinados a acabar do jeito que acabaram. Eram apenas pessoas comuns — embora, é claro, esse tipo de reflexão tenha se tornado nulo e vazio no momento em que eles realmente roubaram um banco.Canadá

Longe de soar inverossímil, a determinação de Dell soa como uma particularidade do personagem — favorecida, além do mais, pelas circunstâncias que é forçado a encarar. Isso fica claro quando Dell diz, por exemplo, que “culpar seus pais pelas dificuldades da sua vida não leva a lugar algum”. Seria uma frase banal em qualquer outro contexto, mas não neste.

Há certa serenidade na maneira como Dell disseca os fatos que mudariam sua vida — e aqui foi acertada a opção de Richard Ford por um narrador distante cinquenta anos no tempo. O que se sobressai é a tentativa do personagem de encontrar uma conexão de causa e efeito em eventos que se sucederam na virada dos anos 1950 para 1960, fator que é, em parte, responsável pelo aparente distanciamento do relato. Dell, agora aposentado, tenta recriar seu estado de espírito na época, ainda que haja óbvios limites para o exercício. O impacto emocional da tragédia, embora esteja subentendido, não é explorado com o ardor que seria esperado se os eventos se desenrolassem no presente da narrativa.

O maior trunfo da narração de Ford é permitir que Dell mostre uma evolução sutil, mesmo que toda a história seja contada em retrospecto. Há uma diferença notável entre o menino de quinze anos assustado com a delinquência dos pais e o menino de quinze anos que emerge da saga no país que faz fronteira com os Estados Unidos. E Dell, a despeito de alguns lapsos de memória, é um narrador confiável.

Dell e a irmã gêmea, Berner — personagem secundária com uma bela participação nas páginas finais —, ficam desconcertados quando descobrem que os pais, tão pacatos, roubaram um banco. De figuras familiares, eles se transformam em uma incógnita aos olhos dos filhos. Muita coisa, aliás, adquire um aspecto diferente. “Você ouve uma palavra o tempo todo, e então, de repente, ela começa a ter um sentido totalmente diverso”, aponta Dell. No caso, a palavra criminoso. “Ela sempre queria significar uma coisa. Bonnie e Clyde. Al Capone. Os Rosembergs. Agora só me fazia pensar nos meus pais.”

Do início ao fim do romance, Richard Ford se mostra interessado em resolver o enigma da fuga do padrão. Como alguém relativamente normal, sem coerção e sem conexões importantes com criminosos, planeja e executa um assalto? É “difícil sustentar simultaneamente a ideia de uma vida normal e o modo como eles acabaram”, diz Dell sobre os pais. Sem isso, porém, “muito pouco […] pode ser compreendido”. A análise posterior do narrador aponta para uma combinação de fatores, de uma dívida que poderia sair do controle a um casamento frustrante. Mesmo as diferenças de temperamento do casal parecem pesar. Ele, Bev, um sujeito não muito brilhante que pilotou um bombardeiro na guerra. Ela, Neeva, uma professora e aspirante a poeta.

O pai já havia feito alguns trambiques no tempo da Força Aérea, tão ou mais esdrúxulos que o próprio assalto ao banco. E aqui não se pode desprezar o que há de picaresco nas descrições de um sujeito esquisito, já acomodado a uma vida de classe média, se preparando, depois de traçar um plano absurdo, para assaltar um banco em uma cidade minúscula de um estado vizinho. O ridículo — do qual o autor está plenamente consciente, se beneficiando dele tanto quanto é possível sem cair numa comédia de erros — tem uma força enorme em Canadá. Há algo patético, quase engraçado, que se insinua em boa parte das cenas.

Richard Ford também parece consciente do anacronismo em Canadá. “Nada do que me aconteceu — cruzar clandestinamente a fronteira — seria possível hoje em dia, depois da destruição das Torres Gêmeas”, escreve o narrador. Ele tem razão, mas omite outros fatores. A trama inteira, se se desenrolasse depois da década de 1960, veria sua verossimilhança ir por água abaixo. Um sujeito armado entra num banco de uma cidade interiorana onde não há câmeras, detector de metais e alarmes. Um garoto, agora sob a tutela do Estado, consegue não só sair dos Estados Unidos tranquilamente como permanecer incógnito no Canadá. Dois assassinatos se beneficiam das limitações da ciência forense. Essa impossibilidade é responsável, como não poderia deixar de ser, por boa parte da força do livro.

Num romance como Canadá — com sujeitos rústicos, cenas de caça, um punhado de crimes e fugas insensatas — é estranho que uma questão como o gênero seja digna de nota. Ela surge, no entanto, com base no fato de Dell ter uma contraparte do sexo feminino. “Berner, é claro, era uma garota. Mas a maior parte da nossa vida, nós nos tratamos como se fôssemos a mesma coisa, porque éramos gêmeos. E essa mesma coisa não era masculina ou feminina, mas algo intermediário que incluía nós dois”, diz o narrador. Quando chega ao Canadá, Dell conhece Charley, um peão com modos rudes que gosta de usar maquiagem. Há outros exemplos da mistura dos gêneros, inclusive nos próprios pais do narrador. Antes da negação da dualidade, Canadá apresenta a androginia no que há de mais fundamental, onde características próprias de cada sexo não só existem como são mescladas nos personagens.

No fim das contas, Dell acredita que aquilo que se enxerga — literalmente — revela o que é preciso saber. Parte das diferenças perceptíveis entre seu pai e sua mãe, como a altura e os modos, poderiam explicar sua incapacidade de viver em harmonia. Quando, depois de passar um período dramático no Canadá, Dell se torna professor, explica aos alunos que no momento em que “[articulam] para si mesmos o que veem, talvez o mundo comece a fazer sentido e possam aprender a aceitá-lo”. Para ele, “não adianta perseguir com demasiado afinco significados ocultos ou opostos — mesmo nos livros”.  Não há, se dermos crédito a Dell, muita coisa abaixo da superfície em Canadá, o que só torna o romance mais impactante.

Aqui e ali, o discurso de Dell deixa escapar que a vida é simples e pode ser organizada em relações de causa e efeito. Ele mesmo, contudo, não acredita nisso. Apesar de criar explicações e conexões à exaustão, Dell não abandona a ideia da falta de sentido.

Até então, aos setenta e um anos, Richard Ford produziu uma obra consistente. Já foi comparado a William Faulkner, e o paralelo não parece deslocado. A exemplo de um punhado de autores, é incompreensível que o norte-americano seja pouco lido e comentado por aqui. Que Canadá, em boa tradução de Mauro Pinheiro, ajude a conduzi-lo ao seu devido lugar.

2 Comentários Canadá – Richard Ford

  1. Sonia

    Oi, Camila,
    Ótima resenha, como sempre.
    Lamentável, sim, que Richard Ford seja tão pouco conhecido por aqui.
    Me interessei muito por Canadá, ainda mais sabendo por você que é impossível não lembrar de Fargo.

    Gosto muito do cinema que irmãos Coen fazem.
    Todo aquele non sense inteligente e desconcertante, me encantam.

    Canadá entrou na fila.
    Vou compartilhar sua resenha no Twitter.
    Obrigada.
    Um beijo, querida.
    Sonia Meneghetti

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  2. José Roque Guimarães

    Acabei de ler. Maravilha. Pena que acabou. Já andei por aquelas pradarias, perto da região onde se passa a trama. Por isso e por muto mais o livro me marcou. Obrigado, Camila pela indicação e bela resenha.

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